Capítulo I: A questão indígena: abordagens teóricas e problemas práticos
I. 2 “(…) e que com medo venha tomar a fee.”
I.3. Jesuítas versus Câmara e moradores
I.3.1. O poder temporal sobre os índios: a origem das discórdias
A instituição do Regime das Missões, capitaneada pelas atividades de Nóbrega e Anchieta, foi o primeiro modelo de criação e administração dos aldeamentos, durante o governo de Mem de Sá. Como vimos anteriormente, a administração dos aldeamentos foi dada aos jesuítas pela Lei de Liberdade, de 1609. A partir da Lei de 1611, quando foi retirada dos padres a exclusividade nos descimentos e no gerenciamento dos aldeamentos, a situação se alterou no planalto Paulista.
Apesar de a Lei ser expressamente obrigatória a todos os aldeamentos criados e ‘nos mais que de novo se fizerem’, isto não ocorreu na totalidade dos aldeamentos dos campos de Piratininga. As que se tornaram aldeias de El Rei (aldeias do padroado real) seguiram as disposições e passaram a ter capitães de aldeia nomeados pela Câmara ou pelo governador geral. Porém, outras continuaram administradas somente por jesuítas – justamente as originadas por doações de particulares: Embu, Carapicuíba, Itapecerica, Itaquaquecetuba e São José. As aldeias reais de Pinheiros, São Miguel, Guarulhos e Barueri foram aquelas em que jesuítas e moradores mais se confrontaram.
Apesar da referida lei, na prática, a gestão dos aldeamentos revelou-se mais complexa. A análise das fontes revela que a disputa entre inacianos e colonos fez variar bastante o predomínio de um e outro à frente dos aldeamentos. Mesmo quando administrados por capitão, os índios continuavam, muitas vezes, obedecendo somente aos padres, o que deu origem a inúmeros problemas no cotidiano. O poder espiritual dos inacianos desdobrava-se, na prática, em poder temporal. A razão encontra-se na descontinuidade da administração do capitão de aldeia (temporária e muitas vezes rejeitada pelos índios) e, inversamente, na presença contínua dos padres nos aldeamentos. Devemos, também, levar em conta que os padres dispensavam um melhor tratamento aos índios; segundo a doutrina, a brandura era sempre recomendada, não obstante o rigor da obediência.
O rigor, a violência e o ‘aperto’ com que os índios eram tratados por seus capitães de aldeia são marcantes na documentação, ainda que em certos casos se destaquem conselhos como o do capitão mor Álvaro Luis que, em carta de 1626, recomendava ao capitão Francisco Ruiz Velho que “os trate bem e faça todo o agasalho e mimos que puder, [que] eu hei de ir ver e abraçar a todos com
muito gosto”.132 Porém, prevaleciam as recomendações como as do mandado, passado pela Câmara
aos capitães das aldeias reais, em 27/12/1682, que diziam que para reparar os ‘descaminhos’ dos índios era preciso castigar e reprimir “com toda demonstração necessária, sem que para o dito castigo
lhe seja necessário darem conta nesta Câmara, antes o farão como independente dela” e somente os casos mais graves deviam ser notificados, “para que depois de castigados, conforme a culpa, se lhe mandar fazer novo castigo para exemplo e emenda dos mais e remediar os mais que dahi pode resultar.”133
O conflito de interesses entre moradores e jesuítas deve ser entendido à luz das divergências no modo de utilização do indígena, pois sua transformação em força produtiva era ponto pacífico para ambos. A raiz das divergências entre religiosos e colonos era a disputa pelo controle da mão-de- obra, o que resultava numa diferença de opinião sobre o papel funcional dos aldeamentos. No entanto, a essência dos projetos para os índios coincidiam.
A transformação do índio pagão em cristão tutelado era o objetivo principal dos jesuítas. Para isso, como vimos, era necessária a presença constante dos índios junto aos padres nos aldeamentos, onde as obrigações do trabalho se uniam às obrigações do espírito. O tempo precisamente regulado pelas tarefas do dia-a-dia introjetava a disciplina essencial ao corpo e ao espírito. Assim, para os padres, era fundamental a presença dos índios nos aldeamentos, na maior parte do tempo.
