Os CMDCAs são definidos pela Lei 8.069/90, artigo 88, inciso II, como “órgãos deliberativos e controladores das ações em todos os níveis”, atribuições que os fazém ocupar papel decisivo na gestão das políticas públicas. Neste sentido, efetuar o controle das ações na área da infancia implicará no acompanhamento e avaliação da gestão de todo o conjunto das políticas públicas, bem como das políticas executadas pelas ONGs, empreendimento que exigirá capacitação e acesso à informação.
Quanto aos CMDCAs do Médio Vale do Itajai, as iniciativas que indicaram a efetivação do controle das ações, portanto, que compuseram a agenda controladora, foram bastante tímidas, ocupando 2,65% do total de assuntos presentes nas atas dos conselhos durante o intervalo de tempo considerado na pesquisa. No período de 1997 a agenda
controladora ocupou 2,76% dos temas abordados, em 1998 participou com apenas 1,91% dos
registros nas atas e, em 1999, houve uma elevação para 3,98% do total de assuntos tratados pelos CMDCAs.
. Apenas quatro conselhos pesquisados dedicaram-se às ações cujos conteúdos denotaram que houve controle das ações. Para melhor compreensão, as ações foram classificadas conforme a sua especificidade e finalidade, bem como de acordo com o destinatário. O Quadro 15 mostrará as ações de articulação distribuídas nos períodos
Quadro 15
Agenda Controladora dos CMDCAs - período, tipo de ação, destinatário e finalidade
Agenda Controladora dos CMDCAs
Período Tipo de Ação Destinatário/alvo Finalidade
Debate Conselho Tutelar Avaliar a atuação
JuL/dez. 1997 Solicitação de relatório Conselho Tutelar Conhecer denúncias de
ameaça e violação Encaminhamento de
denúncia
Promotoria Pública Fiscalizar ações do Conselho Tutelar
Envio de ofício Secretaria Municipal de Saúde e Hospital Solicitar cumprimento da Lei 8.069/90 (primazia no atendimento) Jan./dez.l998 Conhecimento de fiscalização realizada pelo Conselho Tutelar
Organização governamental Averiguar o cumprimento da Lei 8.069/90 Definição de calendário e realização de visitas ONGs e organizações governamentais Registrar e avaliar programa
Realização de reunião Conselho Tutelar Avaliação da atuação
Solicitação de relatório Conselho Tutelar Conhecer
encaminhamentos Realização de reunião CMDCA Avaliação de gestão
Debate sobre denúncia recebida
Conselho Tutelar Avaliar denúncia de abuso de poder e não cumprimento de funções
Jan./jul. 1999 Envio de ofício ONG e Executivo
Municipal
Levantar dados sobre programas (abrigo, sócio educativos, profissionalização) Debate Lei Complementar
Municipal
Alterar lei
Fonte: Atas de reuniões dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente do Médio Vale do Itajai no período de julho de 1997 a julho de 1999.
Os dados expressos acima demonstraram a fragilidade da agenda controladora dos CMDCAs, ou seja, os limites para a sua efetivação como mecanismo responsável pelo controle da política de proteção à infância. As ações incluíram o envio de ofícios, a realização de debate entre o próprio CMDCA, reuniões, realização de visita aos programas desenvolvidos por ONGs e pelo Executivo Municipal para registro de programas financiados com recursos do FIA. Uma das ações foi realizada pelo Conselho Tutelar que tem, dentre suas competências, a de fiscalizar as instituições prestadoras de atendimento para a população infanto-juvenil e apenas foi comunicada ao CMDCA. A definição de calendário para a realização de visitas às organizações governamentais e não governamentais fazia parte da agenda de uni CMDCA que contava com Comissão Especial Permanente para tal fim.
Há alguns indicadores postos pela Lei 8.069/90 e que podem ser úteis para a definição das ações de controle da política de proteção à infância. O artigo 90, no parágrafo único, estabelece que as entidades de atendimento à crianças e adolescentes, tanto governamentais quanto não governamentais, devem inscrever seus programas no CMDCA, que manterá o registro dos mesmos e comunicará ao Conselho Tutelar e à autoridade judiciária, ambos responsáveis pela fiscalização conforme o artigo 95 da mesma Lei. Embora o artigo 90 faça referência às entidades responsáveis por programas de: orientação e apoio sócio-familiar, apoio sócio-educativo em meio aberto, colocação em família substituta, abrigo, liberdade assistida, semiliberdade e internação, acreditamos que o controle da política de proteção à infância não pode restringir-se a estes serviços, mas deve incluir as demais políticas que compõem as “linhas de ação da política de atendimento”, descritas no artigo 87 da Lei 8.069/90 e que compreendem as políticas sociais básicas.
Os conselhos são mecanismos fundamentais para o exercício do controle social que, por sua vez, consiste num dos elementos mais importantes para o processo de democratização, no qual incluímos não só a participação política, mas também o acesso e usufruto de bens e serviços sociais. O controle social requer a participação das organizações da sociedade civil, o acesso à informação, a transparência no processo decisorio e, sobretudo, pressupõe a criação
de mecanismos permanentes de articulação e de comunicação. Estas condições não estavam postas no período pesquisado, conforme abordamos nas agendas temática, articuladora e
decisória. Para MORAES (1999) o estabelecimento de relações entre os CMDCAs e os
demais conselhos setoriais “passa a ser um dos pontos centrais de sua ação. [...] a partir deste entendimento, têm a atribuição de gerir participativamente a ‘Política de Garantia’ dos Direitos, isto é, estabelecer mecanismos de controle e avaliação de todas as políticas quando dirigidas à infância e à adolescência, monitorando a proteção integral e a prioridade absoluta desta parcela da população” (MORAES, 1999, p. 122).
Acreditamos que o controle das ações será melhor operacional izado na medida em que os CMDCAs incluírem em seus planejamentos: a elaboração de sistemas de informações, o que dará visibilidade aos indicadores sociais relativos à situação da infância; a definição de Comissões Permanentes para registro e avaliação de programas, que localizamos apenas era um município e o estímulo à criação de fóruns de debate, cujo papel é decisivo para romper com as tradicionais práticas políticas. Os fóruns constituem locais de ampliação da participação para além do mecanismo de representação existente nos conselhos e, enquanto espaços organizativos ampliados, inclusive cumprem a tarefa de controlar a ação dos próprios conselhos, dinamizando-os e tomando suas atividades mais visíveis.
Por último, desejamos assinalar a importância de os CMDCAs darem maior ênfase à efetivação de suas atividades-fim para que não sejam absorvidos pela burocracia e não se transformem em encaminhadores de ofícios e de providências burocráticas, afastando-se do controle, avaliação e formulação das políticas públicas. Conforme VTEIRA (1998), conselhos que não decidem e que não avaliam, não alargam seu espaço de participação na gestão das políticas públicas.