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O Poder da Música em Cena

No documento Santa Croce e de O Naufrágio (páginas 75-77)

3. Nietzsche e a tragédia Pré-Ática

3.2. O Poder da Música em Cena

Lívio Tragtenberg aponta que desde as tradições mais remotas a música teve um estreito vínculo com o sagrado e o mágico; ou funcionando como elemento integrante de uma ‘cosmologia’, como no caso da China Antiga, onde o simbolismo musical se encontra amalgamado a considerações morais, astrológicas, sociais, anatômicas, divinatórias (Tragtenberg 1999 p.21).

Nesse sentido Nietzsche defende que:

A tragédia interpõe, entre o valimento universal de sua música e o ouvinte dionisiacamente suscetível, um símile sublime, o mito, e desperta naquele a aparência, como se a música fosse unicamente o mais elevado meio de representação para vivificar o mundo plástico do mito (Nietzsche 2003 p.125).

Fica claro então que mesmo a música dionisíaca, com todo o tornado de sensações que carrega consigo, necessita de ouvidos disponíveis para recebê-la. Considerando a relevância que as esferas acústicas parecem ter tido no cotidiano do homem grego na educação, no teatro e na política pode-se pensar que o estímulo para o desenvolvimento de aptidões auditivas por parte dos cidadãos da Grécia Clássica tenha sido enorme.

O segundo enfoque, presente na citação anterior, relaciona-se ao poder da música em vivificar o mundo plástico do mito. Nietzsche se aproxima aqui ao sofista Górgias presente na epígrafe desse Capítulo: ‘Não é a linguagem que estabelece a existência do objeto exterior, mas o objeto exterior que se acha revelado pela linguagem’. Tanto Górgias quanto Nietzsche incumbem às esferas acústicas a revelação

de algo que excede o estritamente acústico, outorgando a música um caráter peculiarmente exegético. Porém, enquanto Górgias explicitamente atribui à esfera da palavra aliada à esfera da música a qualidade de revelar objetos, Nietzsche pareceria restringir essa capacidade, exclusivamente à esfera da música, outorgando outra dimensão à música para o povo e, consequentemente, para o Teatro Grego. Com relação às especificidades da música, Nietzsche aponta:

A melodia é portanto o que há de primeiro e mais universal, podendo por isso suportar múltiplas objetivações, em múltiplos textos. Ela é de longe o que há de mais importante e necessário na apreciação ingênua do povo. De si mesma, a melodia dá à luz a poesia e volta a fazê-lo sempre de novo (Nietzsche 2003 p.48).

Nietzsche destaca a universalidade e a acessibilidade da música, e sua capacidade em abarcar uma continuidade fluida de múltiplos textos e objetivos. Também aponta que é a melodia que propicia o surgimento da poesia e ainda que a melodia conduza a ‘apreciação ingênua do povo’. Assim parece-nos que de acordo com Nietzsche somente com a música o povo pode apreciar a poesia. Ainda sobre a relação entre o lirismo e a música, Nietzsche assegura que para ele ‘certa disposição musical de espírito vem primeira e somente depois é que se segue em mim à idéia poética’ (Nietzsche 2003 p.44). Aqui surge o vínculo entre música e palavra.

Quanto à produção sensorial provocada pela música, Nietzsche coloca que ‘a melodia incessantemente geradora lança à sua volta centelhas de imagens, as quais, em sua policromia, em sua abrupta mudança, em sua turbulenta precipitação, revelam uma força selvagemente estranha à aparência épica e ao tranqüilo fluir’ (Nietzsche 2003 p.49). A música dionisíaca acrescenta à visão ‘serenojovial’ da Grécia Clássica um turbilhão de cores, imagens e sensações, que deflagram a ‘força selvagem’ que reata o vínculo entre arte e natureza.

A respeito das diferenças entre a música apolínea e a música dionisíaca Nietzsche destaca que:

A música de Apolo era arquitetura dórica em sons, mas apenas em sons insinuados, como os que são próprios da cítara. Mantinha-se cautelosamente a distância aquele preciso elemento que, não sendo apolíneo, constitui o caráter da música dionisíaca e, portanto, da música em geral: a comovedora violência do som, a torrente unitária da melodia e o mundo absolutamente incomparável da harmonia (Nietzsche 2003 p.34).

Nietzsche compara a música de Apolo com seus sons apenas insinuados à arquitetura dórica, considerada a mais simples, simétrica e maciça das ordens gregas. A

música dionisíaca é comparada pelo mesmo como uma comovedora violência do som. Por outro lado, Nietzsche destaca a capacidade da música dionisíaca de condensação de memória do povo: ‘Os movimentos orgiásticos de um povo se eternizam em sua música’. (Nietzsche 2003 p.48).

Ao recorrer à gênese da palavra música, citada anteriormente, e sua relação com a exultação, a alegria, a memória e ao pensamento podem-se encontrar aproximações a características atribuídas à música por Nietzsche, e ao seu papel na cena teatral:

O artista plástico, e simultaneamente o épico, seu parente está mergulhado na pura contemplação das imagens. O músico dionisíaco, inteiramente isento de toda imagem, é ele próprio dor primordial desta. O gênio lírico sente brotar, da mística auto-alienação e estado de unidade, um mundo de imagens e de símiles, que tem coloração, causalidade e velocidade completamente diversas do mundo do artista plástico e do épico (Nietzsche 2003 p.45).

Nietzsche associa a característica de isenção de toda imagem ao músico dionisíaco, e ainda agrega a esse desprendimento visual do mesmo a possibilidade de criar obras muito distintas das dos artistas presos à contemplação das imagens. Por outro lado, segundo Nietzsche, a arte apolínea possui potências diversas com relação à dionisíaca, entre as quais esta a sua capacidade de arrancar-nos do vislumbre a auto- aniquilação orgiástica em direção ao indivíduo. Nietzsche atribui, nesse sentido, forças descomunais a imagem, ao conceito e ao ensinamento ético, os quais enganam o indivíduo sobre a universalidade dionisíaca, conduzindo-o ao caminho único da beleza e da moral.

Assim o apolíneo nos arranca da universalidade dionisíaca e nos encanta para os indivíduos: neles encadeia o nosso sentimento de compaixão, através deles satisfaz o nosso senso de beleza sedento de grandes e sublimes formas; faz desfilar ante nós imagens de vida e nos incita a apreender com o pensamento o cerne vital nelas contido. Com a força descomunal da imagem, do conceito, do ensinamento ético, da excitação simpática, o apolíneo arrasta o homem para fora de sua auto- aniquilação orgiástica e o engana, passando por sobre a universalidade da ocorrência dionisíaca, a fim de levá-lo à ilusão de que ele vê uma única imagem do mundo... (Nietzsche 2003 p.127).

No documento Santa Croce e de O Naufrágio (páginas 75-77)