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Para uma melhor compreensão desse período, o dividiremos em dois momentos: 1) o período técnico-científico-informacional propriamente dito do Brasil construído, segundo Santos (1994a; 1994b [2008b]; 1996 [2009c]) e Santos e Silveira (2002), após a Segunda Guerra Mundial; e 2) o período técnico-científico-informacional de São Bento. Acreditamos, pois, que em ambos os espaços os meios técnicos, científicos e informacionais se deram de forma diacrônica, já que “os processos espaço-temporais não são homogêneos, nem tampouco homogeneizam [...]” (CASTRO, 2008, p. 320) todos os territórios ao mesmo tempo em que ocorrem27. Assim, o espaço geográfico dinamizado neste período, ou seja, materializado em objetos e ações no meio atual, “esse meio técnico, científico e informacional está presente em toda a parte, mas suas dimensões variam de acordo com continentes, países, regiões, superfícies contínuas, zonas mais ou menos vastas, simples pontos”, conforme Santos (1994b [2008b, p. 48]).

As dinâmicas que ocorreram no espaço e na sociedade brasileira e, em particular, na

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Segundo Santos (1979b [2007a, p. 170]), “embora os componentes do espaço sejam universais e formem um contínuo através do tempo, eles variam quantitativa e qualitativamente através do espaço, exatamente como o processo de fusão dos elementos também difere a combinação de seus componentes”. Afirma ainda que “as variáveis modernas não são todas recebidas ao mesmo tempo nem no mesmo lugar, porque a história se tornou espacialmente seletiva” (SANTOS, 1979b [2007a, p. 171]).

área de pesquisa, refletem a forma como se desenvolveu o capitalismo no país nesse período técnico-científico-informacional. Sendo o meio técnico-científico-informacional o espaço geográfico resultante da intensidade, em sua estrutura, da aplicação da tecnologia, da ciência e da informação no processo produtivo, logo o período de mesmo nome diz respeito ao tempo atual do espaço geográfico, cuja natureza é técnica, científica e informacional, conforme Santos (1994a; 1994b [2008b]; 2005; 1996 [2009c]) e Santos e Silveira (2002). Para Santos (2005, p. 121), a partir do final da Segunda Guerra Mundial “o território vai se mostrando cada dia que passa com um conteúdo maior em ciência, em tecnologia e em informação”. Segundo ele, o componente informação é quem vai ser, nesse período, o grande regedor das ações que definem novas realidades espaciais, dando ao meio e aos seus objetos e ações uma organização típica desse processo. Assim, o meio técnico-científico-informacional é, portanto, “um meio geográfico onde o território inclui obrigatoriamente ciência, tecnologia e informação” (SANTOS, 1994b [2008b, p. 41]), resultante do período/tempo de mesmo nome.

Na discussão desse período a organização espacial não pode ser deixada de lado, e esta organização se dá mediante a configuração territorial28. Santos (1994a; 1994b [2008b, p. 134- 135]) nos fala da especificidade do território brasileiro mediante alguns fatos que devem ser levados em conta quando se discutir algo relacionado a esse período do espaço geográfico: 1) o grande desenvolvimento da configuração territorial que passa a se dar com mais intensidade nesse período. Segundo ele, “a configuração territorial é formada pelo conjunto de sistemas de engenharia que o homem vai superpondo à natureza, verdadeiras próteses, de maneira a permitir que se criem as condições de trabalho próprias de cada época”; 2) outro fato é o grande desenvolvimento da produção material. Nesse sentido, afirma ele que a produção material brasileira, englobando a industrial e agrícola, passa por mudanças estruturais, em que “a estrutura da circulação e da distribuição muda; a do consumo muda exponencialmente; todos esses dados da vida material conhecem uma mudança extraordinária, ao mesmo tempo em que há uma disseminação no território dessas novas formas produtivas”; 3) “o desenvolvimento das formas de produção não-material” é outro fato importante, pois se tem não somente como se teve “o desenvolvimento das formas de produção material, mas também uma grande expansão das formas de produção não-material”, como é o caso “da saúde, da educação, do lazer, da informação e até mesmo das esperanças. São formas de consumo não

