2 O PINHEIRINHO NA PAISAGEM URBANA DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
2.4 O Pinheirinho como elemento estranho à ‘ordem’ da cidade
circulava de um lado para outro. Não estava o prefeito e não estava nenhum secretário. Havia representantes do Estado, do Governo Federal e da OAB
[Ordem dos Advogados do Brasil]. E nós.
Jairo Salvador, um dos que acompanharam esse processo, disse haver elementos suficientes para que a execução da ordem de despejo fosse suspensa:102
Existia um protocolo de intenções. O Governo Federal garantia verbas para regularizar o terreno, o Governo Estadual garantia um projeto técnico. A Prefeitura teria que fazer duas coisas: aprovar os projetos e fazer o cadastro das famílias. Mas ela não se dispôs a fazer isso. É um contrassenso. Gastou- se uma fortuna para deslocar 1% da população da cidade, quando havia uma solução definitiva em curso.
Na madrugada de 22 de janeiro de 2012, uma mobilização com o envolvimento de dois mil policiais militares eliminou qualquer possibilidade de acordo. O Pinheirinho começava a ser destruído.
2.4 O Pinheirinho como elemento estranho à ‘ordem’ da cidade
A história do Pinheirinho está ligada a vários momentos políticos que São José dos Campos atravessou no curso de pelo menos cinco décadas. A sua origem envolve conflitos e dramas, como o crime que vitimou a família Kubitzky, em 1969, e acrescentou elementos de controvérsia à tradição oral dos moradores da cidade, que atribuem o crescimento da Zona Sul à grilagem de terras, uma prática bastante comum na região. O fato é que não são poucos os indícios de que o bairro Campo dos Alemães, antigo patrimônio dos irmãos Kubitzky, incorporava, no passado, o terreno que lhe é contíguo, e que foi ocupado em 2004 por trezentas famílias sem-teto. Essa questão se desdobra em muitas outras, e é fundamental para a compreensão dos fatos que resultaram na retirada violenta dos moradores do acampamento, em janeiro de 2012. No campo técnico-jurídico, os debates sobre a ocupação se deram em torno da dicotomia entre propriedade privada, encarada como direito absoluto por um certo “senso comum”, e o imperativo de atendimento à sua função social, previsto na Constituição da República. Os detentores do título de propriedade queriam desonerar o imóvel e aumentar o seu valor de mercado; os
ocupantes lutavam pelo direito à moradia, inviabilizado pela fragilidade das políticas públicas encampadas pelo Município.
As desigualdades na distribuição do espaço urbano, concebido em seu modelo clássico, costumam ser tratadas como um problema social decorrente do crescimento acelerado e anárquico das sociedades capitalistas. Em seu desdobramento, estão presentes outras questões específicas, como a questão habitacional, a questão dos transportes, a questão da poluição e a questão do saneamento. Santos (1982: 59) comenta:
Trata-se de um problema ou conjunto de problemas sociais específicos, criado fora do mundo do trabalho e da produção, e que, como tal, não é ao capital e sim à sociedade no seu todo – e, portanto, ao Estado – que cabe resolver. É com base nessa concepção que o Estado capitalista assume a questão urbana e a enfrenta com um conjunto de medidas e ações a que se dá no nome global de política urbana, e na qual se integram a política habitacional, a política de transportes, a política antipoluição, a política de saneamento, etc.
Essa concepção, ainda de acordo com Santos (1984: 59-60), peca pela superficialidade, além de ocultar problemas emergentes do modo de produção da cidade sob a prevalência da lógica do capital. “Por um lado”, afirma, “embora a questão urbana se refira imediatamente às relações de reprodução da força de trabalho, não pode ser adequadamente concebida em separado das relações de produção em que essa força de trabalho é apropriada e valorizada”. Isso quer dizer que uma política urbana, na qual se insere a política habitacional, estará condenada ao fracasso desde que se afaste da política fundiária ou da política de emprego, por exemplo. A especulação imobiliária, aqui, se coloca no centro do problema.
