CAPÍTULO III – A MODERNIZAÇÃO AUTORITÁRIA E UMA HISTORIOGRAFIA DA GEOGRÁFICA BRASILEIRA.
3.5 O planejamento regional e o subdesenvolvimento.
No Brasil, tem sido a Escola Superior de Guerra praticamente a única instituição a tentar formalizar uma visão integrada do que aqui se chama de Poder Nacional – Político, Econômico, Psico-Social e Militar – analiticamente separáveis, mas integrados e interligados, e que segundo os teóricos da Escola, constituem a base do Poder Nacional, em suas duas componentes críticas: Segurança e Desenvolvimento.
Speridião Faissol, A cidade e seu campo de ação: suas
relações e seu papel no processo de desenvolvimento.
Do final da década de 1950 em diante, Antonio Teixeira Guerra (1968)44 e Nilo Bernardes (1967) – muito provavelmente dentre outros autores –, endossando as teses esguianas da doutrina do poder nacional, procuraram associá-las à geografia, cuja análise de seus fatores contribuiria com “particular interesse” para a referida doutrina, somando-se a isso a contribuição da disciplina ao planejamento, revestindo-a de “um caráter técnico” igualmente importante para a consecução do Poder Nacional (BERNARDES, 1967, p.65). Assumindo uma influência nitidamente próxima à geopolítica brasileira de matriz militar, Antônio Teixeira Guerra considera a geografia como fundamental para a afirmação do Poder Nacional, conforme o espaço geográfico, o homem e os recursos naturais seriam seus “elementos fundamentais”45.
A. T. Guerra raciocina com uma postura eminentemente realista no relacionamento entre os Estados, considerando como Poder Nacional aquele “definido como a capacidade [para] produzir [...] efeitos desejados” (ou a “aptidão de uma nação para realizar seus objetivos, defrontando-se com os grupos de pressão e com os antagonismos”) para a segurança nacional (“o grau relativo de garantia que, através de ações políticas, econômicas, psico-sociais e militares, um Estado pode proporcionar [...] à nação [...] para [a] salvaguarda de seus objetivos nacionais”), uma vez que o sistema de Estados – para empregar um termo caro à Teoria das Relações Internacionais – pressuporia “a existência de esferas de interesses
diferentes” (GUERRA, 1968, p.5-7).
44 Em artigo póstumo.
45 Essa definição de Poder Nacional, desenvolvida por Guerra, é idêntica à proposta pela ESG, a qual
compreendia [para lembrar o Capítulo I] os meios – econômicos, políticos, militares, sociais, geográficos, industriais, diplomáticos, demográficos etc. – de que uma nação dispunha para “alcançar e/ou manter interna e externamente” (GURGEL, 1975, p.83-84).
Essa ponte entre as proposições de Antonio T. Guerra e as teses nitidamente
esguianas (bem ao gosto de Golbery) é seguida no mesmo caminho por Lysia Bernardes
(1966, p.83), para quem46,
[...] sendo a geografia uma ciência do espaço, voltada para [sua] caracterização [...] e [para] a definição das formas de organização que nele se constituem pela ação do homem, através do aproveitamento dos recursos nele contidos, o conhecimento geográfico consiste em instrumento de ação de incontestável valia nos diferentes campos do Poder Nacional, político, econômico, psico-social ou militar [Assim] podendo contribuir de forma expressiva para a reorganização do espaço concretizada nos planejamentos, a Geografia participa do grupo de disciplinas que atuam no sentido do fortalecimento do Poder Nacional.
Seguindo as mesmas diretrizes dos Objetivos Nacionais Permanentes47, Teixeira Guerra (1968, p.8) considera como questão principal, ao se tratar da segurança nacional, que o conceito deve estar “assente numa estratégia geral [da qual] derivam estratégias particulares [...] para a consecução do conceito de estratégia nacional”. Não causaria estranheza que a primeira política estratégica deveria dar conta da segurança nacional do espaço equatorial amazônico, cujo panorama chega a receber uma apreciação drástica.
No que tange à política de segurança nacional, verificamos que a Amazônia poderá tornar-se um verdadeiro problema para a manutenção de nossa integridade territorial e, também para a unidade nacional [sendo o] efetivo populacional dessa grande região geográfica [escasso] demais (GUERRA, 1968, p.9).