Sobre esse ponto divergiam os moradores, pois demandando trabalhadores para as suas roças, não aceitavam o tipo de contrato de serviço imposto pelos jesuítas. Na virada do século XVI, findava o período em que padres e colonos conciliavam suas ações para desenvolver o povoamento. Iniciavam-se as sucessivas queixas, registradas na Câmara, de que não se achavam ‘índios para o serviço de sua majestade’. Os moradores passavam a exigir dos oficiais do concelho que pusessem término à influência dos padres nos aldeamentos. Em 1612, uma ata da Câmara registrou os ‘abusos’ de que se acusavam os jesuítas, “que sendo as aldeias desta Capitania sempre suspeitas aos capitães e justiças desta vila, agora se introduzia pelo gentio um rumor dizendo que não conheciam senão os padres por seus superiores, e os ditos padres dizendo publicamente que as ditas aldeias eram suas, e
que eram senhores no temporal e espiritual.”134
Vinte anos mais tarde, num ato enérgico contra os padres, os moradores (entre eles os ‘principais da terra’, Raposo Tavares, Pedro Leme e Paulo Amaral) invadiram o aldeamento de Barueri, munidos de um auto para expulsão dos padres e o restabelecimento de sua administração para a Câmara; porém, apenas o segundo intento foi alcançado. As reclamações do Provincial da Companhia ao governador geral na Bahia rendeu aos envolvidos graves punições, como o
132 Registro Geral da Câmara de São Paulo, vol.III, p.238 133 Registro Geral da Câmara de São Paulo, vol.III, p.325-327.
afastamento dos oficiais da Câmara e a suspensão de Raposo Tavares de seu cargo de ouvidor da Capitania. Segundo o desembargador da Relação José da Silva Mascarenhas, os autos apresentados pelos moradores eram judicialmente nulos e, antes, eram ‘provas do excesso temerário e extorsão com que haviam procedido contra os padres (…), quebrando-lhes as portas de seu recolhimento, profanando a igreja e as cousas sagradas’, o que acrescia as ‘veementes suspeitas de que o intuito principal dos ditos oficiais e mais povo daquela Capitania é cativar os índios por serem a isto acostumados.’ A provisão vinda da Bahia ainda confirmava a posse dos jesuítas na administração do
aldeamento e recomendava que ‘de presente nem de futuro sejam perturbados.135
Os acontecimentos subseqüentes evidenciaram a ineficácia da provisão apresentada, sendo apenas o prenúncio do agravamento das relações entre jesuítas, Câmara e moradores. Ainda sobre esse acontecimento, John Monteiro informa que os colonos envolvidos eram prósperos proprietários dos bairros ocidentais de São Paulo, que rivalizavam com os padres, pois estes vinham acumulando um patrimônio e uma força de trabalho bastante significativos em função do controle do aldeamento
de Barueri.136 A indefinição da condição jurídica do aldeamento tornava o problema ainda mais
complexo. Situado bem mais próximo de Santana de Parnaíba (elevada a vila por volta de 1623) do que da vila de São Paulo, apesar de estar dentro de seu termo, a administração do aldeamento de Barueri foi causa de litígio entre os dois concelhos e os inacianos, que requeriam sua posse.
Em vereação de 04/03/1635 os oficiais e ‘homens bons do povo’ reclamavam que o prelado, Lourenço de Mendonça, se intrometia na jurisdição real sobre a venda e compra de ‘peças do gentio’,
o que ia contra os ‘capítulos da correção que tal jurisdição pertencia meramente a sua majestade.’137
Três anos depois os jesuítas insistiam nas intromissões, publicando, na matriz da vila, uma
comunicação para que os moradores pusessem, nas aldeias, as peças que trouxessem do sertão.138
Passados alguns meses, em 30/11/1638, a Câmara acusava o padre vigário, Manuel Nunes, de usurpar a jurisdição real, ‘querendo visitar sobre vindas de índios forros entrados do sertão’. Os
134 Atas da Câmara de São Paulo, vol. I, p.
135 Registro Geral da Câmara de São Paulo, vol.I, p.485-489. Essa provisão foi expedida na Bahia em
14/12/1633 e recebeu o ‘cumpra-se’ na vila de São Paulo, em 07/06/1634. Raposo Tavares entrou com pedido de embargo da sentença e obteve sucesso. O mandado do ouvidor geral da Repartição do Sul, Francisco da Costa de Barros, deu-lhe permissão para exercer o cargo de ouvidor da Capitania em 30/06/1635. Ibidem, p.507-509.
136 John Manuel Monteiro, Negros da Terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo, Ed. Cia. das Letras,
São Paulo, 1994, p.142.
