2.2. A IDEIA DE GUERRA JUSTA 41
2.2.1. O PODER E A GUERRA 42
A primeira teorização ocidental20 acerca do fenómeno da guerra, pode ser reportado à Antiguidade Clássica, sobretudo com a obra de Tucídides, A Guerra do Peloponeso, mas também com o pensamento estoicista, em particular de Zenão, em 300 a. C., em Atenas, e posteriormente de Marco Aurélio e Cícero, em Roma.21 Resumir o pensamento ocidental sobre a guerra e o uso da força no período subsequente até ao início do século XX é tarefa inglória para qualquer autor, porque inevitavelmente alguns contributos importantes acabam por ser preteridos em detrimento de outros que se consideram mais relevantes. Cada autor apresentaria uma perspectiva diferente sobre a racionalização do poder e sobre a forma como esse poder se traduz no recurso à guerra e à força. Adoptou-se aqui a perspectiva metodológica e temporal seguida por Adriano Moreira, por se considerar que abarca os principais aspectos desta temática, cuja definição se assume de tão grande importância para o presente trabalho. O autor divide esta temática de acordo com os diferentes legados deixados pelos diversos autores que se debruçaram sobre o tema: 1) a Antiguidade Clássica – como já foi apresentado; 2) o legado humanista; 3) o legado maquiavélico; e 4) a formação da comunidade internacional.
É logo no século XIII, que S. Tomás de Aquino introduz de forma clara e explícita o conceito de Guerra Justa. S. Tomás de Aquino, ao aplicar à sociedade internacional a sua concepção das quatro espécies de leis22, em que estabelece os princípios básicos da normatividade jurídica
20 O ênfase deve ser efectivamente colocado sobre o facto de se estar a falar do legado ocidental. Naturalmente, o
legado oriental sobre o pensamento e a teoria da guerra é muito antigo e pode ser reportado até Sun Tzu, com a sua Arte da Guerra. Contudo, as obras destes autores eram, essencialmente, tratados militares sobre a arte da condução da guerra, não tanto relacionados com a legitimidade do recurso a esta ou à tentativa da sua legitimação.
21 A sequência histórica aqui apresentada é retirada de Moreira, 2005: 290 e segs.
22 “[S. Tomás de Aquino] sustenta que existem quatro espécies de leis: a lei eterna que é um nome para a concepção
ocidental que vai perdurar, na totalidade da sua acepção, até ao Renascimento, altura em que a dimensão divina e eterna perdem importância e poder sobre a vida da sociedade, mas que perdura até aos nossos dias na sua dimensão positiva e natural,23 introduz a primeira definição da Guerra
Justa, com distinção entre o jus ad bellum, ou seja, a causa (justa) da guerra, e o jus in bello, ou seja, a conduta ou condução (justa) da guerra. Isto representa aquilo que Barbas Homem considera como uma “alteração decisiva em relação à concepção romana de guerra justa”, em que a definição deste conceito passa a incidir sobre a “valoração da intenção daqueles que declaram a guerra e daqueles que a fazem.” (Homem, 2003: 22). Em suma, o legado humanista, de unidade cristã, fazia depender sobre uma monarquia universal, como define Dante, em que o poder temporal se subordina ao poder divino do Papa, como garante da Paz mundial.
O legado maquiavélico, inspirado naturalmente no pensamento de Nicolau Maquiavel, e na sua obra O Príncipe, apresenta uma concepção radicalmente diferente da visão cristã medieval. Maquiavel defende a inexistência de um poder ou lei superiores ao poder dos Príncipes. Para Maquiavel, “as relações entre os principados são reguladas pelo equilíbrio dos poderes, e que a força é o elemento fundamental”, o que o leva a afirmar que “a guerra é a verdadeira profissão de quem governa” (Moreira, 2005: 292). Os príncipes devem, por isso, preocupar-se com o interior dos seus Estados e com as ambições das potências vizinhas; para contrariar tais ambições devem manter sempre um grupo alargado de homens armados e estabelecer boas relações e alianças com outras potências vizinhas. Mais tarde, Thomas Hobbes, no Leviathan, vai continuar este pensamento, referindo que o homem é o lobo do homem (homo homini lupus) e que tal princípio é aplicável à vida internacional, em que não existe qualquer princípio de sociabilidade; antes, a vida internacional “é o domínio por excelência das três causas humanas de discórdia: a competição, a desconfiança, a glória”, em que “cada Estado soberano [continua] intervindo até onde o poder de constranger lho permite.” (Idem: 293). O pensamento de Maquiavel e Hobbes encontra repercussão posterior em Clausewitz, em pleno apogeu do poderio imperial de
quais obedecem por natureza, visto ser parte da lei eterna revelada aos homens na terra; a lei divina, expressa nos comandos divinos revelados nas escrituras; a lei positiva, formulada pelos homens para racionalmente assegurarem o bom governo das suas comunidades.” (Moreira, 2005: 291).
23 Veja-se, novamente, Adriano Moreira, que diz: “A evolução da comunidade internacional para o modelo do
Estado nacional, a quebra da unidade da República Cristã, designadamente pelo movimento reformador que negou a autoridade espiritual do Papa, a implantação da doutrina política de que o rei é o imperador no seu reino, tudo exclui a submissão geral a uma autoridade espiritual. Mas nunca foi eliminado o projecto de obter a paz pela convergência numa instituição laica, que assumisse ao menos uma autoridade geral.” (Idem).
Napoleão, mas também em Morgenthau e Aron, defensores da perspectiva realista das Relações Internacionais.
Em relação à formação da comunidade internacional, e ao legado escolástico24, este tema merece
aqui menos desenvolvimento por ter sido já alvo de análise no título referente à evolução do Direito Internacional, e ao papel desempenhado pelos jusnaturalistas da Segunda Escolástica, Francisco de Vitória e Francisco Suárez. De reforçar apenas a ideia do jus communicationes, defendido por Vitória, que é “o direito que cada homem tem de estar, andar, ir de um lado para o outro ao redor da Terra”, bem como a ideia de que existe “um direito natural superior às prerrogativas e direito positivo de cada Estado, do qual decorrem regras que garantem a paz internacional.” Também Suarez defende a “unidade superior do género humano, resultante do preceito do amor e da caridade mútua que se estende mesmo aos estrangeiros”. Ambas as ideias derivam da mesma premissa, a “indivisão originária e natural da comunidade dos homens”, que foi estabelecida em termos de Estados e fronteiras por necessidade de providência da sua defesa e segurança (Moreira, 2005: 294).
Embora não faça parte do esquema apresentado por Adriano Moreira, um dos autores mais importantes para a consolidação da limitação do uso da força foi Immanuel Kant, com o seu Projecto de Paz Perpétua. No seu Artigo 5º, dos Artigos Preliminares, Kant refere que “nenhum Estado se deve imiscuir pela força na constituição e no governo de outro Estado” (Kant, 2002: 119). Para além disso, ao basear o direito das gentes numa «federação de Estados livres», Kant está, igualmente, a limitar o recurso à força e à violência para a resolução de quaisquer conflitos entre estes.
De uma forma sintética, a ideia subjacente a este título é apresentar as bases teóricas dos grandes pensadores europeus que, continuados a posteriori, contribuíram decisivamente para a sucessiva limitação do uso da força que se assistiu ao longo dos séculos e que terá o seu apogeu no século XX, como se verá de seguida.