2. O ENSINO DE BIOLOGIA, A POSSIBILIDADE DE SUPERAÇÃO DA EDUCAÇÃO
2.2 O PENSAMENTO COMPLEXO, A RACIONALIDADE E O ENSINO DE
Consideremos que “a ciência é um diálogo entre homem e natureza. Um diálogo, não um solilóquio, como mostram as transformações conceituais ocorridas na últimas décadas. Na verdade, a ciência faz parte da busca do transcendental que é comum a outras tantas atividades como a arte, a música e a literatura” (PRIGOGINE, 2009, p. 98) a inserção da história e da filosofia dos trabalhos de Maria Sybilla Merian (1647-1717), seu perfil artístico e científico, trazem possibilidades de repensar o ensino dos insetos para além da fragmentação dos saberes, mas embasados na racionalidade e na complexidade necessários a todos, professores e estudantes, no seu processo de formação.
Para Morin (2003a) no século em que vivemos não tem mais sentido isolar e fragmentar as disciplinas sem estabelecer relações com outras áreas do conhecimento. Esse isolamento disciplinar, característico dos séculos XIX e XX, impede o conhecimento apropriado da Ciência enquanto produção humana e cultural e, portanto, desvincula os acontecimentos científicos do seu contexto.
Pode-se observar, nos escritos de Morin (2003c, p. 2) que “só podemos conhecer, como dizia Pascal, as partes se conhecemos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecemos as partes que o compõem”.
Por isso, Morin (2003c) propõe justamente um pensamento que permita unir, ligar, associar, relacionar as partes ao todo e vice-versa. Caminha-se, dessa forma, para propostas interdisciplinares, na escola básica.
A história e a filosofia dos trabalhos de Maria Sibylla Merian, no Renascimento, conservam justamente esse princípio hologramático defendido por Morin. Para ele, o
holograma é constituído de partes que, mesmo separadas, conservam as propriedades gerais do holograma e vice-versa.
Maria Sibylla Merian viveu em um contexto sócio histórico que ainda conservava a visão de totalidade na construção do conhecimento científico. As linhas de separação e fragmentação, impostas pelas especializações, caracterizam em especial os séculos XIX e XX. Por isso, resgatar a obra de Merian no ensino dos insetos, na Biologia, significa aprender com os estudantes que ela, em seus estudos observacionais, tinha a capacidade de estudar vários seres vivos ao mesmo tempo, suas transformações e relações como outras espécies, produzindo conhecimentos biológicos em artísticos, culturais, históricos e sociais.
Enquanto, na mesma época em que Merian viveu, alguns cientistas já caminhassem para a visão especializada da Biologia, estudando e ilustrando espécies específicas com o intuito de registrar detalhes anatômicos e fisiológicos, classificando essas espécies, Merian foi além.
Ela passou longe do princípio da separação que, segundo Morin (2003c, p. 3) “torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas nos torna cegos e míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto”.
Ao contrário, Maria Sibylla Merian, era uma artista-cientista cujos princípios do pensamento complexo e da racionalidade estão presentes em sua obra, assim como o diálogo, a pesquisa, a curiosidade e a criatividade discutidos anteriormente.
Para Morin (2003c, p. 11):
O pensamento complexo conduz-nos a uma série de problemas fundamentais do destino humano, que depende, sobretudo, da nossa capacidade de compreender os nossos problemas essenciais, contextualizando-os, globalizando-os, interligando-os: e de nossa capacidade de enfrentar a incerteza e de encontrar meios que nos permitam navegar num futuro incerto, erguendo ao alto a nossa coragem e a nossa esperança.
E é, justamente esse pensamento complexo, nas salas de aula, que se pretende transpor para as relações de ensino-aprendizagem. Um pensamento que rompe com as barreiras disciplinares, que não cultua a especialização mas que, dentro de cada especialidade do conhecimento seja capaz de religa-los em seu contexto.
Aqui entra o papel da história e da filosofia dos trabalhos de Merian no Ensino de Biologia. Para Morin (2013, p. 367) “esse novo uso da história inspira cada vez
mais a abordagem da História das Ciências, no ensino das disciplinas científicas, como instrumento de compreensão dos modos de raciocínio atuais e do caráter hipotético da construção do conhecimento”.