137 Atas da Câmara de São Paulo, vol.IV, p.244-245.
138 Atas da Câmara de São Paulo, vol.IV, p.376-377. Meses depois, em 11/09/1638, o procurador dos
índios, Fernão Dias, e o capitão da aldeia de Barueri, João Fernandez de Saavedra, comunicaram à Câmara que os índios do aldeamento se ‘despejavam’ em casa de João Misel. Interessante e incomum nessa ata foi
oficiais exigiram do padre que mostrasse a provisão que lhe dava tal poder. Manuel Nunes ‘batendo com o pé no chão diante dos oficiais da Câmara e povo junto, falou em altas vozes que não queria
mostrar suas provisões.’139
A revolta dos moradores contra os padres explica-se em razão da expressiva maioria dos descimentos terem sido realizados por seus ‘custos e fazendas’ e, por isso, não aceitavam a interferência na distribuição dos serviços dos índios. Os aldeamentos não supriam a demanda de mão-de-obra, desde o final da década de 1620, então, os paulistas se lançavam às expedições sertanistas, assaltando as reduções jesuíticas localizadas ao sul e sudoeste de São Paulo. E como bem observou John Monteiro, se a lógica escravista dos moradores os levavam a destruir missões tão
longínquas, não teriam maiores escrúpulos para invadir as aldeias e expulsar os jesuítas vizinhos.140
Em reação aos assaltos das missões, primeiramente as do Guairá, entre 1628 e 1631, e, depois, Tape, Patos e Uruguai ainda nessa década, os jesuítas espanhóis resolveram apelar para a ajuda de Madrid e Roma. Os irmãos Maceta, Mansilla e Díaz Taño se empenharam numa verdadeira cruzada contra os paulistas, detratando-lhes a imagem tanto quanto possível – nascia aqui a ‘leyenda negra’. Os jesuítas conseguiram do papa Urbano VIII a publicação, no Brasil (1639), de uma antiga bula de Paulo III, escrita em 1537, que afirmava a liberdade dos índios e excomungava aqueles que os cativassem e vendessem. A publicação do Breve na Colônia gerou fortes protestos. No Rio de Janeiro o convento jesuíta foi violado pelo povo, porém a fúria e a represália dos paulistas foram mais intensas.
Com a tensão em alta, as notícias vindas de São Vicente precipitaram a radicalização do conflito. Em 02/07/1640 chegou à Câmara a notificação dos tumultos ocorridos no Rio de Janeiro, Santos e São Vicente após a leitura da bula. Em Santos os padres tiveram que se refugiar dentro do convento enquanto a multidão gritava: ‘fora com os padres da Companhia; mata os padres da Companhia, que são a causa de tudo isso’. Na vila de São Paulo a Câmara e povo decidiram pela expulsão dos padres que deveriam deixar o Colégio e fazendas no prazo de seis dias, e que tudo se daria em segurança e sem maiores tumultos se os padres ‘não encorrer em sensuras ou excomunhão alguma e que sucedendo alguma desordem será a culpa imputada a vossas reverências por sua
costumácia.”141
a particularização dos índios, ‘três casais, a saber: Manuel Samiro e sua mulher e um filho casado, e Antonio Meriquiozo com sua mulher e filhos’. Ibidem, p.402-403
