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O PERCURSO INTELECTUAL DAS MULHERES NA FILOSOFIA

urante a Idade Média a Filosofia esteve sob o domínio da figura masculina, assim como outras áreas do conhecimento, porém, já existia um pensamento feminino voltado para uma Filosofia direcionada, principalmente, as questões místicas. No percurso da escrita da História, há indicações de que esse movimento sofreu perseguições, sobretudo, pela Igreja Católica que resultaram na demonização das mulheres sábias. A tão famigerada “Caça às Bruxas” levou muitas a serem queimadas e mortas por seus saberes, e, diante deste silenciamento e apagamento, fomos e somos induzidas a crer que há pífios exemplos de mulheres que elaboraram algo com importância suficiente para ser narrado pela História.

A partir do discurso apresentado, uma indagação passa a permear nosso pensamento: “Quantas e quais obras escritas por mulheres estudamos na escola, e/ou na universidade quando comparadas ao número de obras escritas por homens?” A resposta é simples, como bem destaca Marcia Tiburi, as mulheres adentraram na filosofia pela porta dos fundos. Esse pensamento se reflete no dito popular “atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, reforçando o entendimento de que as mulheres sempre estiveram invisíveis na sociedade. Em uma outra perspectiva, Simone de Beauvoir discorre que a mulher se constitui como o outro1 “A mulher determina-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”

(BEAUVOIR, 2016, p. 12-13).

É importante lembrar que o “movimento sufragista” marcou o início de um conjunto de reivindicações femininas, a exemplo: à educação, ao trabalho em suas áreas de formação - é oportuno frisar que as mulheres de baixa renda já trabalhavam nas indústrias e nas manufaturas -, ao divórcio e à participação política e literária. Em suma, o movimento sufragista marcou a história de luta das mulheres contra o sexismo e a favor da igualdade de gênero. Assim sendo, essas vozes femininas que surgiram no final do século XIX, início de século XX em muito contribuíram na criação de espaços de diálogos e de reflexões acerca da condição feminina.

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1Pensar contemporaneamente a categoria do outro de Simone de Beauvoir nos leva às reflexões do feminismo negro que vê, para além da situação de o outro da mulher branca, a mulher negra que pode ser considerada e considerar-se como “o ‘outro’ do outro”. Ver em (RIBEIRO, 2016, p. 2) Disponível em:

<sur.conectas.org/feminismo-negro-para-um-novo-marco-civilizatorio/>. Acesso em: 20 out. 2021.

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Diante do exposto, frisamos que não há como modificar o passado de invisibilidade dessas filósofas, todavia, podemos ressignificar o presente, sobretudo, o futuro ao fazê-las visíveis. Isso é fundamental para que possamos atender necessidades daquelas que, atualmente, se dedicam a Filosofia e a outras vertentes de pensamento, para que ao adentrarem em cursos dessa área não se sintam excluídas, achando que a Filosofia é feita por homens e para homens.

Nesta direção desejamos que este texto seja mais um meio para dar voz às Hannahs, Lélias, Márcias, Simones, Zélias, Djamilas, Marilenas e Suelis valorizando também a inserção de estudos decoloniais de mulheres filósofas, cujas vozes foram silenciadas pela tradição filosófica de seus cânones pautados por uma teoria androcentrada e eurocêntrica (TOLENTINO, 2019).

Como exemplificação, destacamos que durante nosso processo de ingresso e permanência no mestrado as inquietações e reflexões acerca dos cânones filosóficos foram emergindo, e que nesse estudo, reverberou em uma de nossas linhas de análise, que pautou-se em verificar a presença de obras de Filósofas e Pensadoras no curso do Mestrado de Ciências Humanas da UEA, considerando, o que discorre Orlandi (2010;

2013), que todo dito invisibiliza inúmeros não-ditos, e que a formação ideológica que trespassa as formações discursivas de representantes do sexo masculino para pensar e dizer sobre o sexo feminino, materializa não só o silenciamento de mulheres pensantes sobre si e sobre o mundo a sua volta, como também, e por esse motivo, as dissipa da História, de forma ampla, e da Filosofia, de forma restrita.

Na contemporaneidade temos observado que muitas mulheres têm se destacado no campo do pensamento como: Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Ângela Davis, Judith Butler e Maria Zambrano, dentre outras, porém isso não significa que o percurso realizado por essas pensadoras filosóficas tenha sido fácil. Deve-se, ainda, considerar, que romper o silêncio significa questionar a cultura falocêntrica imposta, além de resgatar o que nos foi negado nesse longo de incontáveis anos (IRIGARAY, 2002).

Para Tolentino (2019) os manuais filosóficos, bem como as coletâneas historiográficas da filosofia, confirmam empiricamente esse silenciamento das obras filosóficas das mulheres, pois é possível constituir um livro inteiro nesses formatos excluindo absolutamente qualquer voz feminina da filosofia. Ainda de acordo com a autora, no máximo duas pensadoras, atualmente, têm conseguido romper esta barreira

de ordem patriarcal de poderes e saberes. É muito importante mencionar que pensadoras como Hannah Arendt e Simone de Beauvoir por inúmeras vezes tiveram e têm seus escritos filosóficos questionados, sendo desqualificadas quanto a um suposto teor filosófico duvidoso de suas autorias.

No caso específico de Hannah Arendt, a filósofa é normalmente destacada como historiadora, cientista política e socióloga de maneira que sua afirmação de não se reconhecer enquanto filósofa é recorrentemente utilizada, como justificativa para sua exclusão do cânone filosófico. Nesta mesma direção Simone de Beauvoir é constantemente delimitada e apontada como uma pensadora voltada aos estudos de gênero, principalmente por seu livro muito significativo para o movimento feminista.

Entretanto, na contramão dessa “desqualificação da obra” é possível observar que seus pensamentos comungam com seus leitores que reconhecem em sua obra elementos que colocam a autora - Simone de Beauvoir - como filósofa legitimando a robustez de sua filosofia, como autêntica, bem como uma representante do existencialismo francês, extrapolando-o, e para além deste tornando-a uma intelectual fundamental e atemporal, reforçando, na mesma medida, as características filosóficas de seus textos.

Por tudo isso, nos propomos a trazer à luz do debate o que ainda é obscuro quando se trata da presença de mulheres na filosofia, demonstrando que mesmo invisibilizadas e oprimidas por uma cultura androcêntrica elas existiram e fizeram diferença dentro da filosofia. Destacamos que as mulheres ao longo da história foram tidas como seres inferiores. Uma demonstração dessa deturpação da figura feminina é tecê-la como sexo frágil, limitado e de natureza inferior.

AS PENSADORAS: UMA PERSPECTIVA DECOLONIAL PARA O ROMPIMENTO COM