CAPÍTULO 2 PODER ECONOMICO E O ACESSO AOS DADOS
2.2. O poder de mercado das plataformas digitais
As plataformas digitais introduziram novos modelos de negócio com sua tecnologia inovadora, modificando a forma da tradicional prestação de serviços e apresentando uma nova maneira de consumir e interagir. A variedade de produtos e serviços foi capaz de alterar os aspectos do mercado de consumo, as relações de trabalho e interação social e o estilo de vida.
Na última década, centenas de novas empresas digitais mudaram a maneira com que a sociedade consome e compartilha bens, serviços e
27 informações. Essa ascensão das plataformas digitais é motivo de celebração e crítica, visto que seu domínio de mercado e capacidade técnica levantam questões sobre as novas formas de práticas anticoncorrenciais e impactos negativos sobre o bem-estar dos funcionários e dos consumidores.
As grandes empresas de tecnologia têm um aspecto voltado para o consumidor em seus negócios. Os rastros deixados por seus consumidores, no momento em que utilizam as plataformas, são usados para aumentar os lucros. As relações empresariais, no mercado mundial, são relações de poder, com fins egoístas; e o poder econômico é hoje, sempre mais função da acumulação tecnológica. Ora, na lógica do poder, ninguém se despoja de sua supremacia voluntariamente. (SALOMÃO FILHO, 1985, p.14) Dessa forma, as gigantes tecnológicas estão na classificação das marcas mais valiosas do mundo, ocupando 20% da lista. De acordo a lista anual da Forbes (2019) divulgada em maio, a Apple lidera a lista pela nona vez consecutiva, avaliada em US$ 205,5 bilhões; seguida da Google, em US$ 167,7 bilhões; Microsoft, em US$ 125,3 bilhões; Amazon, em US$ 97 bilhões e Facebook, em US$ 88,9 bilhões.
Analisando o lucro líquido das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo, Jeffrey Desjardins (2019) presentou os relatórios referentes ao ano de 2018, sendo possível extrair as seguintes informações:
Company Revenue (2018) Net Income (2018) Margin
Apple $265.6 billion $59.5 billion 22.4%
Amazon $232.9 billion $10.1 billion 4.3%
Alphabet $136.8 billion $30.7 billion 22.4%
Microsoft $110.4 billion $16.6 billion 15.0%
Facebook $55.8 billion $22.1 billion 39.6%
Combined $801.5 billion $139.0 billion 17.3%
Fonte: Visual Capitalist. How Tech Giants Make Their Billions. Publicado em 29.mar.2019
A soma das receitas ultrapassa os US$ 800 bilhões em 2018, com lucro de US$ 139 bilhões para seus acionistas, representando uma margem de lucro de 17,3%.
28 Considerando que cada uma dessas empresas atuam em um mercado diferente, com base nos relatórios, Desjardins apurou em suma que: a Apple gera 62,8% da sua receita com a venda de Iphone; a Amazon constitui mais da metade de sua receita, 52,8%, com a venda de produtos em sua plataforma online; a Microsoft possui uma receita bastante diversificada, sendo que a maior delas advém dos produtos de escritório e serviços em nuvem com 25,7%; a Alphabet, a controladora do Google, gera receita partir de anúncios, que corresponde a 85% do faturamento da empresa; e por fim, o Facebook, que possui fonte de renda semelhante ao Alphabet, a publicidade, alcançando o total de 98,5% de receita gerada a partir de anúncios.
Todas elas têm uma coisa em comum: semeiam a confiança, pois emparelham oferta e demanda de uma forma bastante acessível (baixo custo), oferecem diversas mercadorias aos consumidores e permitem que ambas as partes interajam e ofereçam retorno (SCHWAB, 2016, p.16).
Em março de 2015, Tom Goodwin, estrategista de mídia, escreveu em um artigo para o TechCrunch declarando:
O Uber, a maior empresa de táxis do mundo, não possui sequer um veículo. O Facebook, o proprietário de mídia mais popular do mundo, não cria nenhum conteúdo. Alibaba, o varejista mais valioso, não possui estoques. E o Airbnb, o maior provedor de hospedagem do mundo, não possui sequer um imóvel. (SCHWAB, 2016, p.16)
Milhões de dólares circulam por essas plataformas digitais que quase não possuem custos com armazenamento, transações, produção ou logística. O processo de inovação social é complexo, porém as mudanças tecnológicas estão a moldar um futuro hiperconectado e digital.
Um oportuno exemplo de poder de mercado frente ao consumidor pode ser mensurado através do Alibaba, uma plataforma de compras on-line. No dia 11 de novembro de 2015, chamado de Single Day (Dia do Solteiro), o serviço de comércio eletrônico lidou com mais de US$ 14 bilhões em transações on-line. Em 2018, alcançou mais de US$ 25,3 bilhões e US$ 38 bilhões em vendas em um único dia de 2019.
Esse controle concentrado de dados de usuário oferece às empresas uma vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes, mas não só isso.
29 Em decorrência da concentração de detalhes sobre as preferências dos consumidores, inclina-se também contra os mercados que não possuem os mesmos dados.
Isso ocorre porque muitos desses algoritmos aprendem a partir das “migalhas” de dados que são deixados no mundo digital, resultando em novos tipos de “aprendizagem automática” e detecção automatizada. Tudo isso possibilita robôs “inteligentes” e computadores que se auto programam, encontrando as melhores soluções a partir de princípios iniciais (SCHWAB, 2016, p.12).
Nota-se também que o poder de mercado é, ironicamente, gerado pelos próprios consumidores que são prejudicados por ele. Justamente por não trocar de aplicativos que desempenhem a mesma função escolhida ou fazer pesquisas em outro buscador e experimentar a concorrência. Essa é a chamada economia comportamental, que possui grande influência na política econômica, buscando melhorar os fluxos de informação e algumas barreiras físicas, mas que se depara com os fatores humanos influenciando sobre os resultados de mercado.
Alguns estão comercializando produtos para você, enquanto outros estão comercializando você como o produto, afirma Nathan Newman (2014).
2.3. A coleta de dados pessoais pelas empresas provedoras de