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Capítulo I – O Direito do Trabalho

4. Fontes de direito do trabalho

4.3. O pluralismo das fontes de direito do trabalho

Em face do que ficou dito a propósito das fontes de direito do trabalho, são várias e de diferente natureza jurídica — públicas e pri- vadas, nacionais e internacionais — as entidades à volta das quais se desenvolve o sistema de relações laborais. Por razões de oportunidade, deixaremos de lado as instituições internacionais com competência para aprovar disciplina laboral com efeitos a nível interno.

A principal conclusão que se retira do elenco das fontes indicado é a de que o Estado não é o único titular da produção do direito do trabalho, na medida em que essa competência é partilhada ou dividida com outras entidades. Independentemente dos organismos internacio- nais, intervêm ainda na formação do direito do trabalho as associações de trabalhadores (associações sindicais) e os empregadores e as respec- tivas associações que, apesar de serem entidades privadas, gozam de competência normativa a nível laboral (art. 80º, alínea a), da LT), assim como os tribunais.

A formação de um ramo do direito dirigido à regulamentação do trabalho assalariado no território timorense é essencialmente fruto da acção do Estado, através do Parlamento Nacional e do Governo, dentro dos limites traçados pela Constituição. Para além de fiscalizar a apli- cação do direito do trabalho (art. 98º e s. da LT), a administração do trabalho exerce igualmente funções de registo — assim, das associações sindicais e das associações de empregadores constituídas nos termos le- gais (art. 85º da LT), ou dos acordos colectivos de trabalho (art. 94º, n.º 3, da LT) —, como funções de mediação e de resolução dos conflitos de trabalho, através dos Serviços de Mediação e Conciliação, e do Conselho de Arbitragem do Trabalho (art. 101º da LT). Compete ainda ao Estado, através do Conselho Nacional do Trabalho, promover o diálogo social e a concertação dos parceiros sociais (art. 100º da LT).

Também os tribunais enquanto órgãos que interpretam e aplicam as normas laborais (leis estaduais e condições convencionadas a nível colectivo ou individual) contribuem para o desenvolvimento do direi- to do trabalho e para a clarificação da disciplina existente, em especial quando as suas sentenças versam sobre casos cuja regulação o legislador não previu ou previu em termos pouco claros.

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Independentemente do grau de desenvolvimento do associativis- mo sindical em Timor-Leste, as organizações de trabalhadores, especial- mente as associações sindicais (art. 78º e s. da LT), constituem outros dos actores com interferência na produção e modelação do direito do trabalho, através da contratação colectiva. Como indica o art. 92º da LT, esta tem como partes celebrantes, pelo lado dos trabalhadores, as orga- nizações sindicais (n.º 1, alínea a))13 e, pelo lado das entidades patronais,

os empregadores ou as organizações de empregadores, quando autori- zadas a negociar pelos seus representados (n.º 1, alínea b))14.

Tendo em vista permitir aos trabalhadores uma maior inclusão no processo de negociação colectiva das condições de trabalho, a segunda parte do art. 92º, n.º 1, alínea a) (“... e as [organizações sindicais] que este- jam devidamente autorizadas a negociar em nome dos trabalhadores”) deverá ser interpretada no sentido de que os trabalhadores não sindica-

13 São vários os princípios previstos na LT que modelam o direito de associação sindical:

a) Princípio da liberdade de constituição de associações sindicais, incluindo a dife-

rentes níveis (arts. 78º e 83º, n.ºs 4 e 6, da LT);

b) Princípio da liberdade de filiação das associações sindicais em organizações

afins internacionais (art. 80º, alínea d));

c) Liberdade sindical individual — desdobra-se em duas vertentes: a liberdade

de cada trabalhador aderir ao sindicato que o represente (liberdade sindical positiva) e a liberdade de não se filiar ou de deixar de estar filiado (liberdade sindical negativa), tal como, respectivamente, se consagra nos arts. 78º e 81º, n.º 1;

d) Liberdade de acção sindical externa — as associações sindicais gozam de liber-

dade para decidir as actividades e adoptar as medidas necessárias para a realização dos seus objectivos (arts. 79º e 80º);

e) Direito de reunião na empresa — os sindicatos podem realizar reuniões na em-

presa… “com a finalidade de informar e discutir assuntos sindicais de interesse para os trabalhadores” (art. 82º);

f) Autonomia e independência dos sindicatos — para proteger as organizações

sindicais relativamente a pressões de diferentes origens, susceptíveis de condicionar ou interferir com a realização dos seus objectivos, a LT assegura a sua independência e au- tonomia perante o Estado, partidos políticos, empregadores e respectivas associações, instituições religiosas e associações de outra natureza, sendo proibido qualquer tipo de interferência a nível da organização e financiamento dos sindicatos (art. 83º);

g) Liberdade de auto-organização e de autorregulamentação interna — consiste no

direito de as associações sindicais elaborarem os seus estatutos e elegerem os seus mem- bros, regendo-se pelos princípios democráticos (art. 84º).

14 Como se referiu, isoladamente, o trabalhador encontra-se numa posição de fra- gilidade contratual (e social) perante o empregador; é através das associações sindicais e, de forma particular, através dos acordos colectivos, que aquela relação de desigualdade é atenuada, na medida em que, quando associados, os trabalhadores gozam de uma maior força negocial que não dispõem a título individual, que lhes permite fixar condições de trabalho mais equitativas.

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lizados podem autorizar as organizações sindicais constituídas a nego- ciar acordos colectivos de trabalho em seu nome, ainda que pertençam a sectores económicos ou categorias profissionais distintas. Semelhante delegação de competência pode ser entendida como uma forma de ul- trapassar a falta de condições para promover a constituição de associa- ções sindicais.

Por seu turno, os empregadores e as suas organizações profissio- nais constituem outro actor do direito do trabalho. Não obstante nas de- finições do art. 5º da LT não constar qualquer referência às organizações de empregadores — a alínea i) do mesmo artigo alude apenas ao empre- gador, singular ou colectivo, enquanto parte do contrato de trabalho —, o art. 78º da mesma lei consagra de forma inequívoca o direito de os em- pregadores se associarem livremente e de criarem as suas organizações profissionais para a defesa dos respectivos interesses. Aliás, o reconhe- cimento deste direito já estava implícito na definição de acordo colectivo de trabalho, contida na alínea b) do mesmo artigo, ao estipular que este tem como parte um empregador ou uma organização de empregadores.

Independentemente da influência que possam exercer a nível das instâncias do poder quanto à definição da política laboral, no plano estri- tamente jurídico a interferência dos empregadores e das suas associações a nível do desenvolvimento do direito do trabalho manifesta-se através da celebração de acordos colectivos de trabalho e também, embora de forma mais limitada, através do próprio regulamento interno da empresa.