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O PODER ORDENADO DO SUJEITO: SUBJETIVIDADE E ONTOLOGIA EM

CAPÍTULO I – DO INDIVÍDUO AO SUJEITO

2 SUBJETIVIDADE E EXTENSÃO: AS RÉDEAS DA CONTINGÊNCIA

2.1 O PODER ORDENADO DO SUJEITO: SUBJETIVIDADE E ONTOLOGIA EM

Descartes vislumbra um Mundo eivado de incertezas, de opiniões contingentes e carente de verdades imutáveis que assegurem o progresso do conhecimento. Trata-se de um Mundo de instabilidades e incapaz de fornecer um critério de verdade ao conhecimento humano:

Porém, havendo aprendido, desde a escola, que nada se poderia imaginar tão estranho e tão pouco acreditável que algum dos filósofos já não houvesse dito; (...) e como, até nas modas de nossos trajes, a mesma coisa que nos agradou há dez anos, e que talvez nos agrade ainda antes de decorridos outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula, de forma, que são bem mais o costume e o exemplo que nos convencem do que qualquer conhecimento e que, apesar disso, a pluralidade das vozes não é prova que valha algo para as verdades um pouco difíceis de descobrir, por ser bastante mais provável que um único homem as tenha encontrado do que todo um povo: eu não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às de outros, e achava-me como coagido a tentar eu próprio dirigir-me.73

A verdade, então, não pode residir nesse Mundo, devendo ser fundamentada sobre o indivíduo humano. Mas, em qual aspecto do indivíduo humano deve residir a verdade? Não será sobre os sentidos portados pelo indivíduo que repousará a verdade, pois estes podem enganar na medida em que são contigentes tal qual a realidade.74 Descartes duvida dessa existência plural e contingente para estabelecer um critério de verdade que não seja contingente e se apresente como necessário. Aplica a dúvida como método em relação a toda proposição que seja eventualmente capaz de formular sobre a realidade e conclui que não poderia duvidar da certeza do pensamento. O pensamento apresenta-se como certeza indubitável (cogito ergo sum) e, por isso, a

73 DESCARTES, René. op. cit., p.47-48.

74 “Até o momento presente, tudo o que considerei mais verdadeiro e certo, aprendi-o dos sentidos ou por intermédio dos sentidos; mas às vezes me dei conta de que esses sentidos eram falazes, e a cautela manda jamais confiar totalmente em quem já nos enganou uma vez.” (DESCARTES, René.

Meditações. Tradução de: Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p.250. (Os Pensadores)

estrutura do pensamento deve ser o parâmetro para a verdade75.

A instabilidade e a contingência do real passam a ser contornadas pela estabilidade e perenidade da estrutura do entendimento humano. Lembre-se que Ockham inova ao descrever a realidade formada por um conjunto de indivíduos e perceber a contingência e instabilidade que decorrem dessa compreensão do real.

Porém, Ockham assegura a estabilidade do real e a possibilidade do conhecimento humano a partir do poder ordenado de Deus. Descartes inova em relação a Ockham: a realidade é contingente e instável; a certeza encontra-se apenas no entendimento humano, que será sempre responsável pela concepção76 do real, assegurando a sua estabilidade. Nota-se, portanto, o viés antropocentrista do pensamento cartesiano77: não é a Deus que compete a aferição da realidade, mas ao pensamento humano. A própria existência de Deus, ao ser demonstrada por Descartes, decorre da capacidade do entendimento humano em concebê-lo:

(...) porque, ao contrário, vejo claramente que existe mais realidade na substância infinita do que na substância finita e, logo, que, de alguma forma, tenho em mim a noção do infinito anteriormente à do finito, ou seja, de Deus antes que de mim mesmo. Porque, como seria possível que eu pudesse conhecer que duvido e que desejo, ou seja, que me falta algo e que não sou totalmente perfeito, se não tivesse em mim idéia alguma de um ser mais perfeito que o meu, em comparação ao qual eu conheceria as necessidades da minha natureza? 78

No entanto, da situação de que o próprio pensamento é constituinte da realidade resulta uma aporia: o objeto constituído é o próprio sujeito constituinte79. O

75 “E, ao perceber que nada há no eu penso, logo existo, que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, concluí que poderia tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras, havendo somente alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente.” (DESCARTES, René. Discurso sobre o método. p.63.)

76 No sentido de conceber, gerar, dar origem.

77 Assim pensam Reale e Antiseri: “Portanto, o banco de provas do novo saber, filosófico e científico, é o sujeito humano, a consciência racional. (...) Estamos diante da humanização radical do conhecimento, reconduzido à sua fonte primigênia.” (REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. op. cit.

v.2, p.369.)

