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2 CIÊNCIA, COMPLEXIDADE E APRENDIZAGEM: um diálogo entre Edgar Morin e Pedro Demo

2.2 O pensamento complexo e sua relação com o conhecimento

Morin conceitua como complexo tudo aquilo que não pode ser resumido numa palavra-chave, o que não pode ser reduzido a uma lei ou ideia simples, pois não se poderia fazer da complexidade algo que se definisse de modo simples e ocupasse o lugar da simplicidade, posto que “a complexidade é uma palavra- problema e não uma palavra-solução” (MORIN, 2007c, p.6).

Diz ainda que, para, de fato, se compreender o que é complexidade, é preciso, antes, desfazer duas ilusões que desviam as mentes do problema do pensamento complexo: a primeira é a ilusão de crer que a complexidade conduz à eliminação da simplicidade. Apesar de, verdadeiramente, surgir onde o pensamento simplificador falha, ela não tem o objetivo de desintegrar uma simplificação que se crê reflexo do real, pois o pensamento complexo é um pensamento integrador, inclusive dos modos simplificadores de pensar.

A segunda ilusão é aquela que confunde a complexidade com a completude. Apesar de o pensamento complexo ambicionar articular os campos disciplinares que são separados pelo pensamento disjuntivo, ele não intenciona dar conta da totalidade, pois entende que esta mutila as singularidades pelo seu caráter determinado26, e por compreender que o conhecimento completo é impossível.

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Morin (2007a, p.51) diz que a transdiciplinaridade “se caracteriza geralmente por esquemas cognitivos que atravessam as disciplinas, por vezes com uma tal virulência que as coloca em transe”. Moraes e Suanno (2014, p.9), por sua vez, explicitam melhor o conceito dado por Morin: “A transdiciplinaridade é um princípio epistemo-metodológico constitutivo dos processos de construção do conhecimento e que nos ajuda a superar as barreiras disciplinares na tentativa de compreender o que está mais além dos limites estabelecidos ou das fronteiras conhecidas. Um princípio que requer que nosso pensamento vá além dos aspectos cognitivos, baseados no desenvolvimento de competências e habilidades e embarque também no mundo emocional, intuitivo e espiritual do sujeito, para que o processo educacional possa verdadeiramente ecoar na subjetividade dos educandos e promover a evolução de sua consciência”.

26“A categoria de totalidade significa “[...], de um lado, que a realidade objetiva é um todo coerente

em que cada elemento está, de uma maneira ou de outra, em relação com cada elemento e, de outro lado, que essas relações formam, na própria realidade objetiva, correlações concretas, conjuntos, unidades, ligados entre si de maneiras completamente diversas, mas sempre determinadas” (grifo nosso) (LUKÁCS apud CARVALHO, E., 2007, p.179), ou seja, não há lugar para o acaso e a desordem.

Também, afirma Morin (2007c) que a complexidade não pretende explicar tudo, nem mesmo qualquer coisa. Ela é uma atitude de quem coloca para si mesmo o desafio de estar sempre buscando o que falta para a elucidação de algum fenômeno. “É o pensamento capaz de reunir (complexus: aquilo que é tecido conjuntamente), de contextualizar, de globalizar, mas ao mesmo tempo, capaz de reconhecer o singular, o individual, o concreto” (MORIN, 2000b, p.207), ou seja, traz a possibilidade de pensar o ser em si, na sua relação com o mundo, do mundo com o mundo, e do ser com o ser (FRANCELIN, 2005), como ele mesmo afirma:

[...] meu direcionamento: é um movimento de duas frentes, aparentemente divergentes, antagônicas, mas, a meu ver, inseparáveis: trata-se, é verdade, de reintegrar o homem entre os seres naturais para distingui-lo neste meio, mas não para reduzi-lo a este meio. Trata-se, por consequência, ao mesmo tempo de desenvolver uma teoria, uma lógica, uma epistemologia da complexidade que possa convir ao conhecimento do homem. Portanto o que se busca aqui é ao mesmo tempo a unidade da ciência e a teoria da mais alta complexidade humana (MORIN et. al., 2007b, p.17).

Assim, a complexidade parte do conhecimento para estudar o próprio conhecimento. Conhecer e pensar os limites do próprio conhecimento, para Morin, é essencial, já que o conhecimento não reflete o mundo objetivo, mas o traduz, o constrói, uma vez que a produção, a reprodução e o desenvolvimento do conhecimento fazem parte de um processo constante: construir-desconstruir- construir no universo do próprio conhecimento (FRANCELIN, 2005), na busca de reintegração do todo.

