5. O DESENHO INSTITUCIONAL E A PRODUÇÃO DE SENTIDOS NA
5.1. Contexto histórico da política urbana de Volta Redonda e a formação do Conselho
5.1.1. O Plano Diretor Participativo de Volta Redonda e o renascimento do CMDU
O Plano Diretor é o instrumento básico da política de desenvolvimento do Município. De acordo com Moreira (2008) ele tem por finalidade orientar a intervenção da administração pública e da iniciativa privada na construção dos espaços urbano e rural na oferta dos serviços públicos essenciais, visando a garantia de melhores condições de vida para a população. Para o autor, a concepção do Plano Diretor deve ser oriunda de mecanismos democráticos que viabilizem a participação direta da sociedade civil no planejamento urbano da cidade, no que se refere à elaboração do plano e seu controle social, garantindo a gestão democrática das políticas públicas urbanas.
A fim regulamentar os artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988, a Lei 10.257 de 2001 – Estatuto das Cidades – concedeu um novo ordenamento para a política urbana do Brasil. A lei, sob pena do bloqueio de repasse de verbas oriundas do Governo Federal, obrigou que municípios com mais de 20 mil habitantes revisassem seus planos diretores até outubro de 2006 a partir do uso de instrumentos de gestão democrática como audiências públicas, plenárias, conferências, seminários e a criação de conselhos setoriais para o controle social da política urbana.
Desse modo, no ano de 2005, o Ministério das Cidades em parceria com o Conselho das Cidades realizou a Campanha Nacional “Plano Diretor Participativa: Cidade de Todos” com o objetivo de mobilizar os municípios a elaborarem seus planos diretores por meio do envolvimento direto da população na construção e posterior controle da implementação do instrumento. A campanha contou com o incentivo técnico e aporte financeiro do Governo Federal, chegando a atingir mais de 10.000 pessoas em quase 1.600 municípios, segundo informações do próprio Ministério das Cidades.
Como resultado da campanha, Volta Redonda estruturou a elaboração de seu plano seguindo as diretrizes colocadas pela lei e regulamentadas pelo Estado, conforme declara o texto de apresentação do referido instrumento de política. Iniciado por meio do decreto 10.585/2006 que criou o Conselho Gestor do Plano Diretor Participativo, a elaboração do novo plano diretor de Volta Redonda foi viabilizada por meio de 18 plenárias, 2 fóruns e uma
conferência que, ao decorrer do ano de 2006, contaram com a presença de atores sociais dos diversos segmentos de influência no espaço urbano da cidade.
Contando com 135 artigos, a Lei 4.441/08 - que recebe o nome de Plano Diretor Participativo - é estruturada em títulos, capítulos, seções e subseções, substituindo o PEDI-VR, aprovado em 1977. O plano traz consigo a ideia de uma cidade autônoma fundada em seu desenvolvimento por meio do fortalecimento das atividades de negócio, comércio e prestação de serviços. Tal premissa é refletida no plano estratégico com o “Arco de Centralidades”, proposta conceitual sob influência técnica do arquiteto Jorge Wilhein que visa integrar os centros comerciais da cidade, resultando na criação de um novo. Com exceção da construção de uma ponte a ser responsável pela interligação de um dos centros ao novo centro, vale ressaltar que o texto da lei, bem como o relatório técnico elaborado pelo arquiteto não esclarecem acerca de um plano de obras para a viabilização do projeto, apresentando apenas indicações no que se refere à estrutura viária do município.
(...)
CAPÍTULO I
DA POLÍTICA DE MOBILIDADE URBANA
Artigo 27 – A Política de Mobilidade Urbana de Volta Redonda têm como objetivos: (...)
