• Nenhum resultado encontrado

O período de 1980 a 2009

No documento Download/Open (páginas 31-37)

A trajetória do currículo do Ensino Fundamental na RME, considerando- se o surgimento das ideias de Vigotski nas propostas pedagógicas do município, está relacionada com abordagens teórico-metodológicas já introduzidas na década de 1980, as quais argumentavam em torno de ações de intervenção na superação da exclusão social. Observa-se, então, que, nesse contexto, "a educação pública passa a ser alvo de críticas e de proposições no sentido de sua democratização, tanto no que toca à ampliação de vagas quanto ao resgate da qualidade da escola pública e ao combate do fracasso escolar" (GOIÂNIA, 2004b, p. 21). Eis como essa problemática aparece em

documento recente da SME – Proposta Político-Pedagógica para a Educação

Na década de 1980, observaram-se elevados índices de reprovação e de evasão escolar, o que motivou movimentos que apontassem alternativas para a “correção” dessa situação da escola pública brasileira. No âmbito municipal, Goiânia começa a confrontar esses índices e propor políticas públicas, bem como novas abordagens teórico-metodológicas para superar a situação de exclusão social (GOIÂNIA, 2016b, p. 97).

Em razão disso, ainda que o foco de análise desta pesquisa seja a Proposta pedagógica implantada em 2009 (Diretrizes Curriculares para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência – Ciclos de Formação e

Desenvolvimento Humano – 2009), a retrospectiva que se fará aqui inclui

alguns documentos básicos como: "Escola para o Século XXI" (GOIÂNIA, 1998); Proposta Político-Pedagógica para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência (GOIÂNIA, 2004b); Proposta Político-Pedagógica para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência (GOIÂNIA, 2008c), prorrogada até 2013.

Em 1985, uma importante medida no âmbito da alfabetização foi a proposta de Bloco Único de Alfabetização (BUA), que abrangia a alfabetização e a 1ª série. "A implementação dessa política apresentou-se como proposta para iniciar a escolarização dos educandos aos seis anos de idade e proporcionar um período de dois anos consecutivos para o processo de alfabetização" (GOIÂNIA, 2016b, p. 97). "Em relação às demais séries do Ensino Fundamental, foram formadas equipes pedagógicas, por área, para, em conjunto com os demais professores, elaborarem propostas de mudanças no currículo" (GOIÂNIA, 2009, p. 29).

Em 1992 houve a sistematização e produção dos Programas Curriculares de 1ª à 4ª e de 5ª à 8ª séries, "[...] das diversas disciplinas escolares, que continham em linhas gerais: apresentação, histórico, discussão sobre o papel da disciplina no Ensino Fundamental, princípios metodológicos e conteúdos por série" (GOIÂNIA, 2009, p. 29). Nas apresentações desses programas, era explicitado o compromisso "[...] de formar cidadãos para uma sociedade democrática" (GOIÂNIA, 2009, p. 29).

Em 1997 foi formada "[...] uma equipe multidisciplinar para elaborar e implantar um projeto para alunos em defasagem idade/série, com a constituição das salas de aceleração" (GOIÂNIA, 2009, p. 30). Havia um número bastante elevado de educandos nessa condição, o que colocou em

discussão a validade do próprio sistema educacional seriado, "[...] que enrijecia o ensino, favorecendo a reprovação e a evasão escolar" (GOIÂNIA, 2009, p. 30).

Avaliação apresentada no documento "Projeto Escola para o Século XXI" (1998), demonstrava que as escolas da RME de Goiânia enfrentavam problemas de:

[...] – repetência; – evasão em turmas que funcionam no período noturno; – alunos que não conseguem se alfabetizar; – falta de tempo para o professor se capacitar e planejar suas aulas; – dificuldades no processo avaliativo; – ausência de uma prática pedagógica mais voltada para as reais necessidades dos alunos; – necessidade de acompanhamento sistemático pela SME; – alunos sem histórico escolar e com condições de estudos mais avançados; – alunos que possuem desenvolvimento capaz de lhes garantir avanços extras aos sistemáticos; – alunos em defasagem idade/série (GOIÂNIA, 1998, p. 6-7).

Segundo ainda o referido documento, esses alunos em defasagem idade/série eram um problema para a escola, pois representava o fracasso escolar. Diz o documento:

Esses alunos em defasagem idade/série sempre constituíram um "problema" para a escola. Questões como discriminação, falta de interesse, indisciplina, agressividade, baixa “autoestima” são constantes na análise dos professores, sempre que se discute ou se avalia o fracasso escolar (GOIÂNIA, 1998, p. 32).

