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2.1-O poder da multidão

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Na condição democrática atual, o fazer política anda caduco e carente de plenitude. Novas formas de organização social trazem narrativas e práticas que dantes não possuíam representação social ao centro dos debates sobre dignidade, condição humana e a vida em si. É necessário, pois, deslocar as narrativas que abarcam uma totalidade produzida, a fim de desfazer a inivisibilidade de experiências contempladas pelas narrativas e práticas subalternizadas historicamente pelo contexto colonial.

Para isto, torna-se imperativo que tomemos a categoria da colonialidade do poder – e seus afins – (QUIJANO, 2005) para permitir uma releitura do desdobramento da constituição das sociedades subalternizadas no sistema-mundo moderno-colonial. Feito isso, conseguiremos dar a merecida atenção e importância às formas de organização social e de fazer política que deslocam-se do devir imposto ao mundo pela visão eurocentrada de organização política e social.

Nosso enfoque recai sobre movimentos autônomos e dotados de certa espontaneidade, como já exposto anteriormente. Os blocos de carnaval, que margeiam o circuito oficial da festa e aglutinam sujeitos sob uma demanda comum – a música e o “circuito” social acabam sendo os maiores identificantes -, chamam a atenção para um modo de organização horizontalizado, que nos permite enxergar inúmeras possibilidades de ocupação do espaço público e ressignificação do uso da cidade em si.

Os blocos podem e devem ser pesquisados e teorizados como genuínos movimentos sociais, que se espacializam pela cidade e territorializam-se por suas práticas festivas. Mas não somente na escala nanoterritorial; evidenciam-se diversas demandas políticas que ultrapassam a festa: reafirmações de uma identidade afrodescendente; direitos da mulher; diversidade sexual; movimentos artísticos, graffitis, xarpi; movimentos sem-teto; tudo de forma lúdica de protesto, pois o que homogeneiza estas demandas é a condição festiva.

O nome “bloco” é, por si só, revelador, pois o bloco dá a ideia de compacto, sólido. Em suma, corporação e sincronização. Pois o bloco, como indica a palavra, é algo como uma multidão: poderoso, grande, avassalador; e possui a ordenação capaz de elaborar e representar um drama capaz de promover impacto duradouro ou expressar nitidamente certo ponto de vista com suas necessárias nuanças. A multidão pode

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aglutinar-se não somente pela música, mas também por expressões como o jogral14, os

miniblocos15, as fantasias coletivas e outras formas.

Partindo desse ponto de análise, podemos elencar a associação em blocos como a esfera que mais encaixa a aglutinação de pessoas – em número e qualitativamente – num plano horizontal de organização e organicidade em torno das demandas mais urgentes do movimento que se dá. Segundo DaMatta (1997), os blocos tem uma intenção mais particularistas do que as escolas de samba, mais voltados para a tradição e para a escala do bairro.Todavia, o que observamos ao longo da constante transformação do carnaval de rua no Centro do Rio de Janeiro, os blocos ganharam conotações maiores, mesmo os não oficiais, de uma aglomeração democrática e livre para ser e representar outras escalas. Há cidades, como São Gonçalo, Niterói e os municípios da Baixada Fluminense - atendo-nos apenas à escala metropolitana -, que, mesmo promovendo a festa em seus territórios, são representadas noutros espaçoscentrais.Claro que, aindaque os blocos entrecortem distinções menores, como família, clã, cor, posição educacional ou ocupacional, engendra o que queremos chamar aqui de solidariedade mútua para com os frequentadores. O bloco surge, então como o que Da Matta chama de instituição de praça que cria, então um modo sistemático de encontros, umas situações em que a inversão social é possível, já que nelas sempre existem um encontro de valores e objetos situados em campos sociais muitas vezes distantes e antagônicos no mundo cotidiano. Cria-se com isso um espaço especial em que as rotinas do mundo diário são rompidas e de onde se pode observar, discutir ou criticar o mundo real visto sob a ótica alternativa antissistêmica, além de construir possibilidades de um cotidiano que atenda aos anseios pela transformação desse cotidiano

Além deste caráter, essa tal aglomeração dá a cada participante um sentimento de anonimato e de disfarce que diminui o risco que resultaria em sua identificação pessoal com quaisquer atos ou palavras atribuíveis ao grupo. Falamos de atos que possam transgredir a lei e que o aparelho repressor do Estado trabalha para coagir. Ações como ocupações de prédios públicos; derrubada de monumentos públicos que exaltam a opressão histórica a que se relegou a cidade e que tornam permanente as

14 Prática de protesto comum entre multidões que envolve a dinâmica de um ou mais sujeitos proferirem palavras de ordem e, caso a multidão se identifique, repete, dando maior sonoridade e aumentando o poder de seu alcance. Entretanto, grita quem quer.

15 São os grupos menores, inseridos na multidão, com uma demanda comum, de menor escala, mas que pode perfeitamente ser incorporada ao tema do bloco, mesmo que momentaneamente. Pode também ser uma estratégia de venda de produtos artesanais (sacolés, brownies, cachaça artesanal, alimentos, etc.). Em geral carregam um estandarte para chamar a atenção e circulam por diversos blocos.

73 culturas opressivas e ódio às minorias oprimidas; fechamento de ruas e avenidas para protesto legítimo, mas que a lei torna ilegítimo; uso da tática Black blocem manifestações, etc.

Este caráter da multidão é algo sem precedentes no que concerne ao temor dos governantes e da grande mídia. Não ter para quem apontar a metralhadora de mágoas a serviço das classes hegemônicas para entronizar a visão mais devastadora possível é algo que a mídia sensacionalista burguesa não admite. Logo, esta se apropria de uma linguagem que aparece cravejada de termos usuais dos espaços a que pretende usurpar de legitimidade e as mescla com termos técnicos retirados de grupos de pesquisa de universidades renomadas. Destes espaços saem tecnologias de informação que estão a serviço da manutenção da hegemonia.

Uma possibilidade que faz parte do esforço de pesquisa aqui declamada é a possibilidade de ampliação da escala temporal de duração dos atos construídos no reordenamento promovido pelo carnaval. Milton Santos já debateu a duração e extensão dos eventos em excelente digressão, onde admite que

(...) ao lado de uma duração natural, o evento também pode ter uma duração organizacional. A duração natural deriva da natureza original do evento, de suas qualidades individuais, de sua estrutura íntima. Mas podemos, também, prolongá -lo, fazendo-o durar além de seu ímpeto próprio, mediante um principio de ordem. Em vez de ser deixado a si mesmo, altera-se o seu processo natural. Como também é possível limitar ou reduzir sua existência, amputando o seu período de ação, mediante um recurso organizacional. (SANTOS, 2006, p.135)

Santos se referia, de um modo geral, a eventos que preenchem o espaço geográfico de significado. Com isto, reduzindo nossa escala ao espaço público e tendo como referência de ação os blocos de carnaval que conseguem amplificar demandas específicas de grupos contra-hegemônicos, podemos ver sentido na tentativa de tornar o movimento espaço-temporal de reordenamento da cidade, que é o carnaval, e ensejar uma referência em ontologia do território que é o espaço público. Há múltiplas territorialidades inscritas no território que é o espaço público. Nosso esforço aqui é o de buscar caminhos para a retomada da autonomia nos usos e legitimação destes nos

74 espaços públicos – vitrine da cidade do Rio de Janeiro, a partir da vivência do reordenamento da cidade que o carnaval possibilita.

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