Os conceitos de pluralismo e perspectivismo racional ou preferencialismo, retirados da obra de Nicholas Rescher412 sobre o pluralismo e aplicados para o propósito desse trabalho, ajudam a entender que, nas teorias das relações internacionais, existe uma diversidade de maneiras de descrever os fatos, como de prescrever normas para o agir. Na maioria, essas teorias não são feitas apenas para descrever, ou melhor, entender uma ordem de fatos que acontece no cenário político internacional. São teorias que se destinam a certos propósitos, que descrevem os fatos a luz de certos interesses e razões, e assim ocorre com as principais correntes das relações internacionais, como o realismo, o liberalismo e a sociedade internacional. Como Robert Cox, representante da escola da teoria crítica nas relações internacionais, explanou: “Theory is always for someone and for some purpose. All theories have a perspective. Perspectives derive from a position in time and space, specifically social and political time and space”.413
Rescher estabelece a diferença, no pluralismo cognitivo, entre um pluralismo de crenças e um pluralismo de método. Em um pluralismo de método, quando diferentes métodos cognitivos estão sendo aplicados, as crenças resultantes também serão diferentes pelo menos em algum grau. Um consenso de crenças poderá significar que um mesmo método está sendo aplicado. Contudo, diferentes crenças não necessariamente significam que diferentes métodos estão sendo aplicados. Um mesmo método aplicado a diferentes dados poderá render diferentes resultados. Assim, o uso, por exemplo, do método científico-indutivo “is not only compatible with the prospect of a cognitive pluralism but actually invites its acceptance”.414
As pessoas conduzem as suas resoluções de problemas através de fundamentos disponíveis que fornecem uma explicação para novas informações. Uma diferença nos diversos planos (“background”) da experiência determina um desacordo entre elas. A
412
RESCHER, Nicholas. Pluralism: Against the Demand for Consensus. New York: Oxford University Press, 2005.
413 COX, Robert W. Social Forces, States and World Order. In: Neorealism and its Critics. New York: Columbia
University Press, 1986. p. 207.
414
RESCHER, Nicholas. Pluralism: Against the Demand for Consensus. New York: Oxford University Press, 2005. p. 65.
173 investigação envolve uma coordenação entre nossas concepções com os dados da experiência. O produto da investigação, assim, não é a deliberação perfeita de um espírito impessoal, mas uma construção trabalhosa feita por humanos imperfeitos. O fato de um “background of experience” pessoal acaba por gerar uma diversidade de crenças. Com isso, para Rescher:
And experience is something that is bound to differ from age to age, culture to culture, and even – to some extent – from person to person. On this basis it becomes clear that pluralism of cognitive commitments is an unavoidable part of the natural scheme of things. In sum, even when one particular method is at issue – the ‘inductive’ method of empirical inquiry – the experiential situation of its practitioner can and must engender a pluralism of substantially different results.415
O insistir “on the monolithic uniqueness of science is to succumb to ‘the myth of the God’s eye-view’”.416 Rescher descreve que aparatos cognitivos de seres de outro planeta, com evoluções biológicas e contextos diversos, dificilmente teriam uma forma de conhecer similar a nossa. E mesmo dentro de nossa realidade, a forma de adquirir o conhecimento verifica-se de maneiras diferentes, pela diversidade de grupos e pessoas: “factors such as capacities, requirements, interests, and course of development affect the shape and substance of the science and technology of any particular cosmic civilization”.417 Ora, assim como na ciência, outras áreas do esforço humano, “given the diversity of human experience, empiricism entails pluralism”.418 A diversidade de experiências leva a uma diversidade de conclusões sobre a natureza das coisas.
Tal diversidade de visões e versões reflete também na teoria das relações internacionais, com as suas diferentes escolas, com as suas razões e interesses divergentes. Uma pluralidade de visões e versões sobre a verdade enseja a questão de, se com tal panorama, reacender-se-á o debate do ceticismo (nenhuma alternativa deveria ser aceita), do sincretismo (todas as teorias deveriam ser aceitas), do relativismo ou indiferentismo (somente uma alternativa deveria ser aceita, mas como não existe uma base racional sólida, então, a solução é uma matéria de gosto ou de inclinação pessoal), e, por último, o racionalismo perspectivista (somente uma alternativa deveria ser aceita, e esta alternativa tem uma base de convicção, embora essa convicção difira de grupo para grupo, era para era, escola para
415 Idem, Ibidem, p. 67. 416 Idem, Ibidem, p. 70. 417 Idem, Ibidem, p. 76. 418 Idem, Ibidem, p. 77.
174 escola).419 De acordo com Rescher, o racionalismo perspectivista torna-se a opção mais atrativa e possui vantagens sobre as outras opções.
