2 DIÁLOGOS ENTRE A HISTÓRIA E A MEMÓRIA: OS
2.2 Os heróis paraguaios, a escrita de revisionistas e a crítica de
2.2.1 O período liberal e a questão social (1870-1936)
De acordo com José Carlos de Souza, o Partido Liberal foi fundado logo após o ano de 1870 por Fernando Iturburu e Juan Francisco Decoud. Ambos, assim como outros, eram ex-exilados da Legión Paraguaya213; ainda estavam presentes na fundação ex- combatentes da Guerra da Tríplice Aliança e companheiros de lutas pela independência de Gaspar de Francia. Em outras palavras, a formação do Partido Liberal foi composta por sujeitos que outrora estiveram lutando um contra o outro na guerra e que, a partir de 1871, ocuparam lugares centrais na política (como cargos de secretários e até ministros) e em instituições públicas, como correios e telégrafos214. José Carlos de Souza ainda aponta a presença de muitos dos ex-exilados provenientes de Buenos Aires, os quais haviam estudado na Argentina durante o seu exílio. Justamente por isso eram tidos como manipulados pelos interesses de Buenos Aires, com o objetivo de formar uma grande
212 COLMÁN, Evaristo; MORAES, Ceres. A guerrilha da Fulna: considerações preliminares.
Disponível em: <http://www.cedema.org/uploads/moraes_colman.pdf>. Acesso em: 6 jan. 2014.
213 SOUZA, op. cit., p. 198 214 Idem.
nação, unidos aos territórios do Uruguai, do Brasil e do Paraguai: projeto chamado de La Gran Nación215.
Mesmo sendo apontados como representantes portenhos, muitos exilados perderam tudo o que tinham quando saíram de seu país natal e, em seu retorno, na grande maioria dos casos, não tinham posses. Souza aponta que os grupos exilados retornavam ao Paraguai como tábulas rasas, isto é, não tinham um projeto hegemônico para a política. O que marcava esse retorno era uma divisão da nascente oligarquia paraguaia em dois partidos, o Colorado e o Liberal216. Ambos eram formados por interesses econômicos diferentes, desde os seus princípios, pois se o primeiro apoiava a entrada de investimento e de influência estrangeira, inclusive sobre os recursos naturais do país, o segundo se colocava como porta-voz da “reforma étnico-econômica” necessária ao país, dizendo que daria lugar também aos grupos sociais originários do Paraguai.
Ademais, não havia uma classe burguesa no Paraguai até 1870, muito menos nos moldes europeus. Ela seria forjada nos anos seguintes à Guerra da Tríplice Aliança, buscando direitos à participação política e à propriedade privada. Além disso, com recursos financeiros ou não, considerando que o país estava entrando no mercado capitalista e que o momento era de liberalismo econômico, muitos daqueles ex-exilados foram “pontes” de interesses dos países circunvizinhos e até mesmo da Europa e dos Estados Unidos, principalmente influenciando assuntos políticos e econômicos.
Nessa conjuntura, sobre a tentativa de (re)construção do país, após 1870, Omar Diaz de Arce afirma que após o Paraguai perder sua “elite” por duas vezes, no conflito da Independência e na Guerra do Paraguai, o que impedia o crescimento do país era o seu desconhecimento político sobre qual economia deveria conduzir seu projeto nacional217. Viam-se sujeitos que estavam se estruturando e disputando o poder ao mesmo tempo. O Partido Colorado, ao estar representado por um grupo que se torna e se vê como burguês devido à abertura econômica do país pós-guerra, é também pertencente a uma classe que se dizia revolucionária. Contudo, o Colorado manteve laços com uma oligarquia rural, a qual tinha posses sem a influência intelectual trazida pelos liberais. Esta ideia, já afirmada por José Carlos
215 Idem.
216 Ibidem, p. 204-205.
217 ARCE, Omar Diaz de. O Paraguai Contemporâneo (1925-1975). In: CASANOVA, Pablo G.
de Souza218, demonstra também como a política paraguaia, alvo da disputa entre os dois partidos, torna-se um campo de experimentações e de transações comerciais do interesse de quem o domina e, também, dos países que ajudam a financiar os interesses dos liberais que não tinham o capital. Nesse caso, as motivações de financistas estavam ligadas à formação de um poder hegemônico, tanto no que se refere às instituições, quanto à possível influência das políticas sociais para:
[...] Coibir a ação independente das classes populares, especialmente da classe dos trabalhadores. Como os colorados tratavam dos problemas econômicos e da questão social existentes à época sem nenhum critério, com planos econômicos para taxar as exportações e as importações que prejudicavam as atividades desses industriais e proprietários, perderam o apoio. De qualquer modo, há muita contestação a respeito das classes das quais o Partido Liberal foi formado, e mesmo da própria existência dessas classes no Paraguai por essa época, o que muitas vezes sugere, como para Juan Manuel Frutos, que havia dois partidos liberais, e que as facções que se formaram dentro dele, além de representar a ideologia de seus líderes, também estavam ligadas às classes que dela faziam parte219.
