1. ACERCA DA JUVENTUDE
2.1 SOBRE O CONCEITO DE ESTADO E SEUS DESDOBRAMENTOS
2.1.1 O PENSAMENTO CLÁSSICO E AS TEORIAS SOBRE O ESTADO
Um grande marco do pensamento político ocidental foi à reflexão e conceituação das sociedades políticas, que, conforme o pensamento de Dalmo Dallari (2003) corresponde a “(...) situação permanente de convivência (...) [que possui] autoridade
superior [e fixa] as regras de convivência a seus membros” (DALLARI, 2003, p. 51 e 52),
ou seja, um tipo de convivência estabelecida pelos seres humanos no intuito de promover as condições necessárias para que estes pudessem, primeiramente, manter a sua existência e integridade físicas e, posteriormente, alcançar seus objetivos particulares. Salienta o autor que de todas as sociedades políticas que já existiram na história, a mais importante, e ampla, seria o Estado, que para muitos veio a substituir as tribos e os clãs mais remotos no tempo e no espaço. Analisando-o por seu alcance e atuação, poderíamos definir o Estado como sendo uma instituição capaz de favorecer a coesão social e, ao mesmo tempo, promover a seus membros as condições necessárias para a aceitação de determinado status
quo social. Foi assim, objetivando compreender e racionalizar este tipo de interação social,
que vários pensadores se debruçaram sobre a análise do Estado.
Todavia é importante mencionarmos que nem sempre os autores fizeram uso da palavra e do conceito de Estado (compreendido aqui como uma entidade superior e autônoma aos indivíduos) para a análise das sociedades existentes em períodos anteriores. Foi mais comum o emprego da palavra e do termo cidade para referência às coletividades humanas mais antigas. Segundo Dallari (idem), o uso mais preciso da palavra Estado para designação das sociedades políticas ocorreu apenas no séc. XVI, quando é apresentada em
O Príncipe (2000) de Maquiavel. Nesta obra, Maquiavel apresenta a seguinte afirmação:
Estados e são ou repúblicas ou principados” (MAQUIAVEL, 2000, p. 13). Seria este o
primeiro momento de uso da palavra Estado para se referir a uma “entidade” completamente externa e fora do alcance do conjunto dos indivíduos, mas portadora de autoridade e poder sobre todos.
Entretanto, como determinadas características presentes e tidas como sendo essenciais às sociedades políticas (o que corresponderia à existência de uma autoridade superior e de normas fixas para seguimento de seus membros) já se apresentavam as coletividades humanas em períodos anteriores a Época Moderna, seria possível usarmos, como forma de facilitar nossa reflexão e análise, o termo Estado para nos referirmos as mesmas.
Uma das correntes analíticas mais antigas sobre o Estado defende a ideia da origem natural do mesmo. Nesta corrente são reunidos autores cujos trabalhos apresentam a ideia de que a origem do Estado teria emanado naturalmente da ação e dinâmica dos seres humanos, tidos como indivíduos possuidores de uma sociabilidade inata. Temos como uma das análises mais remotas desta corrente a que foi feita ainda no séc. IV a.C. e se encontra na obra A Política (1997) de Aristóteles. Nesta obra o autor discute a associação dos indivíduos a partir da perspectiva da cidade enquanto um dos núcleos primários de vivência coletiva. Para ele “(...) a cidade é uma criação natural [pois] o homem é por natureza um
animal social (...)” (ARISTÓTELES, 1997, p. 15). Esse pensamento levou o autor, no que
se refere à questão da submissão dos indivíduos a um comando exterior, a concluir que:
(...) a cidade tem precedência por natureza sobre o indivíduo. De fato, se cada indivíduo isoladamente não é autossuficiente, consequentemente em relação à cidade ele é como as outras partes em relação a seu todo (...) ou que seja ao suficiente a ponto de não ter necessidade de fazê-lo, não é parte de uma cidade, por ser um animal selvagem ou um deus (…). (ARISTÓTELES, 1997, p. 15 e 16).
Pouco depois, Túlio Cícero, no séc. II a.C., ao discutir a configuração da República, reforça a ideia de que seria da natureza humana a busca pela vida em sociedade. Para ele, foi o livre avanço e desenrolar da natureza humana que teria conduzido os homens a sua submissão a uma autoridade superior. Coloca este autor que:
Todo povo, isto é, toda sociedade fundada com as condições por mim expostas; toda cidade ou, o que é o mesmo, toda constituição particular de um povo, toda coisa pública, - e por isso entendo toda coisa do povo, - necessita, para ser duradoura, ser regida por uma autoridade inteligente que sempre se apoie sobre o princípio que presidiu à formação do Estado. (CÍCERO, 1956, p. 35).