O ceticismo estabelece que, se genuínas alternativas existam, nenhuma alternativa racionalmente persuasiva é suficiente para preferir uma em relação às demais. Os céticos afirmam que, se existem diferentes indivíduos ou grupos que justificam que suas escolhas e visões são igualmente boas, não existe um meio de decidir entre elas. Contudo, o reconhecimento do pluralismo e a existência de alternativas não implicam que estas outras crenças suspenderiam ou aniquilariam a nossa própria opinião. A constatação da pluralidade de crenças não invalida a nossa própria crença ou alternativa. Do ponto de vista do indivíduo, não é preciso adotar a escolha de todas as posições. O indivíduo possui a sua. O que o pluralismo assegura é que é, racionalmente, inteligível e aceitável que outros podem defender posições diferentes em relação a uma posição. O pluralismo é uma característica coletiva, como sublinha Rescher:
Any viable proceeding in this range of discussion must distinguish between the standpoint of the individual and the standpoint of the group. Pluralism is a feature of the collective group: it turns on the fact that different experiences engender different views. But from the standpoint of the individual this cut no ice. We have no alternative to proceeding as best we can on the basis of what is available to us. That others agree with us is no proof of correctness; that they disagree, no sign of error.420
Uma visão pluralista de opiniões em conflito não é uma base para o ceticismo. Uma posição deve ser escolhida e a recusa para discriminar essa posição, aceitar tudo ou não aceitar nenhuma, é somente um argumento para recusar-se a entrar no fórum de discussão. Ao ver as muitas possibilidades de crenças cancelarem-se mutuamente, e simplesmente abandonar o projeto de investigação e de decisão, não parece ser uma posição aceitável.421 Como ressalta Rescher, sobre o mútuo cancelamento:
This is something we do not – and should not – want to do, because the issues matter too much, are simply too important to us. And this sort of reaction to the issue of rational inquiry holds also with respect to rational evaluation and action.422
Da mesma forma que o ceticismo, o sincretismo é uma posição inconsistente na medida em que ele procura conjugar, em uma visão, todas as pluralidades de visões, o que o torna uma posição problemática. O sincretista não é alguém que faz sínteses, que seria ajustar 419 Idem, Ibidem, p. 80. 420 Idem, Ibidem, p. 89. 421 Idem, Ibidem, p. 89. 422 Idem, Ibidem, p. 89.
175 diferentes posições em uma. Ele, ao contrário, adota todas as posições, o ser e o não ser na mesma posição. Enquanto uma posição sintética será mais uma posição plausível em meio a uma pluralidade, a posição do sincretismo será contraditória. A pergunta que um sincretista deveria responder seria: quantas respostas alternativas para uma questão problemática pode ser possivelmente qualificada como apropriada? O, 1, ou n > 1? Um sincretista coerente deveria responder todas, o que, de fato, não responde a questão, pois ele não pode estabelecer que alternativas contrárias, como ceticismo e absolutismo, seriam igualmente válidas: “in being all-embracing it renders itself declaratively empty. Affimare est negare”.423 Se existe uma pluralidade de diferentes alternativas disponíveis, não significa que todas são igualmente corretas e que devem ser conjugadas. A diversidade de opções não admite que se tenha de deixar de tomar uma escolha com base em uma preferência racional (fundamentada) entre elas.
Como ressalta Rescher, recentes discussões sobre o pluralismo possuem uma falta de clareza sobre o assunto, ao confundi-lo com o relativismo. O pluralismo é uma concepção geral (posição esquemática), enquanto o relativismo é uma posição particular e irracional. O pluralismo afirma a pluralidade das posições devido à diferença de dados, valores, interesses, métodos e crenças, enquanto o relativismo propõe o indiferentismo. O pluralismo perspectivista salienta que: 1) o pluralismo é compatível com o preferencialismo. Assim, ao reconhecer uma variedade de disposições alternativas como merecendo respeito e consideração, é consistente com a escolha de somente uma delas como tendo uma validade para a nossa aceitação; 2) o racionalismo preferencialista insiste sobre a correção de nossa alternativa particular, e é compatível com o pluralismo que entende que, em outros sistemas de crenças, outras alternativas serão adotadas.424 Da posição de quem tomará uma decisão, uma solução será melhor do que as outras. Com isso, o pluralismo perspectivista afirma que:
It deserve to be stressed that the pluralist who acknowledges the prospect of a variety of distinct positions with respect to cognitive, practical, or evaluative issues – each perfectly appropriate relative to one or another perspective basis – has no need whatsoever to consider all those different alternatives as equally meritorious from standpoint of rational appraisal. Pluralist can see themselves as (like almost everyone) equipped with a judgemental basis whose impetus enables, nay requires them to adjudge some alternatives as superior to others for good and sufficient
reasons.425 423 Idem, Ibidem, p. 94. 424 Idem, Ibidem, p. 101. 425 Idem, Ibidem, p. 102.