78 DESCARTES, René. Meditações. p.282.

79 JASPERS, Karl. op. cit., p.17.

pensamento é a causa e o fim de toda realidade. Os objetos corpóreos não possuem uma substância que não seja aquela decorrente do próprio pensar humano; nas palavras de Jaspers, os objetos corpóreos são o que são somente no pensar humano80. O pensamento, em Descartes, é reificado, torna-se parâmetro do real e, ao mesmo tempo, independente do real. Se a realidade é prescrita pelo pensamento, qual é a natureza ontológica da realidade e do próprio ser humano?

Quanto ao ser humano, Descartes responde: “Nada admito agora que não seja obrigatoriamente verdadeiro: nada sou, então, a não ser uma coisa que pensa, ou seja, um espírito, um entendimento ou uma razão (...). Então, eu sou uma coisa verdadeiramente existente, mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa.”81 O corpo para Descartes significa matéria e, como tal, apreensível pelo entendimento humano segundo as categorias gerais do espaço e tempo; vale dizer, o corpo é extensão (res extensa) e o espírito é compreensão (res cogitans)82.

A extensão – que é a propriedade da matéria corporal – significa tão-somente os atributos que permitem quantificar essa matéria. Assim, a extensão é representada

80 Ibid., p.52. Por essa razão Maritain compara a forma do conhecer do anjo descrita por Santo Tomás de Aquino com a forma de conhecer do sujeito descrita por Descartes: “4. Considerem as três grandes características do Conhecimento angelical: INTUITIVO quanto a seu modo, INATO quanto à sua origem, INDEPENDENTE DAS COISAS quanto à sua natureza. Vocês encontrarão, transpostas e não menos enraízadas e não menos manifestas, essas três mesmas características no Conhecimento humano segundo Descartes.” Tradução livre de: “4. Considérez les trois grande notes de la Connaissance angélique: INTUITIVE quant à son mode, INNÉE quant à son origine, INDÉPENDANTE DES CHOSES quant à sa nature, vous retrouvez, transpossés sans doute mais non moins foncières et non moins manifestes, ces trois mêmes notes dans la Connaissance humaine selon Descartes.” (MARITAIN, Jacques. op. cit., p.81.) Lembre-se que Descartes, para explicar como percebe a mudança dos estados físicos (sólido, líquido ou gasoso) de um pedaço de cera, atribui essa percepção ao entendimento humano: “É necessário, portanto, que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera e que é apenas o meu entendimento que o concebe; (...).”

(DESCARTES, René. Meditações. p.265.)

81 Ibid., p.261.

82 “E, apesar de, embora talvez (ou, antes, com certeza, como direi logo mais) eu possuir um corpo ao qual estou muito estreitamente ligado, pois, de um lado, tenho uma idéia clara e distinta de mim mesmo, na medida em que sou apenas uma coisa pensante e sem extensão, e que, de outro, tenho uma idéia distinta do corpo, na medida em que é algo com extensão e que não pensa, é certo que este eu, ou seja, minha alma, pela qual eu sou o que sou, é completa e indiscituvelmente distinta de meu corpo e que ela pode existir sem ele.” (Ibid., p.320.)

pelo espaço e pelo tempo e as suas propriedades não decorrem da própria matéria corporal. Ao contário, Descartes encontra as propriedades constituintes da extensão no entendimento humano. Por isso, uma vez que o entendimento é o parâmetro do real, denomina-se a matéria corporal extensão do pensamento:

Portanto, aplicando as regras da clareza e da distinção, Descartes chega à conclusão de que só se pode atribuir como essencial ao mundo material a propriedade da extensão, porque só ela é concebível de modo claro e completamente distinto das outras. O mundo espiritual é res cogitans, o mundo material é res extensa. Descartes considera secundárias todas as outras propriedades como a cor, o sabor, o peso ou o som, porque não é possível ter delas uma idéia clara e distinta. Atribuí-las ao mundo material como componentes constitutivas significaria abandonar as regras do método.83

Essas propriedades da máteria corporal possibilitam uma simplificação da realidade: compreende-se que esta pode ser quantificada e matematizada porque é entendida como algo formado por corpos dotados das mesmas propriedades e sujeitos às mesmas leis contidas no entendimento humano. Por isso, a concepção cartesiana do mundo real legitima, filosoficamente, a doutrina mecanicista.84 Compreende-se, então, que a matéria do universo comporta-se como uma máquina sujeita a leis infalíveis. O

83 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. op. cit.v.2, p.376. Veja-se que a maneira pela qual Descartes encontra as propriedades da extensão (espaço e tempo) parte de uma investigação acerca da res cogitans: “No que se refere às idéias claras e distintas que tenho das coisas corporais, existem algumas dentre elas que, parece, pude tirar da idéia que tenho de mim mesmo, como a que tenho da substância, da duração, do número e de outras coisas análogas. Porque, quando penso que a pedra é uma substância, ou uma coisa que é capaz de existir por si, e em seguida que sou uma substância, apesar de eu conceber de fato que sou uma coisa pensante e não extensa, e que a pedra, ao contrário é uma coisa extensa e não pensante, e que, portanto, entre essas duas concepções existe uma considerável diferença, elas parecem harmonizar na medida em que representam substâncias. De igual maneira, quando penso que sou agora e me lembro, além disso, de ter sido outrora e concebo diferentes pensamentos, cujo número conheço, então adquiro em mim as idéias da duração e do número que, a seguir, posso transferir a todas as outras coisas que quiser.” (Ibid., p.280-281.)