Da observação de alguns aspectos do caso Pinheirinho, a especulação imobiliária aparece em determinados discursos como a causa do despejo dos moradores, e volta a ser um problema na busca de soluções de moradia para as famílias após o despejo. A discussão [...] indica, portanto, que a especulação imobiliária é um elemento importante para entender as causas do não-acesso à moradia adequada, uma vez que se relaciona aos altos preços dos aluguéis nas cidades. Uma das consequências é o processo de exclusão que atinge majoritariamente a população pobre dos centros urbanos, provocando, por sua vez, as condições que submetem essa população à moradia inadequada (déficit habitacional). (GINJO, 2012: 19)
No enfrentamento do caso Pinheirinho, a Prefeitura de São José dos Campos, com o apoio da sua base parlamentar na Câmara de vereadores, estabeleceu como
prioridade a destruição do aparato montado pelos ocupantes. O que se queria era afirmar um parâmetro geral no tratamento dos conflitos pela posse e pela distribuição do espaço urbano. Se fosse regularizado, o Pinheirinho estimularia novas ocupações. Em sentido oposto, a sua eliminação teria efeito inibidor, travando as ações de grupos de luta por direitos coletivos e abrindo caminho para a recuperação de uma legalidade que recomenda o isolamento da pobreza em regiões periféricas da cidade. O defensor público Jairo Salvador constatou: “Como existia esse ranço de que eles [os moradores do Pinheirinho] não deveriam servir de modelo para que outros não enveredassem pelo mesmo caminho, o poder público municipal foi muito intransigente e fez de tudo para derrotar o Pinheirinho e tirar aquele pessoal de lá”.103
A apologia da “ordem”, convém lembrar, fazia parte do discurso dominante, de criminalização dos movimentos sociais, capitaneado pelo partido da situação, o PSDB, Sob essa ótica, o Pinheirinho nunca deixou de ser uma ameaça. Lá, estava em construção um espaço coletivo disciplinado por normas de conduta não-estatais, que abarcavam as relações intersubjetivas dos moradores e estabeleciam uma espécie de rede de proteção ao acampamento. Com a participação de sindicatos e partidos políticos, esse grupo não se limitou a manifestações pela conquista do direito à moradia, mas também ocupou espaços formais da política, seja no estabelecimento de contatos e negociações nas esferas de governo (municipal, estadual e federal), seja nas disputas travadas no âmbito do Poder Judiciário. O fenômeno é típico dos processos de democratização, como o que se deu no Brasil a partir da década de 1980. No período anterior, durante o ciclo dos governos militares, os “espaços institucionais” eram percebidos como lugares de reprodução das desigualdades e de centralização autoritária. Com a entrada em vigor da Constituição de 1988, a ideia de independência total da sociedade civil se relativizou, passando a conviver com outra realidade: a absorção de lideranças pelas estruturas públicas (ANDRADE, 2010: 11 e 13). O Pinheirinho refletiu isso:
O Must usou e abusou dessas vias institucionais em sua formação, expansão e gerenciamento do acampamento, e, mesmo quando a suposta lógica ‘marxista-trotskista’ pautava o controle do poder por vias alhures das instituições legais, a movimentação institucional que ‘engolfava’ partidos e sindicatos pôs em jogo meios e dinâmicas para ganhar as eleições e disputar meios de acessos ao poder a partir de conformações formais eleitorais – não
sem antes buscar nas categorias do cotidiano dos moradores o seu apoio” (ANDRADE, 2010: 143).
O estabelecimento de acordos configurados dentro do Estado é apontado por Marrom como sinal de avanço no atendimento às demandas dos sem-teto. Nesse sentido, a transferência do poder local do PSDB para o PT, com a eleição de Carlos José de Almeida, o Carlinhos, em 2012, teria propiciado uma condição semelhante à que marcou a passagem do País do regime militar para a democracia constitucional.
