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O pensamento gramsciano: contexto e reflexões

No documento JAQUELINE FERREIRA (páginas 86-89)

Gramsci foi um revolucionário profissional36 desde 1916 até 1937 (ano em que faleceu). Durante todo esse período insistiu na necessidade de uma transformação revolucionária da sociedade por meio da derrota do Estado capitalista.

As experiências históricas de Gramsci, em relação à sociedade capitalista na década de 1920, ocorreram num contexto em que a classe proletária precisava se mobilizar para a formação de uma consciência crítica a partir da realidade vivenciada em direção ao socialismo. E ainda hoje, conforme Arend (2011) deixa transparecer as deficiências da sociedade quanto à educação a serviço do capitalismo.

As contribuições de Gramsci são alicerçadas em sua atuação no movimento político italiano e registradas no cárcere. Sua preocupação com a educação é precedida pela análise profunda sobre a política, filosofia e história para a educação. Além disso, discutiu e apresentou propostas para que a escola pudesse se tornar provedora de cultura e espaço de desenvolvimento da consciência política crítica. Suas teorias fundamentavam os projetos socialistas de transformação social, em que a educação se mostrava uma dimensão estratégica na luta pela transformação da sociedade.

Entre as razões da censura do pensamento de Gramsci estava o fato de que ele não se encaixava no mito estalinista37. Após sua morte em 27 de abril de 193738, como consequência de maus tratos, Gramsci, conforme Harman (2012) sofreu outros ultrajes, entre os quais, a

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Gramsci conseguiu expressar de forma completa e efetiva a necessidade da revolução proletária para colocar um ponto na exploração do trabalhador. À sociedade caberia o papel de criar um movimento revolucionário e romper com a exploração do proletariado. Ao apresentar essas necessidades mostrou ser um profissional capaz de revolucionar a história das sociedades.

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Josef Stalin - ditador russo que comandou a União Soviética (Oposição de esquerda), de1922 até 1953.

38 Gramsci, grande opositor do fascismo de Benito Mussolini, foi preso em 1926 até 1934, libertado devido a

distorção39 de suas ideias por parte daqueles que não simpatizavam com seus princípios socialistas revolucionários.

Simionatto (1997) atribui a Gramsci a característica de pensador marxista, com uma visão crítica e histórica dos processos sociais que perpassa sua obra. Sob a ótica gramsciana (pensamento dialético com base na perspectiva da totalidade e da historicidade), o marxismo é tomado como método de análise concreta do real em suas diferentes determinações; ao debruçar-se sobre a realidade (vista como totalidade) revela as contradições e reconhece sua construção por mediações, processos a estruturas. Numa análise que parte da multiplicidade de significados, Gramsci traz à tona os antagonismos e contradições envolvidos no conjunto de relações que constituem o ser social, percebido sob um olhar crítico que considera a historicidade do social.

Cabe ressaltar que a reflexão gramsciana acerca do social e do político é transpassada pelo princípio da totalidade. Essas duas áreas não são tratadas separadas do fator econômico (relação entre infraestrutura e superestrutura – temática tratada na sequência deste estudo). Além disso, as reflexões do autor evidenciam que os pressupostos teóricos do marxismo devem permanecer como guias condutores de uma proposta revolucionária. Gramsci desenvolveu um processo de conservação/superação (ou revolução) a partir de Marx e Lênin ao perceber a complexidade da ordem capitalista40.

Enquanto crítica da política, a reflexão teórica do pensador italiano trabalha o real a partir de categorias que se elevam do abstrato ao concreto, da aparência à essência, do singular ao universal, e vice-versa. Sua reflexão categorial vai apreendendo a processualidade e a historicidade do social, o jogo das relações que permite desvendar a realidade e suas contradições constitutivas (SIMIONATTO, 1997, p. 2).

39 O primeiro período de distorção das ideias de Gramsci ocorreu logo após sua morte quando o líder stalinista

do Partido Comunista Italiano (PCI), Palmiro Togliatti, tinha em seu poder os Cadernos do Cárcere e, durante dez anos os privou de publicação (SIMIONATTO, 1997).

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As transformações no cenário social, econômico e político da Itália entre os séculos XIX e XX demarcam bem o campo de análise cujo centro é o modelo de sociedade desigual que emerge após a unificação italiana, marcada pela política de modernização conservadora assumida pelo Estado. A inserção do país na era do capitalismo e sua participação no circuito da economia europeia indicam, também, a unificação das elites econômicas, a fim de assimilar as novas exigências do mercado internacional, o que não ocorre sem privilégios e concessões do Estado. Os reflexos da nova política econômica atingiram também o plano social e político. A ideologia do favor comandava as relações entre o Estado e a classe burguesa, pois o poder daquele "preocupou- se apenas com o desenvolvimento, mesmo doentio, do capital industrial: proteções, prêmios, favores de todo tipo e de toda medida (...). O poder do Estado defendeu de maneira selvagem o capital financeiro" (GRAMSCI, 1954: 77 apud SIMIONATO, 1997, p. 4).

A preocupação demonstrada incessantemente no pensamento de Gramsci diz respeito à construção de um novo projeto civilizatório capaz de superar as dificuldades e vencer os desafios da modernidade, em busca da construção de uma democracia (de baixo para cima), econômica, política e social. Seu pensamento crítico se mostra comprometido com a realidade assinalada por processos de exclusão social, antagonismos e diferenças sociais, cuja direção é imposta por normas tradicionais e conservadoras, pelo instituído e por leis injustas, utilizadas, quase sempre, para manter os privilégios.

Como resultado da nova ordem econômica, o projeto de sociedade ampliava as relações de exploração e subordinação das classes enfatizando o surgimento do capitalismo sob intenso processo de exclusão. Enquanto as classes subalternas eram excluídas de qualquer forma de cidadania, fortalecia-se a acumulação interna do capital e esboçava relações sociais capitalistas para dinamizar a economia sob o baluarte do capital industrial numa dimensão ilusória de elevação social. Simionatto (1997, p. 4) complementa “posto em marcha por vias sinuosas, o crescimento econômico aprofundou as contradições já existentes, desencadeou novos conflitos sociais e marginalizou a participação popular”.

O pensamento de Gramsci se espalhou pelo mundo, disseminado pela ideia de revolução contra a ordem das coisas e em defesa do desenvolvimento de uma reflexão radical sobre o capitalismo, o poder público e a opressão.

Diante do exposto e entendido que o assunto é extensivamente amplo e que não se pode dar conta do mesmo em tão poucas páginas, mas que o exposto é suficiente para o propósito ao qual se destina, parte-se então da compreensão, de que para Gramsci, as transformações tão almejadas estariam nas mudanças de comportamento, um modo de pensar e agir diferentes, um movimento intelectual capaz de difundir novas concepções de mundo elevando a consciência civil das massas populares proporcionando-lhes suportes para sair da condição de subalternos. Nesse âmbito, a educação é definida por Gramsci como o caminho que vai além da formação para a cidadania, é um aporte para superação do senso comum e a formação do pensamento filosófico.

O assunto tratado a seguir consta do desenvolvimento de uma nova forma de organização das bases materiais de produção e das relações sociais de Gramsci (2001b), a que ele denomina “Americanismo e Fordismo”; ressalta questões político-ideológicas que colaboraram para construir a hegemonia deste paradigma, pela utilização de mecanismos de coerção e consenso junto à classe trabalhadora.

No documento JAQUELINE FERREIRA (páginas 86-89)