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5 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

5.6 O PODER PÚBLICO

Mas existe uma dificuldade muito grande no setor, que se refere à gestão das associações e cooperativas. Em geral as pessoas vêm de processos muito difíceis e a maioria delas nunca gerenciou algum empreendimento de qualquer natureza, não possuiu experiência administrativa, mas mesmo assim a organização 4 avalia como importante apoiar a atividade e pretende manter os níveis de atuais de investimento.

A organização 4 mais recentemente tem apoiado a formação de redes em regiões do País (MG, DF, SP) e realizado uma aproximação com as redes de outra organização (BA, RJ, RS, SP), para que no futuro haja um relacionamento mais direto e essas redes possam, agrupando esses materiais, fazer uma comercialização nacional diretamente à indústria de reciclagem.

Atualmente a organização 4 está apoiando as despesas pré-operacionais da Central das Cooperativas do DF, colocando uma pessoa para administrar os primeiros negócios, e numa etapa posterior pretende trazer técnicos de São Paulo para elaborar um plano de negócio da Central.

A Central das Cooperativas é uma forma conjunta de negociar os materiais por preços melhores aqui no DF e em outros estados. Muitas das cooperativas estão aprisionadas por empresas intermediárias, do setor de reciclagem, porque não conseguem formar volume de materiais para obter um bom preço.

A partir dessa Central, e com um trabalho junto a essas cooperativas, a organização 4 espera que haja um ganho maior na comercialização e no processo de agregação de valor com o beneficiamento do produto reciclado.

A organização 4, em parceria com outra organização da sociedade civil, está mantendo um centro de referência para descobrir novas formas de produção de artefatos, derivados de produtos de reciclagem, e dessa forma trazer essas novas tecnologias não só para Brasília, mas para todo o País.

Entende que, na atual conjuntura do País, com situação de desemprego, disparidade social e grandes problemas sociais, esses incentivos deveriam ser canalizados para setores mais desassistidos e mais necessitados desse tipo de ajuda por parte do Poder Público.

Manifesta, ainda, que o Poder Legislativo do DF atua como qualquer outro poder legislativo, e que a maior parte dos membros está ali representando os setores mais bem aquinhoados. Mas que, apesar de tudo, certamente existem iniciativas que tratam de melhorar as condições de vida de parcelas da população necessitada, e no seu entendimento esse setor não deveria ser penalizado com a cobrança de impostos.

Fazendo uma análise da questão do lixo do DF, revela que o projeto original da cidade não faz nenhuma menção ao tratamento do lixo, como seria coletado, tratado e depositado.

Hoje são coletadas cerca de 2 mil toneladas de lixo e a situação é caótica.

Faz um quadro da atividade de coleta, tratamento e disposição do lixo, informando que foi terceirizada, entregue a uma única empresa, que nem é do DF, e que não cumpriu mais de 90% do contrato com o Governo do Distrito Federal (GDF). Entre as ações previstas e não cumpridas está a coleta seletiva, a criação de novo aterro sanitário e a desativação do Lixão da Estrutural. Apesar de ter recebido entre 2000 e 2005 cerca de R$ 600 milhões, realiza um trabalho vergonhoso para a cidade, como no caso da exportação do lixo hospitalar. Apesar de o contrato com essa empresa encerrar-se em 14/11/2005, ele foi renovado por mais um ano, por motivo de situação emergencial.

Brasília, como capital da República, não possui uma política para gestão dos resíduos sólidos. A situação do lixo precisa de uma nova dinâmica, uma nova diretriz, considerando, inclusive, a situação dos catadores, que ajudam a amenizar os problemas causados pelo lixo.

Esse tipo de atividade deveria ser incentivado, e não penalizado com pagamento de impostos.

É uma atividade que caminha com dificuldade, são pessoas humildes que precisam de apoio e não deveriam pagar impostos que inviabilizam e desestimulam seu trabalho. Poderiam colaborar com o gerenciamento do lixo no DF, que deveria ser descentralizado, de modo a permitir a coleta e tratamento no próprio local de geração dos resíduos.