Antes de o Carlinhos ser eleito, ele pediu uma reunião com a gente. A mudança foi 100%. Agora, nós temos reunião a cada quinze dias com a Prefeitura, nós temos reunião com a Caixa Econômica Federal, de quinze em quinze dias, nós temos reunião com a Defensoria Pública, todo mês, e nós temos uma reunião grande, de dois em dois meses, com o Governo Federal, com o Governo Estadual, com construtora, Caixa, todos juntos, de dois em dois meses. Então, mudou atendimento, mudou tudo. [...] Nós somos um movimento que continua, com esse acordo com a Prefeitura, com o Governo Federal, com o Estado, mas o acordo nosso é o seguinte: é na ajuda, mas se alguém pisar no tomate, com certeza a gente vai fazer todo esse trabalho [de confronto].104
Para a Prefeitura de São José dos Campos, as relações institucionais com a população do Pinheirinho facilitaram a difusão de um discurso de elogio a programas de financiamento de casas populares pelo Governo Federal. A pesquisa acompanhou um dos encontros da administração municipal com futuros moradores do conjunto habitacional “Pinheirinho dos Palmares”, sob a coordenação de Marrom. Nas manifestações oficiais, a ideia de mudança apareceu de forma reiterada:
[O mais importante] foi o fato de a gente ter mudado a política na cidade. Porque, até o dia 31 de dezembro de 2012, o Governo Federal queria resolver a questão do Pinheirinho, o Governo do Estado queria resolver a questão do Pinheirinho (porque o filme ficou muito queimado com aquela desocupação), e não [se] dava nenhum passo à frente porque a Prefeitura de São José não queria sentar à mesa pra conversar. Então, a coisa mais importante que nós fizemos foi, em janeiro [de 2013] sentar e conversar, dialogar, negociar. Foram muitas e muitas conversas. Não foi fácil. [...] Mas a obra mais importante foi o diálogo entre o poder público municipal, estadual, federal, as famílias e a sociedade.105
104 Cf. entrevista com Marrom (citada).
105 Pronunciamento de Carlinhos de Almeida durante apresentação de projetos arquitetônicos para o conjunto
habitacional ‘Pinheirinho dos Palmares’, em 9 de dezembro de 2015. A cerimônia se realizou na Zona Sul de São José dos Campos, com a presença de Marrom, representantes do Must e antigos moradores da ocupação (arquivo de áudio).
Esse tipo de atividade evidencia a transformação política do Must e o papel assumido pelo movimento na intermediação de acordos com o poder público, na forma descrita por Tatagiba (2010: 71-72):
Apesar do discurso anti-institucional, com a abertura democrática os movimentos de moradia foram cada vez mais assumindo um papel de mediação entre os governos e as comunidades, assumindo o papel de organizar e influenciar a seleção da demanda por moradia, principalmente no caso dos governos populares. Num contexto de escassez, as organizações passam a disputar entre si, e com o governo, o direito de indicar as famílias a serem beneficiadas pelos novos programas habitacionais.
De imediato, as novas relações entre Must e Prefeitura de São José dos Campos resultaram na fixação de uma data para a entrega das casas. Com isso, os antigos moradores do Pinheirinho puderam vislumbrar uma resposta afirmativa às suas demandas históricas. Nesse esquema, todavia, o tempo e as condições de negociação vêm sendo determinados unilateralmente pelo poder público. O “Pinheirinho dos Palmares”106 dará estrutura material aos desalojados da ocupação, sem dúvida, mas isso se fará com base num modelo de urbanização que isola a pobreza em regiões periféricas da cidade. A inauguração do condomínio, por exemplo, já foi adiada mais de uma vez, devido a problemas administrativos, e agora está prevista para acontecer no primeiro semestre de 2016.