Implica, então, numa nova forma de pensar a realidade. No entanto, Morin (MORIN et.al., 2007) afirma que o pensamento complexo não é uma nova lógica. Ele precisa da lógica aristotélica27, mas, por sua vez, precisa transgredi-la, até porque ela também é pensamento. E complementa:

Ao ser paradigmaticamente dialógico, o pensamento complexo põe em evidência outros modos de usar a lógica. Sem rejeitar a análise, a disjunção ou a redução (quando for necessária), o pensamento complexo rompe a ditadura do paradigma de simplificação. Pensar complexo torna-se pertinente quando nos defrontamos (quase sempre) com a necessidade de articular, relacionar, contextualizar. Pensar de forma complexa é pertinente

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“A lógica aristotélica é um instrumento que antecede o exercício do pensamento e da linguagem, oferecendo-lhes meios para realizar o conhecimento e o discurso. [...] a lógica (ou analítica) é um instrumento para o conhecer. [...] A lógica aristotélica oferece procedimentos que devem ser empregados naqueles raciocínios que se referem a todas as coisas das quais possamos ter um conhecimento universal e necessário, e seu ponto de partida não são opiniões contrárias, mas princípios, regras e leis necessárias e universais do pensamento” (CHAUÍ, 1995, p.182). Uma das transgressões a que Morin se refere é a do silogismo científico, que não admite premissas contraditórias.

quando se tem necessidade de pensar. Daí decorre que não se pode reduzir o real nem à lógica nem à ideia. Não se pode nem se deve racionalizar. Buscamos sempre ultrapassar o que já é conhecido (MORIN et. al., 2007b, p.38).

Neste sentido, Morin compreende que é preciso conhecer a partir do mesmo, ou seja, do já conhecido, uma vez que o conhecimento precede a realidade. Assim, ele propõe a análise dos “instrumentos” de produção do conhecimento, os instrumentos neurocerebrais (FRANCELIN, 2005). E começa pelo pensamento. Para ele, pensar é:

[...] construir uma arquitetura das ideias, e não ter uma ideia fixa. [...]Pensar é reconhecer a validade e situar no mesmo plano a ideia antagônica ou contrária e a ideia poética e genial. As chaves da abóboda do pensamento surgem do encontro de fantásticas pressões antagônicas (MORIN et. al., 2007b, p.38).

Pedro Demo (2002a, p.44), concordando com Morin, acrescenta:

[...] ”Saber pensar” não é somente ver a lógica das coisas, exarar raciocínios formais corretos, mas principalmente surpreender lógicas onde aparentemente não haveria, pensar flexivelmente para dar conta da realidade flexível, decifrar o que é ambíguo e contraditório, ordenar a importância de elementos embaralhados numa situação, encontrar similaridades ou diferenças onde parece não haver, reconstruir o conhecimento anterior e formular perspectivas inovadoras.

É, então, por meio do pensamento, que se articulam as ideias e que se pode chegar ao conhecimento. E o conhecimento no pensamento complexo não é neutro. É político. Até porque, para Morin (2007a, p.58), “Um conhecimento só é pertinente na medida em que se situe num contexto”. Nessa linha, Demo (2002a, p.43) afirma que conhecer “é, profundamente, revoltar-se, confrontar-se, não aceitar as coisas como estão, pretender para além do razoável, usar a razão para implodir seus próprios limites”.

Assim, Morin (2012, p.20) defende uma reforma do pensamento. Afirma que o paradigma dominante é um paradigma de disjunção e de redução, no qual o homem, por exemplo, é estudado de maneira fragmentada. Na universidade, estuda- se o cérebro em um departamento, e a mente em outro departamento, sem jamais criar laços. Já o pensamento complexo se fundamenta sobre a distinção, a conjunção e a implicação mútua. Cérebro e mente estão ligados reciprocamente. E complementa:

[...] O espírito (mind) só pode emergir a partir de um cérebro situado no interior de uma cultura, assim como o cérebro só pode ser reconhecido por uma mente. Como sabemos, as transformações bioquímicas do cérebro

afetam a mente, e esse fato pode desencadear doenças ou curas psicossomáticas no próprio cérebro (MORIN, 2007a, p.68).

Afirma, então, que é preciso mobilizar o todo, apesar de considerar ser difícil, aliás, impossível, conhecer tudo no mundo, bem como apreender suas transformações multiformes. Mas, por mais difícil que seja, evidencia que se deve perseguir o conhecimento dos problemas-chave do mundo, sob pena da imbecilidade cognitiva, ainda mais que o contexto dos conhecimentos político, econômico, antropológico, ecológico, constitui o próprio mundo. Eis aí o desafio que apresenta a todo cidadão: como adquirir a possibilidade de articular e organizar as informações sobre o mundo? Por meio de uma reforma do pensamento, no qual o ser preceda o conhecer! (MORIN, 2000c).

