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O percurso do conceito de discurso

No documento Compreensão de discursos monologais (páginas 53-57)

PARTE I – ANCORAGENS TEÓRICAS E METODOLÓGICAS

Capítulo 1 Ancoragens teóricas

1.2 Discurso e texto

1.2.1 O percurso do conceito de discurso

O campo dos estudos que se debruçam sobre o discurso tem tido, no passado recente e tem na actualidade um crescimento impressionante. Graesser et al (1997, p. 165) formulam esta apreciação, referindo-se mais especificamente à corrente cognitiva que, no seio da psicologia, aborda o processamento do discurso. Mas esta dinâmica de expansão também se aplica a outros projectos científicos e correntes, que no campo das ciências sociais, incluem o objecto “discurso” nas suas agendas investigativas.

Podemos apontar, pelo menos duas circunstâncias subjacentes a esta expansão. Em primeiro lugar é incontornável referir a reconfiguração das ciências sociais, designada na literatura com “giro linguístico” ou “virada linguística” (“turn linguistic”). ). Nogueira (2001, p.3) refere a nomenclatura “viragem para a linguagem” para designar o mesmo movimento. O alargamento permitido pela nova reconfiguração, decorre da consideração da linguagem como factor constitutivo do psiquismo do sujeito e da realidade conhecida (Winter, 2014; Ibáñez, 2003; Aldrigue & Nicolau , 2010; Silveira, 2008; Gracia, 2004; van Dijk, 2004a). Muguerza (1990) refere o novo estatuto da linguagem, nos seguintes termos:

El giro lingüístico ha venido a poner de relieve que la realidad que conocemos y en la que actuamos es una realidad lingüísticamente mediada. Que nos enfrentamos a ella a través y por medio del lenguaje. Que su misma sustancia es de urdidumbre lingüística (p. 96).

Neste aspecto, esta reconfiguração traduziu-se, no plano da investigação, num compromisso generalizado de todas as ciências sociais com o novo estatuto reconhecido à linguagem, na construção do indivíduo e das realidades sociais em geral.

Van Dijk (2004a) refere que, na actualidade, se poderia considerar uma subviragem, o “giro discursivo” para traduzir “ o actual e crescente interesse no estudo das formas do uso da linguagem e de conversações e textos” (p. 7)

Em segundo lugar, esta “viragem para o discurso” permitiu às ciências sociais alargar consideravelmente o seu campo de investigação ou geografia, permitiu que surgissem iniciativas interdisciplinares (ex. Van Dijk e Kintsch, Escola de Palo Alto, e a emergência de algumas propostas marcadamente eclécticas, como o Modelo Genebrino, liderado por Roulet) Antaki et al. (2003) apontam este alargamento afirmando:

La expansión de este giro discursivo há traído consigo una proliferación de formas de análisis del discurso. La geografía del terreno discursivo es compleja y se compone de asunciones a veces radicalmente incompatibles en cuanto a tópicos fundamentales como el método, la teoría, la naturaleza del discurso en si, de la cognición o de estrutura social (p.2).

Não surpreende que nas várias disciplinas (linguística textual, linguística computacional, psicologia, sociolinguística) e nas correntes nacionais (francesa, anglosaxona, etc.) que incorporaram nas suas formulações a linguagem em uso, plasmada no discurso, o objecto “discurso” não seja definido de forma idêntica, nem tão pouco as metodologias de abordagem.

Não é nossa intenção deter-nos nas várias definições que proliferam nas várias disciplinas das ciências sociais, respectivas correntes e autores. Alguns autores tentam tipificar, ensaiando tipologias que reduzem a complexidade resultante das definições existentes (Schiffrin, Tannen & Hamilton, 2003; Rodrigues, 2014; Charaudeau, 2002; van Dijk,2000).

Muitos autores comentam a impossibilidade de encontrar uma definição única de discurso que seja transversal a todas as disciplinas das ciências sociais. Van Dijk (2000) comenta esta pluralidade de definições com as seguintes palavras:

La situación sería ideal si pudiéramos condensar todo lo que sabemos acerca del discurso en una definición única y práctica. Lamentablemente, ocurre en este caso lo mismo que con otros conceptos afines, como "lenguaje", "comunicación", "interacción", "sociedad" y "cultura": la noción de discurso es esencialmente difusa” (p.1).

Como se ha puesto de manifiesto, existen tantas definiciones de discurso como autores, y tradiciones de análisis. Por ello, nos limitaremos a examinar algunas de las nociones de discurso que se manejan más comúnmente en ciencias sociales, atendiendo a la consideración de las tradiciones teóricas o disciplinares que les son características (p. 103).

Por encima desta pluralidade, as definições mais actuais, tingidas de interacionismo ou assumidamente interacionistas, admitem que o discurso é uma forma de linguagem em uso (Siniajeva, 2005, p.7).

Grimshaw (2003) assim o considera com a afirmação de que “if language is a uniquely human attribute, discourse is the language in use that allows human social life. Essentially all humans use discourse” (p.27).

De entre muitas possíveis definições, citamos algumas definições dotadas de grande amplitude e que nos parecem adoptar esta perspectiva de discurso como linguagem em uso. Rastier (2005) apresenta a seguinte definição:

ÉNONCÉ + ÉNONCIATION (SITUATION DE COMMUNICATION) =

DISCOURS”

Nesta definição o discurso releva da substância verbal (“énoncé”) e do social (“situation de communication”).