Tratava-se, assim, de um imperativo para a região: o seu povoamento – afastando-a em definitivo da “cobiça” internacional frente a uma suposta “incapacidade de o brasileiro resolver [a questão]” (GUERRA, 1968, p.10-11). Mas, como se faria isso? Através de linhas de ação como:
1) Orientar a corrente de imigrantes nordestinos para a Amazônia, criando-lhes [..] outros horizontes de trabalho que não [...] o do extrativismo vegetal48; 2) Criar
46 Lysia Maria Cavalcanti Bernardes (1924-1991) trabalhou no IBGE de 1944 a 1975 e, entre 1959 e 1977, na
UFRJ. Foi [ao lado de Maria A. A. de Souza] a principal divulgadora, no Brasil, dos estudos sobre redes urbanas nos modelos de Michel Rochefort. Tratou-se de uma das geógrafas mais próximas, também, do IPEA e dos altos escalões do Ministério do Planejamento (ALMEIDA, 2000, p.131).
47 Aliás, arrolados de forma idêntica à de Golbery do Couto e Silva, quais sejam: “integridade territorial, unidade
nacional, valorização do homem, emancipação econômica, sistema democrático representativo, governo republicano, independência e soberania, projeção internacional do Brasil” (GUERRA, 1968, p.7).
48 Para Guerra (1968, p.13-14), “Do ponto de vista geográfico [...] a Amazônia é caracterizada por ser
populacionalmente [...] um grande espaço a ser ocupado. E, do ponto de vista econômico e social, é o extrativismo, com todas as suas mazelas, a grande característica do extremo norte do País. Quando tentamos comparar os dados estatísticos desta região, com os do Sul ou do Sudeste, observa-se grande desequilíbrio entre estas diversas áreas. Para que se tenha uma justiça social plena, é preciso que todos os objetivos nacionais sejam realizados. Assim, povoar a Amazônia significa a manutenção de nossa integridade territorial, bem como de nossa unidade nacional. Simultaneamente, deve-se pensar na valorização do homem, no mais amplo sentido,
adequado sistema de colônias, especialmente na zona raiana internacional; 3) Cuidar da redivisão política do país, especialmente em sua área subocupada (GUERRA, 1968, p.12-13).
Sobre este último ponto, posta a dimensão da região Norte, reivindicava-se-lhe uma “verdadeira revolução político-administrativa”, para que o planejamento adquirisse novas bases, o que dependeria da atuação do Congresso, objetivando a divisão política do Norte, sobretudo, nas áreas despovoadas, e resgatando a experiência dos territórios federais, criados na década de 1940 para a dinamização local, propondo-se mesmo a criação de um Ministério dos Territórios Federais, o qual levaria a “assistência direta [à Região] e o planejamento imediato [do uso] de todos os [seus] recursos” (GUERRA, 1968, p.13-16).
Mas quais motivações teriam os geógrafos em relação ao planejamento?
No período em questão, não era apenas a planificação que surgia como algo central – não só para os profissionais da geografia, é claro. Mais que isso, a geografia seria em si a disciplina do planejamento, a serviço do qual, de fato, encontrara “a oportunidade que lhe faltava no campo da aplicação efetiva” (Maurício de Almeida ABREU, 1970, p.68), devido a mudanças e reestruturações metodológicas, de acordo com as quais não seria mais cabível um posicionamento descritivo, instantâneo, perante um mundo essencialmente dinâmico. Assim,
A grande contribuição da Geografia para o planejamento [adviria] do fato de ela ser uma ciência do espaço, aquele mesmo que [seria] objeto de modificações a serem introduzidas pela ação planificadora [pois ao] estudar o espaço, a Geografia [elaboraria] a síntese de sua organização, suprindo as deficiências surgidas pelo fato de as outras ciências prenderem-se especificamente aos seus setores de análise (ABREU, 1970, p.70)49.
Se o planejamento havia de ir além de atingir determinadas metas econômicas, o seu desenvolvimento “pleno, integral e harmônico” traduzia-se, necessariamente, em uma verdadeira reestruturação do espaço, “através da modificação de usos e da reformulação das atividades nele desenvolvidas [e] através da busca de um equilíbrio entre [suas] várias porções [e] as regiões que o compõem” (BERNARDES, 1966, p.95-96).
