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CAPÍTULO II – A COMPETÊNCIA PROFISSIONAL PROPULSORA DO

2.4 Conceito de Profissão e de Profissionalismo

2.4.3 O perfil do professor de Língua Estrangeira

Uma análise ampla do perfil profissional do professor de língua estrangeira – LE – não pode prescindir da compreensão das características do ambiente em que seu exercício profissional se realiza. A desconsideração desse aspecto resulta em estudo descontextualizado e pode levar à obtenção de perfis estereotipados, desagregados da realidade, perfis de professores genéricos, de um ensino de línguas também genérico.

A análise do ambiente cultural do professor se faz necessária em razão de que ele, como ser no mundo, está inserido em um contexto espaço-temporal específico, porque “vive numa época precisa, num lugar preciso, num contexto sócio-cultural preciso” (Freire, 1980, p. 34). Assim, o perfil do professor de LE será tanto mais fidedigno à realidade quanto maior for a “harmonia entre a vocação ontológica deste ser situado e localizado no tempo, que é o homem, e as condições particulares desta situação” (Freire, 1980, p. 34).

Decorre precisamente dessas “condições particulares” a perecividade das características de um profissional, ideal ou real, levantadas em dado momento. Almeida Filho (2005), ao falar do professor profissional reflexivo, traça algumas características da escola pública (maior empregador brasileiro de profissional de ensino de LE) como sendo pobre, “quase-creche”, com níveis inadequados de disciplina, segurança ou boa convivência.

Um respondente (R1) do questionário, instrumento desta pesquisa, ao qualificar o seu ambiente de trabalho, descreve um meio cujo clima emocional beira o pânico. As conseqüências de um ambiente assim sobre o fazer profissional do professor são auto- explicativas.

Discorrendo sobre o profissional de ensino de línguas estrangeiras, Celani (2001) propõe uma definição para o que seria um professor de LE ideal, capaz de fazer frente aos desafios do novo milênio:

Um graduado com habilidades para manusear o conhecimento de maneiras definidas, através de uma prática reflexiva, construída ao longo de um processo, com base em uma visão sócio-interacional crítica da linguagem e da aprendizagem; um profissional envolvido em um processo aberto de desenvolvimento contínuo, inserido na prática, e não derivado de um método ou de um modelo teórico (Celani, 2001, p.21).

A definição proposta enfeixa, em poucas linhas, grande número de conceitos os quais precisam ser convenientemente compreendidos. Limitar-nos-emos aqui a listar os conceitos contidos na definição acima: graduação; habilidade para manusear o conhecimento de maneiras definidas; prática reflexiva construída ao longo de um processo; visão sócio-

interacional crítica da linguagem e da aprendizagem; processo aberto de desenvolvimento contínuo; e desenvolvimento ligado à prática e não à teoria.

Celani (2001) explana sobre o que seria um professor de LE, profissional. Segundo a autora, seria um professor comprometido com uma sólida base na disciplina de especialização, de modo a desenvolver um estilo característico de pensar; que possuísse temperamento adequado que inclua envolvimento pessoal, disciplina, sinceridade, entusiasmo e tenacidade.

Essas qualificações levariam a incluir o termo “autônomo” à lista acima. E isso o faria diferente de um trabalhador tradicional (na linha de montagem), que, segundo Hammer (apud Celani, 2001), é uma espécie de robô orgânico operado por um gerente, com um controle remoto, enquanto o profissional é um ser independente. É chamado de robô porque é repetidor e reprodutor de conteúdo; praticante da educação bancária na linguagem de Paulo Freire (1980, p. 79). O gerente seria o seu coordenador; as normas do MEC, da Secretaria de Educação ou da própria escola e das editoras de livros didáticos, referidos por Almeida Filho (1993) como abordagem de terceiros. O controle remoto seriam as técnicas, as receitas prontas, as fórmulas mágicas e os materiais didáticos impermeáveis à atuação do professor.

Em recente artigo a ser publicado na revista Horizontes de Lingüística Aplicada (prelo), Almeida Filho faz importante reflexão sobre o sentido atual de professor de línguas profissional e reflexivo. Tratando do adjetivo “profissional”, o autor começa por destacar dois traços fundamentais da profissionalidade: os requisitos e as expectativas. Como requisitos são elencados o diploma e a licenciatura, enfim, a certificação formal. As expectativas, por outro lado, seriam aquelas projetadas pela sociedade sobre o significado de ser profissional.

O autor traça um perfil mais detalhado desse profissional. Para o autor, o professor de LE deveria possuir certificação compatível; experiência prática crescente, em formação continuada e postura aberta e flexível; deveria ser um intelectual consciente, compromissado e ético, com predisposição para refletir sobre si mesmo e sobre a sua profissão; ser leitor e interlocutor oral interessado que busque, estude e focalize as dimensões teóricas do processo de ensinar e de aprender línguas; que tome conta de si e de seus colegas profissionais e, finalmente, que esteja pronto a ajudar os seus alunos a serem melhores

aprendentes. A complexidade da profissão de professor de LE que exala dessas características dá a medida da missão de se tentar caracterizar a competência profissional desse professor.

O texto referido, em um segundo momento, proporciona grande contribuição na direção de estabelecer um perfil ou, pelo menos, alguns de seus traços distintivos, de um professor profissionalizado.

Resumo dos traços:

1) profissional com certificação, com experiência prática crescente, em formação especializadora contínua, com postura observadora, aberta, crítica e flexível.

2) Intelectual consciente, compromissado, ético e aberto a se pensar e a pensar a profissão;

3) leitor e interlocutor que valoriza o ser professor e ser profissional, focalizando as dimensões teóricas do processo de ensinar e de aprender línguas;

4) professor que conhece seu valor, seus direitos e deveres e que toma conta de si e de outros colegas profissionais;

5) profissional que se empenha em ajudar os alunos a se tornarem aprendentes melhores.

Ambos os autores abordam os principais ângulos do moderno professor profissional de ensino de LE: o saber, o saber-fazer e o saber-ser. O próximo item deste texto tratará das dimensões da CP que, de forma didática, explora cada um desses ângulos.