1. EDUCAÇÃO INTEGRAL NA ATUALIDADE
4.1 O PLANEJAMENTO
Pesquisar requer partir de uma questão problematizadora a fim de alcançar evidências, sugestões e/ou soluções para essa. Esse movimento, de busca de informações, reflexões e considerações, envolve planejamento. Assim, esta pesquisa teve como natureza a abordagem qualitativa, uma vez que para Gama e Terrazan (2015),
Este tipo de pesquisa busca procedimentos de investigação que imputem um caráter de rigor e confiabilidade às investigações que tem como objeto os fenômenos sociais caracterizados, especialmente, pela complexidade e pelo caráter mutável das situações vividas em um determinado tempo e espaço (p.83).
As pesquisas educacionais buscam analisar fenômenos ocorridos entre pessoas e seus contextos, e mesmo sendo complexos e mutáveis, seguem procedimentos de pesquisa que garantem o rigor e a confiabilidade na coleta e análise dos dados. Mesmo que "os profissionais pesquisadores pretendam lidar com problemas ou questões práticas da maneira mais eficiente possível", terão de seguir padrões que "de modo geral, [...] são exatamente os mesmos para pesquisas de profissionais e de acadêmicos. A diferença estará na ênfase e nos detalhes, mas o
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Conforme http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=metodologia, acesso em 09/04/16.
compromisso de ser sistemático será o mesmo" (KNOBEL e LANKSHEAR, 2008, p. 27).
O estudo buscou uma forma de pesquisar que fosse autêntica e coerente com a proposta de pesquisa. A coleta e análise dos dados ocorreram conjuntamente, uma vez que a interpretação dos dados foi sendo construída durante a pesquisa, de forma que "os dois movimentos são realizados simultaneamente, promovendo a autodefinição da própria dinâmica da pesquisa" (GHEDIN, 2011, p. 190). Buscou-se, dessa forma, além de pesquisar, vivenciar as ações da pesquisa coletivamente de forma a significar a ação vivida em autoformarão da própria prática. De acordo com Franco (2008),
O pesquisador realizou seu trabalho, construiu conhecimentos, apropriou-se de novas relações de sentido e, além disso, sua ação gerou um processo semelhante nos agentes da prática, que, pelo fato de terem se colocado em processo de aprendizagem significativo, reconstruíram suas percepções em algum aspecto e por certo redirecionarão seu fazer na prática (p. 106).
Por isso, a pesquisa deixou de ser uma proposta apenas e passou a ser um movimento com o grupo de professores participantes, que oportunizou uma reflexão sobre a ação, gerando a percepção de que a reestruturação é possível e, por isso, a organização do trabalho escolar na perspectiva da educação integral é necessária. Esta pesquisa discutiu acerca da temática da educação integral e da organização do trabalho escolar, organizando-se a partir do seguinte problema de pesquisa: Que possibilidades existem nas formas de organização do trabalho escolar para a articulação com as ações desenvolvidas na proposta de educação integral presente no Programa Mais Educação?
Durante a realização desta pesquisa buscou-se esclarecer algumas questões, desdobradas do problema, as quais pretenderam aperfeiçoar a coleta de informações durante a pesquisa. Essas questões foram:
1. Que representações sobre educação integral permeiam o cotidiano da escola?
2. De que forma os professores compreendem o processo de implementação da proposta de educação integral na escola, através do Programa Mais Educação?
3. Que aspectos são favoráveis e que aspectos são limitadores das ações desenvolvidas por meio do Programa Mais Educação, da proposta
pedagógica da escola e da perspectiva de educação integral do Plano Nacional de Educação e Plano Municipal de Educação vigente?
As questões acima descritas nortearam a coleta de dados e serviram de base para a reflexão acerca do produto da pesquisa. As fontes de pesquisa para coleta de informações estavam na própria escola, sede da pesquisa. Foram definidas de acordo com as questões de pesquisa norteadoras deste estudo, pois se apresentavam relevantes para identificação de aspectos pertinentes a essas questões. Foram fontes de pesquisa, os sujeitos: professores lotados na escola; monitores das atividades/oficinas do Programa Mais Educação; equipe diretiva da escola; representante da Secretaria Municipal de Educação; e representante do Conselho Municipal de Educação. E o espaço das reuniões pedagógicas, para discutir como realizar a construção coletiva da proposta, também se configurou como fonte de pesquisa.