Evidencia-se, pois, o afã utilitarista reivindicado para a geografia brasileira, a qual, via planejamento, adquiriria uma maior envergadura quanto a seu campo de atuação –
dando-lhe especialmente meios no que diz respeito à saúde, alimentação e educação. Outra decorrência dessa valorização será a diminuição do descompasso econômico [...] entre o Norte e as áreas do Sudeste e do Sul”.
49 Deixando de ser um estudo descritivo para se voltar ao estudo das causas da distribuição dos “fenômenos
físicos, biológicos e humanos” pela “superfície do globo”, a geografia buscaria esclarecer essas chamadas “combinações geográficas”, afirmando seu caráter de ciência de síntese, buscando relacionar “fatos” humanos e naturais, e não conhecê-los por si (BERNARDES, 1966, p.83-86).
exemplificado pela participação de profissionais da área no IBGE ou no IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal)50.
3.5.1 O planejamento regional e o subdesenvolvimento: os trabalhos preliminares para o estabelecimento das grandes regiões e das micro-regiões.
A teoria dos pólos de desenvolvimento e as noções de espaço homogêneo e espaço polarizado foram aplicadas em diversos trabalhos de planificação no Brasil, de empresas privadas a agências estatais de desenvolvimento. De um intercâmbio entre IPEA e IBGE, resultaram estudos sobre a estrutura espacial da economia brasileira, bem como sobre a organização de complexos urbanos no país, com a intenção de fornecer subsídios para a definição de pólos e áreas prioritárias de desenvolvimento (IPEA, 1978, p.121). Mais especificamente, das pesquisas feitas pelo Conselho Nacional de Geografia e, depois, pela Divisão de Geografia da Fundação IBGE para o EPEA, que as utilizou, por sua vez, como subsídios para o planejamento, resultaram importantes documentos: desde os Estudos
básicos para definição de pólos de desenvolvimento no Brasil, escrito por Rubens de
Mattos Pereira – do EPEA –, Fany Rachel Davidovich, Pedro Pinchas Geiger e Roberto Lobato Corrêa, do CNG, até Pólos de desenvolvimento – cartas preliminares nos 1-5;
Esboço preliminar de divisão do Brasil nas chamadas Regiões Homogêneas e o Esboço
Preliminar da Divisão do Brasil em Espaços Polarizados.
A definição dos pólos estabelecida pelo IBGE em Esbôço preliminar de divisão do
Brasil em espaços homogêneos e espaços polarizados (IBGE, 1967) – documento escrito
como auxílio ao Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social – seguia, pois, o método de Jean Hautreaux e Michel Rochefort, originalmente concebido para a análise da rede urbana francesa empreendida entre 1963 e 1964 pelo Comissariat Général du Plan
d’Equipament et de la Productivité. Sua proposta centrava-se na noção de hierarquia
geográfica para classificar a rede urbana a partir da importância e intensidade dos fluxos. Em seus estudos, os autores “estabeleceram vinte critérios de fluxos e de equipamentos suscetíveis a caracterizar o nível hierárquico das cidades” (BOUDEVILLE, 1972, p.80)51.
50 O IBAM foi criado em de outubro de 1952, no Rio de Janeiro, sendo uma instituição não-governamental de
acessória a órgãos públicos, em todos, os níveis: municipal, estadual e federal. É de sua responsabilidade a publicação da Revista de Administração Municipal.
51 “Os vinte critérios estabelecidos são de quatro ordens: [...] 1o Os critérios de população, ou seja, a
população total, a população ativa, secundária e terciária. O conjunto desses três critérios tem peso 10. [...] 2o
Os serviços utilizáveis pela economia: o número de atacadistas de produtos correntes, os comércios raros, a existência de uma câmara de comércio, o número e a natureza dos estabelecimentos bancários, as profissões
Para cada critério, as cidades receberiam uma nota que seria o total de pesos (100) X 5 cinco; considerando-se os pesos diferentes dos respectivos critérios; as notas ponderadas permitindo, por fim, classificar as cidades (BOUDEVILLE, 1972, p.80)52.