Possuindo essa mesma linha de análise temos Tomás de Aquino (2001), pensador medieval que ao receber influência direta do trabalho de Aristóteles, reafirma a natureza social do ser humano e, consequentemente, a necessidade de sua submissão a um governo externo. Coloca este autor:
(...) a vida social entre muitos não ocorre se não existe à frente alguém que os oriente para o bem comum, pois a multidão por si mesma tende a muitas coisas; e um só a uma. Por isso, disse o Filósofo em Política que quando muitos se direcionam para algo único, sempre se encontra um que é o primeiro e direciona. (tradução livre)9.
Essa corrente de análise dominou o pensamento europeu durante muito tempo, recebendo críticas mais acentuadas apenas no Período Moderno. É neste que surge como contraposição nova corrente de análise: o Contratualismo.
Os autores agrupados nessa corrente defendem a ideia de que o Estado teria surgido de forma voluntária, resultando de um acordo social estabelecido entre os homens com vistas a possibilitar aos mesmos o atendimento satisfatório de suas necessidades de subsistência e segurança. Para eles, o ser humano viveria sujeito ao “estado de natureza”, que seria uma situação de ausência de normas externas, de usufruto desmedido de livre arbítrio e, consequentemente, de dificuldades para o atendimento das necessidades humanas. Também existe nessa corrente a crença na existência de características inatas ao ser humano, a divergência entre esta e a anterior se refere à forma como se entende a influência destas características na formação e constituição do Estado. Para os contratualistas não é a natureza humana que conduziu os indivíduos ao Estado, mas sim sua dificuldade de convivência no “estado de natureza” e, consequentemente, o uso da razão na
9 B> A # !"#5 5 6
!" "
!"#5 # = 6 " " M # 7 M # )" #" !"#5 & - # ! #" " )" ! 6 & P > OQ ,N @0/A
solução desse problema. Foi a razão que teria possibilitado aos indivíduos acordarem sobre a criação de um poder exterior e soberano a eles (DALLARI, 2003).
No período Antigo Platão já havia sinalizado uma conceituação semelhante a que os contratualistas defendem que é a possibilidade de uma construção racional para o Estado. Isso pode ser observado na seguinte passagem de A República (2001):
(...) uma cidade tem sua origem, segundo creio, no fato de cada um de nós não ser autossuficiente, mas sim necessitado de muita coisa. Ou pensas que uma cidade se funda por qualquer outra razão?
(…)
(…) um homem toma outro para uma necessidade, e outro ainda para outra, e, como precisam de muita coisa, reúnem numa só habitação companheiros e ajudantes. A essa associação pusemos o nome de cidade. (PLATÃO, 2001, p. 72).
A inovação apresentada pelos contratualistas em relação ao pensamento de Platão se encontra na construção teórica da existência de um momento de vivência humana “pré- social”, ou seja, antes da constituição do convívio social dos indivíduos. Seria o que os contratualistas conceituaram como sendo o “estado de natureza”. Assim, todos esses pensadores defendem que antes da existência do Estado os seres humanos teriam experimentado uma vivência dispersa e isolada uns dos outros e que na escolha pelo abandono desta situação (e superação das necessidades impostas por ela) que houve a instituição do convívio social sob o controle do Estado. A divergência ou diferença existente entre os argumentos construídos pelos contratualistas entre si se encontra na forma como cada um concebe o “estado de natureza” e como apresenta o processo de constituição do Estado.
Thomas Hobbes (2008) conceitua o “estado de natureza” como correspondendo a uma situação de extrema liberdade (na qual impera as vontades individuais) e de permanente ameaça de “guerra de todos contra todos”. Apresenta o autor:
Poderá parecer estranho a alguém que não tenha medido bem estas coisas que a natureza tenha assim dissociado os homens, tornando-os capazes de atacarem e destruírem uns aos outros (...)
(...)
Desta guerra de todos os homens contra todos os homens também isto é consequência: que nada pode ser injusto. As noções de certo e de errado, de justiça e injustiça, não podem aí ter lugar. Onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei não há injustiça. (...) [Elas] São qualidades
que pertencem aos homens em sociedade, não na solidão. (HOBBES, 2008, p. 109 e 111).