No seio da psicologia cognitiva, o discurso vai além de frases ou enunciados isolados, integra um contexto com muitos componentes estruturantes, muitos dos quais invisíveis no momento da enunciação.

Assim, Graesser et al. (1997) declaram que “Connected discourse is more than language per se, and much more than a sequence of individual sentences” (p. 164) .

Graesser et al. (2003) por sua vez definem o discurso de forma ainda mais abrangente: It is quite correct that printed texts consist of a sequence of sentences, and that oral conversations consist, more or less, of a sequence of spoken utterances. However, discourse cannot be entirely reduced to sentences and utterances. Discourse has a context, cohesion, coherence, and rhetorical structure that weaves together and transcends the sentences/utterances. The context includes the participants in the acts of communication (speaker, listener, over hearer, reader, writer, narrator, narratee), the communication setting and goals, the pragmatic ground rules, the subject matter knowledge, and a host of other components that situate the discourse event (see chapter by Grimshaw). Most of this context is invisible in the sense that

there are few features, elements, or constituents in the text to point to and designate “that’s the context (p.2).

Graesser et al. (2003), na sua exposição, apontam uma mutação importante ocorrida por influência do interacionismo: “The notion of “process” is a key ingredient of discourse processes. Researchers explore the processes of comprehending, producing, reproducing, composing, recalling, summarizing, and otherwise creating, accessing, and using discourse representations (p. 7)”.

Estes “discourse processes”, obviamente, têm que deixar a sua marca no objecto linguístico empírico, a que podemos chamar texto. Assim sendo, é aceitável, que nesta corrente cognitiva de estudo do discurso, se use mais o termo “texto” que esbate, de alguma forma, o termo “discurso”. Esta situação parece corresponder à perspectiva de Ferro (2007) de que “ en la psicología no se hace diferencia entre texto y discurso como sí se hace en lingüística, se emplean indistintamente los dos términos en este artículo” (p. 40).

Na actualidade recente, Graesser et Forsyth (2013) continuam a apresentar o discurso como uma entidade comunicativa que abarca tanto a conversação oral como os textos impressos.

Our definition of discourse includes both oral conversation and printed text. The spoken utterances in oral conversation and the sentences in printed text are composed by the speaker/writer with the intention of communicating interesting and informative messages to the listener/reader (p.475)

Em alternativa à dificuldade em formular uma definição que se ajuste ao eclectismo do nosso trabalho, apresentamos, recorrendo à configuração de um sistema planetário, a geografia discursiva em que nos movemos, para desenvolvermos a nossa investigação.

Num núcleo central bi-facetado, colocamos numa das faces, a concepção de discurso como forma de comunicação que integra indissoluvelmente duas vertentes (Palo Alto): conteúdo informativo e relação. Na outra face deste núcleo central, colocamos a concepção dialógica de discurso herdada de Bakhtin e seu círculo. Á volta deste núcleo central fazemos gravitar outras concepções de discurso ligadas ao núcleo central pela força gravitacional do interacionismo próprio das interacções verbais constitutivas do indivíduo e da ordem social: a concepção de Vygotsky, a concepção adoptada pelos psicólogos cognitivos, a concepção de van Dijk, a concepção de Goffman, a concepção de Kerbrat-Orecchioni, a concepção do Modelo genebrino encabeçado por Roulet.

O estudo dos discursos dentro da corrente psicológica cognitiva de processamento da informação, que constitui um ponto de ancoragem importante para o desenvolvimento do

nosso trabalho, tem-se focado nos géneros do discurso, entendidos por Bakhtin (1997) da seguinte forma:

Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos géneros do discurso. A riqueza e a variedade dos géneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da actividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa actividade comporta um repertório de géneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (p. 279).

Lima (2010) sintetiza as palavras de Bakhtin, dizendo que os géneros de discurso “correspondem a formas ou tipos relativamente estáveis de enunciados em constante elaboração e reelaboração por diferentes esferas de actividade humana” (p. 114).

Estes investigadores da corrente cognitiva (Graesser & al., 2003; McCarty & al., 2006) do processamento mostram mais interesse pela concepção de género discursivo vigente na abordagem de Bakhtin do que pelo debate à volta da definição de discurso. Esta investigação focada nos géneros discursivos, levada a cabo pelos psicólogos cognitivos da corrente do processamento, utiliza programas informáticos desenvolvidos na linguística computacional, tal como o Coh-Metrix (McNamara & al. 2010; McNamara & al. 2011).

A nossa própria investigação não ignora a existência dos géneros discursivos, já que adopta como objecto dois géneros discursivos específicos: o discurso académico, plasmado numa aula magistral e outro numa conferência de divulgação científica.

Uma outra forma específica de perspectivar o discurso consiste em considerar com Van Dijk (2012) que o “knowledge may be acquired from (reliable) discourse” (p. 588). A nossa investigação acompanha esta consideração e tendo em conta o carácter ecléctico do nosso trabalho, estabelecemos uma relação de equivalência entre conhecimento, informação e sentido no plano da representação cognitiva.

No documento Compreensão de discursos monologais (páginas 53-57)