Ao estudar a história da vida e da obra de Merian percebe-se que a mesma ultrapassou as barreiras do conhecimentos específicos dos seres vivos da época, antecipando o que mais tarde fundamentaria a Zoologia, a Ecologia e alguns princípios da Genética.
As relações entre os seres vivos, em especial os insetos, em suas plantas hospedeiras demonstraram a capacidade de Merian de explicar a complexa teia da vida. E mais, de relacionar, em todo seu trabalho, Ciência e Arte dentro dos princípios sistêmico, hologramático, auto-eco-organizador, dialógico e de reintrodução daquele que conhece em todo conhecimento (MORIN, 2003c).
O pensamento complexo, o qual se pretende desenvolver nas aulas de Biologia, não exclui, como afirma Morin (2003c, p. 1), o pensamento simplificador, mas integra esses conhecimentos porque “o pensamento não se reduz à ciência, nem a filosofia, mas permite a comunicação entre elas, servindo-lhes de ponte”.
E assim, no Ensino da Biologia, precisamos da comunicação entre a cultura científica e a cultura das humanidades, como afirmam Morin (2013) e Snow (1993), organizando os primeiros exercícios de um pensamento complexo, na escola básica, com os estudantes do Ensino Médio.
A obra de Maria Sibylla Merian permite o início desse exercício de reorganização do saber, integrando a Biologia, a Arte e a Tecnologia, exigindo de professores e estudantes “uma reforma de pensamento capaz de permitir não somente a separação para conhecer, mas a ligação do que está separado” (MORIN, 2003b, p. 26). E, “devemos, pois, pensar o problema do ensino, considerando, por um lado, os efeitos cada vez mais graves da compartimentação dos saberes e da incapacidade de articulá-los, uns aos outros; por outro lado, considerando que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e não atrofiada” (MORIN, 2003b, p. 16).
Rosnay (2013), questiona o que devemos ensinar nas escolas de segundo grau (hoje chamadas, aqui no Brasil, de escolas de Ensino Médio) e ainda como ensinar nossos jovens a estabelecer elos entre os conhecimentos que elaboram.
Diante dessas questões, Rosnay in Morin (2013) destaca que ao longo dos tempos, a Ciência partiu do conhecimento sistêmico (esse conhecimento presente nas obras da artista-cientista Maria Sibylla Merian, no Renascimento) para o conhecimento analítico que passou a ser considerado a forma mais adequada de conhecimento, estabelecendo-se a supremacia desse último.
No entanto, ele também coloca que chegamos a um ponto que, em nome da racionalidade de conhecer, precisamos integrar novamente o conhecimento analítico, voltar às origens do pensamento sistêmico já que a abordagem analítica conduziu à fragmentação dos saberes, tal como afirma Morin (2003a).
Mas Rosnay in Morin (2013, p. 493-494) afirma que, mesmo partindo para propostas metodológicas que objetivem essa integração, não se pode cair na armadilha de uma generalização empobrecida:
A abordagem analítica e sistêmica são complementares. Uma focaliza os elementos, enquanto a outra se interessa pelas interações entre eles. Existe, pois, uma complementariedade entre as duas: a abordagem analítica permite extrair fatos da natureza, a abordagem sistêmica favorece sua inclusão num quadro de referências mais amplo, o que permite o exercício da razão da lógica.
Assim, ele defende a religação dos saberes (das disciplinas) que foram fortemente isoladas e fragmentadas nos últimos tempos. O ensino deve conduzir nossos jovens à quadros analíticos mas também sistêmicos rompendo com os padrões analíticos que se observa, frequentemente, nas Ciências. Para que o ensino atinja esse objetivo deverá ocorrer uma mudança na formação dos professores que, na grande maioria, foram ensinados a ensinar nos padrões analíticos (ROSNAY in MORIN, 2013).
Uma das sugestões de Rosnay in Morin (2013) é o ensino de “sistemas complexos” para os estudantes. Um desses sistemas seria o ecossistema, exemplo de abordagem analítica-sistêmica.
