1 A PROBLEMÁTICA DO ORIENTADOR EDUCACIONAL NO CONTEXTO
1.6 O PERFIL E COMPREENSÕES GERAIS DAS ENTREVISTADAS
Baseada nas entrevistas como um todo, na sequência procuro traçar/definir o perfil de cada pedagoga entrevistada acerca de suas compreensões sobre qual é hoje o papel (os papéis) do Pedagogo Orientador Educacional na escola e se suas ações contribuem na formação continuada de professores e no desenvolvimento do currículo. Exponho, de forma sucinta, um pouco a respeito de sua formação e características de sua ação na escola, bem como possibilidades e dificuldades encontradas nesse contexto.
Iniciei com a solicitação de espaço nas escolas para a realização da pesquisa seguida de conversa para explicar as intenções desta. Com o aceite das equipes diretivas, as pedagogas foram convidadas pessoalmente para participação, o que foi oficializado com o preenchimento e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Para não expor suas identidades, optei por utilizar nomes fictícios, porém preservando o gênero. Acredito que, desta forma, é possível apresentar, com maiores detalhes, as entrevistadas. Os textos, na sequência, conferem maior ênfase à descrição, mantendo-se “mais próximos do corpus analisado” (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 32). Não é possível descrever somente, pois sempre há sinais de interpretação em cada descrição. Também são utilizadas algumas falas das professoras/pedagogas, consideradas importantes para melhor compreensão. Desta forma, para cada entrevistada produzi um texto, Joana - Pj, Renata - Pr, Isabela - Pi e Daniela - Pd, nos quais apresento a fala das entrevistadas em itálico dada à importância destas.
Joana – Pj
A professora Joana é formada em Pedagogia, com habilitação em Orientação e Supervisão Escolar. Já possui 29 anos de exercício no Magistério, e o início de sua carreira foi como professora regente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, mas desde meados da década de 90 atua como Orientadora Educacional na rede estadual de ensino no município de Ijuí/RS. Já atuou na Orientação Educacional nos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental e hoje está em uma escola de Ensino Médio, na qual dedica 40 horas semanais ao exercício da profissão.
Conforme Joana, o Orientador Educacional, na realidade que temos hoje, “precisa
gostar muito do que está fazendo, tem que estar preparado o que só se adquire na experiência, deve ser dinâmico, ter experiência de sala de aula, trabalhar junto com a equipe diretiva, não existe um trabalho isolado e ainda estabelecer limites, pois é aí que o aluno vai sentir firmeza no Orientador”. Em suas palavras, “nem todos nossos colegas têm esse perfil e
estou bem-preocupada... hoje não se forma o Pedagogo Orientador... a Pedagogia mudou né; hoje se forma um Pedagogo geral, diferente do meu tempo, já estou com 29 anos de Magistério... inclusive hoje nem precisa ser Pedagogo para ser Orientador; até o professor de matemática pode estar nessa função, basta ter uma Pós, o que me dá um pouco de medo, pois, muitas vezes, têm colegas que não conseguem ser Orientadores de fato... o que, a meu ver, dá uma má fama ao profissional Orientador... para mim ainda acredito que para ser orientador tem que ser Pedagogo”.
Na visão da entrevistada, o perfil do Orientador Educacional hoje na rede estadual de educação deveria ser de um profissional competente, dinâmico, com experiência de sala de aula, que esteja preparado para trabalhar com a diversidade e no coletivo. Ela, entretanto, traz apontamentos de que esse não é o perfil vigente em vários casos, levantando a discussão de que hoje não é preciso necessariamente ter formação como Pedagogo para ser Orientador Educacional, o que de fato tem fundamento, pois conforme a Lei 9.394/96 no artigo 64 a formação do Orientador Educacional pode ser feita tanto na graduação como na pós- graduação. No entanto, argumenta que ainda acredita que é necessário ser Pedagogo para exercer a função de orientador educacional.
Renata – Pr
A professora Renata é formada em Pedagogia e tem uma Pós-Graduação em Orientação Educacional. Faz apenas três anos que atua como Orientadora Educacional e sempre permaneceu um turno de trabalho em sala de aula como professora regente.