Dentre as conclusões apresentadas nos esboços, bastante generalistas, aliás, constata-se a heterogeneidade dos equipamentos urbanos quando se comparam as metrópoles regionais, revelando, assim, uma diferenciação de densidades urbanas; ao que se somam duas observações: sobre a “macrocefalia urbana” ladeada da “inexistência ou rarefação de centros médios [...] de atuação expressiva” – aspecto característico do Nordeste e da Amazônia, regiões carentes de centros importantes de hierarquia inferior – e, ainda, acerca da desigualdade do fenômeno de polarização no Brasil, variando “segundo o nível de desenvolvimento de cada região metropolitana e segundo os tipos de cidades”, do que se deduz que nas áreas mais rarefeitas os centros seriam (espacialmente) mais abrangentes, porém, com fluxos mais difusos, pouco densos (IBGE, 1967, p.1-3).
À parte as conclusões dos técnicos do CNG, é mister apontar dois dos procedimentos metodológicos adotados no trabalho do IBGE mais passíveis de críticas: o problema dos limites, presos irremediavelmente às jurisdições político-administrativas dos municípios, estados e territórios brasileiros, e a fragilidade da aplicação de questionários, que, meramente recenseando as populações economicamente ativas e/ou o chamado
equipamento terciário, não provariam nada “sobre a influência real da cidade sobre a região
e, em particular, não [dariam] nenhuma indicação sobre fluxos” que eventualmente ligassem “o espaço regional ao centro” (ROCHEFORT, 1971, p.127-128). Michel Rochefort também estenderia essa admoestação a certas características do estudo sobre a urbanização no Brasil, notadamente em relação à Evolução da rêde urbana brasileira, de Pedro P. Geiger, reconhecendo, porém, a importância dessa obra, publicada alguns anos antes da sistematização da rede urbana feita pelo Conselho Nacional de Geografia.
Se é significativo observar que o próprio Michel Rochefort fez restrições à forma como o Conselho Nacional de Geografia se valeu de seus métodos, além de auto-criticá-los
liberais, o poder de direção econômica [e] a presença e a classificação de aeroportos. O conjunto desses três critérios tem peso 35. [...] 3o Os serviços utilizáveis por particulares: os serviços administrativos e seu nível,
os serviços de ensino e seu nível, o equipamento cultural e artístico, o equipamento sanitário [...], o equipamento esportivo, determinados comércios raros. Esses critérios têm igualmente peso 35. [...] 4o A
influência exterior: o tipo de zona de influência (regional ou departamental) determinada a partir das comunicações telefônicas, a importância numérica das populações compreendidas nessas zonas, a importância dos transportes rodoviários e ferroviários. Esses critérios têm peso 20” (BOUDEVILLE, 1972, p.79-80).
52 Para o caso francês: metrópoles de equilíbrio (atingem quase 500 pontos); dez aglomerações tidas como
centros regionais (380 e 427 pontos); 24 com irradiação regional; e 25 cidades com irradiação meramente departamental (BOUDEVILLE, 1972, p.80).
em si, outros autores não se furtaram igualmente de ver limitações aos procedimentos em questão. Para um discípulo da teoria dos pólos de crescimento, de F. Perroux:
A principal reprovação que se pode fazer à classificação de Hautreaux e Rochefort é quanto ao peso arbitrariamente demasiado elevado que atribuem à atividade terciária: os serviços entregues às empresas e aos particulares representam 70% do peso total dos critérios. Trata-se para eles da característica urbana essencial: ‘À hierarquia de serviços corresponde uma hierarquia das cidades’. O conjunto dos centros de encadeamento terciário, sobre os quais repousa a vida das relações de uma região, constitui a ‘rede urbana’ dessa região [...]. Ora, uma cidade não exerce somente uma influência pelos serviços que ela fornece, mas também pelas atividades industriais que ela assume (BOUDEVILLE, 1972, p.80-81).
Porém, o debate sobre as perspectivas e limitações dos métodos de regionalização da geografia francesa teria seu lugar dentre seus próprio propositores e seus discípulos brasileiros; como se mostra na seqüência.
