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4. O MOVIMENTO FEMINISTA E A MARCHA DAS VADIAS

4.3. O PATRIARCADO E AS SINGULARIDADES DE SEU USO

Durante meu trabalho de campo, ouvi diversas vezes a palavra patriarcado aliada a um discurso de busca ao combate deste. “É necessário combater o

patriarcado”, presenciei mais de uma vez esta frase no discurso dos sujeitos

pesquisados. Observei que seria essencial, para a compreensão do feminismo contemporâneo (MV), analisar o conceito de patriarcado, através das singularidades em que os sujeitos desta pesquisa o significam e como se portam diante do seu reconhecimento

A discussão sobre patriarcado é um dos pilares do movimento feminista. Não estou interessada aqui em reconstituir historicamente todos os seus desdobramentos, mas elencar algumas questões que, nas vozes das jovens que pesquisei, são de enorme importância na construção de suas práticas e identidades feministas.

O uso corrente do conceito de patriarcado para exemplificar, combater ou explanar as várias desigualdades, injustiças e violações sofridas pelas mulheres era uma prática social que destacavam essas moças na sua ação política. Combater este sistema de opressão era a ordem do dia do Movimento. Perguntei-me no decorrer da observação participante porque esse tema acabava sempre, se não em conflito, pelo menos em uma atmosfera de não concordância, gerando um ambiente tenso.Ao consultar meu caderno de campo, encontrei a seguinte anotação: “Muito tensa a reunião de hoje. Saí pensando: se o problema era o patriarcado, de que maneira meus sujeitos pretendiam derrotá-lo?”. A resposta grifada era simples: “desconstruindo machismos e não nos calando a este sistema opressor”. Refletindo sobre minha anotação, tive que admitir, um tanto constrangida, que considerava

ingênuo e frágil o pensamento das minhas interlocutoras em relação as suas concepções e propostas de destruição do patriarcado. Percebi que isso se dava pelo fato de elas não debaterem, de maneira construtiva, questões teóricas em torno dele, posto que o criticavam enquanto uma realidade objetiva, algo dado, explicativo das subalternidades femininas. Tal lacuna me saltou aos olhos, pois muitas delas eram oriundas de cursos superiores das humanidades e tal conceito estaria presente em disciplinas acadêmicas.

Assim, me perguntava: por que insistem em defini-lo de maneira tão simples? Observei que o ponto central era a falta de um debate teórico, aliado as diferenças de concepções. E essas diferenças estavam ligadas diretamente às distintas correntes feministas a que cada uma delas propunha-se defender. Uma parte das moças do coletivo e apoiadoras da marcha se diziam (e eram reconhecidas) como simpatizantes do feminismo radical. Para elas, o patriarcado deveria ser combatido pela “raiz”. Assim, todo e qualquer espaço onde um homem aparecer como opressor ou se colocando como protagonista deveria ser combatido, sobretudo, na organização da marcha, da qual homens não poderiam participar. Outras, entretanto, não concordavam com esta medida. Certa tarde, uma moça me segredou na saída de uma reunião que se considerava uma feminista moderada. Para ela, seria importante não uma proposição de combate, mas de inserção feminina. Assim, as mulheres deveriam tomar os postos e nichos masculinos, neste sistema impossível de destruir. Já as feministas Intersec’s (as adeptas do Feminismo Interseccional), por algumas consideradas moderadas, pensavam que a marcha e o Coletivo deveriam ser abertos a todos e todas que fossem apoiares da luta contra as múltiplas opressões femininas. Estas disputas, que no início da pesquisa me pareceriam secundárias, foram tomando proporções muito agressivas, apimentadas pelo debate correlato nos grupos feministas no ciberespaço.

Debates semelhantes a esses, sobre o uso do conceito de patriarcado, encontramos nas análises de teóricas e pesquisadoras. Delphy (2009) observa que é essencial pensar historicamente o conceito de patriarcado e coloca que, antes deste ser pensado no sentido social, ele tinha um sentido religioso. Para os gregos antigos, pater (pai) e arke (origem e comando) eram palavras que combinadas formavam o Patriarcado, mas pater não significava o pai no sentido contemporâneo, implicava a todo o homem que não dependia do outro, possuindo uma autoridade de origem, não tendo uma noção de consanguinidade. Já no século XIX, antes das

acusações de autores socialistas, usava-se o adjetivo “patriarcal” como um elogio, como “virtudes patriarcais”, relacionadas com simplicidade, tradições e vida no campo. Assim, a palavra denotava pequenas comunidades rurais, onde a vida comunitária era conduzida pela afluência de ancestrais, ou seja, dos chefes de família. Diante disto, o sentido social e opressor de patriarcado somente foi surgir, e ser fortemente contestado, com o feminismo radical, mais precisamente nos anos 70. Dentro desta lógica, Delphy (1981) coloca que as feministas intituladas radicais defendem a ideia de que a opressão feminina se deve à existência do sistema patriarcal, juntamente com seus favorecidos, os homens (como uma categoria social), enquanto para as feministas socialistas a opressão feminina se deve ao sistema capitalista, sendo os capitalistas os favorecidos de tal sistema.