Para cada tipo de fonte de pesquisa, utilizou-se um instrumento de coleta específico, de forma que a observação e as entrevistas individuais foram utilizadas como instrumentos de coleta. Assim, realizamos observações durante as reuniões pedagógicas e entrevistas individuais com os professores, monitores, equipe diretiva da escola, representante da Secretaria Municipal de Educação e representante do Conselho Municipal de Educação. A observação foi utilizada, uma vez que essa propicia a pesquisa no contexto em que se desenvolvem as ações ou falas a serem coletadas oportunizando a observação de comportamentos e expressões verbais no momento em que ocorrem.
Esse instrumento promove a participação em momentos coletivos em que aspectos pertinentes às questões de pesquisa são evidenciados. Assim, segundo Knobel e Lankshear (2008) as técnicas de observação "enfatizam a coleta de dados na "vida real", nos contextos do cotidiano" (p. 40) e por isso evidenciam situações em que pontos de vista são externalizados. Para Angrosino (2009) "observação é o ato de perceber as atividades e os inter-relacionamentos das pessoas no cenário de campo através dos cinco sentidos do pesquisador" (p. 56) de forma que se constitui em uma das habilidades centrais necessárias ao pesquisador, que é saber compreender os seus sentidos. Conforme Chizzotti (2006), "a observação direta ou participante é obtida por meio do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado, para recolher as ações dos atores em seu contexto natural, a partir de sua perspectiva e seus pontos de vista" (p.90). Dessa forma caracteriza-se a
observação como uma forma vantajosa de coleta de dados, pois oportuniza a observação de situações reais no momento em que essas ocorrem, trazendo para a coleta, dados reais e atuais. Assim, a observação participante, oportuniza "experienciar e compreender a dinâmica dos atos e eventos, e reconhecer as informações a partir da compreensão e sentido que os atores atribuem aos seus atos" (CHIZZOTTI, 2006, p. 90).
Para isso, a observação seguiu alguns cuidados a fim de justificar e validar os dados coletados sem distanciar a coleta da rigorosidade necessária para a pesquisa científica. Segundo Santos (2007, p. 92), são necessárias algumas recomendações e cuidados para o uso deste instrumento de pesquisa, como: cuidar para que a presença do pesquisador no ambiente observado não provoque alterações no comportamento dos sujeitos observados; a interpretação do pesquisador não pode basear-se em suas preferências, mas sim em aspectos pertinentes ao problema de pesquisa; evitar que o grau de envolvimento do pesquisador leve a compreensões distorcidas dos eventos. Tais medidas garantem assim a coleta de dados através da observação de forma ética e coerente com a rigorosidade prevista nas pesquisas científicas.
Para garantir a validade das observações, essas tiveram dois momentos, que foram: a formulação do programa de observações e a realização das observações. Foram realizadas observações em três reuniões pedagógicas, a partir de uma pauta de assuntos motivadores das discussões. Na primeira reunião pedagógica, a pauta trouxe temas gerais sobre o assunto abordado, a partir das questões de pesquisa. E nas duas reuniões seguintes, as pautas foram organizadas conforme as observações que as antecederem. As observações das reuniões pedagógicas foram registradas em um diário do pesquisador, com anotações "post facto", ou seja, logo após o término das observações e/ou com anotações breves no momento da observação.
Na observação participante, o "observador participante vai se esforçar em adquirir um "conhecimento de membro". Vai tentar identificar os motivos que os membros tinham para fazer o que fizeram estabelecer o que seus atos significavam para eles mesmos naquele momento" (LAPASSADE, 2005, p. 70). Assim, o pesquisador estará incluído na observação, como potencializador da mesma, uma vez que poderá comentar junto aos sujeitos acerca das temáticas debatidas
estabelecendo conexões que clarifiquem compreensões das falas, no momento da observação.
Outro instrumento de coleta de dados foram as entrevistas individuais, as quais propiciaram a busca por aspectos específicos para coleta de dados para a pesquisa através de representações pessoais dos entrevistados. As entrevistas foram escolhidas como instrumento de pesquisa, pois possibilitam a coleta de informações de forma direta junto aos sujeitos entrevistados, sendo coerente com as questões previstas na pesquisa. Para compreendermos melhor o que significam as entrevistas, buscamos fundamentar nosso estudo em alguns autores como Knobel e Lankshear (2008), Szymanki (2002) e Angrosino (2009).
Para Knobel e Lankshear (2008) as entrevistas tem o propósito de "gerar informações detalhadas e necessárias sobre um evento, programa ou pessoa" (p. 171), otimizando a coleta de informações. Para Angrosino (2009) "entrevistar é um processo que consiste em dirigir a conversação de forma a colher informações relevante” (p. 61). Essa característica destaca a ideia da intencionalidade da pesquisa, o que para Szymanski (2002),
A entrevista face a face é fundamentalmente uma situação humana, em que estão em jogo as percepções do outro e de si, expectativas, sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas: entrevistador e entrevistado. (...). A intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o entrevistado se abra (p. 12).