139 Atas da Câmara de São Paulo, vol.IV, p.408-410. 140 John Monteiro, Op.Ci., p.142.
As vereações nesse mês de julho foram quase diárias. Acabado o prazo dos seis dias, novo requerimento foi feito para que os oficiais dessem a execução à ‘botada dos padres fora’ e que isso ocorreria nas demais vilas da Capitania. A Câmara e o povo diziam aos padres que “ (…) não os lançavam fora por persuasão do demônio, ou ódio, ou malquerença nem vingança, mais somente por defenderem suas fazendas, honras e vidas de suas mulheres e filhos, (…) a qual fazenda, vida e honra
doutra maneira não podiam defender.”142 Para a ‘paz e quietação’ do povo, todas as vilas da região
promoveriam a expulsão, ficando isso acordado na Câmara de São Paulo entre os oficiais das vilas
de Mogimirim, Santana da Cruz, Santana de Parnaíba e Santos em 13/07/1640.143
Para piorar ainda mais a situação, os moradores de São Paulo se queixavam na Câmara de que os jesuítas se negavam a celebrar missas, fechando as portas da igreja e incitando todos os demais religiosos a excomungar os moradores. Requeriam que os oficiais não transferissem verbas à
igreja, visto não haver as missas, e pediam a provisão de outros padres.144
Os bens dos irmãos da Companhia (fazendas, currais, vinhas, moinhos e Colégio) foram listados e passados para a administração da Câmara, assim como todos os índios aldeados. Diante da situação o padre reitor, Nicolau Botelho, apelava aos oficiais para que ‘não façam agravos aos
escravos e índios forros do serviço deste colégio’.145 Dias depois o procurador do concelho requeria aos
oficiais que fossem tomar posse da aldeia de Barueri e que escolhessem um clérigo para capelão dos
índios ‘para que aquelas almas não pereçam de sacramentos’.146
Durante toda a década de 1640 o aldeamento de Barueri seguiu sendo objeto de disputa, agora entre as Câmaras de São Paulo e a de Santana de Parnaíba. Para resolver a contenda foi necessária a presença do ouvidor geral da Capitania José Simões. A reclamação dos moradores da vila de São Paulo era que havia pouco mais de quinze anos o povoado de Parnaíba tinha sido elevado à vila, e que, sendo mais próximo do aldeamento de Barueri, acabara usurpando sua jurisdição. Isso ia contra as leis de sua majestade, pois, além de se ter estabelecido uma distância mínima entre as vilas (que Santana de Parnaíba não respeitava), a posse do aldeamento pertencia à vila de São Paulo (segundo os moradores) desde tempos imemoriais. O ouvidor exigiu a verificação dos termos de
142 Atas da Câmara de São Paulo, (10/07/1640),vol.V, p.32-33. 143 Atas da Câmara de São Paulo, (13/07/1640), vol.V, p. 36-38. 144 Atas da Câmara de São Paulo, (21/07/1640), vol.V, p.40-42. 145 Atas da Câmara de São Paulo, (12/07/1640), vol.V, p.42-43.
146 Atas da Câmara de São Paulo, (14/07/1640), vol.V, p.38-40. No mesmo dia o reverendo padre Tomás
Coutinho aceitava a capelania de Barueri. Os documentos não informam a ordem do religioso, contudo, inferimos que fosse franciscano. Essa ordem apoiou os moradores da vila no episódio da expulsão dos jesuítas, e não foi rara a participação de padres franciscanos em expedições sertanistas.
fundação das vilas, assim como sua exata demarcação e fixação dos marcos limites. O ouvidor,
enfim, deu ganho de causa à vila de São Paulo.147
Após a expulsão dos padres, os índios de Barueri passaram a ser continuamente retirados sem autorização do capitão da aldeia. Vários protestos em Câmara foram registrados, até mesmo contra as irregularidades de seu capitão. Em 04/05/1641 os oficiais requereram que o capitão João Misel fosse retirado da aldeia visto ‘repartir os índios e índias e seu filhos e filhas por pessoas particulares, e que não são moradores desta vila, antes andam forasteiros.’ Fica clara a preocupação da Câmara em não deixar sair a mão-de-obra dos termos da vila. O capitão João Misel foi repudiado também pelos índios, quando alguns aldeados protestaram na Câmara “(…) per sua língua, (…) que não queriam consentir, nem o haviam de obedecer, porquanto antes de ser seu capitão os tratava muito mal, levava[-os] presos e a suas mulheres e filhos e seus índios os vinham desinquietar e
ameaçar com suas armas tratando-os mal (…).”148
Logo após a expulsão dos jesuítas da Capitania, a vila de Santos quis voltar atrás e restituir os padres. Isso acarretou indisposições com a vila de São Paulo, que seguiu firme na resolução, não obstante a intromissão do governador Salvador Correia de Sá em favor dos jesuítas e de uma
frustrada tentativa de acordo em maio de 1641.149 Diante das pressões os paulistas resolveram enviar
a Portugal um procurador para explicar ao Rei D.João IV, recém-coroado, os motivos pelos quais haviam expulsado os padres da Companhia. Além disso, seria comunicado o profundo descontentamento dos colonos com Salvador Correia, particularmente em função de ‘sua amizade muito especial com os reverendos padres’. No memorial dos paulistas à Coroa era dito que os jesuítas buscavam ‘tirar, privar e esbulhar aos ditos moradores da posse imemorial, e antiquíssima,
em que estão desde a função deste Estado até o presente.’150
147 Atas da Câmara de São Paulo, vol.V [atas de várias vereações de agosto de 1640, p.48-56] A contenda
não estava encerrada. A partir de 1665 as duas vilas começaram nova disputa para o ajuste da cobrança do pedido real. O valor do imposto pago por São Paulo era muito superior, e muitos moradores que estavam dentro do termo dessa vila estavam pagando o donativo à vila de Parnaíba.
