1.2 A água
2.1.3 A realidade vista pela televisão
2.1.3.1 O poder de representar a realidade
Chama a atenção o “poder de realidade” que a televisão exerce sobre o público. Isso ocorre na medida em que a imagem e o áudio simultâneos tornam o aparelho de televisão um tipo de “janela” que proporciona uma aparente experiência de observação de realidades distantes.
Ter condições de propagar informação para um grande número de pessoas simultaneamente cria um sentido de realidade. Para Lima (2004, p.195-196), essa condição atribui à mídia um papel hegemônico e centralizador em nossa sociedade (denominada pelo autor como uma sociedade media-centered), onde a televisão domina como “maquinário de
construção da noção do real na sociedade. Destacam-se aqui as quatro conseqüências16 dessa hipótese, que convergem com a idéia de efeito de realidade que a televisão provoca na audiência.
Primeira conseqüência: a televisão quebra a necessidade da conexão entre presença física e experiência. Não é mais necessário ‘estar presente’ para experimentar, ‘presenciar’. Isso, naturalmente, dá à televisão um incomensurável poder de construir o real, na medida mesma em que, no mundo contemporâneo, não é possível estar fisicamente presente à maioria dos acontecimentos que dizem respeito a nossa vida e às decisões que tomamos em nosso cotidiano. Segunda conseqüência: a televisão nos tornou insensíveis ao texto escrito e/ou falado, isto é, está transformando o Homo
sapiens em Homo ocular. Nós vemos televisão em vez de ouvi-la; respondemos a ela
emocionalmente, e não racionalmente. A televisão nos faz desenvolver um senso de intimidade com pessoas e fatos distantes. É o que se denomina ‘intimidade distante’ e que nos leva a responder a eventos e pessoas em termos de sua aparência, de seus gestos e da emoção. Terceira conseqüência: a televisão tornou cada vez mais difícil a distinção entre o que percebemos como ficção e como realidade. O assassinato ‘real’ da atriz Daniela Perez é um caso paradigmático (cf. GUILHERMOPRIETO, 1993). Mesmo os telejornais são ficções construídas, com imagens que ‘acontecem’ somente na televisão. O replay de um gol numa partida de futebol mostra um lance que não foi visto por ninguém no estádio. Nem por jogadores nem por juízes. É um gol exclusivo da televisão. Quarta conseqüência: a televisão é o espaço, por excelência, de construção da cultura mítica no mundo contemporâneo. Baczko, como vimos, afirma que a mídia fabrica e emite os imaginários sociais. Da mesma forma que nas sociedades ditas primitivas o papel de manutenção e reprodução dos mitos era dos sacerdotes, feiticeiros, mágicos, hoje esse lugar privilegiado é ocupado pela televisão e, nela, sobretudo pela narrativa melodramática (LIMA, p. 195-196, 2004).
Dentro da perspectiva do autor citado, a construção de uma imagem da realidade pelos veículos é sinônimo de poder simbólico que atrai os interesses das elites políticas e econômicas, pela possibilidade de construção do ‘real’ a partir de conceitos e objetivos interessados.
Herman e Chomsky (2003) revelam que nos Estados Unidos a mídia está segmentada em duas partes. Uma parte superior que detém prestígio, recursos e alcance. Esse segmento acaba por definir, juntamente com o governo e agências de notícias, a agenda de notícias. A maior parte das notícias nacionais e internacionais chegam aos segmentos inferiores da mídia, agendada pelo segmento superior. Ainda segundo esses autores, o segmento superior se caracteriza pela crescente centralização da propriedade. Grandes corporações e algumas famílias são as controladoras dos veículos (HERMAN; CHOMSKY, 2003, p.65).
Esse modelo de concentração de capital e propriedade nos veículos de mídia tende a se reproduzir nos países capitalistas, criando um ambiente propício para a expansão das corporações
16 Estas conseqüências foram identificadas por Lima a partir de pesquisas, sendo as três primeiras, de Meyrowitz (1985, 1987) e a última de Silverstone (1988).
e seus valores pelo mundo. No Brasil não é diferente, onde o segmento superior dos veículos de mídia é controlado por algumas famílias, notadamente os Marinhos, controladores do Grupo Globo.
2.1.3.2 ‘Realidade’ para ser consumida
As mensagens que a mídia de massa transmite ilustram fatos, suas causas e seus efeitos, elaborando uma imagem da realidade. Para o público, esta imagem pode ser entendida como um “espelho da realidade” – onde se incluem o telejornalismo e seu suposto discurso objetivo, outros gêneros de comunicação como as novelas, e também a publicidade – ou, em outras palavras, é como se a tela da televisão trouxesse a realidade sob o ponto de vista de um espelho da vida real, em uma linguagem dramática, de fácil consumo.
Essa tendência é reforçada se for analisada sob a perspectiva da audiência mais propensa ao consumismo. Para esses indivíduos, segundo Lasch (1987), esse espelho da vida real é, na verdade, uma projeção da sociedade industrial de consumo, onde a aparência e suas impressões superficiais são o centro de referência que convida os indivíduos a desempenharem uma identidade moldada pelos olhos dos outros. Nas palavras deste autor
A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito especular faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos (LASCH, 1987, p.22).
Lasch dá um sentido para a sociedade de consumo que sugere uma valorização do material e da aparência, que se traduz em imagens de uma realidade na qual o consumo de coisas se torna o centro de todas as expectativas humanas. Essa idéia é cultivada pela mídia de massa através da propaganda contínua, do espaço publicitário, nos diversos gêneros de comunicação, nos quais a ideologia consumista está presente em mensagens aparentemente inofensivas, mas que afirmam o consumo como uma condição de integração e de posição na escala social.