Em seu relato, durante a entrevista, Renata assevera: “Eu me sentia, muitas vezes,
com dúvidas de como estava procedendo, de como agir em certos momentos de crise na escola, de como fazer os professores aceitarem o que a orientação falava, por isso creio que o perfil do orientador hoje é muito mais de descoberta porque é novo, descobrir o que está acontecendo, encontrar a maneira certa de agir, de como proceder dentro da legalidade; o que mais importa hoje é por tudo no papel o que a gente está sentindo. Então é um novo orientador que está surgindo. Antes a orientação era mais psicológica; o orientador agia mais como um psicólogo, ouvindo, conversando, apagando os incêndios; hoje em dia, além de psicólogo, é um doutor, eu digo sempre, pois têm que encontrar maneiras de ajudar os alunos, suas famílias, os próprios professores, detectando problemas nessa criança, dando um norte para estas famílias, para esta criança, assim colaborando para o sucesso escolar”.
A prática da Orientação Educacional conforme Giacaglia e Penteado (2010) foi, inicialmente, calcada nos pressupostos da Orientação Vocacional, voltada, na maioria das vezes, para o encaminhamento dos jovens da classe trabalhadora ao ensino profissionalizante,
por meio de testes psicológicos de inteligência, de personalidade e de interesse, capazes de detectar as diferenças individuais, tornando-se um modo de persuasão com o objetivo de convencer os alunos de que conseguir um emprego dependia de sua capacidade, “ajustando-o” a este ou àquele curso. Se encaixando ao que o Estado queria num determinado período. Por isso, é possível dizer que legislação relacionada à educação no Brasil auxiliou o Orientador Educacional a fortalecer-se como profissional, mas muitas vezes embasado em pressupostos teóricos equivocados.
Renata concluiu a Graduação em Pedagogia no ano 2010 e, em seguida, foi convidada pela coordenadora da Coordenadoria Regional de Educação - CRE para fazer uma Pós em Orientação Educacional. Conforme a entrevistada “Ali aprendi sobre como lidar com
as diferentes situações, anotar tudo, não confiar na sua cabeça, registrar conversas com aluno, professor, direção, pais e sempre fazer assinar para se proteger. Agora, atuando em sala de aula na rede municipal, não existe esse profissional Orientador Educacional ali, e sinceramente faz muita falta; lá essa função é desempenhada pelo coordenador ou pelo próprio diretor. É o que me disseram quando questionei; entretanto penso que para ser Orientador é necessário ter formação para isso”.
Concordo com a entrevistada ao afirmar que o Orientador Educacional necessita ter uma formação específica para trabalhar nesta função, pois existem determinadas situações que quem teve a formação específica na Orientação Educacional consegue conduzir de forma mais adequada. Infelizmente já presenciei casos de profissionais não habilitados para o trabalho que assumiram esse papel de Orientador Educacional com maior boa vontade, mas portaram-se de forma antiética, divulgando informações de caráter mais sigiloso para todos na comunidade escolar, o que veio constranger muito a vida de alguns educandos, pais, funcionários e até de colegas professores.
Na visão de Renata, o perfil do Orientador Educacional hoje na rede estadual de educação é de descoberta, pois vem surgindo um “novo” orientador que procura agir dentro da legalidade, que registra todas as atividades desenvolvidas, com o intuito de se proteger de futuros possíveis mal-entendidos, sempre pensando no sucesso escolar. Ela traz apontamentos de que na rede municipal não existe a função de Orientador Educacional e, quando surgem demandas urgentes de atendimento, é a coordenação ou direção que procuram atender os casos.
Isabela – Pi
A professora Isabela é docente do curso de Pedagogia e formou-se Pedagoga na década de 80. Tem várias experiências desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Destaca a importância do Pedagogo Orientador Educacional no espaço escolar.
Conforme Isabela, hoje tanto o papel do Pedagogo Orientador Educacional, do coordenador, quanto do diretor, está sendo ressignificado; não de forma separada, mas se institui uma nova lógica de gestão participativa e gestão democrática, o que, inclusive, está previsto nas próprias diretrizes para as escolas públicas.