Para fazer frente a essa realidade, em 1998, teve início a implantação dos Ciclos de Formação nas escolas da Rede Municipal em Goiânia. Segundo as Diretrizes Curriculares para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência:

Diante desse fato (enrijecimento do ensino), o projeto assumiu uma dimensão mais abrangente, resultando na proposta de reestruturação do Ensino Fundamental em Ciclos de Formação, naquele momento, em quatro ciclos, de dois anos cada. Assim, em 1998, por meio do Projeto Escola para o Século XXI, inicialmente os Ciclos I e II foram implantados em 40 escolas da RME, e, em função do Bloco Único de Alfabetização, o Ciclo I foi implantado em todas as escolas (GOIÂNIA, 2009, p. 30).

A Proposta Político-Pedagógica (1998), segundo ainda as Diretrizes Curriculares para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência:

[...] apresentava as diretrizes para os dois primeiros ciclos, com a seguinte configuração: a) apresentação em forma de carta aos professores; b) discussão geral sobre formação humana, escola e cidadania, reformulação curricular e ensino-aprendizagem; c) reflexão sobre as áreas do conhecimento; princípios básicos do processo ensino-aprendizagem; e) organização em Ciclos de Formação; f) salas de aceleração; g) proposta de trabalho para o desenvolvimento do currículo subdividido em quatro itens: projeto temático, projeto de ação pedagógica, projeto de apoio didático e projeto de avaliação (GOIÂNIA, 2009, p. 30).

Havia uma perspectiva de integração curricular e a proposta pedagógica organizava os conteúdos por intermédio de um tema geral:

[...] cidade e cidadania, dividido em subtemas, em relação aos quais

são apresentados conceitos fundamentais e conteúdos

programáticos, com a finalidade de subsidiar as escolas e os professores na elaboração de projetos de trabalho, a partir de suas realidades (GOIÂNIA, 2009, p. 30, grifo nosso).

No segundo semestre de 1998, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (SINTEGO), foi realizado o "I Seminário de Avaliação da Rede Municipal de Ensino de Goiânia", do qual participaram cerca de 800 representantes das unidades escolares.

Conforme as Diretrizes Curriculares para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência: Ciclos de Formação e Desenvolvimento Humano (GOIÂNIA, 2009, p. 30), "desse seminário resultou uma proposta de avaliação que tinha por princípio ser mediadora, formativa e somativa, que possibilitaria aos educandos uma experiência escolar sem interrupções ou reprovações". O documento chama a atenção para o fato de se observar que "o caráter somativo da avaliação é dado pela percepção do desenvolvimento do aluno em

sua essência, em relação a si mesmo e não em relação aos outros – como

sumo (Escola Cidadã/Porto Alegre)" (GOIÂNIA, 2009, p. 30, grifo nosso).

Dando continuidade aos estudos e discussões acerca dos Ciclos de Formação, a SME iniciou, em 1999, a segunda fase de implementação dos ciclos. A equipe pedagógica responsável pelo projeto sugeriu um redimensionamento da estrutura nos seguintes termos:

[...] Ensino Fundamental em três ciclos, cada um com duração de três anos; a formação de um coletivo de professores para atuar no Ciclo II, composto por professores-referência (pedagogos) e professores de área; garantia de tempo de estudo e de articulação entre profissionais para o desenvolvimento curricular. Os profissionais foram modulados

conforme as áreas afins: Expressão (Língua Portuguesa, Educação Física e Arte); Ciências Sócio-históricas e Culturais (Geografia e História); Ciências Físicas, Químicas e Biológicas (Ciências) e Pensamento Lógico-Matemático (Matemática), além do profissional da Língua Estrangeira (Inglês ou Espanhol) (GOIÂNIA, 2009, p. 31). De acordo com a Proposta Político-Pedagógica para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência de 2004 (GOIÂNIA, 2004b), a justificativa alegada de estruturar a proposta em três ciclos foi a possibilidade de se fazer um "ajuste de fluxo", conforme assinala o texto:

As justificativas apresentadas para o Conselho Municipal de Educação, para essa alteração (de quatro para três ciclos), foram fundamentadas em análises realizadas sobre os problemas do fluxo escolar, pois tais análises apontavam, como um dos fatores que contribuíam para o fracasso escolar no ensino fundamental, o alto índice de reprovação na quinta série e a grande diversidade de disciplinas e de professores, situação que dificultava a adaptação dos alunos (GOIÂNIA, 2004b, p. 22).

