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O PLANEJAMENTO URBANO E AS RELAÇÕES COMPLEXAS

CAPÍTULO I – MORFOLOGIA E VITALIDADE URBANA: PLANEJAMENTO

1.2 O PLANEJAMENTO URBANO E AS RELAÇÕES COMPLEXAS

Ao examinar

os

estudos de mobilidade para Palmas, percebe-se que a preocupação com a circulação de pedestres foi pensada de maneira desconectada do sistema como um todo, o que prejudicou a acessibilidade das pessoas. “Suas avenidas largas se apresentam como eixos para o fluxo desimpedido de carros, porém são barreiras lineares”, “dificultando o fluxo de pedestres entre as quadras e aniquilando as possibilidades de caminhadas agradáveis e seguras”

(OLIVEIRA et al., 2014, p.172). Sobre as incoerências do plano original daquilo que foi realmente executado, o uso misto não é visto no centro urbano e a presença de usos residências também é baixa.

Esses aspectos abordados pelos pesquisadores sobre Palmas estão vinculados às relações complexas (discutidas em detalhe no item 1.2) que cercam a organização e vida das cidades, exploradas por autores de referência na temática (JACOBS, 2011; ALEXANDER et al.,1977;

SALINGAROS, 1998; entre outros). Percebe-se que, no modelo de planejamento urbano das cidades brasileiras planejadas do séc. XX, essa complexidade das estruturas urbanas foi pouco considerada e o que se vê é um modelo de ordenamento muito mais simples de ser entendido e replicado, porém com possíveis implicações à coletividade, ao movimento de pedestres e à vitalidade dos espaços, especialmente daqueles que necessitam da presença de pessoas de maneira constante, como nas áreas centrais.

extrema de funções, grandes quadras, locais de trabalho distantes das moradias, praças afastadas do fluxo de pessoas, produzindo poucas conexões e faltamente desencadeando a morte ou a degradação dos lugares.

No padrão de cidades artificiais, a ausência de sobreposições em sua estrutura faz com que diversos elementos não estejam conectados. Nesse sentido, as cidades naturais (semilattices) ou antigas são estruturas potencialmente muito mais complexas que as cidades artificiais (ALEXANDER, 1965). E segundo o urbanista, “é a falta dessa complexidade estrutural, característica do modelo em árvore, que está arruinando nossos conceitos de cidade”.

Segundo Salingaros (1998, p. 10) “os arquitetos e os planejadores urbanos tornaram-se seduzidos pela simplicidade visual e ignoraram o processo fundamental de organização que não é visualmente simples”, e sim complexo, e que se estrutura fundamentalmente a partir de conexões. Neste sentido, os elementos da estrutura urbana são purificados em um processo de redução que leva à perda de informações inerente a um sistema (SALINGAROS, 1998).

A ideia modernista de separar as funções tem sido executada para distinguir entre regiões urbanas e suburbanas, através de aparências estilísticas opostas (e arbitrárias).

A regularidade geométrica é a regra nas regiões urbanas. O estilo oposto tem sido aplicado nas áreas suburbanas. Nos anos 60 tornou-se moda construir loteamentos habitacionais com ruas curvas. As conexões são muito diminuídas com o desenho de cul-de-sacs e de ruas em forma de laço. Esse tipo de visão tem como objetivo o isolamento dos nós, o que evita a formação da teia urbana. Tem sido imitado um estilo superficial (a regularidade dos planos das cidades medievais) e falhamos em entender e em reproduzir a consistência da solução original (um alto nível de conectividade para a circulação de pedestres). (...) se quisermos que cada nó da teia urbana seja fortemente conectado, isso será possível através da multiplicidade dos caminhos irregulares. (...) No entanto, não é necessário, nem desejável, ter todas as ruas curvas.

Em princípio, não há nada errado com a grade retangular, e ela tem vantagens organizacionais óbvias. O que criticamos é a rigidez das suas aplicações mais comuns, as quais frequentemente limitam o número de conexões. É possível sobrepor outra grade, em ângulo, para criar diagonais, o que criará conectividade múltipla (SALINGAROS, 1998, p. 7).

Conforme apontam Alexander et al. (1977, p. 164), as conexões são construídas a partir da junção de nós. No caso de centros locais, os nós de atividades (equipamentos de comércio e serviços, espaços para entretenimento e lazer, entre outros) presentes são essenciais para formar vínculos necessários à vida das cidades. No entanto, em muitas delas, esses elementos estão dispersos e longe das pessoas. Assim, os autores sugerem quatro propriedades para que os nós de atividades de fato funcionem: Na primeira, os nós devem estar localizados nas principais vias que envolvem a comunidade, de forma que os maiores caminhos para pedestres estejam convergentes para uma quadra e os menores se afunilem para os maiores, criando um padrão

em formato de estrela. Em segundo lugar, essa quadra deve ser pequena para que as atividades fiquem próximas, concentradas. Como terceira propriedade, as atividades agrupadas devem se suportar de forma mútua e devem atrair os mesmos tipos de público. Por último, as atividades devem ser distribuídas de maneira uniforme no assentamento e com uma proximidade suficiente que possibilite o contraste em pequena escala de áreas ocupadas e silenciosas, mas principalmente evitando grandes áreas sem vitalidade (Figura 1).