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Para Santos (1988a, p. 111), “a configuração territorial ou espacial é dada, conforme já buscamos descrever, pelo arranjo sobre o território dos elementos naturais e artificiais ou de uso social: plantações, canais, caminhos, portos e aeroportos, redes de comunicação, prédios residenciais, comerciais e industriais etc. a cada momento histórico, varia o arranjo desses objetos sobre o território. O conjunto dos objetos criados forma o meio técnico, sobre o qual se baseia a produção e que evolui em função dela”.

material que se disseminaram sobre o território”; 4) o último fato é a privilegiação, por parte do modelo econômico, da distorção da produção e do consumo, “com maior atenção ao chamado consumo conspícuo, que serve a menos de um terço da população, em lugar do consumo das coisas essenciais, de que o grosso da população é carente” (SANTOS, 1994a; 1994b [2008b, p. 135]).

É inegável que o processo de desenvolvimento do período técnico-científico- informacional seja responsável pela elaboração de variáveis distribuídas espacialmente de forma igual. No entanto, seu grau é diferenciado nas cinco regiões brasileiras, extra-regional e intraregionalmente (SANTOS, 1978b [2009b]). Exemplo disso é o fato do meio técnico- científico-informacional apresentar-se com conteúdo e forma distinta quando se percebe empiricamente os lugares, como é o caso de São Bento.

Concordamos com Carneiro (2006, p. 151), quando, baseado nessa premissa, afirma que, no município de São Bento, “[...] a constituição de seu meio técnico-científico- informacional se dá com a distribuição diferenciada socioespacialmente dos elementos constitutivos do espaço: técnica, ciência e informação”. Realidade essa expressa em sua paisagem, bem como nas atividades econômicas, institucionais e distributivas desses aparatos à população. A paisagem nos revela, portanto, “a incompletude ou escassez” desse meio no espaço geográfico em tela, tanto no campo como na cidade, “nas empresas ou nas repartições públicas, no lar ou no trabalho, nos objetos e nas ações, no processo de produção, no comportamento e no cotidiano das pessoas” (CARNEIRO, 2006, p. 151).

No entanto, ainda que apareça incompleto esse meio geográfico em São Bento, entendemos que “[...] as variáveis funcionam sincronicamente em cada „lugar‟. Todas trabalham em conjunto, graças às relações de ordem funcional que mantêm. Cada lugar é, a cada momento, um sistema espacial, seja qual for a „idade‟ dos seus elementos”, bem como o sistema de “ordem em que se instalaram. Sendo total, o espaço é também pontual” (SANTOS, 1978c [2008e, p. 258]), apesar das variáveis funcionarem em sincronia. Assim, “[...] sincronia e assincronia não são de fato opostas, mas complementares no contexto espaço-temporal, porque as variáveis são exatamente as mesmas” (SANTOS, 1976, p. 21; 1978c [2008e, p. 259]). Em outras palavras, há em São Bento, como também em outros lugares, a sincronia dos elementos técnicos, científicos e informacionais incompletos, o que nos força para uma compreensão das lógicas de suas complementaridades, mediante o caso da Feira da Pedra, a partir dos circuitos da economia urbana.

Por fim, baseados no método crítico que vigora desde Emmanuel Kant (1724-1804), que consiste no rebuscamento do conhecimento mediante as circunstâncias que o tornam

legítimo é que partimos para uma análise reflexiva, crítica-dialética, da teoria dos dois circuitos da economia urbana na geografia do presente. Isso é oportuno uma vez que, buscando produzir conhecimento, o cientista deve se preocupar com as racionalidades que envolvem a(s) teoria(s) de base de análise, materializadas nas abordagens que vêm sendo dadas à(s) essa(s) teoria(s).

1.4 OS DOIS CIRCUITOS DA ECONOMIA URBANA E ACEPÇÕES DO SISTEMA