A rede multidisciplinar na Casa da Esperança e a normalização
Na Casa da Esperança prima-se por um atendimento multi-profissional. Nele, podemos ver setores do conhecimento científico como a Fonoaudiologia , a Terapia Ocupacional, a Fisioterapia, a Psicologia, o Serviço Social, a Pedagogia, a Neurologia, a Pediatria etc sendo demandados e agindo no cotidiano da instituição.
Na instituição a Fonoaudiologia trataria de questões como a motricidade oral, cialorréia (baba)dificuldade de socialização e falta de concentração num contexto em que há alunos não-verbais. Já a Fisioterapia, trata também da falta de concentração por exemplo, da falta de resposta ao comando verbal e se realiza um trabalho de alongamento, de coordenação motora, aerosóis para luxações, relaxamentos na piscina virando controlar a hiperatividade dos alunos durante seus momentos de recreação.
À Terapia Ocupacional caberia as Atividades da Vida Diária e da Via Prática visando a independência psico-motora, cognitiva e sensorial.A psicologia visa o atendimento clínico, o Serviço social, o levantamento das demandas com as famílias.a Pedagogia visaria estimular cognitivamente os meninos, A Neurologia e a Pediatria realizaria exames mais detalhados dos alunos.
Vejamos qual a idéia que subjaz a essa necessidade de uma rede multidisciplinar na Casa. Alexandre Costa nos relata que há um saber do autismo que deve ser partilhado por todos os membros do corpo técnico-profissional da instituição ao dizer:
Porque o autismo é um problema complexo e eu não posso saber tudo que um terapeuta educacional sabe e ele não pode saber tudo o que eu sei. Eu posso ter uma interdisciplinariedade. A transdisciplinariedade é uma meta. É uma espécie de utopia (...) a gente tem de dividir mesmo, tem que trabalhar em equipe, entendeu? E aí, a idéia é trabalhar em comunidade. Por isso eu acho mais efetivo um trabalho que é feito numa comunidade terapêutica do que o menino que tem todos os mesmos atendimentos que ele tem aqui, num outro canto. Porque aqui ele conhece a fonoaudióloga. Eles se reúnem periodicamente. Fazem parte da mesma equipe que atende o menino. Tem uma mesma coordenação, tem uma mesma supervisão do ponto de vista técnico. Então o mesmo saber circula de uma forma geral. Porque existe um saber do autismo. Como lidar com as situações dos autistas e, esse, todos tem que tá sabendo.
Num outro momento da entrevista Alexandre nos diz “ modéstia às favas , a gente faz isso com muita responsabilidade” e em seguida “ o poder do psiquiatra na vida dessa pessoa é enorme”.Vamos nos deter um pouco mais nisso;
Um pequeno lembrete sobre a normalização
Foucault, comentando sobre a generalização do saber psiquiátrico31. Na aula de 19 de Março de 1975 durante o desfecho do seu curso Os anormais, Foucault já alertava para o fato da infância ser vista como condição histórica da generalização do saber e do poder psiquiátricos. Ocorreria num mesmo movimento, tanto a psiquiatrização da infantilidade quanto a constituição de uma ciência das condutas normais e anormais. É que foi “ tornando- se ciência da infantilidade das condutas e das estruturas, (que) a Psiquiatria pode se tornar ciência das condutas normais e anormais” (FOUCAULT, 2002:391).
A questão não se resume a uma escolha subjetiva. As práticas cotidianas são atravessadas pelo poder de normalização. Ocorre a cada instante em que alguém se refere aos alunos autistas como especiais. Vou dar um pequeno exemplo dentre os inúmeros vivenciados ao longo da pesquisa. Estava na sala de serigrafia conversando com o monitor. Chega uma terapeuta com um menino para iniciar um trabalho nessa oficina. O monitor não conhecia a criança. Tenta falar com ela, ela não responde. A terapeuta quase instantaneamente diz: ele é não verbal.
Talvez seja insuficiente perceber e relatar criticamente esse tipo de atitude antecipadora e classificatória realizada cotidianamente nas mais diversas situações que nos deparamos na pesquisa. Pois, quando se solicita para “agir com naturalidade ao encontrar com algum deficiente” também se está irradiando essa normalização. São contínuos e infinitos fluxos de crenças e desejos que atravessamos e que nos atravessam ininterruptamente. Localizá-los em alguma situação ou local físico é apenas um detalhe, momentâneo.
Trata-se do poder da normalização operando. Ou seja, a questão não se resume a sua localização institucional. Ela remete às próprias condições histórias de surgimento e desenvolvimento de disciplinas científicas que se desenvolveram ao desenvolver e exercitar práticas e saberes sobre esse universo.
Aliás, por que será que cada vez mais se acentua e se aceita tranqüilamente a necessidade de equipe multi-profissionais em instituições que exercem esse tipo de função?
31
Para ver o surgimento institucional da Psiquiatria no Brasil, as relações entre a ciência psiquiátrica e as políticas públicas assistenciais ligadas a esse segmento no País desde esse surgimento, bem como a influência dos paradigmas Francês e Alemão nesses desdobramentos. Ver VENÃNCIO, A.T. (2003). Ciência psiquiátrica e política assistencial: a criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. In: Fundação Oswaldo Cruz: História, Ciências, Saúde.Rio de Janeiro, Manguinhos.p.883-899.