A escolha da entrevista como instrumento de pesquisa justifica-se pelo fato de que ele possibilita a coleta de informações a partir do contato direto com os sujeitos de pesquisa. Com foco de questionamento objetivo sob o ponto de vista do entrevistador, as entrevistas coletam informações relevantes no momento da entrevista e possibilitam ao entrevistador discorrer mais questões que vierem a ser necessárias para o entendimento das contribuições trazidas pelo entrevistado. Na entrevista se estabelece um momento de interação e confiança entre entrevistador e entrevistado, em que o entrevistado precisa sentir-se a vontade para não ocultar informações que julgue menores, decorrentes de suas emoções ou sentimentos suscitados no momento da entrevista.
A partir dessa interação, o pesquisador constrói os conhecimentos necessários através das narrativas do entrevistado, do estado emocional e das situações não verbais. O entrevistador descreve a impressão que essas situações
tenham causado, com muita cautela para não correr o risco de querer "adivinhar" os sentimentos dos entrevistados. Nesse momento o entrevistador busca compreender as informações elencadas na entrevista de forma que os objetivos da pesquisa devem ser claros, mantendo o foco das questões durante a entrevista.
Para isso é necessário estabelecer momentos sequenciais durante a entrevista, conduzindo-a de forma agradável para o entrevistado e coerente ao objetivo da pesquisa. Assim, Skymanski (2002) sugere alguns momentos para a realização da pesquisa. O primeiro é o contato inicial, onde o pesquisador e entrevistador realizará sua apresentação pessoal, apresentará a instituição que representa, explicará a pesquisa, solicitará o consentimento do entrevistado, bem como informará sobre o sigilo das informações coletadas, estabelecendo uma relação de confiança entre entrevistador e entrevistado. Durante a condução da entrevista, convém que o entrevistador traga questões de aquecimento onde o entrevistado possa falar sobre si, como sua formação, tempo de magistério, pequeno histórico profissional.
Assim sendo, isso faz com que o entrevistado sinta-se mais a vontade para responder as próximas questões, que são desencadeadoras de reflexões baseadas nos objetivos da pesquisa, e que mesmo apresentando-se de forma sutil, buscam respostas aos objetivos do entrevistador. Ainda, na entrevista, é coerente realizar pequenas sínteses, de tempos em tempos, com os pontos principais das falas do entrevistado. Dessa forma, o entrevistador resume a ideia do entrevistado, podendo fazer novas questões conforme as colocações do entrevistado, e retomar o foco da entrevista, uma vez que a entrevista é uma construção de ideias e nem sempre segue um raciocínio paralelo ao foco da pesquisa. Um último momento da entrevista é a devolução, em que o entrevistador confirma com o entrevistado se o que se coletou da entrevista, é a ideia do entrevistado, como uma revisão, uma devolutiva para avaliação da veracidade das informações pelo entrevistado. Esse processo vivido nas entrevistas, nos leva à perceber que de acordo com Skymanski (2002),
O caráter dinâmico das informações que obtemos em nossas investigações aponta para o cuidado de não apresentá-las como algo definitivo, mas sim como um instantâneo que congela um momento, mas que traz em seu interior a possibilidade de transformação (p. 58).
A própria entrevista gera reflexões para além das questões, no entrevistado e no entrevistador, fazendo com que nossa maneira de ver as situações hoje pode não ser a mesma de como as veremos amanhã, devido as reflexões pessoais que estabelecemos conosco no momento em que somos instigados à pensar sobre determinado assunto. As entrevistas tiveram dois momentos, o primeiro sendo a formulação das questões para a entrevista e o segundo, a realização das entrevistas.
As questões da entrevista foram formuladas a partir das questões de pesquisa, tendo como objetivo o surgimento de categorias presentes nas falas dos entrevistados e que levaram a construção de caminhos para o desvelamento do problema de pesquisa. Para construção das questões levou-se em consideração os sujeitos participantes da pesquisa, de forma que se formularam dois roteiros de questões, os quais contêm algumas questões específicas ao sujeito a que se destina: um roteiro de entrevista para os professores, monitores do Programa Mais Educação e equipe diretiva; e um roteiro de entrevista para os representantes da Secretaria Municipal de Educação e do Conselho Municipal de Educação. Na formulação das questões, levaram-se em conta alguns critérios, segundo Skymanski (2002),
a) A consideração dos objetivos da pesquisa; b) a amplitude das questões (...); c) o cuidado de evitar indução de respostas; d) a escolha dos termos da pergunta (...); e) a escolha do termo interrogativo (...) (p. 30).
