MATIZES DE HISTÓRIAS: PASSADO E CONTEMPORANEIDADE – ONDE AS MULHERES FORAM/SÃO SUJEITOS?
2.5 O poder e o em(poder)amento: cruzando fronteiras conceituais
O poder emerge onde as pessoas agem em conjunto, e uma vez que as ações combinadas das pessoas têm lugar essencialmente na arena política, o poder potencial é inerente a todos os assuntos humanos.
Hannah Arendt 2007, p. 125.
O fato do poder engendrar nessa esfera é que causa danos, caso ele seja combinado com a força e com o domínio. “Para as pessoas que em todo mundo se sentem ameaçadas pela política, e entre as quais as melhores são as que conscientemente se afastam da política, a questão muito mais importante que se põe e põe aos outros é: a política terá ainda qualquer sentido?” (ARENDT, 2007, p. 125). Quando as prefeitas falam de seus percalços, retornam a essa mesma pergunta feita por Arendt. Logo depois, respondem que “vale a pena” e estão buscando fazer o melhor, “pelo menos o meu município, a localidade onde eu nasci, não está entregue nas mãos daqueles que visam apenas impor o seu poder [...]” (YRMT, 2011).
O poder não é, o poder se exerce. E se exerce em atos, em linguagem. Não é uma essência. Ninguém pode tomar o poder e guardá-lo em uma caixa forte. Conservar o poder não é mantê-lo escondido, nem preservá-lo de elementos estranhos, é exercê-lo continuamente, é transformá-lo em atos repetidos ou simultâneos de fazer, e de fazer com que os outros façam ou pensem. Tomar-se o poder é tomar-se a ideia e o ato (KIRKWOOD, 1986).
Durante muito tempo na história, a transmissão do poder se deu através das sucessões familiares, mas com o advento da informação, do conhecimento e do sistema democrático, muito se alterou nas reações sociais, culturais e políticas. A palavra demonstra “a extensão especial da margem individual da ação associada a certas posições sociais, expressão designativa de uma oportunidade social particularmente ampla de influenciar a autorregulação e o destino de outras pessoas” (ELIAS, 1994, p. 50). Isto posto, é compreensível o posicionamento das prefeitas, quando afirmam o momento em que vivem como o mais importante, aquele que oportuniza conceber algo em favor de outras(os), o exercício de sua liderança para pôr em prática sonhos de realização no município onde nasceram e/ou que escolheram para viver e não viam acontecer em épocas passadas. Muitas remetem às obras iniciadas por genitores, pai, mãe e avô, e que ficaram inacabadas ou esquecidas em diversas sucessões posteriores, é o exercício de sua cidadania no sentido mais amplo do termo, simplesmente por que não foi mero fato a mulher ser sujeito de escolhas em matéria de administração pública. “Meu pai foi um prefeito que tinha visão à frente e isso foi importante para a estrutura que a cidade tem hoje. Por isso, busco recuperar as obras que ele construiu” (CBMS, 2011).
As desigualdades foram construídas na sociedade por se valorizar mais alguns aspectos em detrimento de outros, a exemplo, o trabalho intelectual em comparação ao braçal, o homem em relação à mulher, o rico em detrimento do pobre. Áreas voltadas para a esfera privada ou relacionadas ao papel do cuidado são tidas como de responsabilidade das mulheres, ou seja, transformam-se na divisão sexual do trabalho/tempo expressa como as diferenças sexuais são convertidas em desigualdades nos papeis de gênero. O desafio para que as relações de poder existam de forma equitativa passa pela necessidade de “empoderamento” das mulheres. E este representa um desafio para as relações de poder existentes. Em investigação dessas premissas, pretende-se discutir o poder e o “empoderamento” sob a perspectiva de suas interferências nas relações pessoais que repercutem no social e político. Não com a evidência de esgotar e averiguar de modo conclusivo a distribuição do poder, pois atravessa pelas micro relações, muitas vezes invisíveis e sem possibilidades de serem verificadas por completo nos bastidores da vida, sobretudo no âmbito público. Para ir além do descritivo e do óbvio – que seria constatar a pouca frequência que as mulheres são escolhidas nas eleições e suas possíveis causas, a intenção é compreender como lidam com o poder e se o “empoderamento” efetivamente acontece, apesar de se chegar a uma dessas instâncias de poder, nesse caso, o mais elevado cargo
público em uma municipalidade: o de prefeita. A literatura tem demonstrado diversos aspectos que explica o fenômeno da ínfima liderança feminina, mas, em geral, prevalece a perspectiva de que foram “vitimizadas” e ainda hoje são excluídas, embora essas mulheres não se definem como vítimas, mesmo quando afirmam sofrer injustiças.
Para o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Mulheres (UNIFEM, 2009), elas devem se “empoderar” para participar plenamente da vida em todos os setores e níveis sociais. Esse “empoderamento” é essencial para construir economias fortes, estabelecer sociedades mais estáveis e justas, atingir objetivos internacionalmente acordados para o desenvolvimento, a sustentabilidade e os Direitos Humanos, além de melhorar a qualidade de vida das mulheres e, consequentemente, dos homens, crianças, famílias e comunidades, além de impulsionar os negócios. As principais ações e as metas do milênio enfatizam essa conduta da sociedade internacional.