Nessa lógica, todos da equipe diretiva têm a função de articular, cuidar e acompanhar o PPP da escola. Embora todos tenham este papel em comum, há funções singulares. O diretor faz a gestão da escola, o coordenador (supervisor escolar) faz a gestão do ensino, ou seja, preocupa-se com a formação do professor no aspecto pedagógico e de planejamento, e o Orientador Educacional faz a gestão da aprendizagem, tendo um olhar sobre os sujeitos aprendentes verificando quais elementos interferem na relação de aprendizagem, como sua história, sua cultura, seus desejos, isto é, preocupa-se com a primeira função da escola: a formação humana.
Em suas palavras, “O Orientador Educacional deveria ter a preocupação de
repensar a escola, mas sem perder qual é a função social da escola. Pensar a aprendizagem, não só dominar conteúdo, mas o que esse sujeito faz com essa aprendizagem, tornar-se usuário daquilo que aprendeu. Para o pedagógico funcionar é necessário um coletivo articulado, que se reconheça. Vejo que o Orientador Educacional faz de fato mediações entre o administrativo e o pedagógico. Historicamente se perdeu isso, porque nosso sistema era muito segundo a lógica do mercado, „quantos passaram quanto tirou‟, muito em cima do produto e não do processo, e o lugar, o lócus do Orientador Educacional é muito mais no processo do que no produto”.
Segundo Isabela, existe um debate muito “grande” atualmente na Pedagogia sobre qual é o objeto da Pedagogia. Existe uma crise conceitual em razão da política pública de transformar o Pedagogo em professor. De acordo com a entrevistada, “professor não é
Pedagogo, Pedagogo não é professor, são duas funções diferentes. Confundem educação com Pedagogia, conhecimento educativo com conhecimento pedagógico. Professor é o docente, Pedagogo é aquele que pensa a educação, o pesquisador. O Pedagogo pode ser professor, mas na verdade sua essência é ser pesquisador. Antes o Pedagogo era formado por habilitações, hoje um curso só forma o Pedagogo em 3.200 horas na Educação Infantil, Anos Iniciais, Ensino Médio e Gestão, o que é muito pouco tempo, mas creio que isso vai começar
a mudar, pois logo começam a se esgotar os Orientadores Educacionais e será necessário repensar a atual formação. Para ser Orientador Educacional tem que ter Pedagogia ou uma Pós-Graduação em O.E. Hoje a formação do Pedagogo é frágil, mas dentro dos projetos pedagógicos pode se fortalecer. Então a formação desse profissional atualmente é feita de forma simultânea, junto com a docência, e ainda se discute que o Orientador Educacional possa fazer uma Pós e ser Orientador, pois existe uma lei que diz que sua formação deve ser no curso de Pedagogia, e essa lei ainda não foi derrubada. Precisamos lutar por isso, pois todas as escolas que têm mais de cem alunos já têm Orientador Educacional”.
A entrevistada ainda explica: “O Orientador Educacional tem muito a contribuir na
formação continuada, principalmente na construção da identidade do professor, na subjetividade, na singularidade desse sujeito plural. Durante as formações de gestores que atuei no ano passado, falamos muito na necessidade de investir no professor, na figura do professor, na formação pessoal e profissional dos docentes. Discutir, refletir, falar da sua história, para que ele se sinta valorizado como sujeito e como profissional”.
Isabela indica que o papel do Pedagogo Orientador Educacional hoje na escola está sendo ressignificado conforme a lógica de gestão participativa e democrática, mas ressalta que a essência do pedagogo é ser pesquisador e que em sua atuação na escola, o Pedagogo, tem muito a contribuir tanto com o corpo discente e docente.
Daniela – Pd
A professora Daniela é docente aposentada do curso de Pedagogia. Formou-se Pedagoga no final da década de 60 e, em seu relato, apresenta como foi a sua formação na graduação, que era muito parecida com a função de um psicólogo. Vai trazendo fatos das mudanças ocorridas no passar do tempo, desde sua formação até os dias atuais. Fala de algumas das suas vivências como Orientadora Educacional, e ainda da docência no Ensino Superior, no qual atuou na regência de disciplinas específicas de formação do Pedagogo Orientador Educacional e Supervisor Escolar.
