CAPÍTULO 3 – DO PENSAMENTO COMO PRÁXIS AO PENSAMENTO COMO IDEOLOGIA
3.1 O PENSAMENTO COMO PRÁXIS: OS DESAFIOS DA DEMOCRACIA
Durante o período da abertura política, as relações entre o campo político e as possibilidades de existência das ciências sociais no Brasil se alteraram drasticamente, projetando social e politicamente a intelectualidade ―renegada‖ e dando-lhe uma nova possibilidade de inserção no campo político, não mais pela via da necessidade do Estado em fazer seu planejamento e fundamentar sua prática (papel igualmente cumprido pelos intelectuais do ISEB nos anos 50 e pelos economistas
durante o Regime Militar), mas pelo vislumbre da possibilidade de disputar o sentido da democracia que se instauraria.
A elaboração de uma teoria do autoritarismo distanciada dos marcos da ruptura sugerida tanto pela esquerda acadêmica quanto pela luta armada conferiram uma posição privilegiada às ideias do autor no processo de redemocratização do país. Como ressaltou Lehmann (1986)189, o pensamento de Cardoso galgará a estatura de ―princípio articulador‖ da luta contra a ditadura, pela via do resgate da democracia fora dos marcos de qualquer ação revolucionária, de modo que suas análises foram se tornando uma referência teórica incontornável da formação do pensamento democrático brasileiro, ainda na vigência da ditadura militar. Não obstante, os escritos do período da Abertura política passarão a assumir um caráter mais conjuntural, conforme, anos mais tarde o próprio autor reconheceria:
Nos anos 70, abandonamos as tentativas de teorias gerais ou, pelo menos, de médio alcance, e fomos obrigados a afiar o pensamento para uma atitude mais crítica no cotidiano e que busca, sobretudo, deslindar os mecanismos internos de um Estado e de uma economia que parecia obedecer a soluções de uma lógica perversa (CARDOSO, 1995, p. 37)190.
Estas ideias passam a ter implicações práticas na oposição institucionalizada, especialmente a partir de sua participação na redação do programa eleitoral do partido em 1974.191 No ano de 1978, a vida
189
LEHMANN, David. FHCardoso: da dependência à democracia. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.° 14, pp. 31-36, fev. 86.
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CARDOSO, Fernando Henrique. Discurso proferido na cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa, pela Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais, da Universidade Central da Venezuela, em 6 de julho de 1995.
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Em 1974, Ulysses Guimarães vai até Cardoso (então líder do CEBRAP) para convencer os membros do Centro a fazer um programa para a Campanha do MDB daquele ano. Diante do assentimento da maioria dos membros, inicia-se, ali, o partido dos intelectuais de que falava Pécaut (1990), bem como a ideia do MDB como partido omnibus. Assim, os intelectuais vinculados ao CEBRAP, que tinham sua legitimidade advinda do campo científico, gradativamente ganharão notoriedade também na esfera política. Como expoente do CEBRAP, a trajetória de Cardoso diferirá enormemente das possibilidades institucionais postas aos intelectuais do país: no momento em que estes se recolhem para a academia (pela via da profissionalização e burocratização da carreira 141
política passa a ser um importante condicionante da produção intelectual do autor. Em junho, em discurso pronunciado na Convenção paulista do MDB, Cardoso assume a figura de mentor intelectual do partido192. Poucos meses depois, já como candidato, o autor assim analisa este momento de transição em sua trajetória:
Nunca pensei em vida intelectual como uma vida em torre de marfim. Não é o meu jeito. A vida acadêmica, para mim, não é isolada da vida política (...) O intelectual pode optar por uma vida partidária, mas essa possibilidade é pouco estimulante no Brasil de hoje. Sem provocação: não há intelectual que não faça um pouco de subversão - no sentido de que altera a ordem das coisas. O intelectual não pode pensar que ele comanda, que vai lá dar a palavra de ordem. Eu tenho uma visão mais modesta da função do intelectual. O que ele pode fazer é articular o debate, fazer aflorar aquilo que está na sociedade. (...) Fala-se muito que estamos numa fase de transição. Transição do que, se sabe: do autoritarismo. Agora: ―para quê?‖. Essa é a Questão. E é exatamente esse desafio, representado por não saber para onde vamos, que me incentivou a ter uma participação mais efetiva (CARDOSO, 1978, p. 47)193.