3.5.2 O planejamento regional e o subdesenvolvimento: o Seminário de Bordeaux.
A nítida influência francesa nos métodos de trabalho do IBGE, enfatizando a “questão urbana” e a problemática do subdesenvolvimento, do “terceiro mundo”, já havia rendido, então, amplos debates. Pierre George, expoente da Geografia Ativa, estivera no Brasil em algumas ocasiões e Michel Rochefort organizara vários grupos de trabalho no âmbito do IBGE e do IPEA53. Contudo, por ocasião do seminário A regionalização do
espaço no Brasil, houve a possibilidade de geógrafos e cientistas sociais brasileiros e
franceses debaterem seus pontos de vista sobre métodos de regionalização no Brasil, em um exato momento no qual a “questão regional” – inserida bem na consciência nacional em
torno de um projeto brasileiro de desenvolvimento, de que falava Helio Beltrão (1968,
p.64) – conhecia uma crise em relação à sua eficácia perante a constituição de políticas territoriais e, também, sob um contexto político no qual, importante notar, via-se uma possibilidade de transição democrática do regime; a qual, porém, seria em breve sepultada pelo AI-5, ato que, como sabido, “escancarou”, de fato, a ditadura militar no Brasil (GASPARI, 2002), redefinindo quadros administrativos do país e mesmo posicionamentos político-ideológicos dos membros da tecnoburocracia nacional.
53 O problema da regionalização no Brasil (ROCHEFORT, 1967) corresponde a um ciclo de palestras dadas
pelo geógrafo Frances no IPEA. Seu objetivo era estabelecer critérios para a divisão regional do país e o estabelecimento das regiões metropolitanas. Aliás, muitas das considerações do autor seguem de perto aquelas do Seminário de Bordeaux,
As discussões sobre os fatores de regionalização do espaço brasileiro, o papel das cidades na regionalização e os tipos do país constituem o cerne do seminário A
regionalização do espaço no Brasil, transcorrido entre 20 e 22 de novembro de 1968, no
Centro de Estudos de Geografia Tropical, laboratório financiado pelo Centre National de la
Recherche Scientifique (CNRS) – Centro Nacional de Pesquisa Científica54 –, localizado na
Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Bordeaux55. Afora alguns participantes espanhóis e portugueses, o Seminário de Bordeaux reuniu basicamente geógrafos e cientistas sociais brasileiros56 e franceses57.
Perpassava o seminário o conceito de Geografia Tropical, modelo de interpretação devido a Pierre Gourou, relacionado tanto a uma definição do objeto da geografia enquanto recorte “civilizacional” (ligado a uma relação homem/meio, daí vastos cortes monográficos, bastante empíricos, feitos pelos adeptos dessa tropicalidade geográfica), quanto a interesses terceiro-mundistas, repletos de leituras sobre o subdesenvolvimento entendido como “etapa do crescimento econômico” (BRUNEAU; COURADE, 1984). “Um interesse
54
O CNRS foi criado pelo Presidente da República Francesa, Albert Lebrun, em outubro de 1939, enquanto organismo de coordenação de pesquisa em escala nacional. Através de uma reforma estrutural, em 1966, o CNRS criou unidades associados: os “laboratórios universitários”, aos quais se ligava, dando apoio financeiro e de pessoal, por meio de contratos de associação. (CNRS, Un peu d’histoire
<http://www.cnrs.fr/fr/presentation/histoire.htm>).
55
O CNRS criou três laboratórios para a geografia: a) o Laboratório de Geomorfologia (dirigido por Pierre Journeaux); b) o Centro de Documentação e Pesquisas Cartográficas (dirigido por Jean Dresch); c) o Centro de Estudos de Geografia Tropical (a cargo de Guy Lasserre).
56 Os participantes estrangeiros (não-franceses) foram: Manuel C. de Andrade (Universidade do Recife); Lysia
M. C. Bernardes (CNG e professora da Faculdade de Letras do Rio de Janeiro); Horacio Capel (Universidade de Barcelona); Paul-Yves Denis (Universidade Laval, de Québec); Catharina Vergolino Dias (CNG); Celso Furtado (professor da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Paris); Pedro Pinchas Geiger (CNG); Alfredo Fernandes Martins (Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra); Suzanne Ribeiro-Daveau (Instituto de Geografia de Lisboa); Orlando Ribeiro (Instituto de Geografia de Lisboa); Milton Santos (Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Bordeaux); Soeiro de Brito (professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Além-Mar, Paço de Arcos, Portugal); Jean Vila Valenti (Universidade de Barcelona) (CNRS, 1971, p.11-12).