Por isso, nessa dissertação, quando referencia-se Morin (2003c), Rosnay in Morin (2013) fundamentamos que a obra de Maria Sibylla Merian apresentava, ao mesmo tempo, essa visão analítica-sistêmica. Suas observações, ilustrações e relatos valorizavam o sistema animal-planta-ambiente (ecossistema) mas também, analisavam separadamente, cada componente desse sistema complexo, com suas particularidades e propriedades. No contexto social, Merian indicava as propriedades
e utilizações de plantas e insetos, na comunidade que observava e realizava seus estudos.
A obra de Maria Sibylla Merian convida a um exercício de complementariedade entre a abordagem analítica e sistêmica, em sala de aula e, a “sistêmica” poderia se constituir como uma metodologia para nossas escolas:
Mais do que levar à acumulação permanente dos conhecimentos, a relação analítica e sistêmica deve permitir a religação dos saberes num quadro de referências mais amplo, favorecendo o exercício da análise e da lógica. E não é esse um dos objetivos fundamentais da educação? (ROSNAY in MORIN, 2013, p. 498)
A proposta apresentada, nessa dissertação, instiga uma prática pedagógica que abandone o viés enciclopédico e ouse em práticas de relação e recombinação de saberes (a Arte, a Ciência e as TIC), para conduzir os estudantes à uma cultura da complexidade para que “eles participem plenamente da apaixonante aventura que é a busca do saber” (ROSNAY in MORIN, 2013, p. 499).
Ardoino in Morin (2013) propõe que, ao pensar sobre o complexo a ordenação e a articulação dos componentes, dando sentido tanto ao todo como às partes, considerando as partes interdependentes entre si, considerando que o todo passa ser muito mais que a soma das partes e que, entre as partes não há hierarquização, todas são fundamentais.
O pensamento de Ardoino complementa as afirmações de Morin e Rosnay quando à complexidade dos saberes e essa aproximação e articulação desses saberes em sala de aula e “de acordo com o nosso ponto de vista, o ‘conjunto’ deverá ainda supor, para ser reconhecido como complexo, a inteligência de uma pluralidade de constituintes heterogêneos, inscritos numa história, ela mesma aberta em relação às eventualidades do devir (ARDOINO in MORIN, 2013, p.550).
Ladriere in Morin (2013, p. 504), explica a racionalidade, em três domínios ou significações. No primeiro domínio ele afirma que a razão associada a experiência determina a ação do sujeito; no segundo domínio a racionalidade não é propriedade do sujeito, mas do mundo onde este está inserido; já no terceiro domínio “a racionalidade é um domínio objetivo constituído a partir e por iniciativas humanas” sobre os objetos, estes reais ou ideias.
Neste sentido a transposição dos trabalhos de Merian para as relações de ensino-aprendizagem dos insetos na contemporaneidade, assume esse terceiro
domínio de significação da racionalidade, característica fundamental do racional, como afirmação do autor.
No racional de Ladriere in Morin (2013, p. 514) a racionalidade encontra sua manifestação mais evidente e reveladora e, acima de tudo, apresenta-se como caráter de processo. Desta forma, se a opção é por uma educação problematizadora e dialógica segundo os princípios freirianos, esse caráter de processo, articula o racional e o razoável:
É exatamente nesse ponto que poderia introduzir o conceito de razoável, enquanto indicação precisa do princípio que constitui atos e instituições nos quais a racionalidade recebe suas figurações concretas. Enquanto tal princípio assim caracterizado, ele é ao mesmo tempo o que confere ao esforço da razão seu caráter dinâmico e sua direcionalidade e o que lhe prescreve sua finalidade.
Ao articular o racional e o razoável, Ladriere (2013) coloca como ente operante a criatividade, a ludicidade, a afetividade como fatores determinantes para o sucesso dessa articulação que permitirá perceber o conhecimento científico como um conhecimento que permite interconexões, religações, complementariedades, manifestando-se como um criador.
Desta forma, a articulação entre o racional e o razoável possibilita reconhecer e antecipar novas formas de trabalho em sala de aula, mas, mais que isso abrir-se para o novo e reunir energias para esse trabalho crítico e criativo nas escolas (Ladriere in Morin, 2013).
2.3 As observações e registros de Maria Sibylla Merian: relações de ensino-