MULHERES DE TERREIRO
4.4 O Poder das Mais Velhas
A hierarquia é um dos elementos mais marcantes do candomblé, principalmente no que tange à questão da idade no santo.
Porque as mais velhas são respeitadas, todas nós temos que ter respeito pelas mais velhas. Vamos dizer, minha mãe de santo tem cinquenta e sete anos de feita, então é uma mulher que é muito respeitada em Salvador. Eu já tenho quarenta anos de santo feito, então eu sou muito respeitada já pela hierarquia.214
Tempo no santo condiz, de acordo com a ialorixá, com sapiência, sensatez, firmeza e serenidade. É imprescindível dizer que diante de uma sociedade cada vez mais atenta a questão do envelhecimento, mas ao mesmo tempo ainda pouco preocupada com um tratamento respeitoso aos idosos – que sofrem abandono, preconceito e desmerecimento –, é significante mencionar a forma com que os/as idosos/as são respeitados no candomblé. Quanto mais idosas, mais poderosas ficam as sacerdotisas da religião.
A idade sim, a idade é valorizada e quanto mais velha de idade no candomblé melhor. As pessoas da melhor idade são respeitadíssimas porque idade é tempo, tempo é posto e só tem posto quem tem tempo. A sabedoria vem justamente dos mais velhos, das mais velhas.215
A hierarquia concernente à idade no santo evidencia-se “na hora de servir a comida que é pela ordem, as mais velhas primeiro.”216
Na verdade, dois componentes estigmatizados e ressignificados mais positivamente no candomblé são a valorização da figura feminina de acordo com o que discutimos até então neste texto e a valorização da figura do/a idoso/a, pois “o candomblé valoriza demais a pessoa mais velha.217 Diz-se inclusive, que candomblé é religião da ancestralidade.
Sobre esse respeito aos mais velhos, aliás às mulheres mais velhas, Mãe Renilda chama atenção para a diferença de tratamento que existe entre os terreiros da Paraíba e os de Salvador. A ialorixá leva a questão para o embate dentro da Rede de Mulheres:
214 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 13/06/2010. 215 Idem.
216 Ibid. 217 Ibid.
[...] outra discussão que tem dentro da rede é a seguinte, é a das mulheres da melhor idade dentro dos terreiros, porque Salvador tem um respeito muito grande pelas mulheres da melhor idade dentro da religião, quanto mais velha em Salvador mais axé, melhor para ser mãe de santo. Já aqui na Paraíba existe uma coisa muito triste, quanto mais nova e quanto mais novo melhor para ser mãe de santo e pai de santo. Vem perdendo, vai perdendo uma valorização as pessoas de mais idade principalmente as mulheres.218
Mãe Renilda menciona o abandono da religião por parte de algumas mulheres, na Paraíba, quando atingem certa idade. Elas resolvem sair da religião em função do citado preconceito e a mãe de santo deixa em evidência que esse fator prejudica significativamente as mulheres.
Eu quero dizer que os próprios homens se autovalorizam. Em muitas ocasiões, não generalizando, algumas vezes eles discriminam as próprias mulheres. Vamos dizer, se a mulher é mais idosa e é mãe de santo, então alguns homens mais velhos olham às vezes e dizem: “o que essa velha cheia de rugas ainda está fazendo dentro de terreiro?” Não sabendo eles que sem a mulher não existe candomblé, porque na nossa religião é justamente a mulher que rege e que faz o culto, sem a mulher não existe candomblé porque a religião é pautada na natureza.219
Já que constata essa disparidade e julga ser desvantajosa para o “sexo” feminino, Mãe Renilda insere o tema na Rede de Mulheres, com o intuito de associar mais uma luta, um elemento positivo para a religião, conscientizando e insistindo na redução da diferença de importância entre jovens e velhos. Acrescentamos, ainda sobre a fala acima, que a sacerdotisa mostra que a religião é pautada na natureza, ou seja, atrela temas comuns entre movimentos – neste caso o movimento ecológico – e terreiros e, além disso, insiste na associação entre mulher e natureza.
[...] hoje a Rede faz o trabalho com as mulheres, principalmente as mulheres da melhor idade de terreiro, para elas se sentirem valorizadas de que o fato de ter sessenta anos, setenta anos [...] não impede que elas continuem na religião. Já houve casos até de mulheres de sessenta anos saírem do terreiro e irem para outra religião, olharem para mim e dizerem: “Eu deixei porque eu estou velha para estar dentro de um terreiro”. Ela própria tendo um terreiro, sendo a responsável pelo terreiro e ela dizer que estava desistindo, porque aquelas pessoas estavam criticando ela. Então precisa de cultura de conhecimento de algumas coisas.220
No trecho “Então precisa de cultura de conhecimento de algumas coisas” a ialorixá demonstra, de acordo com nossa interpretação, que ela própria se habilita a cumprir essa função em seu terreiro e nos de seus/suas filhos/as.
218 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 22/07/2010. 219 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/09/2010. 220 Idem.
A sacerdotisa coloca ainda que a valorização da “melhor idade” foi um dos motivos da criação da Rede Mulheres de Terreiro da Paraíba. Diz que em 2009 aconteceu o primeiro seminário – no dia 18 de novembro – que reuniu cem mulheres, discutindo essas e outras questões. Importante ressaltar que a ialorixá deixou claro que o evento não estava restrito só às mulheres e houve o incentivo da participação de alguns homens.
