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O PLANO DIRECTOR DA CIDADE DE LISBOA (PDCL–1948)

No documento Espaço público, vida pública (páginas 166-171)

5.3 O ORDENAMENTO URBANO E DINÂMICA MORFOLÓGICA

5.3.1 O PLANO DIRECTOR DA CIDADE DE LISBOA (PDCL–1948)

Em 1932 foram estabelecidas as bases de colaboração técnica e financeira entre o Estado e as autarquias locais. Nesta sequência o Estado Novo gerou todo um conjunto de obras, tais como estradas, portos, caminho-de-ferro, aeroportos, obras de hidráulica, que acabaram por se fazer reflectir na política urbana. Esse desenvolvimento alicerçou-se, fundamentalmente, na construção de infraestruturas necessárias ao desenvolvimento das cidades, em particular, e ao País, em geral (Silva, 1994:12).

Essa intervenção no caso de Lisboa, foi orientada no sentido de definir e permitir a construção da rede viária fundamental da cidade e das ligações ao Centro, Norte e Sul do País e a Espanha, bem como a ampliação do porto e a construção do aeroporto. De uma forma geral, a política urbana então promovida conjuntamente, pelo município e pelo Estado, consistia na criação de infra-estruturas fundamentais ao desenvolvimento da cidade.

O Plano Director da Cidade de Lisboa (PDCL) é apresentado em 1948 por E. de Gröer e foi aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), embora não tenha merecido aprovação governamental (Silva, 1994:18). As principais linhas de força do PDCL de 1948 foram as seguintes:

„ criação de uma rede viária radioconcêntrica a partir de um eixo constituído pela

Avenida António Augusto de Aguiar e o seu prolongamento até à estrada Lisboa- Porto;

„ organizar densidades populacionais decrescentes do centro para a periferia;

„ promover a criação de um zona industrial na zona Oriental da cidade, associada

ao porto;

„ prever a possibilidade de construção de uma travessia do Tejo, ligada a uma das

circulares a partir do Poço do Bispo, ligando a cidade ao Montijo;

„ fomentar a construção de um aeroporto internacional na zona Norte da cidade;

„ fomentar a construção de um parque urbano de grandes dimensões (900 ha) na

zona Ocidental da cidade (Monsanto);

„ promover a criação de uma ‘zona verde’ de protecção em torno da cidade que

deveria incluir o parque de Monsanto, prolongando-o pela várzea de Loures até ao Tejo.

O Plano de Gröer faz a indicação de um conjunto de condições futuras de crescimento e desenvolvimento de Lisboa. Gröer defendeu a ideia de que as alterações físicas a introduzir permitiam obter certas características sociais. O principal instrumento de intervenção do PDCL foi o zonamento, organizando a cidade em áreas com diferentes usos (Mapa 5.1).

A indústria era proposta em ocupações periféricas com uma forte concentração na zona Oriental, organizando-se ao longo do rio entre Santa Apolónia e Beirolas, ou a Ocidente junto a Alcântara. De notar que esta função, nas duas localizações, era apoiada pelo caminho-de-ferro e articulava com a actividade portuária.

Os serviços e a administração eram propostos junto à Baixa, enquanto a habitação se consolidava em torno do centro, quer nos bairros históricos, quer em novas áreas, afirmando a sua posição dominante em torno do centro geográfico da cidade (Avenidas Novas). O uso residencial também foi apontado em localizações periféricas, onde se propunham bairros operários, mantendo ligações às zonas industriais adjacentes. Esta proposta de estruturação urbana promovia a divisão da cidade de acordo com os diferentes níveis de rendimento.

Fonte:Silva, 1994:19.

Mapa 5.1: Plano Director da Cidade de Lisboa, 1948 –Planta de Ordenamento–.

O Mapa Axial 5.1 evidencia a estrutura radiconcêntrica de Lisboa, onde a Baixa (centro Tradicional) e a expansão oitocentista (Avenidas Novas), programada por Ressano Garcia, se destacam no contexto morfológico da cidade. A visibilidade da estratégia de planeamento promovida pelo PDCL de 1948 parece ser reforçada através da leitura do Mapa Axial de Lisboa em 1950.

O comércio mais especializado, os serviços e as actividades relacionadas com a Administração surgem propostos pelo Plano (ver Mapa 5.1) no centro Tradicional (Baixa) no Bairro Alto e no Aterro da Boavista (São Paulo), o que corresponde a áreas da cidade com boa acessibilidade (cor vermelha). A habitação surge no Plano essencialmente na zona central (bairros históricos e Avenidas Novas).

A habitação localizada nas Avenidas Novas possui uma maior centralidade relativamente à habitação existente nos bairros históricos, parecendo corroborar a divisão do espaço da cidade de acordo com os diferentes níveis de rendimento. Os outros usos,

designadamente o industrial, é proposto em áreas de menor acessibilidade relativamente ao centro, ou seja em áreas mais segregadas.

O Mapa Axial 5.2 representa o padrão da integração local (r3) e nele se identificam as linhas de maior importância local (a cor vermelha). Essas linhas surgem em maior concentração no centro geográfico da cidade (Avenidas Novas) e não na Baixa, o centro funcional e de prestígio à época. É também possível identificar, de forma dispersa, alguns núcleos de importância local a Poente do centro (Belém e Restelo).

A notoriedade da estrutura local na área central da cidade contribuiu para o entendimento da qualidade de vida urbana (Trigueiros e Medeiros, 2003:20.7) que se pretendia para Lisboa. A observação do padrão da integração local representado no Mapa Axial 5.2, parece evidenciar ainda que a estrutura morfológica da área das Avenidas Novas, em 1950, era mais importante que a estrutura urbana do centro funcional (Baixa). Nela concentram-se cinco dos eixos locais de maior importância (Avenidas Almirante Reis, Liberdade, Brancamp, República e 5 de Outubro).

A Figura 5.5 ilustra a correlação entre a integração local (r3) e a integração global (rn), para o mapa axial de Lisboa em 1950. A linha mais integrada, no sistema global, representa no mapa axial a Avenida Almirante Reis. A correlação entre as duas estruturas, local e global, não é boa, correspondendo a um r=0,59. No entanto, tendo em consideração a dimensão da estrutura urbana (3397 linhas, ver Anexo II – Tabela A–II – 6) o valor pode ser considerado aceitável. Por exemplo, a cidade de Berlim em 1940, cuja estrutura urbana tinha a mesma ordem de grandeza, apresenta um r=0,45 (Desyllas, 2000:147). y = 3,4538x - 0,0383 R2 = 0,3474; r=0,5894 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 6,0 7,0 0,00 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00 1,20 int (rn) in t (r 3 )

Figura 5.5: Correlação entre a integração local e global de Lisboa em 1950.

No documento Espaço público, vida pública (páginas 166-171)