5. O INTERVENTOR: AURELINO LEAL
5.2 O pensamento constitucional de Aurelino Leal
LEAL
Aurelino Leal foi professor de direito constitucional e ministrou palestra no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sobre história constitucional brasileira. Tal palestra foi posteriormente
384
LEAL, 1968, P. 425. “Um dia recebeu um recorte de jornal com a notícia de nomeações de médicos para delegados de Higiene no Estado. Um dos nomes vinha assinalado a lápis vermelho, com a informação, do próprio punho do Presidente: ‘são nilistas. A. B.’”.
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LEAL, HAMILTON. Aurelino Leal: sua vida, sua época, sua obra. Rio de Janeiro: Agir editora, 1968, P. 425.
386 LEAL, 1968, P. 426. 387 LEAL, 1968, p. 434-40. 388 LEAL, 1968, P. 446.
publicada como livro, que narra o momento que vai do processo de independência à proclamação da República389.
Em 1914, é publicado o livro Técnica constitucional brasileira, de Aurelino Leal390, com a transcrição do discurso que realizou ao se tornar membro do Instituto dos Advogados Brasileiros. Nessa obra, alguns dos posicionamentos de Aurelino Leal se tornam mais evidentes, como, por exemplo, sua opção por uma revisão constitucional conservadora.
A princípio, o autor afirma que não lhe repugnava a ideia de revisão constitucional391. Nesse sentido, Aurelino Leal se contrapunha a outros juristas que se colocavam radicalmente contra qualquer proposta de alteração da constituição392. No entanto, Leal expôs que o preocupava a ideia de modificá-la naquele momento histórico que atravessavam, provavelmente se referindo à instabilidade política nos cenários nacional e internacional393.
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LEAL, 1915.
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O livro é dedicado ao comendador Augusto José Ferreira, um comerciante, negociador de café, que chegou a ter grande fortuna, mas que a perdeu em uma das crises da economia brasileira à época. Seu filho, Manuel José Ferreira, casou-se com a filha de Aurelino Leal, Ruth Bittencourt Leal Ferreira. Um dos filhos do casal, Aurelino Augusto Leal Ferreira, segundo relato de seu irmão publicitário Sérgio Ferreira, nasceu no palácio do Ingá, quando Aurelino Leal lá trabalhava durante o período em que foi o interventor no Estado do Rio de Janeiro. FERREIRA, 2005, p. 1-3.
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“A mim não me repugna, em teoria, a ideia da revisão constitucional. Afinal, as leis são um meio prático e indispensável de precisar situações, de regulá-las, de mantê-las em harmonia e equilíbrio. E logo que se reconheça a insuficiência do mecanismo atual, é preciso modificá-lo ou substituí-lo”. LEAL, 1914, p. v- vi.
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Como o jurista conservador Viveiros de Castro que era contra a alteração da Constituição de 1891 (cf. CONGRESSO JURÍDICO BRASILEIRO, 1909).
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A sucessão de Hermes da Fonseca foi bastante conturbada até que Wenceslau Braz surgiu como alternativa conciliatória (cf. VISCARDI, 2012, pp. 207-224). Já no cenário internacional, estourou a primeira guerra mundial, gerando-se um ambiente de apreensão quanto às repercussões do conflito bélico. Expôs Aurelino Leal que: “Mas muito me preocupa uma obra de revisão constitucional no Brasil; e, às vezes, pergunto a mim mesmo se não seria mais prático e mais prudente deixar a constituição como está, do que expô-la aos perigos de uma modificação no momento histórico que atravessamos. Tenho medo do egoísmo dos homens, e a política, evidentemente, está reduzida a uma
A partir dessa argumentação, o resultado é um posicionamento desfavorável à revisão. Não obstante, Aurelino Leal se aprofunda no restante do livro naquilo que ele chama de “erros de técnica legislativa” da Constituição, lançando sugestões para alterar o texto. A posição do jurista, portanto, era como que a favor de uma revisão moderada, que ocorresse no momento oportuno, de modo a corrigir os “grandes lapsos de fundo e de forma” da Constituição de 1891:
Nenhum estatuto é mais suscetível de ser organizado às pressas e sob emoções mais perturbadoras da serenidade moral do que uma constituição (...) Sendo, como é, um ato realizado em momentos de grandes transformações políticas, toda a lei constitucional está exposta ao vasto grau de emotividade que as caracteriza, com um cortejo de consequências lamentáveis394.