Quer dizer, apesar de se tratar duma ampliadíssima, isso não quer dizer que não se possa trilhar e apontar caminhos diferenciados, mas significa que apenas o reverso da medalha, criticar e combater esse tipo de concepção, valendo-se das mesmas concepções não muda o panorama.
O diagnóstico e a normalização visto em rede na Casa da Esperança.
Vejamos como as crenças e os desejos envolvidos nos diagnósticos são disparadas cotidianamente e permitem vislumbrar o esboço de toda uma rede. Quem nos relata esse acontecimento é Sônia da Casa da Esperança.
Existe uma dinâmica de funcionamento de entrada na casa e de diagnóstico. Tem muito encaminhamento de outras escolas. De médicos, de neurologistas. Inclusive a gente tem uma demanda enorme de encaminhamento de neurologistas que não fecharam diagnóstico que acham que tem características autistas, então vai para a Casa da Esperança. Então, às vezes, mesmo que o menino que só tem retardo mental, que são só hiperativos, esses profissionais encaminham pra cá. Fonos, pedagogos, psicólogos. Eles também têm uma demanda muito grande de encaminhamento (...) se tem esse perfil a gente bota numa lista de espera, a gente tem uma lista hoje, de acho de cerca uns 200 alunos esperando (....) Se não tem o nosso perfil a gente encaminha, a gente também tem uma relação de instituições que atendem. É Síndrome de Down, então a gente encaminha pra APAE, pro RECANTO. É apenas uma criança com hiperatividade a gente também encaminha. (...) Tem alguns casos inclusive que não tem o nosso perfil, mas é uma família que tá numa situação de dificuldades financeiras muito grande. Que tá perdida, não sabe o que fazer. A gente às vezes agenda pro nosso neurologista pra fazer uma avaliação neurológica. Inclusive até às vezes medicar e tem casos que eles ficam sendo acompanhados só pelo neurologista durante um certo tempo ou então ele encaminha pra outro neurologista. De qualquer forma o que a gente tenta é não deixar ninguém voltar sem resposta, sem um encaminhamento, sem alguma ação feita naquele momento, entendeu?
Os aspectos apresentam-se entrelaçados de tal maneira que a presença de um leva a necessidade do outro sem que se consiga estabelecer fronteiras fixas entre eles. É o que pudemos constatar nessa passagem acerca da busca de um diagnóstico e a regularidade e a freqüência com a qual isso ocorre.
Vejamos agora como se deram os diagnósticos dos sujeitos pesquisados.Os colocamos em dois breves momentos: um caracterizando os sinais e sintomas e o outro trazendo a justificativa em seu bojo32. Os colocamos aqui nos antecipando ao quarto capítulo, porque
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Os diagnósticos fazem parte do laudo de Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade (APAC). Esse laudo contém o diagnóstico clínico de todos os alunos da Casa da Esperança. Nos que tivemos acesso, eram assinados por Fátima Dourado, pediatra e presidente da Casa da Esperança. É esse o laudo encaminhado para o SUS e que mantém o órgão informado sobre o acompanhamento dos alunos da Casa. O laudo contém ainda uma parte relativa aos conteúdos, objetivos, propostas e acompanhamento pedagógicos. Dentro desses aspectos pedagógicos, nos ateremos, no próximo capítulo, àqueles relativos as propostas das
nesse aspecto, eles podem iluminar a busca de diagnósticos a qual Sônia se referia. Ou seja, a demanda por diagnósticos transcende os sujeitos pesquisados porque apresenta-se como uma necessidade em rede.
Em N.
Sinais e sintomas: Retardo mental leve, imaturidade social e emocional, dificuldade
de aprendizagem. Justificativa: Paciente estável, calmo, educado, absolutamente independente em termos de cuidados próprios, no momento está estagiando como monitor na área de informática. Necessita de atendimento por equipe multiprofissional com vistas a desenvolvimento de habilidades sociais, participação no mundo do trabalho e atendimento psicológico individualizado.
EM B.
Sinais e sintomas: atraso generalizado no desenvolvimento, retardo mental leve,
imaturidade social e emocional. Justificativa: paciente apresentando estabilidade em termos de comportamento. Independente em termos de auto-cuidados. Participando de oficina protegida de informática, artes plásticas e serigrafia. Necessita permanecer na mesma unidade de atendimento por equipe multiprofissional, 8 h/dia com vistas a profissionalização, atendimento psicológico visando melhor adequação social, educação de jovens e adultos e terapia comportamental.
EM J.
Não tivemos acesso ao laudo em que consta os sinais e sintomas e a justificativa de J..No entanto, descobrimos um outro documento que nos remete a uma questão que é anterior e mais ampla que o seu próprio diagnóstico.Trata-se de um relatório de avaliação na qual se tematiza a necessidade de se fazer um diagnóstico de J. através da demanda da sua família em 6 de maio de 2002.