[...] esse ano [2010] o seminário acontece novamente em novembro para que a gente possa estar trabalhando essas mulheres, mostrando para elas o valor que elas têm, não só dentro da religião, como também na sociedade, como sujeitos, como sujeitas de construção política nesse país.221
Na mitologia, a idade madura também é representada pelos orixás nas figuras de Nanã e Oxalá, por exemplo, que formam um par – com suas trocas, como não poderia deixar de ser, conforme o que foi discutido nos mitos – e são orixás de grande poder. Aqui, um dos mitos preferidos de Mãe Renilda, referente à Nanã.
[...] tem um mito que eu gosto muito e esse mito chama-se Nanã. Porque Nanã é princípio, meio e fim. Então, quando Olodumare cria Nanã, determina para ela que sem ela não há começo no mundo, sem ela não há meio e sem ela não há fim e, já deixa bem explícito para nós que não há vida sem morte e não há morte sem vida e que entre a vida e a morte existe um meio. Então, nós não vivemos nem aquele princípio nem o fim, nós vivemos no meio, que é aí onde nós tentamos observar que Nanã é quem cuida de nós nesse meio, é ela que é a avó de todos nós.222
Tal visão da velhice corrobora o que foi dito sobre a positivação e tentativa de legitimação do candomblé, pela perspectiva defendida por adeptos/as de ser esta uma religião mais igualitária e mais respeitosa em relação aos mais velhos, processo esse atrelado à reconstrução/afirmação do candomblé.
O caminho que trilhamos até aqui, as teorias e as informações fornecidas pelo campo, nos mostraram uma supervalorização do candomblé. Para ilustrar, atinemos para o fato de que, mesmo cultuando mestres, caboclos, ciganas, entre outras entidades da umbanda neste terreiro223, existe um valor maior atrelado à religião dos orixás. Diz uma filha de santo: “o poder maior é orixá.”224
Segundo uma filha de santo, a presença dessas entidades no terreiro justifica-se por sua importância:
[...] hoje as pessoas que viraram adeptas da religião do candomblé percebem que mesmo sendo candomblecistas atualmente, elas não podem e não têm como deixar essa matriz, porque foi essa matriz que, por exemplo,
221 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/09/2010. 222 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/01/2011.
223 Todo terceiro sábado do mês é dedicado às festas exclusivas dessas entidades. 224 Entrevista concedida por Mãe Dorioman12/01/2011.
muitas vezes sustentou tantos pais e mães de santo. Eram seus caboclos que davam suas visitas, que davam suas assistências aos clientes, eram as suas Pomba-giras, portanto, eram entidades que naquele tempo – como o pai e a mãe de santo muitas vezes não trabalhava –, sustentavam o terreiro.225 Mas mesmo chamando atenção para o respeito e consideração dedicados às entidades mencionadas, a mesma filha de santo esclarece que “[...] você não pode colocá-las à frente do seu orixá, a gente sempre tem que ter um respeito por elas, mas saber que elas estão num plano bem mais inferior.”226
Atrelada à discussão da reinvenção do candomblé está a vinculação do povo de santo com o movimento negro, assunto já mencionado – embora não diretamente – no decorrer do trabalho. As religiões afro-brasileiras vêm ganhando importância no discurso dos movimentos sociais negros. Para muitos militantes, a vinculação a estas religiões passa a ser vista como um sinal de distinção. No entanto, essa aproximação do movimento com as manifestações religiosas afro-brasileiras tem acontecido apenas recentemente.
É neste contexto que as religiões afro-brasileiras vêm sendo encaradas como um componente indispensável da construção e afirmação da identidade negra. Encontramos nesses grupos um enaltecimento dos aspectos considerados tradicionais da religiosidade de “matriz” africana, em detrimento do sincretismo ou da assimilação. Esta atitude conduz à valorização de algumas expressões da religiosidade e da cultura afro-brasileiras, como o candomblé, e a desvalorização de outras, como a umbanda e a jurema. É por conta dessa percepção de uma relação estreita entre religião e identidade, que os movimentos negros inserem em sua agenda política a reivindicação por políticas públicas de promoção das religiões “negras”. Identificadas como espaços de resistência cultural, as “tradições” e seus líderes buscam destacar-se no mercado religioso, além de construir uma imagem legítima (GONÇALVES e OLIVEIRA, 2010, p. 15-16).
Essa legitimidade desejada está por trás de muito do que discutimos nesse trabalho. Desde a “adaptação” mitológica, passando pela atuação comunitária e política de Mãe Renilda e sua tolerância e receptividade com indivíduos de sexualidade “desviante” – se bem que ela tem razões particulares que reforçam essa prática –, a defesa de um discurso de igualdade entre os “sexos” dentro do terreiro, a perspectiva defendida de que o candomblé é uma religião da igualdade em aspectos mais gerais que ultrapassam a divisão sexual de tarefas e, por último, a preleção de que, ao contrário do que ocorre na sociedade, as mulheres ganham cada vez mais poder de acordo com o avançar da idade cronológica e consequentemente da
225 Entrevista concedida por Tânia em 16/02/2011. 226 Entrevista concedida por Tânia em 16/02/2011.
idade no santo, tudo isso está associado ao tema da reinvenção do candomblé, são elementos que apontam para transformações em prol de uma legitimidade buscada pelos candomblecistas e pelo respeito e reconhecimento tão intensamente desejados pelos/as adeptos/as da religião dos orixás.
Esta associação entre os diversos temas mencionados e a reinvenção do candomblé tem surtido efeitos bastante positivos, reduzindo a discriminação, empoderando quem precisava e abrindo algumas portas. Eis que, um movimento de tentativa de resgate cultural, mesmo que “forçadamente” aplicado (por ter sido sobreposto de fora pra dentro) findou por trazer benefícios e auxiliar num importante propósito, a saber: recontar a versão feminina da história das religiões afro-brasileiras e disseminar uma consciência feminista e um processo de construção de si nas mulheres de terreiro.