A conclusão à qual chega o historiador José Carlos de Souza é a de não existência de consenso de classes, sendo que nem ao menos se pode afirmar que a ideia de burguesia estaria representada dentro desse grupo bastante diverso. José Souza aponta ainda a falta de organização social no que seria incumbência do governo, ou seja, este sempre esteve preocupado em despontar economicamente, mas não em fortalecer uma organização política e social mais democrática. Como o próprio historiador menciona, se no Brasil é apontado que possivelmente “tínhamos uma burguesia cafeeira e uma industrial nascendo220, por volta dos anos de 1920/1930”, no Paraguai não havia grupo algum semelhante àquelas. Outro fator interessante deste contexto é a influência do liberalismo ao preservar uma política econômica de exportação e de importação e não defender a liberdade de ação das classes trabalhadoras, isto é, o partido liberal proibiu práticas não democráticas como a tortura e o exílio, mas não favoreceu as mudanças sociais necessárias para a maioria da população. Além disso, já de início, havia dissidências e grupos diferentes representados no mesmo partido, como também resistências populares.
218 SOUZA, op. cit., p. 207.
219 Ibidem, p. 207-208. 220 Ibidem, p. 204.
Nesse sentido, lembro as considerações de Lorena Soler quando afirma que o Paraguai é reconhecido por muitos intelectuais como um palco de muitas ditaduras a partir de 1870 e por isso também é considerado excepcional, ao mesmo tempo em que não teria presenciado resistências frente aos governos despóticos e reais221. Sobre este aspecto, recordo o movimento dos Comuneros, cujos tempos coloniais e de sobreposição da Espanha e de Buenos Aires não evitaram os questionamentos feitos por aqueles homens. Ainda, trago o episódio conhecido como 23 de octubre de 1931: “[...] data em que a polícia do presidente Guggiari disparou e metralhou uma manifestação estudantil em frente ao palácio do governo. Entre os mortos se encontravam idosos e crianças que passavam pelo lugar [tradução minha]”222. Esta última refere-se a uma manifestação pacífica de alunos realizada nas proximidades do palácio de governo, os quais eram oriundos do centro de estudantes do Colégio El Nacional de la Capital e apoiados por estudantes do Colégio Internacional, de São José, do Presidente Franco e do Colégio Nacional Asunción Escalada. O objetivo desses alunos era denunciar a intromissão da Bolívia nos assuntos referentes à região do Chaco, área que, para eles, deveria ser exclusiva do Paraguai e pública, ou seja, sem intervenção de interesses do exterior223.
Esses conflitos demonstram ações de resistências, as quais, ao longo da história paraguaia, embasam a ideia de que houve relutância no país, porém em geral por parte das classes menos favorecidas economicamente ou sem direitos políticos. Isto também demonstra que é preciso analisar as questões sociais/culturais a fim de compreender em que princípios se legitimam os poderes ditatoriais, os quais, nas palavras de Guido Alcalá, formam uma cultura política ditatorial. Analisar as persistências dos grupos, mesmo que isoladas e, muitas vezes derrotadas, é permitir que outras vozes sejam ouvidas em relação às lutas dos “vencidos”. Ainda para refletir sobre a resistência existente ao longo da história paraguaia, considero a análise dos confrontos
221 SOLER, Lorena. Modernizácion, Cambio Social Y Ciências Sociales. Los ofícios del
Sociológo en tiempos del Régimen Stronista en Paraguay (1954-1989). 325 f. Tese (Doutorado) defendida no Programa de Pós-Graduação de Facultad de Ciencias Sociales de Buenos Aires, 2011.
222 No original: “[...] fecha en que la policía del presidente Guggiari disparó y ametralló una
manifestación estudiantil frente al palacio de gobierno. Entre los muertos se encontraban viejos y niños que pasaban por el lugar.”. SOUZA, op. cit., p. 248.
223 VOLTA, Enrique Gaona. Los sucesos de 23 de octubre de 1931. Assunção: Editorial El
paraguaios dos sociólogos Benjamin Arditi e José Carlos Rodriguez224 significativa. Para eles, no fim do contexto ditatorial de Stroessner, três grupos ganharam notoriedade em suas lutas: estudantes universitários responsáveis pela recuperação dos grêmios estudantis, os quais estavam subordinados ao poder político, incentivando outros estudantes a lutarem; os sindicatos ativos e diversos defendidos por vários trabalhadores; e os campesinos, cujas tradições e resistências estavam desenvolvendo organizações independentes, com ambos os sexos, como os “campesinos haicha”. Além disso, as manifestações pacíficas de resistência teriam aumentado significativamente.