176 O argumento do racionalismo perspectivista assevera que, em nossos contextos, temos que ter uma posição, uma alternativa para seguir. A diversidade das posições não justifica a falta de comprometimento e responsabilidade para assuntos científicos, morais e políticos. O único caminho que pode levar o pluralismo das alternativas para o relativismo é o indiferentismo, que defende que não existe nenhuma posição a ser escolhida. O relativismo argumenta que não existe nenhuma escolha racional convincente. Mas e se alguém encontrar uma posição racional convincente? Se não houver como decidir através de um juiz imparcial e transcendente qual a melhor alternativa, então o único ponto de partida deve ser indivíduos situados, com suas racionalidades e argumentações. Na ausência de padrões transcendentais, a única forma de decidir a melhor escolha é apelar para a racionalidade situada. E tais decisões são inescapáveis. Uma posição normativa é alguma coisa que uma pessoa comprometida não pode ser indiferente, a não ser que não queira participar do fórum de discussões, mas mesmo assim terá as suas posições. Ter uma posição “is not something we can decide but something we find when we duly investigate”.426
Qualquer posição poderá ser considerada válida? Como explica Rescher, ponto de partida de nossas experiências, uma posição será mais persuasiva que outras. As posições são tomadas mediante um plano de fundo, que impede que as decisões sejam feitas no vácuo. A situação de quem toma uma decisão, mediante as suas experiências, determinará a sua perspectiva e a tornará convincente. Não existe um pluralismo igualitarista que considerará todas as escolhas válidas. Mesmo ao considerar várias posições como dignas de avaliação, do ponto de vista de quem a escolher, uma será melhor que outra, mais defensável e racional.
Com isso, pode-se inferir a ampliação da racionalidade nas relações internacionais. Um pluralismo admitirá vários processos normativos como viáveis do ponto de vista do grupo, assim como uma heterogeneidade das experiências e dos dados. O realismo que abstraiu a ideia do egoísmo racional ignorou a heterogeneidade dos fatos e das crenças, ao postular que apenas o seu tipo de escolha racional era viável para as relações internacionais. Contudo, percebe-se que essa racionalidade é fixa e estática, incapaz de dar conta da mudança histórica, assim como de fatos que sejam alheios a suas previsões. O realismo fixado a- historicamente está muito mais próximo de ser uma visão de mundo do que um entendimento dos acontecimentos históricos e sociais. A posição do realismo pode ser defensável como normatividade, como normas para o agir, e até a descrição de certos fatos históricos da parte de grupos e de individuos, mas não para todos os grupos e indivíduos. Não pode ser
177 considerada uma tese que valerá indistintamente para qualquer história e cultura, para qualquer grupo e pessoa, para qualquer era.
A perspectiva mais acertada para as relações internacionais considerará a pluralidade dos eventos e das crenças, estabelecerá que as relações possam ser tanto de compromissos como de conflito. Uma racionalidade que apenas privilegia um tipo de fatos ou dados, e apenas um tipo de crenças, não consegue abarcar o plano mais ampliado que considera a pluralidade das cognições e das experiências. O pluralismo cognitivista considera tanto o conflito quanto o compromisso, como uma característica das relações internacionais. Tal concepção pode ser reforçada pela noção da sociedade internacional proposta pela escola inglesa das relações internacionais, e questiona que a base para as relações internacionais deva estar assentada somente no egoísmo racional. A diplomacia nas relações internacionais é, por exemplo, uma relação tanto de conflito quanto de acordos e de cooperação ao se considerar não um, mas vários interesses e razões. A concepção da sociedade internacional sustenta-se na diversidade dos interesses, das razões, das eras, das relações, dos acordos, dos conflitos. Sendo assim, penso que a tese e a noção principal do realismo político nas relações internacionais, o egoísmo racional, é insuficiente para lidar com os eventos políticos internacionais, tanto descritiva quanto prescritivamente.