Assim, como alternativa a este estado de total insegurança no qual vivia o ser humano, houve, para Hobbes (idem) a associações dos indivíduos em colegiado e a abnegação do poder possuído por cada um e prol da constituição de um corpo político único e superior a todos os demais, que atuaria de forma a promover a segurança de todos: o Estado. Sobre a criação do Estado discorre o autor:
A única maneira de instituir tal poder comum, capaz de os defender das invasões dos estrangeiros e dos danos uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade. (...) Isto é mais do que consentimento ou concórdia, é uma verdadeira unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa, realizada por um pacto de cada homem com todos os homens, de um modo que é como se cada homem dissesse a cada homem: Autorizo e
transfiro meu direito de me governar a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de transferires para ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. Feito
isto, à multidão assim unida numa só pessoa chama-se REPÚBLICA10,
em latim CIVITAS. (HOBBES, 2008, p. 147).
Uma diferença quanto ao conceito anterior de “estado de natureza” é colocado por Montesquieu (1973) e Jean Jacques Rousseau (1981). Para estes autores, este estado não corresponderia a um “estado de guerra” permanente, mas sim a um estágio de permanente liberdade no qual, devido à expressão generalizada e ilimitada da liberdade de todos, se presenciaria uma grande insegurança e limitações quanto à manutenção das necessidades de cada individuo. Tal situação é assim descrita por esses autores:
O homem em estado natural teria preferência à faculdade de conhecer a ter conhecimentos. É evidente que suas primeiras ideias não seriam especulativas; procuraria conservar seu ser antes de procurar sua origem. Tal homem sentiria, antes de tudo, sua fraqueza e seu medo seria grande; e, se tivéssemos necessidade da experiência para comprovar isso, encontraram-se, nas florestas, homens selvagens*; tudo os faz tremer, tudo os faz fugir.
10 , & ! " " I -. # C !. ! 9 # ! % !
&"! '% "'% " )" # ! #
Neste estado, todos se sentem inferiores e dificilmente alguém se sente igual. (...)
Ao sentimento de sua fraqueza, o homem acrescentaria o sentimento de suas necessidades. (MONTESQUIEU, 1973, p. 34-35).
*disso é testemunho o selvagem encontrado nas florestas de Hanôver, visto na Inglaterra durante o reinado de Jorge I (N. do A.).
E
Esta liberdade comum é uma consequência da natureza do homem. Sua primeira lei é a de velar por sua própria conservação, seus primeiros cuidados são aqueles que devem a si mesmo e, assim que alcance a idade da razão, sendo o único juiz dos meios adequados à sua conservação, torna-se, por isso seu próprio senhor.
(…)
Suponho os homens chegados àquele ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza sobrepujam pela sua resistência, as forças que cada indivíduo pode empregar para se manter neste estado. Então, esse estado primitivo já não pode subsistir e o gênero humano pereceria se não mudasse de ser (ROUSSEAU, 1981, p. 18 e 26).
Como resposta a essas dificuldades impostas pelo “estado de natureza” é que, para os autores acima, houve a associação dos homens em coletividade e, posteriormente, a criação do Estado. Todavia, isso é interpretado de maneira bem peculiar por cada um deles. Montesquieu apresenta que
(...) o medo levaria os homens a afastarem-se uns dos outros, mas a comprovação de um medo recíproco levá-los-ia logo a se aproximarem. (…) Aliás, eles seriam levados pelo prazer que sente um animal à aproximação de outro da mesma espécie (…)
Além do sentimento que os homens inicialmente possuem, conseguem eles também ter conhecimentos; assim, possuem um novo motivo para se unirem, e o desejo de viver em sociedade constitui a quarta lei natural11.
(MONTESQUIEU, 1973, p 35).
Todavia:
(…) Sem um governo, nenhuma sociedade poderia subsistir. A reunião de todas as forças individuais, diz muito corretamente GRAVINA, forma o que denominamos de ESTADO POLÍTICO.