O Ciclo III foi implantado em 1999 em nove escolas "[...], garantindo-se a modulação de pelo menos um professor de cada disciplina curricular" (GOIÂNIA, 2009, p. 31). No decorrer dos anos de 1999 e 2000, em função da nova configuração dos ciclos, foi elaborado o documento "Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino: 2001- 2004", que viria servir de referencial para todas as escolas da RME. O documento incluía:

[...] a organização do Ensino Fundamental na Rede Municipal de Ensino (Ciclos, Sistema Seriado e Educação de Adolescentes, Jovens e Adultos); Ensino Fundamental e áreas do conhecimento; objetivos das áreas do conhecimento por ciclo e modalidades de avaliação existentes na RME (GOIÂNIA, 2009, p. 31).

Em 2001, após consulta aos profissionais da educação, em plenárias microrregionais e regionais, constatou-se a preferência por uma forma única de organização das escolas municipais, com a indicação para os Ciclos de Formação e Desenvolvimento Humano como a melhor opção em termos de estrutura de organização. Iniciou-se, então, a terceira fase de implementação dos ciclos na RME, com a expansão do Ciclo II, em 2002, e do Ciclo III, em 2003, para todas as escolas.

Simultaneamente à expansão dos Ciclos, a SME formou, em 2002, um grupo de trabalho constituído por representantes da Divisão de Educação Fundamental da Infância e da Adolescência – DEFIA –, Unidades Regionais de

Educação – URE – e Centro de Formação de Profissionais da Educação – CEFPE. O objetivo era:

[...] discutir temáticas específicas, como as fases do desenvolvimento humano, currículo, avaliação, organização do trabalho pedagógico e o processo de leitura e escrita nos Ciclos de formação, para a construção da proposta político-pedagógica para a Educação Fundamental da Infância e da Adolescência (GOIÂNIA, 2009, p. 32).

Em 2005, iniciou-se a quarta fase de implementação dos Ciclos, com a consolidação de Grupos de Trabalho e Estudos – GTE. Propostos pelo CEFPE, esses grupos:

[...] na perspectiva de criar espaços de reflexão e debates sobre o trabalho pedagógico nos Ciclos e buscar alternativas para a superação das dificuldades enfrentadas no cotidiano escolar, foram considerados o espaço propício para o trabalho de revisão curricular (GOIÂNIA, 2009, p. 33).

No período de 2005, vários assuntos foram discutidos nos GTE, entre eles:

[...] manutenção do número de professores por ciclo; eleição do coordenador pedagógico – pedagogo ou professor de área – pelo coletivo da escola; atendimento individualizado ao aluno; manutenção do horário de estudo; planejamento coletivo semanal; limitação de 25 alunos por turma, discussão do projeto político-pedagógico com a comunidade escolar; modulação dos profissionais capacitados para atuar nos laboratórios de informática e nas salas de leitura; formação continuada dentro e fora do horário de trabalho; garantia permanente da organização dos professores em grupos de trabalho e estudo; produção de cadernos pedagógicos nos GTE. [...] proposta de modulação de pedagogos e professores de área por disciplina, e não por área afim (GOIÂNIA, 2009, p. 33-34).

No decorrer de 2006, os GTE foram reorganizados

multidisciplinarmente, com o objetivo de articular/integrar os profissionais de diferentes áreas para a estruturação do documento como um todo, documento este que viria a ser a nova proposta: Diretrizes Curriculares – 2009. Os GTE discutiram temas relacionados ao "desenvolvimento humano, currículo, objetivos, conteúdo de ensino, livro didático" (GOIÂNIA, 2009, p. 34), "aspectos da organização do espaço escolar no que se refere ao ambiente social de aprendizagem, aos princípios da organização em Ciclos, ao processo avaliativo e ao horário de planejamento" (GOIÂNIA, 2016b, p. 98). Em 2007, o

documento passou por análise na Comissão de Currículo e Conselho Municipal de Educação e foi finalmente concluído em 2009.

1.1.2 As ideias de Vigotski na Proposta de Ciclos de Formação (1998-

No documento Download/Open (páginas 31-37)