148 Atas da Câmara de São Paulo, vol.V, (04/05/1641), p.86.
149 Ao saberem da hesitação dos moradores de Santos, um grupo de paulistas armados desceu a serra para
pressionar os padres, que deixaram a vila em 03/08/1640. Por intermédio de Salvador Correia de Sá, os moradores do Rio de Janeiros e, posteriormente, os de São Vicente entraram em acordo com os jesuítas. Contudo, nada demovia os paulistas, que chegaram a impedir a ida do governador à vila, bloqueando o caminho ‘serra acima’.
150 Citado em John Monteiro, Op.Cit., p.145. O memorial dos paulistas foi entregue ao Rei, em 1642 por
ninguém menos que Amador Bueno, o aclamado. Trataremos, no capítulo seguinte, da relação entre a expulsão dos jesuítas, a aclamação de Amador Bueno, a Restauração e a oposição dos paulistas ao governador Salvador Correia de Sá.
Antes de apresentarmos os episódios finais dessa história, passemos à analise dos fatos narrados à luz do que já foi exposto acerca do projeto e pensamento político dos jesuítas e da legislação indigenista.
Os parcos frutos colhidos pelos jesuítas nos anos iniciais da empresa evangelizadora mostraram a urgência de integrar o índio à civilização como condição primeira e essencial para transformá-lo em cristão. A necessidade de ‘polícia’, a obediência às leis civis, levaram os inacianos a interferir em assuntos do poder temporal. Vimos que, no projeto das aldeias, Nóbrega prescrevia a ação combinada do poder secular, as tropas coloniais, como meio de atemorizar os índios e compeli- los a se juntar aos aldeamentos. E, no aldeamento, o ‘medo’ que os índios sentiam conferiria autoridade aos padres, que somariam, assim, poder espiritual e temporal.
Foi justamente essa autoridade concentrada na figura do religioso o motivo do antagonismo na relação entre jesuítas e colonos. O choque de poderes e de interesses mostrou-se inevitável, e a instável política lusitana de instituir ora leigos ora clérigos à frente da administração das aldeias contribuiu com o agravamento da crise.
Às vésperas da expulsão dos jesuítas da vila de São Paulo prevalecia a jurisdição da Câmara na administração temporal dos aldeamentos. As aldeias reais contavam com capitães leigos, que, no entanto, tinham o poder diminuído diante da forte presença dos padres – como vimos, Barueri foi o caso mais representativo. Porém, a Câmara Municipal agiu habilmente para proteger os interesses dos moradores, sobretudo os de uma pequena elite em processo de formação, da qual os próprios oficiais da Câmara faziam parte. Justamente por saber usar os mecanismos legais e jurídicos na estrutura do Império, os colonos fizeram valer seus interesses, via Câmara, em detrimento dos projetos e interesses dos jesuítas. Janice Theodoro e Rafael Ruiz, analisando a afirmação da elite de São Paulo, observam que ‘a Câmara soube entender não apenas o espírito legislativo da Coroa, mas
todo o quadro jurídico onde esta se apoiava’151 Vejamos como isso se deu.
De acordo com a legislação indigenista, mesmo nos dispositivos mais abertamente pró- colonos, a escravização dos índios era restrita aos casos de guerra justa, sempre previamente autorizada por uma autoridade competente. A Câmara da vila de São Paulo, exercendo seu papel de executora das leis do reino na esfera local, expedia bandos, quartéis e provisões proibindo as ‘entradas no sertão para buscar gentio’. As penas eram estipuladas segundo os capítulos das correições impostas pelo ouvidor geral, e podemos afirmar que a emissão desses bandos e quartéis
foi, sem dúvida, uma das mais freqüentes ações da Câmara de São Paulo durante todo o século XVII. A flagrante desobediência dos moradores, denunciada repetidas vezes pelos jesuítas, não resultava em punição. No entanto, a política concelhia inverteu os termos do problema. A Câmara Municipal deslocou o problema da infração às leis, cometida pelos moradores, para a transgressão e o abuso de jurisdição dos padres na administração dos aldeamentos.
Com o deslocamento da questão os jesuítas passaram de acusadores a réus sem que para isso a Câmara tivesse de extrapolar os dispositivos legais que, por obrigação, deveria respeitar: o foco do problema deixava de ser o paulista (promotor de guerras e escravização ilegais) para ser os padres