II.implantar via de interligação entre os bairros componentes da área denominada Arco de Centralidades, inclusive com transposição do Rio Paraíba do Sul;
Para a ocupação desta Gleba do Aterrado, propomos um importante conjunto urbanístico/arquitetônico, criando assim a entrada adequada ao Novo Centro. (...) Na sequência do eixo viário proposto se encontraria a Ponte sobre o Paraíba, levando, de forma majestosa, à entrada do Novo Centro” (VOLTA REDONDA, p. 15, grifo do autor)
O relatório técnico, que trata especificamente sobre a proposta, contempla ainda o relato do arquiteto acerca dos principais levantamentos realizados pelos cidadãos que, ao decorrer do processo de elaboração do Plano, foram divididos por agrupamentos temáticos, sendo discutidos os interesses relacionados às políticas públicas setoriais sobre a dimensão urbana do município. Propostas como a de: melhorias no sistema viário e de transporte; definições quanto ao macrozoneamento do município; sugestões em prol do desenvolvimento econômico; plano de saneamento; proposições para a política de habitação e regularização fundiária; e ainda contribuições para o fortalecimento da gestão democrática no município também fizeram parte do relatório oriundo das atas das reuniões plenárias sobre o diagnóstico da situação urbana da cidade.
De modo a traduzir as diretrizes do Estatuto das Cidades, em seu art. 40, § 4º, I do e no que concerne aos mecanismos urbanísticos de caráter operacional, a Lei 4.441/08 reserva seis
artigos que tratam especificamente sobre a gestão urbana participativa, que em sua consecução contará com a administração pública municipal para:
I. incentivar a ação cooperativa e integrada dos diversos agentes econômicos e sociais atuantes na sociedade;
II. promover a integração intersetorial entre as instâncias democráticas da cidade; III. valorizar as entidades organizadas e representativas como legítimos interlocutores da comunidade, respeitando sua autonomia política;
IV. garantir o processo de gestão democrática da política de desenvolvimento urbano.
Em complemento ao arcabouço democrático de gestão urbana do município, o art. 99 institui o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano (CMDU) como órgão colegiado, permanente e deliberativo, cabendo reunir representantes da sociedade civil e da administração pública, constituindo-se em instrumento de gestão participativa nos assuntos relacionados à política urbana. Embora herdando o mesmo nome do primeiro CMDU formado em 1993 no governo Baltazar, o conselho desta vez foi composto por 36 integrantes e estruturou sua composição paritária em poder público e sociedade civil organizada, agindo em consonância com as diretrizes da lei federal do Estatuto das Cidades. Dentre os membros da administração pública municipal e sociedade, o órgão conta com a seguinte proporção: 42% formado pelo Poder Público Municipal, sendo 4/5 do Executivo e 1/5 do Poder Legislativo; 26% representados por membros dos movimentos sociais e populares; 10% composto por representantes de entidades sindicais dos trabalhadores; 10% de membros do setor empresarial relacionado à produção e ao financiamento do desenvolvimento urbano; 6% de membros de entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa; 4% formado por membros de Organizações Não-Governamentais (ONG’s); e 2% de membros dos Conselhos de Classe. Atenção especial ao parágrafo segundo do artigo 101 da lei, que nomeia o chefe do poder Executivo Municipal à presidência do conselho ou, no seu impedimento, ao seu suplente conforme regimento interno. Dentre as atribuições do novo CMDU, cabe destacar a participação do conselho na revisão do Plano Diretor; a análise e deliberação acerca das propostas de detalhamento, legislação integrante e demais instrumentos de implementação do plano e da política urbana; o acompanhamento e avaliação da montagem e execução das operações urbanas, da aplicação dos instrumentos urbanísticos, de habitação de infraestrutura; realizar o acompanhamento dos resultados do monitoramento da evolução urbana e avaliar os efeitos do plano no desenvolvimento urbano e ambiental da cidade; e indicar ajustes e mudanças necessárias nas estratégias e prioridades do Plano Diretor, nos projetos e programas de política urbana.
Assim sendo, diferente do órgão constituído em 1993 fruto da eclosão dos movimentos sociais da época, o CMDU renasce, sobretudo a partir de um impulso normativo visando cumprir o controle social das políticas públicas de caráter urbanístico. Neste sentido, faz-se
necessário a avaliação de sua efetividade como órgão deliberativo e consultivo com destaque para os aspectos que definem a sua trajetória de atuação tendo em vista a autonomia, a representatividade e as regras estabelecidas para o diálogo fora e no interior do conselho. No entanto, é necessário ainda contextualizar a aplicação de tais instrumentos legais no controle social da política urbana no município, a exemplo das críticas apresentadas à elaboração e produto do plano diretor, bem como as movimentações políticas em torno da Política Nacional de Mobilidade Urbana com a estruturação de um novo órgão colegiado.