A inteligência, então, é fundamental nesse processo. Morin (2007b; 2011a) diz que, na “falsa racionalidade” ou “racionalização”28, a inteligência parcelada, compartimentada, mecanicista, disjuntiva, reducionista, quebra o complexo do mundo em fragmentos disjuntos, fracionando os problemas, separando aquilo que está unido, unidimensionalizando o multidimensional. É uma inteligência que, na maioria das vezes, acaba cega, porque destrói no embrião todas as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando também todas as chances de um julgamento correto, ou de uma visão a longo prazo.

E, para Morin (2011a), é justamente daí que resultam os inúmeros erros de percepção e intelectuais, pois o conhecimento não é um espelho do real; assim, nem tudo que vemos é o que vemos, bem como as nossas palavras, ideias, teorias, são frutos de uma tradução/reconstrução do real, realizada por meio do pensamento e da linguagem que, consequentemente, está sujeita ao erro. Há ainda a influência das emoções, como raiva, medo, perturbações mentais etc. que multiplicam os riscos de erro.

Demo (2002a, p.42), então, afirma: “Resta a impressão de que nosso cérebro, bem como o aparato biológico em geral, está melhor evoluído para desenhar cenários de ordenamento da realidade, mais do que para aventurar-se em horizontes caóticos, de sentido mais criativo”. No entanto, como vivemos em um contexto difuso, confuso, aproximativo, vez que não temos a devida exatidão das coisas, é primordial saber lidar com a imprecisão da melhor forma possível. E isso é

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Para Morin (2011a, p.22), “A racionalização crê-se racional, porque constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se à contestação de argumentos e à verificação empírica”.

possível, vez que uma referência fundamental da inteligência é a sua flexibilidade ilimitada, o que lhe permite se sair bem em contextos complexos e difusos.

Assim, apesar de, biologicamente, nosso cérebro utilizar uma tendência padronizante de captar a realidade, que busca as linearidades e as regularidades como tática de sobrevivência, ele tem uma outra face: a capacidade de perscrutar para além das aparências. Nesse sentido, a captação de regularidades não implica, necessariamente, reduzir a realidade a recorrências lineares. O senso padronizador, então, serviria apenas como porta de entrada (DEMO, 2005b; DEMO, 2002a). Morin (2011b, p.108) acrescenta:

Nosso conhecimento, tal como ele se exprime por meio de palavras, de conceitos, de linguagens, é finito e limitado. Não obstante, esses sistemas limitados não são completamente fechados, pois contêm em si uma brecha de incerteza. Não sabemos até onde pode ir o crescimento, até onde pode ir a humanidade, até onde pode ir o conhecimento.

Logo, é a atividade racional da mente que é corretiva do erro, uma vez que permite a distinção entre vigília e sono, imaginário e real, subjetivo e objetivo, por meio do controle do ambiente, da prática, da cultura, do próximo, cortical. A racionalidade é, assim, a melhor proteção contra o erro e a ilusão, posto que não é doutrina que obedece a um modelo mecanicista e determinista para considerar o mundo.

A verdadeira racionalidade é aberta por natureza; dialoga com o real; opera com o ir e vir incessante entre a lógica e a empiria; é fruto de um debate de ideias e não de um sistema de ideias; conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não é onisciente, que a realidade comporta mistério; negocia com a irracionalidade, com o obscuro, com o irracionalizável; é não só crítica, mas autocrítica; é capaz de identificar suas insuficiências (MORIN, 2011a).

No entanto, a racionalidade não é uma qualidade relegada apenas aos cientistas e técnicos, muito menos algo próprio da civilização ocidental. É uma qualidade da inteligência humana, que está presente, portanto, em qualquer sociedade, na cultura, na religião, nos mitos...“Começamos a tornar-nos verdadeiramente racionais quando reconhecemos a racionalização até em nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o mito de nossa razão todo-poderosa e do progresso garantido” (MORIN, 2011a, p.23), visto que a racionalidade “é o jogo, o diálogo incessante entre o nosso espírito que cria

estruturas lógicas, que as aplica sobre o mundo e que dialoga com o mundo real.” (MORIN, 2007a, p.70).

Assim, a inteligência, para Morin (2000b) é a capacidade (que é ao mesmo tempo ação e resultado) de representar uma situação e de elaborar os programas de ajustamento (hipóteses e estratégias), entre os quais há possibilidade de escolha, o que permite o exercício da autonomia.