Estes movimentos, por sua vez, acabam por afirmar a ideia de que a figura do político suplanta a figura do intelectual, o que, por sua vez, passa a aferir sobre o pensamento do autor uma importância que é mais ideológica (no sentido de afirmação de que a dimensão de projeto do pensamento sobrepuja sua dimensão analítica) do que teórica. No entanto, entender estes escritos como produção ideológica – mesmo no sentido articulador reivindicado por Lehmann – representa, de certa
universitária), cresce sua inserção político partidária. Este momento expressa, de maneira mais significativa, a entrada de Cardoso no debate político, a partir da elaboração da análise e engajamento no processo de abertura e política e de redemocratização. Nesse contexto, Cardoso assume uma posição que define como ―realismo utópico‖.
192
Discurso reproduzido em ―Democracia para mudar‖ (1978). 193
CARDOSO, Fernando Henrique. Democracia para mudar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
forma, retirar deles sua pertinência lógica e conceitual. Dessa forma, este caráter ambivalente do reconhecimento de sua obra – reivindicada e negada ao mesmo tempo – é o que nos autoriza a questionar: haveria algum lugar alternativo para estes escritos além do binômio ―teoria‖ x ―ideologia‖?
No primeiro capítulo deste trabalho, além das definições do pensamento como teoria e como ideologia, identificamos uma corrente da literatura que o toma como sinônimo de práxis e definimos o pensamento nesses termos como um estilo que procura iluminar os elos existentes entre os problemas ―profissionais‖ da reflexão sociológica e os desafios da construção de uma agenda pública para a superação de determinados problemas. Expressa, portanto, uma ―conexão‖ entre o pensamento teórico e as disputas de distintos projetos que permeiam a sociedade como um todo.
O argumento a ser desenvolvido nesta sessão consiste em afirmar que, por meio do mapeamento de alguns temas que ocupam a imaginação política de Cardoso, a produção dos ―escritos engajados‖ marcará a transição de um pensamento cuja feição teórica é predominante para outro cuja feição de práxis se torna hegemônica. Essas demarcações apontam para a necessidade de se discutir o ―tipo de intelectual‖ que foi Cardoso no momento em que o autor começa a repartir espaço com o político. Essa questão já fora colocada por Goertzel (2002)194 no intuito de explicar a atividade política em função das características intelectuais, mas é recolocada aqui com um propósito analítico distinto, definido estritamente nos marcos de sua trajetória intelectual, qual seja o de evidenciar a continuidade de uma atividade intelectual paralela à atividade política e o de captar as mudanças de sentido produzidas e assumidas por ele em suas reflexões teóricas.
O primeiro aspecto a evidenciar deste pensamento como práxis refere-se à agenda institucional da transição, que decorrem dos dilemas abertos por uma abertura política vista pelo autor como uma conservadora. Embora, como veremos, esta perspectiva se alterará drasticamente na medida em que os acontecimentos políticos dos anos 1980 o jogarão para o epicentro do processo, à altura do governo Geisel, porém, os delineamentos conservadores do processo exprimem a percepção do autor sobre ―um governo que faz concessões liberalizantes, mas não faz concessões democráticas” (CARDOSO,
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GOERTZEL, Ted. Fernando Henrique Cardoso e a reconstrução da democracia no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2002.
