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4.1 O PENSAMENTO REFLEXIVO E A IMPLEMENTAÇÃO DE MUDANÇAS

4.1.1 O pensamento reflexivo: Dialogando com John Dewey

Uma idéia central a ser trabalhada nesta discussão é a de que as inconsistências entre o que os professores declaram fazer e o que eles fazem estão de alguma forma relacionadas às inconsistências entre as formas como eles pensam sobre suas ações e as realizam na prática.

Em resumo, estou abordando a relação entre o pensamento e ação docente durante o ensino. Este tema tem em Dewey (1979) um importante marco teórico, sob o qual pude sustentar que, se os professores mudam os propósitos educacionais pelos quais esperam ensinar durante as suas ações de sala de aula, este processo tem uma natureza reflexiva.

Segundo este autor, para se compreender as bases sobre as quais uma ação é desenvolvida, uma perspectiva seria a de tratar o pensamento como uma “crença” e o pensar como um ato de crer. Da leitura que faço de Dewey (1979), entendo que as ações são sustentadas pelas crenças que os sujeitos têm sobre as situações onde agem.

Por outro lado, o pensamento pode ser também compreendido como “reflexão” e o pensar como um ato de refletir. Dewey (1979) sustenta que a crença e a reflexão são duas formas de pensar importantes, mas argumenta que a reflexão é a melhor forma de se pensar, pois esta prevalece sobre a crença pelo fato de que no ato de se pensar reflexivamente o que se crê é posto a prova:

“Assim, reflexão subentende que se crê (ou não se crê) em alguma coisa, não por causa dela própria e sim por intermédio de alguma outra que lhe sirva de testemunho, evidencia, prova, documento, garantia, em suma de fundamento da crença.” (Dewey, 1979: 21)

Pela leitura que faço de Dewey (1979), entendo que o pensamento reflexivo leva o sujeito a estar ativa e cuidadosamente examinando quaisquer crenças, concepções ou outras formas de conhecimentos; às quais recorre para desenvolver suas ações verificando e raciocinando sobre as argumentações e conclusões usadas para sustentá-las. Um critério razoável para identificar as situações quando o pensamento reflexivo opera pode ser obtido a partir do que Dewey (1979) definiu como as fases do ato de pensar reflexivo:

Um estado de dúvida, hesitação, dificuldade mental, o qual origina o ato de pensar e um ato de pesquisa, procura, inquirição, para encontrar material que resolva a dúvida, assenta e esclareça a perplexidade” (Dewey 1979:22).

Dewey (1979) ainda sugere um modelo para se analisar o ato de pensar reflexivo. Segundo ele, a atividade reflexiva pode ser delimitada em três momentos: pré-reflexão, o ato de reflexão e a pós-reflexão. A pré-reflexão delimita o início do processo onde uma situação problemática se apresenta para ser resolvida e respondida; é na pré-reflexão que o processo é desencadeado.

No outro extremo encontra-se o momento da pós-reflexão, em que o sujeito experimenta um estado de domínio e satisfação sobre a situação problemática. Entre estes dois limites opera o próprio ato de reflexão que prescinde de algumas condições para ocorrer. Neste trabalho, estas condições são entendidas e usadas como um modelo para o pensar reflexivo, que não é seqüencialmente fixo ou pré-estabelecido.

Sugestão: O ato de levantar dúvidas e ficar perplexo diante de uma situação de

natureza real que não está ainda determinada;

Intelectualização: A busca por uma interpretação dos dados e informações obtidos

que podem gerar conseqüências;

Hipótese: Um exame, exploração e análise das condições e circunstâncias que leva a

uma definição clara do problema;

Racionalização: A construção de uma hipótese que se sustenta pelas respostas que

oferece ao problema de modo a se permitir seu estudo de forma relativamente precisa e ampla;

Verificação na ação: As deliberações realizadas no sentido de verificar, testar e

comprovar a eficácia da hipótese.

A verificação na ação é ressaltada por Dewey (1979) como uma condição para se analisar um pensamento reflexivo que não deve ser confundida como a própria realização da ação. Ele enfatiza que verificar na ação é averiguar as possíveis soluções para um problema, experimentando-as pela ação. Para este autor, a verificação das soluções encontradas quando não é distinguida da realização da ação, leva a aplicação das soluções a deliberações práticas, enquanto a verificação pela ação legítima, trata os atos exteriores como experimentais.

melhor forma de pensar é esta capacidade de nos deslocarmos através de uma situação problemática passada para uma situação futura onde se projetam soluções. Este deslocamento permite a organização do conhecimento sobre novas bases ou a re-estruturação das bases de conhecimento antigas, o que conseqüentemente leva o sujeito que reflete a uma aprendizagem.

Embora volte mais adiante a usar este modelo proposto por Dewey (1979) como uma análise do pensamento reflexivo de referência, neste momento o que me interessou foi apresentar uma revisão das idéias deste autor sobre o pensamento reflexivo. Algumas destas idéias apresentadas são centrais nesta pesquisa por tornarem-se os pressupostos a partir dos quais argumento que o processo pelo qual os professores implementam mudanças no currículo que ensinam tem uma natureza reflexiva.

Ao preocupar-me em investigar como os professores mudam seus propósitos educacionais, estou buscando realizar uma análise do processo de mudança pelo qual eles re- significam estes propósitos em sala de aula. O que estou procurando apresentar como pressuposto é que este processo pode ter uma natureza reflexiva que levaria um professor a agir de forma inconsistente entre o que declara com o ensino que pretende desenvolver.

A partir de Dewey (1979) entendo que as crenças que um professor tem sobre o ensino são a base para que ele desenvolva as ações em sala de aula no sentido de promover o que declara como propósitos educacionais. Se, conforme este autor, o pensamento reflexivo promove mudanças nessas crenças, então esta forma de pensamento promove mudanças na prática docente, que seriam inconsistentes com as crenças que o professor tinha antes de refletir. Conseqüentemente, suponho que as inconsistências entre o que os professores pensam e realizam seriam indícios de que alguma mudança em suas crenças tenha ocorrido por um processo de natureza reflexiva.

4.2 O conhecimento docente: os recursos cognitivos mobilizados na

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