O Poder Legislativo está muito aquém do que a sociedade merece, mas é o que ela escolheu para representá-la. Entretanto, existe a possibilidade de começarmos uma nova fase, porque a sociedade está mais atenta e consciente das questões ambientais. Obtivemos várias vitórias por pressão da sociedade, como a criação de parques, impedimento da construção de empreendimentos comerciais onde a sociedade não queria, e conseguiu mudar esse estado de

coisas. Hoje existe o Fórum das ONGs73, que reúne mais de 40 entidades e que é consultado nas questões ambientais. E esse setor pode sugerir várias soluções para a questão do lixo.

A Câmara Legislativa não resolverá os problemas, o que vai resolver é a mobilização da sociedade. Cada vez mais existe um movimento de pessoas preocupadas com a questão ambiental. E isso se reflete na questão do lixo do DF, no gerenciamento do lixo do DF, como tem sido feito de 2000 para cá, com o surgimento de uma série de questionamentos, reclamações da própria sociedade, por um ou outro parlamentar, por meio dos estudantes, universidades, associações.

Essa pressão tornou possível o Tribunal de Contas do DF suspender a licitação para contratação dos serviços de gerenciamento de resíduos sólidos no DF, não por sua própria análise, mas por meio de representações do setor legislativo e da sociedade, que não está mais passiva. Ela quer participar da administração e não admite, por exemplo, que na capital da República o lixo seja jogado da forma mais atabalhoada possível ao lado da mais importante unidade de conservação da cidade, o Parque Nacional de Brasília, que abastece de água mais de 400 mil pessoas.

No futuro essa situação deve melhorar, e com certeza as mudanças se deverão ao auxílio inestimável das associações de catadores do lixo, dessas pessoas que, mesmo com toda a dificuldade de vida e riscos para saúde, ainda acreditam em melhorias para sua atividade.

Cabe à sociedade, ao Poder Público criar mecanismos para incentivar essa atividade e acabar com qualquer tipo de tributação, até que as cooperativas estejam funcionando bem e em condições de se consolidar.

No Distrito Federal existe uma sociedade consciente que pressiona o Poder Público na questão ambiental. O segmento das associações dos catadores do lixo com certeza é muito bem visto pela sociedade em geral, porque cumpre um papel muito importante na questão do lixo local. Em que pese não conseguirem resolver todo o problema, até porque não recebem incentivo para isso, conseguem resolver onde eles trabalham, amenizar e ajudar na questão do lixo no DF.

Entrevista com representante do Executivo

A Lei nº 3.517, de 27 de dezembro de 2004, que instituiu a coleta seletiva de lixo nos órgãos e entidades do Poder Público, no âmbito do Distrito Federal, no artigo 4º estabelece

73 Fórum das ONGs Ambientalistas do Distrito Federal e Entorno. Disponível em: http://www.ambiente.org.br.

Acesso em: 25 ago. 2005.

que “os materiais coletados seletivamente serão destinados a cooperativas ou associações de catadores do Distrito Federal, legalmente instituídas”.

Para atender ao anseio da sociedade, especialmente na questão social envolvendo os catadores de lixo, o Governo do Distrito Federal (GDF), por intermédio do Decreto nº 26.296, de 19 de outubro de 2005, instituiu o “Programa Lixo Limpo”.

Coordenado pela Agência de Desenvolvimento Social do DF (ADS), o “Programa Lixo Limpo” tem por finalidade o tratamento de resíduos sólidos associado à inclusão social e emancipação econômica dos catadores de materiais recicláveis do Distrito Federal, com a criação de Centros de Triagem de Resíduos Sólidos localizados em todas as Regiões Administrativas destinados ao tratamento do lixo coletado sem produção de efluentes líquidos ou gasosos74.

As metas do programa são as seguintes:

- Implantação da coleta seletiva do lixo em todo o DF, no prazo de três anos;

- Criação de Centros de Triagem no Distrito Federal, com toda a infra-estrutura para separação, seleção, prensamento e comercialização de materiais recicláveis;

- Erradicação completa dos lixões no prazo de três anos;

- Em dois anos, retirada de todas as crianças e adolescentes do trabalho nos lixões e garantia de dignidade aos catadores e a seus familiares.