O patriarcado é rapidamente adotado pelo conjunto dos movimentos feministas militantes nos anos 70 como o termo que designa o conjunto do sistema a ser combatido. Em relação a seus quase sinônimos “dominação Masculina” e “opressão das mulheres”, ele apresenta duas características: por um lado, designa, no espírito daquelas que o utilizam, um sistema e não relações individuais ou um estado de espírito; por outro lado, em sua argumentação, as feministas opuseram “patriarcado” a “capitalismo”- o primeiro é diferente do segundo, um não se reduz ao outro. Isso se reveste de uma grande importância política num momento de reemergência do feminismo, em que as militantes são confrontadas a homens e mulheres de organizações políticas para quem a subordinação das mulheres não é mais que uma das conseqüências do capitalismo (DELPHY, 2009, p.31).

Mary G. Castro e Lena Lavinas (1992), ao partirem do conceito de

patriarcalismo de Max Weber, ressaltam duas formas distintas de seu emprego: uma

adjetiva e a outra substantiva. A primeira remeteria a uma forma de dominação em que a lei é representada pela figura masculina, o senhor, cujo domínio está localizado nas formas sociais menos complexas, como nas comunidades domésticas, tendo sua legitimidade assegurada pela tradição. Seguindo a ideia de tipo ideal weberiana, este conceito de patriarcado passa a ter sentido a-histórico, tendo em vista sua capacidade de ser utilizado em diferentes momentos históricos, fazendo alusão ao poder exercido por um patriarca em qualquer comunidade familiar. Já a forma substantiva, que não é a pensada por Weber, utiliza o termo patriarcado como uma organização, um sistema e/ou uma sociedade patriarcal, acreditando ser este um aparelho de opressão e dominação sobre as mulheres, situado geográfica e historicamente. Dessa maneira, as autoras acreditam que o uso

do termo naquele sentido, universal e a-histórico, pode incorrer em uma aplicação pouco precisa.

As autoras, portanto, criticam o termo patriarcado sob a ótica de Weber, pois acreditam ser ineficiente para analisar questões de gênero na atualidade, pois a sociedade contemporânea, em meio a sua complexidade de relações e instituições, precisa de uma formulação conceitual mais adaptada às singularidades de cada situação. Por outro lado, Pateman (1993) defende a necessidade de nos distanciarmos das definições patriarcais de patriarcado, como a visão clássica (pai- paterno), e ressalta que “[...] não há nenhum bom motivo para se abandonar os termos patriarcado [...], grande parte da confusão surge porque “patriarcado” ainda está por ser desvencilhado das interpretações patriarcais de seu significado” (PATEMAN, 1993, p. 39).

Joan Scott (1995) critica as visões que colocam apenas um conceito (o patriarcado) como responsável pelas mais diversas formas de opressões, as quais inscrevem no corpo feminino a dominação. Para a autora, essa perspectiva levou a um entendimento intransigente e rigoroso demais sobre a relação entre homens e mulheres, não saindo de um modelo dual de gênero. Se não há nada além da “inseparável” desigualdade entre os sexos, estamos diante de um contexto redundante, pois “a fonte das relações desiguais entre os sexos é, afinal de contas, as relações desiguais entre os sexos” (SCOTT, 1995, p. 10).

Trouxe aqui esta rápida contextualização teórica, não para deslegitimar a fala das minhas interlocutoras, mas porque, em um determinado momento, precisei me situar dentro destes debates. A questão era: por que as tensões que emergiam nas discussões das jovens pesquisadas sobre o que se entendia enquanto patriarcado pareciam não ser o ponto central das diferenças entre elas? E percebi que, para parte do movimento, o conceito de patriarcado se substancializava e era desviado para outro foco de combate, cujo verdadeiro inimigo a ser combatido não era mais o sistema patriarcal, mas sim seu beneficiário, o homem. Nesse contexto, o inimigo principal também eclodia em outras questões importantes, como nas diferentes correntes feministas, nas quais cada uma delas se via representada – questões essas que tentarei mostrar no próximo subcapítulo.