Os princípios de “empoderamento” das mulheres (UNIFEM, 2009) fornecem elementos-chave para a promoção da igualdade de gênero na sociedade como um todo. Embasados no objetivo de estabelecer liderança corporativa para a igualdade, tratar a todos de maneira justa no trabalho, além de respeitar e apoiar os Direitos Humanos e a não discriminação; assegurar saúde, segurança e bem-estar sem distinção; promover a educação e o treinamento profissional para as mulheres; possibilitar o desenvolvimento empresarial, as práticas de cadeia de suprimento e o
marketing; promover a igualdade, através de iniciativas comunitárias e de defesa, além de medir
e relatar publicamente o progresso no alcance da igualdade de gênero. Esses princípios são norteadores da iniciativa conjunta do UNIFEM e do Pacto Global das Nações Unidas.
Ademais, dentre os oito objetivos do milênio, com data limite de alcance para o ano 2015, extraídos da Declaração do Milênio que foi adotada por cento e oitenta e nove governos no ano de 2000, o terceiro deles visa promover a igualdade de gênero e empoderar as mulheres. A preocupação existe acompanhada de reconhecimento de que o alcance da equidade de gênero é crítico para o alcance dos demais objetivos.
Pelo fato do sistema mundial de relações sociais ser fundado no exercício do poder distribuído por grupos em diferentes condições – uns de dominação e outros representando
grupos marginalizados, que não é possível falar das mulheres como minorias80 –, os projetos de desenvolvimento das Agências Internacionais buscam mecanismos de responsabilidade coletiva que visam promover o “empoderamento”81 de grupos para “promover o desenvolvimento e as ações que fomentem os Direitos Humanos das mulheres82 como sujeitos históricos” (CAVALCANTI, 2005, p. 244).
Devido à ambiguidade do uso do conceito de “empoderamento” de mulheres, vale ressaltar que se trata de um pressuposto para mudanças que não somente desestabilizem assimetrias nas relações de gênero no cotidiano em espaços privados e públicos. Mas, que possibilitem o exercício da autonomia quanto às decisões sobre seu corpo e projetos de vida, saindo do reino da necessidade no privado e no público e se lançando na possibilidade de viver a cidadania. Trata-se de mudanças nas atitudes e nos comportamentos, quanto à potencialidade de participar, ser sujeito, circular no público e separar na “ética do cuidar” o determinismo e/ou a obrigação do afeto. Entretanto, representa um desafio nas sociedades contemporâneas que objetiva transformar as estruturas que reforçam as discriminações de gênero, desigualdade social e raça/etnia e de garantir os “meios necessários ao combate aos estereótipos de que são objeto e à conquista de um status quo social que lhes permita defender e representar ideias e comportamentos na sociedade” (CALDEIRA, 2008, p. 19).
Os projetos de desenvolvimento reclamam a participação de todos – homens e mulheres – no poder. O administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2006) afirma que “as mulheres devem expressar inequivocadamente suas ideias nas mesas de negociação para determinar seu futuro”. O “Relatório sobre o desenvolvimento mundial: igualdade de gênero e desenvolvimento 2012” aponta as vantagens da equidade de gênero, devido à importância de se ter economias inteligentes e que as aptidões e os talentos das mulheres
80 No Brasil, há uma tendência histórica de predominância feminina na população. No censo de 2000, para cada 100 mulheres, havia 96,93 homens. Nesse ano de 2010, para 100 mulheres, há 96 homens. No total, o Censo contabilizou 97.348.809 mulheres e 93.406.990 homens no país. Em 2010, a população feminina brasileira ultrapassou em 3,9 milhões a masculina. Embora nasçam mais homens do que mulheres, a porcentagem deles que morrem entre os 10 e 50 anos é maior do que a de mulheres (IBGE, 2010).
81 Em português, a palavra “empoderamento” é um neologismo oriundo da expressão inglesa empowerment, que deve ultrapassar o sentido de “dar poder” para um processo de conquista do poder.
representam uma melhoria na economia e, sobretudo, as dotações e as capacidades de decidir e a oportunidade dada às mulheres moldam as das próximas gerações (BANCO MUNDIAL, 2012).
O relatório “Progresso das Mulheres no Mundo 2008/2009”, do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), evidencia que a busca por alcançar os objetivos do milênio depende do reforço da responsabilização dos compromissos perante a sociedade e a mulher, em particular. Segundo o relatório anunciado, a percentagem delas nos cargos de representatividade política aumentou em oito por cento para a média global atual de dezoito por cento, no período de 1998 a 2008. Contudo, mesmo se esta taxa de crescimento for mantida nos países em vias de desenvolvimento, como é o caso do Brasil, não atingirá a “zona de paridade” até 2045.
Não obstante aos avanços, constam aspectos que demonstram que a paridade de gênero na representação política é um processo de longa duração. Na década de 1990, estima-se, através dos informes da Organização das Nações Unidas (ONU), que somente dez por cento de mulheres ocupavam parlamentos no mundo, reforçando a ideia de que mesmo sendo aproximadamente metade do eleitorado, a tomada de decisões na política ainda é espaço de predominância masculina. É fato que ocorreram mudanças significativas na sociedade e que existe um percurso para a igualdade e justiça social quando relativas às questões de gênero. O voto passou a ser um direito obrigatório, inclusive no Brasil. A escolaridade feminina avançou em vários países, superando a escolaridade dos homens, apesar da urgência de ações e projetos específicos para alfabetizar mulheres.
Não é comum e nem aceitável ouvir comentários do tipo “lugar de mulher é na cozinha”, embora permaneçam ideias e comportamentos que denotem relações de poderes, traços patriarcais, dominações e consentimentos cotidianos, confirmando permanências de um mundo configurado através da dominação masculina. “Excluídas do universo das coisas sérias, dos assuntos públicos, e mais especificamente dos econômicos, as mulheres ficaram muito tempo confinadas ao universo doméstico e às atividades associadas à reprodução biológica e social da descendência” (BOURDIEU, 2007, p. 116).