Para desenvolvimento do “Programa Lixo Limpo” e dos Projetos “Limpeza a Galope”,

“Centro de Triagem” e “Coleta Seletiva”, a ADS promove a integração de diversos órgãos do governo, conta com a colaboração da sociedade e de várias instituições, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Fundação Nacional de Saúde (Funasa), universidades e outras entidades apoiadoras do movimento dos catadores no DF.

Uma das primeiras ações foi o cadastramento das pessoas e das cooperativas legalmente constituídas. O trabalho cadastrou 3.000 catadores e exigiu a colaboração do Corpo de Bombeiros para sua realização, além do serviço ao cidadão “Na Hora”, para expedição de documentos. Dos catadores cadastrados, 1.741 pessoas foram encaminhadas para serem atendidas por programas sociais do governo.

Foram atendidas sete cooperativas, que estavam com a documentação em dia e regularmente estabelecidas, e que procuraram a ADS para realização de convênio prevendo a cessão de terreno para suas atividades.

74 Decreto nº 26.296, de 19 de outubro de 2005. Disponível em: http://sileg.sga.df.gov.br/sileg/. Acesso em: 3 abr. 2006.

As demandas do segmento para a Agência são enormes. Há diversos grupos buscando apoio às suas atividades, e que precisam de orientação e assistência com urgência. A demora na implantação das estruturas para a realização das atividades das cooperativas se deve às questões ambientais e às exigências legais envolvidas, tal como a necessidade de publicação de atos no Diário Oficial do DF e em jornais de grande circulação.

Atualmente, a coordenação do “Programa Lixo Limpo” está desenvolvendo os primeiros projetos de construção das estruturas para as cooperativas darem início às suas atividades nas áreas cedidas por oito anos, renováveis por igual período.

Sobre a questão envolvendo a incidência de tributos no segmento, a coordenação do programa esclareceu que não foram desenvolvidos estudos que avaliassem a carga tributária sobre as cooperativas de catadores. Compreende como positiva a questão sobre a temática tributária envolvendo a atividade das cooperativas de catadores e gostaria de poder contar com apoio para desenvolvimento de trabalhos neste sentido, mas entende ser necessário realizar uma análise jurídica sobre a viabilidade dos incentivos.

A ADS percebe como justa a concessão de isenção de tributos aos catadores, a exemplo da isenção concedida a outros segmentos da sociedade; afinal, o “catador é um agente reciclador que traz um benefício incalculável para a sociedade”, e como tal deve ter reconhecido o valor do seu trabalho.

A coordenação do programa acredita que, com o desenvolvimento de programas de educação ambiental e com o estabelecimento de parcerias, será possível atingir as metas previstas.

O Decreto nº 26.376, de 17 de novembro de 2005, que regulamentou a Lei nº 3.517, de 27 de dezembro de 2004, que trata da coleta seletiva de lixo nos órgãos e entidades do Poder Público, no âmbito do Distrito Federal, estabelece que:

...

Art. 6º Os materiais coletados seletivamente serão destinados a cooperativas e associações de catadores de material reciclável do Distrito Federal, legalmente instituídas e selecionadas conforme critérios a serem estabelecidos pelo Comitê Gestor do Programa Lixo Limpo, com aprovação da Secretaria de Estado de Gestão Administrativa do Distrito Federal.

...

Analisando a demanda estabelecida pelo Decreto nº 26.376, de 2005, e considerando a recente criação da Central das Cooperativas do DF e a sua busca para concretizar uma parceria com o GDF, acredita-se que seria importante, para o fortalecimento do setor, que o produto da coleta seletiva do lixo nos órgãos públicos do DF, assim como nos órgãos públicos

federais, fosse destinado à Central, para que essa pudesse repartir adequadamente, entre todas as cooperativas do DF, o valor das rendas obtidas com a sua comercialização75.