(…)
As forças individuais particulares não se podem reunir sem que todas as vontades se reúnam. A reunião destas vontades, diz GRAVINA ainda
muito corretamente é o que denominamos ESTADO CIVIL. (MONTESQUIEU, 1973, p. 36)
Rousseau apresenta que “(...) como os homens não podem engendrar novas
forças, mas somente unir e dirigir aquelas que existem, não tem nenhum outro modo, para se conservarem que o de formar por agregação um conjunto de forças” (ROUSSEAU,
1981, p. 26), as quais irão “(...) fazê-las operar em concerto” (idem). Essas ações os conduzirão a constituírem um Pacto. A partir deste:
(...) em lugar da pessoa particular de cada contratante, este ato de associação produz um corpo moral e coletivo composto de tantos membros quantos são só votos da assembleia que recebe desse mesmo ato sua unidade sem EU comum, sua vida e sua vontade. Esta pessoa pública, que é formada destarte pela união de todas as outras, tinha antigamente o nome de cidade, e agora o de REPÚBLICA ou de CORPO POLÍTICO, que é chamado por seus membros: ESTADO quando é passivo, SOBERANO quando ativo, POTÊNCIA comparando-o a seus semelhantes. (ROUSSEAU, 1981, p. 28).
Além dos autores mencionados acima existe John Locke que, por muitos é reconhecido como um autor pertencente ao grupo dos contratualistas. Todavia, frisa Dallari (ibidem) que devido a grande influência religiosa (e derivações para a teologia) presente em seus trabalhos, os mesmos acabaram por apresentar um ser humano com pouca autonomia e, decorrente disso, sem as condições suficientes para estabelecer livremente um contrato social entre seus iguais. Isso colocaria esse autor mais próximo dos naturalistas do que dos puramente contratualistas. Tal constatação pode ser extraída das seguintes passagens:
(...) todos os homens são obra de um único Criador todo-poderoso e infinitamente sábio, todos servindo a um único senhor soberano, enviados ao mundo por sua ordem e a seu serviço; são, portanto sua propriedade, daquele que os fez e que os destinou a durar segundo sua vontade e de mais ninguém. (…) [assim] não se pode conceber que exista entre nós uma 'hierarquia' que nos autoriza a nos destruir uns aos outros (...)
(…)
(…) no estado de natureza cada um tem o poder executivo da lei da natureza, espero que seja objetado o fato de que não é razoável que os homens sejam juízes em sua causa própria, pois a autoestima os tornará parciais em relação a si e a seus amigos; e por outro lado, que a má natureza, a paixão e a vingança os levem longe demais ao punir os outros; e nesse caso só advirá confusão e desordem; e certamente foi por isso que Deus instituiu o governo para conter a parcialidade e a violência dos homens. (LOCKE, 1999, p. 84 e 88).
Mesmo sem a apresentação de um “contratualismo puro”, Locke é um autor importante, pois, assim como os demais, influenciou os processos e movimentos responsáveis pela estruturação do Estado Moderno no Ocidente Europeu.
Assim como ocorreu com os naturalistas, os contratualistas também foram questionados e receberam forte oposição de uma nova escola de pensamento: a Filosofia Alemã.
O primeiro a se opor ao pensamento contratualista foi Hegel (1953) que, ao questionar a ausência de historicidade nos pilares que estruturaram suas análises, desconstruiu a ideia de “estado de natureza” e todos os conceitos correlatos. Para ele é improvável a existência histórica de um momento em que “(...) o homem esteja na posse de
seus direitos naturais e no exercício sem limites, em pleno gozo, de sua liberdade”
(tradução livre12), isso porque mesmo em coletividades:
Condições primitivas podem certamente ser encontradas, mas elas estão marcadas por paixões irracionais e atos de violência. Rudimentares como são, elas ao mesmo tempo estão ligadas com as instituições sociais que, para usar-se a expressão comum, restringem a liberdade. (tradução livre13).
Hegel (idem) defendia a ideia de que o ser humano seria constituído de parte Natureza (biológico) e de parte Espírito (razão/ consciência), porém este último lhe seria preponderante. Assim sendo, seria durante e conforme o processo de amadurecimento do
espírito humano que ocorreria o desenvolvimento e ampliação da liberdade14 do indivíduo.