1979, p. 5-6)195. A insegurança em relação aos rumos do processo de transição se transforma, durante o governo de Figueiredo em desilusão, pelo reforço da via conservadora que via a transição muito mais como fruto da ação deliberada dos militares do que uma conquista da sociedade. Esta desilusão com relação à transição brasileira pode ser percebida no registro do estabelecimento da agenda política da abertura. Segundo ele:
os grandes temas, que não foram propostos pela Oposição, ou pelo menos cujo desencadear não foi suscitado pela Oposição, e cuja forma adotada: tampouco foi o que ela queria. Tanto assim que fomos obrigados a nos opor à lei da anistia na forma proposta pelo Governo, porque ela era restritiva. E de fato era. Só que na aplicação não o foi, ou seja, o Governo, como controlava o processo, fez passar uma lei que era restritiva, tirou da oposição a vitória política de ter sido ela a autora do processo de anistia (CARDOSO, 1983, p. 12)196
Então, transição pra onde? Se as alternativas políticas postas em 1963 por Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil contrapunham o socialismo a uma subdemocracia tributária de uma burguesia nacional incapaz de produzir uma revolução modernizadora tanto na economia quanto na política, as alternativas políticas que se abriam no cenário de abertura controlada derivavam, também, das visões em jogo no processo, que acabavam por encaminhar alternativas institucionais distintas. Em ―Regime político e mudança social” (1981)197
, Cardoso caracteriza não mais duas, mas quatro possibilidades políticas abertas pela transição: a) a perspectiva estratégico-conservadora, que compreende a mudança como uma necessidade posta no intuito de frear os ímpetos ultradireitistas e as pressões da sociedade civil e dos movimentos sociais. Como projeto, a
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CARDOSO, Fernando Henrique. A fronda conservadora: o Brasil depois de Geisel. Artigo publicado na Folha de São Paulo, 21/01/1979, pp.5-6. 196
CARDOSO, Fernando Henrique. Transição pra onde? In: Democracia necessária. Campinas: Papirus, 1985. Palestra proferida na Associação dos Sociólogos de Brasília em maio de 1983.
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CARDOSO, Fernando Henrique. Regime político e mudança social. Revista de Cultura e Política, n.3, CEDEC/Paz e Terra, São Paulo, 1981. 144
transição poderia, assim, ser explicada no nível da manobra política para que as elites dirigentes mantivessem os delineamentos básicos do regime autoritário precedente, num novo regime de democracia restrita; b) a perspectiva liberal-democrática, que descreve a mudança a partir da crise de legitimidade do modelo político posto em prática depois de 1967, e que levou tanto as massas quanto as elites a se dessolidarizarem do regime. Tal perspectiva, mantém a crença na viabilidade da solução negociada entre as partes e assume uma postura ―gradualista‖ no sentido de negar a mudança brusca em favor de um modelo clássico de expansão de direitos; b) a perspectiva estrutural-crítica, fortemente ancorada no marxismo, que reduz os acontecimentos a suas determinações gerais, na qual o governo, em vez de ter desenvolvido uma manobra aberturista, foi acuado pelas pressões conjunturais. Enquanto projeto, tal concepção redundaria na rearticulação do ideário socialista por meio de uma mudança de pensamento em relação à questão da representação política e da assimilação dos riscos inerentes à concepção do partido do estado único; d) e, por fim, a perspectiva da crise de hegemonia, que se funda na discussão gramsciana sobre a capacidade de dirigir que uma classe social pode adquirir historicamente. Esta última perspectiva, uma vez que ancorada no ―movimentalismo‖ e no ―basismo‖, nutre a desconfiança nas cúpulas decisórias e nas instituições político-representativas (vistas como elos da dominação dada a distância das bases dos centros de decisão). No limite, o projeto político desta corrente para a transição revaloriza a noção de comunidade e relativiza o debate institucional.
