1 O CRUZEIRO: UM MODO AMERICANIZADO DE FAZER IMPRENSA
1.3 O poder e a informação: o Brasil que recepcionou Drew Pearson
Segunda Guerra Mundial, bomba atômica, expansão do comunismo. Esses são fatos que marcaram a década de 1940. Os meios de comunicação no Brasil já despontavam com um possível magnata das comunicações.
Companheiro fiel e, ao mesmo tempo, infiel do governo nacional, Chatô criou uma cadeia de comunicação que, sem dúvida, influenciava no poder político. As mudanças ocasionadas no país, nesse período, o fizeram mudar de lado por várias vezes, mas sempre ficando ao lado do poder. Uma nova fase começava no jornalismo nacional.
A imprensa desempenhava um papel de formador, disciplinador. Com o poder de transmitir e definir a verdade. De acordo com Charaudeau:
O poder nunca depende de um único indivíduo, mas da instância a qual se encontra o indivíduo e da qual ele tira sua força. Essa instância deve ter a capacidade de gerir e influenciar os comportamentos dos indivíduos que vivem em sociedade e, para isso, deve dotar-se de meios restritivos: regras de comportamento, normas, sanções.80
O poder do jornalista estava na palavra que poderia expor. Acompanhar fatos, explorar arquivos trazer a notícia à tona era o papel do jornalista. Contudo, como vimos, por trás do poder do jornalista, há o interesse da empresa de jornalismo. Para Barbosa: “A capacidade de tornar explícito, público, visível e oficial aquilo que poderia permanecer como experiência
78 MARTINS, Ana Luiza, DE LUCA, Tania Regina. Imprensa e cidade. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p. 73. 79 A expressão pode ser definida por que as temas, as fontes e os conteúdos sairiam de dentro da Casa Branca em
Washington.
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individual, representa considerável poder, constituindo dessa forma, o consenso explícito do próprio grupo”.81
Esses atributos definidos por Barbosa mostram a relação do jornalismo com o poder. Assim, Charaudeau afirma que “a questão da informação tomou feições particulares desde o momento em que foi levantada, não somente como objeto de diferentes teorias, mas no âmbito de uma atividade socioprofissional”.82
A questão da mídia passou do simples informar para quem e o que informar, sendo um simples produto, que tem clientes definidos e ideias a serem defendidas.
O jornalista detém o poder da palavra, do texto denso e com sentido. Em suma, podemos dizer que aos jornalistas cabe não só divulgar e informar, mas, sobretudo, tornar público e revelado. As suas relações com o poder vão, portanto, além dos limites das relações explícitas com o estado.
Assim, podemos afirmar que o poder do jornalista e de seu produto, a palavra, é considerado uma simbologia para a construção do mundo. É através da palavra que se criam princípios, mostra-se o real e evidencia-se o social, além de dar significado e conteúdo ao público.
A essa altura, os Diários Associados já faziam parte do imaginário e do cotidiano nacional. A eleição presidencial de 1945 colocou um militar no poder, o general Eurico Gaspar Dutra. Para Skidmore:
[...] período presidencial foi caracterizado por frequentes apelos por um retorno à tranquilidade. Dutra gozou de uma lua-de-mel política durante o seu primeiro ano, quando a UDN cooperou com o seu governo nas tarefas imediatas de reconstrução do após guerra83.
A eleição de 1945 mostrou mais uma vez os interesses de Chateaubriand. O pleito era acirrado, não tinha um candidato que expressava o favoritismo das urnas, Chatô, sempre tão interessado e combatente nas campanhas ficará de fora dessa vez. Um dos motivos: “como o resultado das eleições era imprevisível, ele fazia, no entanto, um jogo ambíguo: tomou cautela de não deixar sair em sua rede uma única palavra contra a candidatura de Dutra”.84
Com a campanha em aberto e o resultado totalmente indefinido, não apoiar nenhum candidato era uma maneira de Chatô preservar a posição associada, ou seja ele poderia apoiar
81 BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil – 1900 – 2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2012,
p. 152-153.
82 CHARAUDEAU, Patrick, op. cit., p. 34. 83 SKIDMORE, op. cit., p. 91.
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quem vencesse o pleito, caracterizando sua posição sempre ao lado do poder . O momento pós-guerra estava sendo favorável para as exportações no país. Tínhamos, nos Estados Unidos de Trumman, um forte parceiro comercial. A guerra em solo europeu não prejudicou o território americano. Fazendo parte das Forças Aliadas, os Estados Unidos combateram o nazismo alemão.
Enquanto, no Brasil, Vargas era deposto em 1945, Trumman assumiu a Casa Branca após a morte do então presidente Franklin Delano Roosevelt. Os momentos econômicos de Brasil e Estados Unidos eram totalmente diferentes. Os Estados Unidos acabaram o combate como a maior potência da terra. Karnal ressalta que “economicamente, os Estados Unidos detinham a maioria do capital de investimento, produção industrial e exportações do mundo, controlando até dois terços do comércio mundial”,85
No Brasil, o pós-guerra coincidiu com a queda da ditadura. As exportações aumentaram, encontrando um maior nível de consumo e qualidade.
De acordo com Prado Jr.:
A indústria brasileira não será, aliás, solicitada unicamente pelo mercado interno; alguns de seus setores mais desenvolvidos e habilitados (como em particular a de tecidos de algodão) encontrarão também alguns mercados externos, como nos países da América Latina e na África do Sul, às voltas com as mesmas dificuldades de abastecimento que nós. Os próprios Estados Unidos se tornam grandes importadores de tecidos brasileiros.86
No cenário nacional, grandes empresas norte-americanas importavam nossos produtos e exportavam os seus. Faziam movimentar a balança econômica nacional. Chatô falava que “foram a moeda e a experiência estrangeira que nos proporcionaram o gás, a eletricidade, a ferrovia, o navio a vapor e portos de mar”.87
O Cruzeiro estava financeiramente bem e os anúncios internacionais movimentavam o final da década de 1940. Para comemorar seus 17 anos, a revista estampou em fotografias grandes astros do cinema americano: “Clark Gable, Veronica Lake, Rita Hayworth, Mureen O’Hara, Rosalind Russel, Cary Grant”.88
O “americanismo” da revista a levou a ter uma identidade com o jornalismo norte- americano, haja vista que estava seguindo um layout da revista TIME, que surgira em 1936.
85 KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto,
2011, p. 226.
86 PRADO JR., Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 303. 87 CARNEIRO, op. cit., p. 94.
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Com o intuito de manter sempre a inovação, a revista lançou, em 1947, uma coluna de política internacional sobre responsabilidade do jornalista estadunidense Drew Pearson.