A família de J. procurou a Casa da Esperança solicitando uma avaliação para o mesmo, colocando que nunca souberam de fato qual o diagnóstico do rapaz. Um ex- funcionário desta instituição, amigo da família, achou o comportamento de J. similar ao dos portadores de autismo. De acordo com o relato da mãe durante a entrevista de anamnese, foi possível se identificar fatores que condizem com o diagnóstico de autismo, principalmente nos primeiros anos de vida. Atualmente, J. está diagnosticado por um profissional psiquiatra que o enquadra na CID-10 em F.70 (retardo mental) e está freqüentando escola regular. Contudo, entende-se que se faz importante realizar uma avaliação do rapaz para se obter mais dados que elucidem o diagnostico diferencial e pela faixa etária do mesmo, esta avaliação deverá ser realizada na sede.
oficinas. Nossa idéia aqui é sinalizar os princípios sob os quais se norteiam qualquer futura ação clínica e/ou educacional na Casa da Esperança frente aos sujeitos que pesquisamos.
Obs: segue em anexo, uma lista elaborada pela família, a qual enumera as características mais peculiares de J.
Em E.
Sinais e sintomas: retardo mental, imaturidade social e emocional, dificuldades de
aprendizagem. Epilepsia. Justificativa: paciente estável, mantém controle das crises convulsivas.Tem apresentado dificuldades relacionais, o que tem atrapalhado seu progresso com respeito e inserção no mundo do trabalho.Independente em termos de cuidados próprios e AVPS Possui padrão cognitivo rígido.Necessita permanecer na unidade com vistas a atendimento psicológico individualizado, educação de jovens e
adultos e inserção em atividade laborativa.
Em K.
Sinais e sintomas: retardo mental, imaturidade social e emocional, déficit de
aprendizagem. Justificativa: não apresentou mudanças dignas de nota quanto ao seu quadro clínico. Apresentando independência em termos de cuidados próprios, AVDS E AVPS, atualmente trabalha como estagiária na oficina protegida Lavanderia. Necessitando permanecer na unidade de atendimento por equipe multiprofissional 4 h/dia para melhorar sua funcionalidade e participar de oficinas protegidas, além de atendimento psicológico individualizado.
Em L.
Sinais e sintomas: imaturidade social e emocional, retardo mental leve, dificuldades
de aprendizado.Justificativa: paciente estável, apresentando extinção de comportamentos disruptivos. Completamente independente em termos de autocuidados. Atualmente trabalhando como estagiária. Participa ativamente das oficinas de informática, artes plásticas e Educação de Jovens e Adultos. Necessita permanecer na mesma unidade de atendimento por equipe multidisciplinar 8h/dia com vistas a profissionalização, atendimento psicológico individualizado e educação de jovens e adultos. Fátima Dourado, Fortaleza, 01 de junho de 2005.
Vejamos agora o que nos retrata o prontuário de G.
Sinais e sintomas: retardo mental leve, imaturidade social e emocional, déficit na
aprendizagem. Justificativa: paciente estável, continua melhorando em termos de relacionamentos interpessoais. Atualmente trabalhando como monitora. Necessitando permanecer na mesma unidade de atendimento para estimulação neurosensorial, atendimento psicológico individualizado e participação nas oficinas protegidas. Fátima Dourado, Fortaleza, 01 de junho de 2005
Finalmente T.
Sinais e sintomas: distúrbio de comunicação social, transtorno de reconhecimento
social, estereotipias, padrão de interesses restrito e estereotipado. Justificativa: paciente autista de alto funcionamento, bastante funcional, independente em termos de cuidados próprios, fala fluente e correta, incapacidade para empatizar com sentimentos alheios, isolado socialmente, autodidata, apresenta ilhas de habilidade como pintura, boa capacidade de redação, é profundo conhecedor de música, tecladista. T. já publicou um livro. Apesar disso, o paciente não tem controle esfincteriano, não consegue andar sozinho e apresenta episódios depressivos. No momento está em acompanhamento psiquiátrico. Necessita permanecer na mesma unidade de atendimento por equipe multiprofissional, para atendimento agora apenas ambulatorial com vistas a formalização de atividades acadêmicas, atendimento terapêutico individualizado, desenvolvimento de relações inter-pessoais e acompanhamento psiquiátrico. Fátima Dourado, Fortaleza, 01 de junho de 2005.
Pela análise dos diagnósticos dos sujeitos pesquisados e a observação das práticas dos profissionais, percebemos a justaposição entre o substantivo estável e as práticas que buscam tornar o comportamento desses alunos nalgo socialmente aceitável. O universo referencial utilizado para mensurar tal aceitação é a normalidade. Em suma, a Diferença não é vista a partir dela mesma. A melhora dos autistas, por exemplo, é sempre remetida à normalidade. A interiorização dessa normalidade nos autistas é tão ostensiva, que alguns dos entrevistados manifestaram uma visão pejorativa das crises que permeiam o autismo. Com os elementos que dispomos, já nos é possível dizer que a expressão da instabilidade, uma “característica” de autistas, é vista de uma forma negativa pelos próprios autistas por conta da sua classificação e localização no universo da anormalidade.