Esses critérios conduzem à formulação de questões bem estruturadas, que tragam ao pesquisador as falas acerca dos objetivos da pesquisa, otimizando a coleta de dados. Foram realizadas entrevistas individuais, semiestruturadas, com questões abertas, na qual abordamos diferentes temas aos entrevistados. Entre esses temas estão: as opiniões dos professores e monitores sobre a educação integral; sobre a organização da proposta de educação integral na escola; os planejamentos de aula; as decisões da escola; as atividades escolares; entre outros assuntos que surgiram no decorrer da pesquisa. As entrevistas tiveram como ferramenta de registro a gravação em áudio e posterior transcrição. O encaminhamento da entrevista seguiu um planejamento, conforme descrito a seguir.
Primeiro momento: apresentação do pesquisador, da instituição, da pesquisa, solicitação de consentimento do entrevistado;
Segundo momento: apresentação breve do entrevistado (formação, vida profissional, família);
Terceiro momento: perguntas desencadeadoras (roteiro da entrevista);
Quarto momento: devolutiva (esse momento foi realizado em outro dia, após a organização dos dados pelo pesquisador/ entrevistador, via correio eletrônico).
Foi realizada uma entrevista com cada sujeito, com a duração aproximada de trinta minutos, totalizando doze entrevistas: seis com professores da escola, duas com a equipe diretiva, duas com monitores do Programa Mais Educação, uma com a representante da Secretaria Municipal de Educação e uma com a representante do Conselho Municipal de Educação. Planejou-se realizar uma segunda entrevista com cada sujeito, de forma que as entrevistas individuais fossem realizadas e avaliadas como instrumento de coleta, podendo sofrer alterações para uma segunda entrevista, a fim de validar tais instrumentos para a pesquisa, o que não foi necessário.
A definição dos espaços para coleta de informações para a pesquisa apontou as reuniões pedagógicas como o espaço coletivo mais apropriado para coleta de dados. Essas reuniões propiciam a troca de informações entre os professores, pois é organizado um tempo para esse fim, possibilitando aos mesmos exporem suas opiniões em um momento previsto, dentro de sua carga horária de trabalho, oportunizando a participação do maior número possível de docentes. Além disso, o espaço das reuniões pedagógicas oportuniza a coleta em conjunto com a construção do produto desta pesquisa, por meio da construção coletiva de uma proposta de reestruturação do trabalho escolar, partindo do contexto do Programa Mais Educação e visando as metas do Plano Nacional de Educação (2014) e Plano Municipal de Educação (2015).
A seleção dos professores, monitores e equipe diretiva que foram entrevistados realizou-se de acordo com a disponibilidade dos mesmos para participação na pesquisa. Levou-se em consideração a livre escolha a participar ou não da pesquisa, dos professores que atenderam ao critério de seleção para participação, qual seja ter trabalhado na escola durante os anos de 2012, 2013, 2014 e 2015, anos em que a escola desenvolveu as atividades do Programa Mais Educação. Os professores que trabalharam nesses anos mantiveram o vínculo com
a escola e tiveram maior vivência durante o período que a escola sediou as atividades do Programa Mais Educação.
Entendemos que o número de participantes não interfere na confiabilidade dos dados, mas sim, a variedade e seriedade com que esses dados são coletados. Dessa forma, é relevante destacar que, conforme Knobel e Lankshear (2008, p. 157), "a melhor abordagem talvez seja pensar em como obter, por um lado, uma variedade de opiniões e, de outro, como maximizar as chances de se conseguir alguns padrões de respostas, o mais rapidamente possível". Para isso, buscou-se evidenciar a importância dessa pesquisa para a escola, a fim de conseguir a participação de no mínimo dois representantes de cada um dos três tipos de sujeito pesquisados: professores, monitores e equipe diretiva.
A pesquisa seguiu um cronograma de atividades, que iniciaram com a constituição dos aportes teóricos; a delimitação da pesquisa; na sequencia a realização de reuniões pedagógicas com professores e equipe diretiva da escola, por meio de registro da observação em diário do pesquisador; a realização das entrevistas individuais com professores, equipe diretiva e monitores, com registro de gravação em áudio e transcrição. Posterior a coleta de dados, a pesquisa realizou a análise e construção dos dados; a definição do produto e por fim a conclusão da escrita da dissertação.