Esses e outros confrontos e manifestações, ao longo das décadas, levantaram questionamentos acerca dos governos autoritários e sobre igualdade social e trabalhista, desde o fim do século XIX, envolvendo o período paraguaio reconhecido como liberal até o governo Stroessner. José Carlos Rodriguez e Benjamín Arditi apontam que as resistências alcançaram pontos relevantes na definição do movimento de trabalhadores no Paraguai, mencionando atas sindicais e um jornal criado ainda no século XIX, como “El Artesanato”, o qual reivindicava “un hombre, un voto”. E, quanto à perseverança própria da resistência, os autores sintetizam em uma frase, a importância desses movimentos, que muitas vezes parecem isolados e com poucas vitórias: “[...] não há uma derrota dos trabalhadores, cada episódio termina em especificações de condições de trabalho [...] [tradução minha]”225. Os autores não citam exatamente quais seriam os ganhos desde 1880, mas enfatizam o sentimento de vitória do movimento dos trabalhadores ao longo do último século, em busca de direitos, de igualdade e de voto. Friso ainda que o “sentimento de vitória” não implica em mudanças imediatas de acordo com as reivindicações, porém, acarreta no fortalecimento da própria existência do movimento de trabalhadores, pois, mesmo com perdas, é possível dizer que houve continuidade na luta por direitos.
Contudo, obviamente a pretensa igualdade econômica e social, base para uma democracia mais sólida, não foi alcançada, visto que as condições econômicas entre 1870-1936 eram precárias e muito desiguais, sendo este um dos principais pontos da pauta do movimento dos trabalhadores. Estes apontavam “[...] a falta de exercício efetivo da democracia e em relação ao social paupérrimo que estava se instalando
224 ARDITI, Benjamín; RODRIGUEZ, José Carlos. La sociedad a pesar del Estado:
Movimientos sociales y recuperación democrática en el Paraguay. Asunción: El Lector, 1987, p. 35-37.
225 No original: “[...] No hay una derrota obrera, cada episodio termina en un pliego de
[...] [tradução minha]”226, demonstrando como uma participação pouco popular ocasiona problemas sociais ou os legitima, a fim de que a ordem das classes sociais se mantenha, dando privilégios, para poucos. O movimento de trabalhadores teria acusado ainda que, ao invés dos grupos políticos da época ampliarem o conceito de democracia, permitiram condições que a destruíssem e “[...] desta maneira, a partir do próprio campo trabalhador, se fertilizará o terreno para o autoritarismo que será implantado desde cima e também fora da classe com a política populista [...] [tradução minha]”. A fala deixa evidente que a falta de discussão, de abertura democrática à participação popular ou, ao menos, de direitos sociais, traria consequências para a trajetória política do país.
Além disso, de acordo com Cristina Farinã e Guzman Ibarra, os governos do início do século XX também estiveram ocupados buscando diminuir os conflitos sociais, minimizando a ação de sindicatos e dos movimentos, ao passo em que se mantinham disputando o poder com o Colorado227. Dessa forma, subentendo, que o partido Liberal, quando esteve no poder, geriu um governo preocupado em conter as diferenças sociais, mas não utilizou o seu aparato para promover mecanismos que atendessem essas demandas. O desenvolvimento econômico e a disputa política, desse modo, estiveram acima da pauta social, um problema que piorou com a Guerra do Chaco.
Portanto, afirmar que não ocorreram resistências é bastante equivocado, visto que a conjuntura política era complexa. Porém, é compressível perceber a “ausência” da resistência se considero o trabalho dos revisionistas cooptado228 pelas forças governamentais ou de oposição na política paraguaia em alguns períodos, que muitas vezes poderiam querer negar os movimentos, justamente para se legitimarem no poder. Todavia, a falta de uma política mais eficaz, séria e igualitária fez com que alguns sujeitos se questionassem sobre o ideal de democracia, entre sua existência e seus desdobramentos. Com efeito, a partir da leitura de Arditi e Rodriguez, durante o Estado liberal (1870- 1936) houve uma movimentação de trabalhadores, de diversas classes, objetivando lutar por igualdade. Esta, para os sociólogos, estaria ligada diretamente à ideia de democracia e, justamente por isto, os movimentos não encontraram terrenos tão fecundos para crescer em todo o período, visto que os governos que se seguiram não incentivaram uma política
226 No original: “[...] la falta de vigencia de la democracia y al entorno social pauperrimo en
que estaba instalada [...].”. Ibidem, p. 38.
227 FARIÑA; IBARRA, op. cit., p. 243-245.
mais aberta, intelectualizada e popular. Importante reconhecer também que uma análise sobre esse mundo social e os grupos políticos traria mais respostas sobre o modo como se construiu a política paraguaia em tempos liberais, ideia essa pouco desenvolvida, até mesmo por Alcalá. O escritor chega a defender que algumas publicações do início do século XX colaboraram para a crítica das imagens dos López, estas tão lembradas por Stroessner. Porém, a instabilidade dos anos de 1930 e a ação dos revisionistas não deram espaço para maiores debates, conforme tratarei na próxima seção.
2.2.2 Concepción, San Fernando e a busca pelo acontecimento