Cabe observar, no trecho acima, a concepção do autor a respeito do processo constituinte. Para ele, o momento constituinte, de grandes transformações jurídicas e de grande emotividade, não é propício para a elaboração de estatutos jurídicos com o devido cuidado395. Críticas semelhantes são direcionadas à atividade parlamentar.
Aurelino Leal parece seguir toda uma tradição do direito constitucional do século XIX que tem receio do “risco democrático” e que, por isso, se afasta ao máximo da ideia de poder constituinte396. Há um medo da vontade popular, que pode significar atividade de egoístas. É um país onde a opinião pública é ainda uma incógnita, onde os detentores do poder vivem em franca liberdade de ação e de movimentos sofrendo, de raro em raro, o contraste da imprensa, única força que, uma ou outra vez, os faz recuarem, reformar uma constituição é um trabalho, tão importante, tão delicado, que os nossos hábitos, as nossas paixões, os nossos prejuízos me reduzem a um estado, que se não é de terror é de dúvidas as mais penosas a respeito do problema revisionista”. LEAL, 1914, p. vi.
394
LEAL, 1914, p. 13.
395
LEAL, 1914, pp. iii-v.
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transformação da ordem estabelecida. Aurelino Leal ainda apresenta uma crença no domínio da razão, em contraponto à “emotividade” relacionada ao povo e aos períodos de instabilidade.
A última publicação de Aurelino Leal é o livro Theoria e Prática da Constituição Federal Brasileira. Os escritos eram pra ser, na verdade, uma atualização da obra Commentarios à Constituição Federal Brasileira de João Barbalho, um clássico do direito constitucional à época. No entanto, a tarefa de atualizar a obra, empreendida desde 1912, sofreu obstáculos como, por exemplo, sua atuação como chefe de polícia a qual lhe demandava muito tempo.
De acordo com os editores, logo após a mensagem de Arthur Bernardes ao congresso sugerindo a revisão constitucional, decidiu-se que o livro seria publicado de qualquer forma, para que a edição pudesse contribuir para o debate a respeito da revisão. A morte de Aurelino Leal em junho de 1924 também impediu a continuidade da produção de um comentário completo à Constituição397.
No trecho do livro que aborda a questão da intervenção federal, Aurelino defende a autonomia estadual e afirma que não haveria um direito geral de intervenção, mas sim, da parte da União, um dever de não intervenção398. No entanto, ao tratar da discussão sobre a existência ou não da figura constitucional do interventor, Aurelino foi enfático ao defendê-la como um “poder implícito” contido na Constituição. Assim, a leitura do artigo 6º, que deveria ser feita com todo o cuidado de modo a garantir o não-intervencionismo, passa a conter um “poder explícito”, justificável apenas com base na doutrina dos juristas:
A nossa Constituição permite a nomeação de interventores, representando e agindo pelo governo federal nos Estados? A resposta não parece difícil, a despeito do silêncio da Constituição. De fato, o direito excepcional do governo federal de nomear interventores para os Estados a que se haja de aplicar o art. 6º da lei fundamental brasileira, pode ser sustentado como
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LEAL, 1925, p. ix.
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um poder implícito e como uma conseqüência dos fatos399.
Em sua doutrina, Aurelino Leal defendeu que a dificuldade não seria circunscrever a ação federal do interventor, mas sim limitar sua competência em relação ao governo do estado. O interventor não poderia praticar todo e qualquer ato que a Constituição do Estado atribuísse ao Chefe do Executivo estadual, devendo antes de mais nada exercer atos de conservação400. No entanto, Aurelino Leal argumentou também que o interventor não deveria ser indiferente ao progresso do estado: “Dentro do orçamento em vigor, utilizando suas verbas e suas autorizações de crédito, ele deve executar obras e realizar utilidades gerais que num governo normal o presidente também executaria”401
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