Demo (2005b, p.7) afirma que a inteligência é menos a capacidade de lidar com a certeza do que saber sobreviver no mundo incerto. Neste sentido, “É fundamental saber questionar, pesquisar, para dar conta de contextos e referências não sabidas, reinterpretar o que já conhecemos, aprender dos outros sem se submeter”, até porque, “o conhecimento progride não tanto por sofisticação, formalização e abstração, mas, principalmente, pela capacidade de contextualizar e englobar” (MORIN, 2012, p.15).

Neste sentido, ser inteligente é estar atento às situações de incerteza, de insegurança, e saber, por meio da elaboração de estratégias inteligíveis, conviver em meio aos problemas contemporâneos, de maneira a estar sempre na busca pelo conhecimento que permita sobreviver em condições adversas, para que as escolhas sejam autônomas, porque conscientes.

E Morin (2000b, p.209) complementa: “Desse modo, o propósito do pensamento complexo é simultaneamente reunir (contextualizar e globalizar), revelar o desafio da incerteza”. Apresenta, então, alguns princípios-chave para a reforma do pensamento:

O princípio sistêmico ou organizacional, que inclui dois princípios fundamentais: o princípio da emergência, que diz que o todo é superior à soma das partes, no qual surgem as propriedades emergentes. Um exemplo é que, do diálogo que se estabelece em um determinado grupo, surgem, ou emergem ideias novas, que antes não haviam ocorrido aos participantes; o princípio da imposição, no qual o todo é inferior à soma de suas partes. Assim, as qualidades ou propriedades das partes, quando consideradas separadamente, diluem-se no sistema. Um exemplo é o de uma orquestra, em que, na melodia, os instrumentos musicais se completam harmonicamente, não sendo percebidos em sua individualidade (MORIN, 2011c; SOMMERMAN, 2004).

O princípio dialógico, fundamentado na associação de ideias que são, ao mesmo tempo, complementares, concorrentes e antagônicas, no entanto,

indissociáveis para a compreensão de uma dada realidade (MORIN, 2007a; 2011a; MORIN; LE MOIGNE, 2000b; MORIN et. al., 2007b). Assim, esse princípio, segundo Morin, deve sempre conceber uma dialógica ordem/desordem/organização na análise dos fenômenos, pois esta permite assumir, de forma racional, a associação de ações contraditórias no interior desses fenômenos. É possível, então, perceber em seres separados e autônomos suas continuidades inseparáveis (MORIN; LE MOIGNE, 2000b). “O princípio dialógico nos permite manter a dualidade no seio da unidade” (MORIN, 2007c, p.74).

O princípio do círculo recursivo é um círculo gerador, no qual os produtos e os efeitos são, ao mesmo tempo, produtores e causadores daquilo que os produz. Morin (MORIN; LE MOIGNE, 2000b, p.210) exemplifica: “os indivíduos humanos produzem a sociedade em e pelas suas interações, mas a sociedade, enquanto emergente, produz a humanidade desses indivíduos, trazendo-lhes a linguagem e a cultura”. A ideia de recursividade rompe com a relação linear de causa/efeito, produto/produtor, estrutura/superestrutura, já que tudo o que é produzido volta-se sobre o que o produz em um ciclo auto construtivo, auto organizador e autoprodutor (MORIN, 2007c).

O princípio hologramático traz em si a ideia de que não apenas a parte está no todo, como o todo está nas partes. E ele explica que, num holograma físico, o menor ponto de imagem do holograma contém quase a totalidade das informações do objeto apresentado. Assim, na parte há as qualidades emergentes do todo. E exemplifica: “Desse modo, cada célula é uma parte de um todo – o organismo global -, mas o todo está na parte; a totalidade do patrimônio genético está presente em cada célula individual [...]” (MORIN; LE MOIGNE, 2000b, p.201).

Por meio desses princípios é possível se fazer a reforma do pensamento, para que, através do pensamento complexo, possamos estar aptos a reunir, contextualizar, globalizar, mas, ao mesmo tempo, conceber o singular, o individual e o concreto. E como este pensamento não se reduz nem à ciência, nem à filosofia, visto que é um pensamento comunicativo, pode ser utilizado tanto para os problemas organizacionais, quanto sociais ou políticos. Mas, principalmente por ser um pensamento que visa à compreensão existencial da humanidade e dos humanos entre si, tem um papel fundamental na contextualização de uma educação que rompa com a perspectiva reducionista de conceber a realidade.

Vejamos, então, como podemos conceber o processo de aprendizagem sob o prisma do pensamento complexo, a fim de podermos compor, efetivamente, uma proposta de reforma do pensamento.