57 Os participantes franceses foram: Claude Batailon (CNRS); Jean Cabot (Faculdade de Letras de Poitiers);
Pierre Colin Delavaud (professor); Anne-Marie Cotten (geógrafa do ORSTOM [l’Office de la Recherche Scientifique et Technique d’Outre-Mer – Escritório de Pesquisa Cientifica e Técnica para Além-Mar, antiga denominação do IRD, Instituto Francês de Pesquisa Cientifica para o Desenvolvimento em Cooperação]); Pierre Deffontaines (Universidade de Barcelona); Jean Delvert (Sorbonne); Jean Demangeot (Faculdade de Letras e Ciências Humanas – Paris X); Olivier Dollfus (Sorbonne); Michel Foucher (estudante); Jean Gallais (Faculdade de Letras de Rouen); Pierre George (Sorbonne); Pierre Gourou (Presidente do Comitê de Direção do CEGET – Centro de Estudos de Geografia Tropical – e professor do Collège de France); Etienne Juillard (Faculdade de Letras de Strasbourg); Bernard Kayser (Faculdade de Letras de Toulouse; Guy Lasserre (Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Bordeaux); Yves Leloup (CNRS); Bernard Marchand (professor); Pierre Monbeig (professor na Sorbonne, diretor do Instituto de Altos Estudos de América Latina e diretor científico do CNRS); Michel Rochefort (Sorbonne); Gabriel Rougerie (Sorbonne); Pierre Vennetier (vice-diretor do CEGET) (CNRS, 1971, p.11-12).
pelo Brasil e pela América Latina”: era o que destacava, em seu discurso, Pierre Monbeig58, ao salientar, por exemplo, o papel da Universidade de Bordeaux, a qual publicava os
Cahiers d’Outre-Mer59. Mas qual era esse interesse?
O Brasil oferece um terreno privilegiado para o estudo dos problemas de organização do espaço: imensidão do país, diversidade de condições do meio físico, importância dos efeitos regionalizadores da história e dos sucessivos ciclos econômicos, vigor atual do desenvolvimento urbano, pondo em questão, no Brasil moderno, o esboço das regiões criadas pelas cidades coloniais [através das] pesquisas [...] impulsionadas pelos geógrafos e [pelos] organismos de planificação sobre a região-programa (Pierre Monbeig, apud CNRS, 1971, p.7)60.
Ora, conceitos como o de região-programa (nascida do planejamento e do recorte feito pelo Poder Público, visando a “assegurar um desenvolvimento econômico harmonioso”) eram trabalhados conjuntamente com os de região homogênea (delineada através de “dados do meio natural ou de uma herança histórica” ou definidos por “certa atividade econômica”) e região heterogênea (regiões “móveis”, determinadas pela “unidade funcional do papel organizador” que uma metrópole exerce sobre o meio urbano) (Pierre Monbeig, apud CNRS, 1971, p.7). Muito caras à Economia Espacial, as três definições compuseram o arcabouço teórico sobre os quais se discutiram os limites acima referidos, quais sejam, as problemáticas metodológicas das definições e delimitações regionais (noutras palavras, a questão da regionalização) para a organização do território.
Principalmente, atribuía-se a importância da região como área de intervenção, via planejamento (a região-programa, bem entendido); postura que contribuiria para impor a geografia entre os meios científicos – fossem brasileiros ou franceses.
Nesse tom, parte das comunicações apresentadas no evento voltou-se para um inventário dos efeitos da regionalização ocorrida, no Brasil, no contexto das economias coloniais e agro-exportadoras. Trabalhos como os de Pierre Deffontaines (Le rôle de
l’elevage dans la régionalisation de l’espace au Brésil)61, Jean Demangeot (Milieu naturel
et régionalisation de l’espace au Brésil) e Guy Lasserre – em parceria com Milton Santos –
(Les plantations tropicales et la régionalisation de l’espace au Brésil) são bastante
58 Claro, o relacionamento entre geógrafos franceses e brasileiros, por ocasião do Seminário, vinha de longa data,
bastando recordar que participantes do evento como P. Deffontaines, P. Monbeig e P. Gourou haviam lecionado