Conforme Daniela, o papel do Orientador, inicialmente, isso décadas atrás, quando fez o curso de Pedagogia, era bem-determinado; era quase um trabalho de psicólogo. Naquela época não havia psicólogos nas escolas. Havia poucos cursos de psicologia; somente nas capitais e ainda não era psicologia escolar, mas clínica. “Então na orientação a gente teve
uma carga boa de psicologia, de testes de inteligência, personalidade, com isso a gente já percebe a semelhança com o trabalho de um psicólogo. E o trabalho exercido era paralelo ao trabalho do professor. Mas hoje penso que o orientador precisa ser antes de tudo, junto com o supervisor, aquele que trabalha com os professores. Enquanto o supervisor trabalha o
pedagógico, o orientador trabalharia a questão dos valores, o educacional, fazendo um vínculo com pais e professores e, eventualmente, alunos; mais aqueles casos em que o professor tentou e não deu certo. Fiz uma experiência assim no Imeab na década de 60-70 de assessorar os professores, e era por onde sentia os resultados mais positivos”.
Daniela ainda relata “na graduação nós tínhamos que ajudar nossos alunos e ex-
alunos a ser liderança pedagógica dentro das escolas, trabalhando com os professores. Em minhas experiências percebi que não adianta receber os alunos no gabinete, isso porque o problema acontece na família e na sociedade, mas estoura na sala de aula. Se eu trabalho com os professores o efeito é maior do que trabalhar com o aluno. É muito fácil o Joãozinho concordar comigo que não estou todos os dias na sala de aula, mas o efeito é curto, de poucos dias. Mas se o professor em sala de aula trata do assunto de forma diferente, apoiado pelo orientador, os resultados são mais eficientes. Pelo que sei hoje as habilitações não existem mais. Prepara-se o Pedagogo, e quem quiser pode procurar uma especialização em nível de Pós-Graduação. Vejo que, infelizmente, a cada ano que passa as novas gerações que estão chegando ao ensino superior estão cada vez menos preparadas. As políticas públicas educacionais têm se preocupado muito em alcançar índices e não efetivamente com a qualidade da educação”.
Quanto à contribuição do Orientador Educacional na formação continuada de professores, a entrevistada afirma que “essa é uma temática muito pertinente e importante,
penso que o orientador tem muito a acrescentar aos professores, trabalhando questões de valores, relacionamento, relações humanas, ajudando o professor em serviço a se formar constantemente nos momentos de reflexão da prática do dia a dia”.
Na fala de Daniela é possível observarmos a importância atribuída ao Orientador Educacional, e como a profissão foi mudando desde sua formação inicial na década de 60 até a atualidade, a pedagoga argumenta sobre as novas gerações que estão chegando ao ensino superior cada vez menos preparadas, relacionando isso às políticas públicas educacionais que têm se preocupado muito em alcançar índices e não efetivamente com a qualidade da educação.
Neste capítulo inicial apresentei vários aspectos importantes da pesquisa, por exemplo, a problemática do Orientador Educacional no contexto das escolas e o caminho trilhado para está pesquisa, a análise textual discursiva na organização e produção dos dados da pesquisa, bem como o perfil e compreensões gerais das entrevistadas.
Das entrevistas é possível dizer que as quatro participantes são pedagogas com experiência em Orientação Educacional, todas apontam a importância do profissional POE na
escola para um ensino de melhor qualidade e ainda levantam algumas questões a serem pensadas como: a formação do profissional Orientador Educacional, por que o Orientador Educacional não está presente em algumas escolas, por que cada vez mais têm chegado estudantes com menor conhecimento ao ensino superior.
Diante disso, após apresentar os motivos que me levaram ao interesse pela temática e realização desta pesquisa, apresentar o contexto da pesquisa e as opções metodológicas adotadas para a construção e discussão dos dados. Apresentar o perfil e compreensões gerais de cada entrevistada. No capítulo 2 discuto e reflito acerca de vários aspectos da Orientação Educacional e da atuação do Pedagogo Orientador Educacional na legislação, na literatura e no âmbito escolar apresentando minha compreensão do papel do Orientador Educacional com base nas leituras realizadas e em minha experiência profissional.