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O perspectivismo machadiano

1. COMO SE FILOSOFA COM O MACHADO

1.5. O perspectivismo machadiano

Antonio Candido avalia que a matriz formal do “tom machadiano” é caracterizada pela polivalência do verbo literário, relatividade dos atos, livre cultivo do elíptico, do incompleto e fragmentário, deixando as coisas meio no ar, inclusive criando certas perplexidades não resolvidas. O escritor, enigmático e bifronte, criador de um mundo paradoxal, publicou textos abertos, sem conclusão necessária, permitindo uma dupla leitura128.

Paulo Margutti endossa que, de acordo com a visão de mundo de Machado, a realidade é multifacetada e enigmática. Coerentemente, a expressão literária adequada desses traços exige um texto que seja simultaneamente multifacetado e enigmático, caracterizado por uma polissemia multiperspectiva que admite diferentes leituras em níveis distintos. Para realizar essa tarefa, o escritor recorre aos subterfúgios de retratar a realidade de maneira dúbia e de não contar tudo nos seus romances. “O resultado é que o leitor nunca consegue obter toda a informação de que precisa para decidir se uma certa interpretação é correta ou não”129

. As ambiguidades analisadas podem ser explicadas pelo perspectivismo machadiano, que serve de fundamento para as frequentes ambiguidades gnosiológica e psicológica que aparecem em sua obra e suscitam um mundo escorregadio: ele é e não é niilista, é e não é melancólico, é e não é engajado. Como diria, com galhofa, o narrador de Quincas Borba: “Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão”130.

128

Cf. CANDIDO. Esquema de Machado de Assis, p. 115-118.

129 MARGUTTI. Machado, o brasileiro pirrônico?, p. 204. 130 ASSIS. Quincas Borba, XVIII, p. 775.

Machado de Assis não é niilista, melancólico, irônico, pessimista ou engajado absolutamente ou essencialmente falando. Mas ele pode ser isso tudo, de certo ponto de vista, e de outro não. Pode-se avaliar que o autor “atinge o ponto de vista que supera a contradição e compreende a conciliação dos contrários [...] Este perspectivismo evita a contradição e indica em que sentido e de que maneira cada um dos estados pode ser afirmado e aceito do ponto de vista moral”131.

O perspectivismo machadiano se opõe ao pensamento metafísico e teleológico que, ao acreditar em origem, valores eternos, essências imutáveis e absolutas, reduz por toda a parte a diversidade à unidade ao fazer abstração das singularidades: “o perspectivismo reivindica que nós não podemos e não precisamos justificar nossas crenças alicerçando-as em um conjunto inquestionável de crenças que devem ser compartilhadas por todos os seres racionais”132

. Nesse sentido, Aires adverte a Natividade sobre a impossibilidade de apresentar respostas definitivas: “Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que há definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha”133.

O cerne do perspectivismo machadiano está na consideração de que tudo é conjectural. Todo valor ou conceito, como por exemplo, o de niilismo, é apropriado, ao longo de sua história, por forças e potências diversas, que a cada vez lhe impõem significados e funções. Por isso é necessário marcar a historicidade dos acontecimentos, contra a tradição teleológica que acredita num desenvolvimento progressivo e linear, buscando sempre a gênese de um estado original e puro. Como diria Brás Cubas, “não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo”134

.

Considerando que todo pensamento parte de um olhar específico e parcial, nenhum conhecimento pode dar conta de toda a experiência. O cronista de A Semana usa uma metáfora visual para indicar que o conhecimento envolve um fato análogo ao da perspectiva no campo da visão:

Com os espetáculos da natureza dá-se a mesma diversidade de interesse. O geólogo cuidará da composição interior da montanha, que para o engenheiro dará uma ideia de uma via férrea elevada ou de um simples túnel. Vede o mar, vede o céu. Vede esta flor. Entregue pela noiva ao noivo, à despedida, traz consigo todos os aromas dela, as suas graças, os seus olhos, a poesia que ela respira e comunica à alma do outro, e ainda as recordações de uma noite, de um beijo, a fugir entre a porta e a escada. Nas mãos de um botanista é um simples exemplar da espécie, a que ele dará nome latino [...] Quantos olhos,

131 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 180. 132

CLARK. Nietzsche on truth and philosophy, p. 130.

133 ASSIS. Esaú e Jacó, XXXVIII, p. 1122.

tantas vistas. Essa variedade é que torna suportável este mundo, pela satisfação das aptidões, das situações e dos temperamentos. O contrário seria o pior dos fastios135.

A palavra perspectiva refere-se à percepção visual do espaço e dos objetos nele contidos, de acordo com a distância e o ângulo. “Uma visão não-perspectiva seria uma visão de lugar nenhum”136

. A ideia de um conhecimento não perspectivo seria tão absurda quanto a de uma visão não perspectiva. É nesses termos que Machado expressa sua rejeição ao fundacionalismo cartesiano, perspectiva epistemológica segundo a qual o conhecimento deve ser concebido como uma estrutura que se ergue a partir de fundamentos certos e seguros. Enquanto a tradição cartesiana postula um sentido prévio à interpretação, afirmando um sentido em si para as coisas, o escritor brasileiro mostra que o sentido é dado pela interpretação, pois não existe sentido a priori a ser descoberto:

Mas que há neste mundo que se possa dizer verdadeiramente verdadeiro? Tudo é conjetural. Dai-me um axioma: a linha reta é a mais curta entre dois pontos... Parece-nos que é assim, porque realmente, medindo todas as linhas possíveis, achamos que a mais curta é a reta; mas quem sabe se é verdade?137 Pondo sob suspeita toda e qualquer certeza, o nosso autor recusa a adoção de um ponto de vista normativo e pretensamente universal, porque a pretensão de validade universal dos conceitos nos impede de ver o que está mais próximo de nós. O perspectivismo revela todo valor como histórico e culturalmente emergente em configurações de poder, isto é, como interpretações, sejam de indivíduos, grupos, sociedades ou civilizações.

Considerando-se que não existem quaisquer fatos ou objetos a que se possa conceder o estatuto de verdade em termos absolutos, mas apenas perspectivas avaliativas acerca dos mesmos, corre-se o risco de resvalar em um estéril pluralismo epistemológico do tipo “vale tudo”, o que foi explicitamente combatido por Machado. O perspectivismo machadiano demanda a perseverança que todo leitor deve ter ao procurar o cerne de um livro, praticando uma análise conscienciosa, solícita e fecunda. Faz-se necessário ruminar, isto é, pensar e voltar a pensar seguidamente aquilo que estamos analisando: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida”138.

135 ASSIS. A Semana, p. 997. 136

CLARK. Nietzsche on truth and philosophy, p. 129.

137 ASSIS. A Semana, p. 1153. 138 ASSIS. Esaú e Jacó, LV, p. 1148.

Perspectivismo e ruminação são dois elos entre a literatura e a filosofia. Machado, desconfiando de todo e qualquer dogmatismo, rumina ideias para fazer experimentos com o pensar. Por isso, a crítica precisa levar em conta que a verdade só pode ser pensada em relação à perspectiva que a engendra. Assumir isso é até uma questão de honestidade intelectual, visto ser recorrente nos estudos literários e filosóficos a tensão irreconciliável entre várias interpretações de um texto, muitas delas possíveis e excludentes entre si. Por isso, é importante enfatizar o caráter perspectivista desta pesquisa, assim como o de toda interpretação em geral. Nesse sentido, proponho uma leitura que suspende preconceitos e não atribui um sentido unívoco à obra de Machado de Assis, reconhecendo “o caráter multiplamente determinado do texto”139

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