Não há como negar que todos esses fatos expressam uma vitória da coletividade, que, desde a construção do Pinheirinho, vinha buscando alternativas à crise de habitação que atinge a cidade, ainda que essa vitória tenha custado a rachadura do movimento, que modificou parcialmente a sua linha política. Um dos críticos da postura atual do Must, Serginho questiona o que, para ele, é um sinal de oportunismo do PT: “Hoje, o PT diz que é ele que está fazendo [a organização dos moradores]. É incrível, cara! [...] E vou dizer uma coisa: se o PT não entregar essas casas agora, em 2016, e se o
PSDB assumir isso aqui [a Prefeitura] de volta, o PSDB vai falar que é ele que tá fazendo. E já tá atrasado [a entrega do conjunto habitacional]”.107 Mesmo assim, ele reconhece a importância dos acordos mais recentes:
106 O ‘Pinheirinho dos Palmares’, citado neste trabalho, é um conjunto habitacional que está sendo construído
com recursos estaduais e do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, do Governo Federal, para abrigar os antigos moradores do Pinheirinho.
Eu acho que é tudo aprendizado, que tudo foi bom. Foi bom pra luta, foi bom pras famílias do Pinheirinho, que agora têm uma casa pra morar. Eles aprenderam muito. Aprenderam a lutar, a cobrar aquilo que eles acreditam que é certo. Eu acho muito importante isso. Hoje em dia, se eles forem num postinho de saúde e não tiver médico, eles vão fazer um escândalo. Se eles forem matricular um filho na escola e falarem que não tem vaga, você vai ver o escândalo que eles vão fazer. Foi uma formação. Foi muito válido. O Pinheirinho ensinou muito como se organiza, como se faz.
Sob esse aspecto, a retórica de Marrom quase não diverge. Ao ser questionado sobre a adesão a um modelo de habitação diferente do que era defendido pela organização original do Pinheirinho, ele disse:
[...] O que nós ganhamos, a nossa maior vitória, foi manter o movimento organizado. Como o movimento se mantém organizado, ele garante a casa, entendeu? As casas estão saindo não por força do governo, não por força da Prefeitura, mas por força do movimento. Só vão fazer porque o movimento está organizado. Se não estivesse organizado, não tinha nem casa.
O elemento que pautou a enorme repercussão do caso e lhe deu alcance internacional foi, sem dúvida, a capacidade de organização demonstrada pelos ocupantes e seus apoiadores, que Marrom acredita estar preservada. O Pinheirinho “incomodava” o poder local. Isso determinou, tão logo se deu o despejo, a adoção de medidas paliativas para enfrentar o problema social da moradia, agravado pela destruição do acampamento. Ao criticar as ações patrocinadas pelo poder público, Jairo Salvador estimou o custo da “intransigência dos gestores locais”:108
O Estado assinou o protocolo de regularização, junto com o Governo Federal. Se não fosse a intransigência dos gestores locais, o desfecho teria sido outro. Hoje se está gastando muito dinheiro, muitos milhões, para resolver um problema que estava perto de uma solução. São 1700 pessoas recebendo auxílio aluguel, é a construção das novas casas, é muita coisa a ser feita.
Nos capítulos seguintes, será abordado o ponto central desta pesquisa, que consiste em compreender o papel desempenhado pelas estruturas formais da Justiça nos acontecimentos que cercaram a desocupação. A tarefa importará, necessariamente, em superar os limites da dogmática jurídica, que exclui do direito os cuidados de ordem econômica, política, sociológica e antropológica, com a utilização de conceitos de
aparente precisão, univocidade, coerência e universalidade. Em lugar dessas limitações, a análise se fará em torno de “abordagens analiticamente mais ricas, abrangentes e funcionais, preocupadas em demonstrar como os saberes jurídicos estão vinculados a objetivos políticos e conscientes de que essa transparência conceitual não passa de mera falácia ideológica, simples representação imaginária à procura de feitos de identidade entre o saber e realidade” (FARIA, 1986: 40).