Todavia, se na sua obra de 1963 Cardoso deixara a pergunta como um enigma, agora ele assume uma posição clara em relação às alternativas postas. Para Cardoso, o núcleo central da transição brasileira consiste num um processo de liberalização política que procura criar espaços controlados para o exercício da crítica e que visa ajustar a dominação burguesa aos desafios de uma sociedade muito mais dinâmica do que a de anos anteriores. Logo, a questão central do processo de transição – e, consequentemente, da própria consolidação da democracia no Brasil – diria respeito as possibilidades de construir o controle democrático do Estado e não de negá-lo, tal como implícita na atitude basista e na valorização absoluta dos movimentos sociais frente aos partidos. Em suas palavras:
A questão atual não é apenas a de garantir a autonomia da sociedade civil em si, mas é a de recolocar a questão do controle democrático do 145
estado, sem imaginar que esse esteja em fase de desaparecimento. E é também a de criticar a recusa de pensar o estado, que existe implícita na atitude ‗basista‘ e na valorização absoluta dos movimentos sociais frente aos partidos, como se o povo, a ‗base‘, a periferia do centro de poder, fossem pão apenas ‗puros e bons‘, mas capazes de levar a soluções sociais, econômicas e políticas sem uma visão do todo. Ora, o desprezo pelo Estado torna este tipo de pensamento generoso, mas, impotente para enfrentar o desafio do controle político das sociedades complexas. (...) a questão real não consiste em eliminar o peso da base e limitar a mobilização e o assembleísmo, mas em criar os mecanismos necessários para revitalizar a base e dispor de instrumentos eficazes de ação e de representação para pressionar e controlar os núcleos de decisão e de poder (CARDOSO, 1981, p. 19)198.
Assim, a especificidade da transição no Brasil é que no país não houve uma derrota política do regime mas, antes, uma transição controlada, como no caso espanhol, resguardada uma diferença significativa: as Forças Armadas espanholas agiram muito mais contra essa transição do que ocorreu aqui e, em decorrência, essa transição se deu com um processo de luta social muito mais intenso que o brasileiro. Essa diferença básica revela, no caso brasileiro, uma fissura entre a crítica intelectual e as aspirações da sociedade: ―Nós aqui passamos realmente por um processo de transição política que, se deu no que deu, é por falta de força, não por falta de vontade, não por falta de consciência nem de lucidez sobre a situação. É por falta de força da sociedade para avançar mais‖ (CARDOSO, 1983, p.16)199. Assim, a transição brasileira transcorria muito mais pelo êxito dos militares no emprego de uma tática conservadora do que pela pressão social pela redemocratização: o mais grave nessa mudança fora o fato de que a própria ideia de democratizar o país não seria resultado dos movimentos da sociedade civil, mas, antes, da ideia de que não seria mais necessário,
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CARDOSO, Fernando Henrique. Regime político e mudança social. Revista de Cultura e Política, n.3, CEDEC/Paz e Terra, São Paulo, 1981. 199
CARDOSO, Fernando Henrique. Transição pra onde? In: Democracia necessária. Campinas: Papirus, 1985. Palestra proferida na Associação dos Sociólogos de Brasília em maio de 1983.
da parte dos militares, de manter a postura de quem ainda está em guerra, isto porque ganharam, não porque perderam‖ (CARDOSO, 1978, p. 42)200. Não obstante, isso não implicaria paralisia política (parafraseando Albert Hirschman, ―ou você cai fora do jogo, ou tenta mudá-lo, ou se submete‖), havendo espaço para disputar o significado da democracia, embora fosse necessário ter clareza sobre quais são os interesses, quais são os ideais e, mesmo, quais são os conflitos. Era essa mesma concepção que informava o pensamento do autor por ocasião das eleições de 1978, quando ele defendia, ao contrário da maioria dos setores da esquerda, que não seria apenas possível nem necessário se fazer aliança, pois ―num país do tamanho do nosso, não muda nada se não houver acordo‖ (idem, p. 47).
Os efeitos desta ―transição controlada‖ se farão sentir, sobremaneira, sobre a agenda institucional da transição e que receberá tratamento, por parte do autor, a partir da articulação entre duas questões: Como dar vasão aos interesses dos movimentos sociais e da sociedade civil? Quais devem ser os contornos da futura ordem partidária, para que esta reflita a correlação de forças presentes no país?
No caso da primeira questão, o que voga é se seria possível, num país dependente, encontrar brechas para reorganizar o sistema de alianças que sustenta o Estado garantindo a setores da sociedade civil um caminho de participação efetiva. Esta questão, posta num momento de efervescência dos movimentos sociais e de organização da sociedade civil em fins dos anos 70, dá lugar a uma angústia ao longo da primeira metade da década de 80: ―A sociedade civil, depois de ter cristalizado alguns mecanismos de ação, sofreu uma paralisação. Houve uma espécie de rotinização, houve uma burocratização da sociedade civil‖ (CARDOSO, 1983, p. 37)201, já apontada por ele durante os anos Figueiredo.