Figura 1 – Representação das propriedades dos nós de atividades

Fonte: Alexander et al (1977, p. 167).

O conjunto de nós e conexões formam o que Salingaros (1998) denomina como teia urbana, e acrescenta a hierarquia como princípio de auto-organização que faz parte do processo de construção dessa teia, com conexões em diversos níveis, seguindo uma ordem precisa:

começando pela menor escala (caminhos de pedestres) e progredindo para escalas maiores (vias de maior capacidade). “Se algum nível conectivo estiver faltando, a teia é patológica. “A hierarquia raramente pode ser estabelecida imediatamente” (SALINGAROS, 1998, p. 4). Dessa forma, todos os princípios possuem regras importantes para garantir a vida nas cidades que, conforme Nikos Salingaros aponta, foram desconsideradas no planejamento urbano atual, promovendo a destruição da teia urbana, sobretudo pela “adoção de estilos de desenho arbitrários, que contradizem princípios matemáticos relevantes” (SALINGAROS, 1998, p. 4).

(...) A teia urbana consiste de todos os elementos exteriores e conectivos, tais como áreas de pedestres e áreas verdes, muros, caminhos de pedestres, ruas com capacidades crescentes que variam desde uma ciclovia até as vias expressas.

Observações empíricas mostram que quanto mais forte a conexão, e quanto mais base tiver a teia, mais vida terá a cidade (ALEXANDER, 1965; GEHL, 1987 apud SALINGAROS, 1998, p. 2).

Nesse sentido, uma forte conexão ocorre quando os nós são complementares e com distância curta entre eles. “Quanto mais segmentado for um caminho (devido à existência de nós intermediários), mais forte e amarrada será a estrutura da teia. As ruas comerciais mais antigas possuem nós (lojas), uns próximos dos outros. A variedade e a proximidade das lojas permitem que elas fiquem unidas em um distrito comercial” (SALINGAROS, 1998, p. 15).

Ressalta-se que a teia urbana não é somente complexa pelos seus atributos físicos. “Se fosse apenas uma questão de complexidade física, poder-se-ia imaginar que um processo de cima para baixo (top-down) poderia ser criado para simular a complexidade – digamos, um algoritmo computacional. O ponto crucial é que a complexidade incorpora e expressa a vida social”

(SALÍNGAROS et al., 2006, p. 10), muitas vezes ignorada pelo modelo de planejamento urbano empregado e que não considera os processos de auto-organização, entendidos “como a capacidade de organização do espaço a partir das ações individuais de cada ator” (LOUREIRO, 2017, p. 33), desenvolvidos de baixo para cima (bottom-up).

Essa perspectiva de complexidade é claramente explorada na Teoria da Lógica Social do Espaço que, ao discutir as relações entre espaço e sociedade, faz a leitura da cidade como “um grande conjunto de edifícios conectados por meio do espaço físico e um complexo sistema de atividade humana interligada pela interação” (VAUGHAN, 2007, p. 205–206), o que deriva na cidade física e na cidade social. Segundo Hillier e Vaughan (2007, p. 213), o “espaço da cidade passa a incorporar ideias sociais em seu layout e o layout tem consequências de como as coleções de edifícios ganham vida como cidades vivas” (HILLIER, BILL; VAUGHAN, LAURA, 2007, p. 213). Nessa ótica, os autores ilustram, a partir de ferramentas da Sintaxe Espacial, como os padrões sociais e culturais são transmitidos nos layouts espaciais e como os layouts espaciais também afetam o seu funcionamento. E completam:

(…) o espaço pode ser utilizado tanto num modo conservador para estruturar e reproduzir relações sociais e estatutos existentes, geralmente utilizando o espaço para segregar, como num modo de criação de potencial para novas relações, utilizando para criar copresença através da integração (HILLIER, BILL; VAUGHAN, LAURA, 2007, p. 212-213, tradução nossa).14

Os potenciais geradores de fluxo de movimento (tão vital para as áreas centrais das cidades) têm grande correlação com a configuração da malha urbana. Assim, as atividades humanas

14 (...) space can be used both in a conservative mode to structure and reproduce existing social relations and statuses, usually by using space to segregate, and in a generative mode to create the potencial for new relations by using to create co-presence through integration” (HILLIER, BILL; VAUGHAN, LAURA, 2007, p. 212–213).

precisam ser consideradas como elementos fundamentais na produção de espaços urbanos.

Entretanto, na maior parte das vezes, os aspectos sociais são dissociados dos aspectos físicos da cidade ou mesmo não são examinados em profundidade devido a sua complexidade, o que inevitavelmente leva à falta de vitalidade dos lugares, sobretudo dos espaços públicos.

Nem os urbanistas, nem os planejadores de tráfego colocaram o espaço urbano e a vida nas cidades no topo de suas agendas e, por muitos anos, havia pouco conhecimento sobre como as estruturas físicas influenciam o comportamento humano (...). Agora se aceita que a vida na cidade e a consideração pelas pessoas têm papel-chave no planejamento urbano e de áreas edificadas. (...) Só agora é que se percebe o quanto cuidar das pessoas na cidade é fator essencial para obtenção de cidades mais vivas, mas seguras, sustentáveis e saudáveis (GEHL, 2013, p. XIV-XV).