Como tal amadurecimento se deu no decorrer da história da humanidade, e esta sempre se encontrou vivendo em coletividades, a liberdade humana não poderia existir antes da sociedade, mas sim nesta e se desenvolveria conforme o desenvolvimento desta (HEGEL, 1953). O que para este autor teria impelido o ser humano a viver em meio a coletividades teria sido a existência:
12 B> A S #5 ! ! & 5 5 " & 5 5 " ! # * 6! 5 !P >? 3 0 0/A 13 BM ! # # . " ." 5 6 ! T .6 . " # # " 5 6 5 6 5 ! ! # # S 5 # " S5 #5 " 5 # !! !P > ? 3 0 0/A 14 ,% ! )" # )" ? & # # . # ! . # # )" )" U " ! ! " ! '% 4 # "
(...) de um sistema de dependências recíprocas no qual a subsistência, o bem-estar e a existência jurídica do indivíduo [estariam] ligados à subsistência, ao bem-estar e à existência, de todos, em todos assentam e só são reais e estão assegurados nessa ligação. (HEGEL, 1976, p. 172).
Assim, foi no desenvolvimento do ser humano e no de sua razão que ocorreu a extensão e o aumento do grau de complexidade das relações entre os indivíduos, o que resultou na transformação das diferentes formas de vivência coletiva: da extensão da família para povo; de povo para nação; da nação para o Estado. Nesse processo, o Estado é a expressão:
(...) da vontade substancial, realidade que esta adquire na consciência particular de si universalizada, é o racional em si e para si: esta unidade substancial é um fim próprio absoluto, imóvel, nele a liberdade obtém o seu valor supremo, e assim este último fim possui um direito soberano perante os indivíduos que em serem membros do Estado têm o seu mais elevado dever.(HEGEL, 1976, p. 216)
Assim, e conforme salienta Jamerson Souza (2010), Hegel apresenta o Estado como produto da evolução do Espírito humano e, por este motivo, como pleno reflexo dos
“(...) princípios fundamentais da racionalidade e da universalidade” (SOUZA, 2010, p.
33). Ele representaria a entrada dos indivíduos na sociedade política, onde os conflitos de interesses (agora entendidos como conflitos de grupos sociais e não mais de simples indivíduos isolados) seriam superados a partir da efetivação dos citados princípios estatais. Tal efetivação seria levada a cabo pela atuação da burocracia estatal15. Assim, o Estado seria a “(...) instância responsável por evitar a desagregação social. Sem a presença do
Estado, a sociedade civil ruiria ante o efeito devastador das lutas de classes” (SOUZA,
idem, p. 10).
Antes de Hegel fazer todo o questionamento expresso acima e, com isso, se opor e contra argumentar com os pensadores contratualistas, Nicolau Maquiavel (2000) já havia questionado a ausência de historicidade que também se fazia presente nas análises naturalistas. Sobre isso afirma na obra citada anteriormente:
(...) como tenho a intenção escrever algo útil para quem queira entender, pareceu-me conveniente ir atrás da verdade efetiva da coisa em vez da
15 M ? & # " # ! # " ! # 5
# #" ! # ! '% H
imaginação. Muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca se viu e nem se soube que fossem verdadeiros por serem tão diversos de como se vive para como se deveria viver (MAQUIAVEL, 2000, p. 91).
Contudo, ao centrar sua análise no poder político que está instalado na sociedade e que permeia a relação entre os indivíduos, Maquiavel (idem) acaba por não ser classificado como um pensador que discute na origem do Estado, mas sim como o pensador que primeiramente apresentou a ética da política como sendo algo diferente e separado das ideias morais existentes e disseminadas na sociedade. Com ele que surgiu a “Arte da política”, ou seja, o de que a ação do governante está diretamente relacionada com as demandas que surgem da vida cotidiana. Para ele a política é algo histórico e dinâmico, devendo ser constantemente revista conforme os atores e os interesses envolvidos em cada momento (MEGALE, 1993). Portanto, o chefe do Estado deveria agir de acordo com as circunstâncias históricas e não com base em valores morais individuais, visando sempre à conquista e manutenção do poder com o apoio do povo (WINTER, 2006). Caberia ao governante ter a virtude necessária para lidar com todas as facetas e adversidades provenientes da realidade histórica na qual estivesse inserido, de forma a manter um bom governo e o controle do Estado.
Para esse autor, Maquiavel reconheceria que:
Todo Estado é, fundamentalmente, constituído por uma correlação de forças, fundada na dicotomia que se estabelece entre o desejo de domínio e opressão, por parte dos grandes ou poderosos, e do desejo de liberdade, por parte do povo (…). (WINTER, 2006, p. 2).
Seria, então, de responsabilidade do chefe do Estado mediar o conflito