A questão da nova ordem partidária estaria intrinsecamente relacionada às possibilidades de se garantir espaços efetivos de participação para setores da sociedade civil. Os partidos políticos, mais do que qualquer outra instituição democrática, constituíram-se nos elementos estratégicos que forçaram a reinvenção da teoria democrática. Segundo ele, ―os partidos socialistas, ao pleitearem o alargamento do
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CARDOSO, Fernando Henrique. Democracia para mudar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
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CARDOSO, Fernando Henrique. Transição pra onde? In: Democracia necessária. Campinas: Papirus, 1985. Palestra proferida na Associação dos Sociólogos de Brasília em maio de 1983.
direito ao voto às mulheres e aos trabalhadores no fim do século XIX, contribuem para que os partidos deixassem de ser um clube que existia no parlamento e se tornam elementos aglutinadores da massa, criando raízes na sociedade e vínculos com o movimento social mais amplo‖ (CARDOSO, 1985, p. 53)202Nesse sentido, o que preocupa Cardoso é a indagação teórica de que tipos de partidos poderiam enraizar-se diante de uma cultura política em mudança, no sentido de expressar as novas aspirações da população. Cardoso parte da ideia de que pensar uma ordem partidária a partir de um simples exercício de redução às análises clássicas sobre a estruturação das classes na Europa e nos Estados Unidos não seria frutífero, já que o processo de desenvolvimento capitalista em sociedades semi-industriais e periféricas expressaria uma nova face da divisão internacional do trabalho:
A inserção no sistema produtivo internacional de economias dependentes mas associada requer certa abertura da sociedade para à disseminação nas elites locais das ideologias correntes em sociedades de desenvolvimento capitalista originário. Por trás de cada uma destas proposições não existe apenas o mimetismo das soluções importadas, mas um amálgama entre esse processo e os impulsos políticos e ideológicos derivados da heterogeneidade de interesses estruturais tal como estes se foram expressando no plano político e cultural nos anos recentes (CARDOSO, 1978, p. 08)203.
Nesta situação de singularidade, além das carências básicas, emergem aspirações próprias de um novo modelo societário, como a busca da liberação e da individualização. É precisamente desta multiplicação de demandas que emerge o desafio político de construção de uma nova ordem partidária: como construir partidos políticos que, partindo de reivindicações heterogêneas, ―se encaminhem para unificar ações políticas que convirjam para um pacto em torno da democracia‖ (idem, p. 07). Estas possibilidades de uma nova ordem partidária
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CARDOSO, Fernando Henrique. O desafio da participação In: A democracia necessária. Campinas: Papirus, 1985. Palestra proferida para funcionários do Metrô de São Paulo janeiro de 1983.
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CARDOSO, Fernando Henrique. A Questão dos partidos. CONTEXTO, nº 5, março de 1978.
democrática têm de ser postas na perspectiva da existência de duas concepções que polarizam a cultura política brasileira: o a-politicismo partidário, decorrente da percepção de que o Estado seria a ―fivela‖ que amarraria o interesse das elites, e a sociedade civil seria o polo virtuoso, isento da contaminação com o poder e com a política; e o princípio do partido-único totalitarizante, que partiria das contradições antagônicas entre elite e massa para afirmar que o jogo político institucional expressa o conflito de classe. Assim, a essas duas tendências articuladoras se associam algumas concepções equivocadas e que dificultam o encaminhamento das questões políticas no país, dentre as quais a questão central seria, de um lado, a valorização a ―pureza‖ da sociedade civil e a despreocupação com a questão do Estado e, de outro, a recusa da pluralidade partidária como formas válidas de organização e ação.
No Brasil, nem existe a generalização de um sentimento democrático no seio do povo, nem há um forte movimento sindical e operário, nem a burguesia quer aliança alguma e se quisesse não teria autonomia frente ao Estado e às empresas multinacionais para selar um pacto com os trabalhadores que assegurasse a estes a condição de eventuais dirigentes do Estado, ainda que limitados por sua condição de classe subalterna.