84 Sobre a doutrina do mecanicismo, explica Alquié comparando-a com a noção Antiga de cosmos: “É eliminada a representação de corpos celestes imutáveis e incorruptíveis que todas as cosmologias antigas e medievais, salvo algumas raras excepções, tinha por uma verdade primeira.

Sobretudo, a idéia de uma hierarquia das essências é substituída pela de uma matéria homogénea e a concepção de uma causalidade física, de ser individual para ser individual, pela de uma necessidade racional expressa num sistema conceptual de leis. (...) O cosmo, essa hierarquia ontológica fechada, desapareceu na altura da ‘revolução mecanicista’, em proveito de um mundo indefinidamente aberto e regido em toda a parte pelas mesmas leis.” (ALQUIÉ, Ferdinand. Galileu, Descartes e o mecanismo.

Lisboa: Gradiva, 1987. p.64-65.)

próprio corpo humano, já que participa dessa matéria extensa e homogênea que compõe o universo, é uma máquina:

Para evitarmos, então, esse equívoco, devemos considerar que a morte nunca ocorre por culpa da alma, mas apenas porque algumas das principais partes do corpo se deterioram; e julguemos que o corpo de um homem vivo difere daquele de um morto como um relógio, ou outro autômoto (ou seja, outra máquina que se mova por si mesma), quando está montado e tem em si o princípio corporal dos movimentos para os quais foi construído, com tudo o que se exige para a sua ação, distingue-se do mesmo relógio, ou de outra máquina, quando está quebrado e o princípio de seu movimento pára de atuar.85

O pensamento cartesiano, ao separar a realidade em espírito e matéria e, após, reduzir a matéria à categoria de extensão, possibilita uma enorme simplificação da realidade. Por um lado, é indubitável que a simplificação da realidade legitimada pelo mecanicismo cartesiano atende a anseios de dominação do mundo natural86, pois a compreensão das leis da matéria permite a sua manipulação.

Por outro, essa simplificação significa a possibilidade de compreender a realidade, prescindindo-se da referência à própria matéria. A realidade se explica a priori, a partir das estruturas do entendimento humano87. Aliás, o próprio entendimento humano é concebido de forma reducionista, pois os indivíduos humanos, na contingência do real, são plurais e diversos. Como, então, é possível encontrar nesses indivíduos um mecanismo de entendimento universal, vale dizer, uma

85 DESCARTES, René. As Paixões da Alma. Tradução de: Enrico Corvisieri. São Paulo:

Nova Cultural, 1999. p.108. (Os Pensadores)

86 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. op. cit. v.2, p.378. No mesmo sentido, cf.

ALQUIÉ, Ferdinand. op. cit., p.67. Nas palavras de Descartes, quanto à utilidade de conhecer as leis da física: “Pois elas me mostraram que é possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis à vida (...), e assim nos tornar como senhores e possuidores da natureza.” (DESCARTES, René.

Discurso sobre o método. p.86-87.)

87 Como bem aponta Maritain: “Nós podemos destacar também, no que concerne ao mecanicismo de Descartes, que para uma razão humana ‘angelizada’, em face da qual todos os segredos do mundo material se apresentam desvelados, uma Física que se manifesta apenas Geometria seria a única física possível.” Tradução livre de: “On peut remarquer aussi, en ce qui concerne le mécanicisme lui-même de Descartes, que pour une raison humaine angélisée, devant laquelle tous les secrets du monde matériel s’étalent à découvert, une Physique qui n’est que Géométrie était la seule physique possible.” (MARITAIN, Jacques. op. cit., p.120.)

subjetividade? De certa forma, há um teor arbitrário no pensamento cartesiano em encontrar nos indivíduos humanos um aspecto permanente e universal que se denomina subjetividade. No entanto, sob um enfoque mais profundo, há de se considerar que Descartes apenas laiciza o fundamento da ordem da realidade, pois a dissocia de Deus. O espírito laico, no sentido estrito de separação do campo da Filosofia do campo da Fé, consolida-se pela simplificação do real e por sua limitação apenas aos contornos do entendimento humano. Diferentemente de Ockham, para o pensamento cartesiano, a cognoscibilidade do real prescinde de Deus88.

2.2 A SUBJETIVIDADE E A ORGANIZAÇÃO SOCIAL NO PENSAMENTO