4. CAPÍTULO 3 – AS PARTICULARIDADES SOCIAIS DA CERÂMICA NOS ESTUDOS
4.2. O POTE ARRANHADO TEM VISIBILIDADE AQUI DENTRO?
O contraste entre o conhecimento dos habitantes locais e os saberes dos estudiosos da cultura material tornou-se evidente no rumo que tomei durante a pesquisa. Na relação das pessoas com os tipos de potes percebi que enquanto a experiência desses habitantes agrega sensações diversas, na opinião de alguns pesquisadores a construção dos sentidos restringir-se-ia aos aspectos táteis ou à visão. Estas sensações influenciam na maneira de apreender a função e de disseminar ideias sobre tais objetos.
Em minha primeira experiência parti das mesmas admissões dos pesquisadores que não buscaram profundamente o sentido dos potes na região. Admiti que os recipientes em foco pudessem ter duas utilidades: 1) a escovação teria sido inserida como motivo decorativo; e 2) as ranhuras possibilitariam o atrito das mãos na superfície dos potes quando eles tivessem que ser transportados.
Conforme exposto na primeira parte deste capítulo, os trabalhos que mais propiciam a discussão dos significados locais têm como direcionamento pensamentos que se integram aos pressupostos da arqueologia pós-processual. Observo a mesma condição no Brasil, porém em menor quantidade. Percebi também na bibliografia consultada que estudos cerâmicos voltados aos significados da tecnologia e práticas subjacentes aos objetos feitos de argila, algo ainda muito reduzido, têm sido de interesse tanto de arqueólogos quanto de antropólogos. Assim nesta atenção voltada às obras existentes no Brasil, para tentar dialogar com o conhecimento já produzido, recorri a estudos e trabalhos de divulgação envolvidos com estudos da cerâmica provenientes de diversos lugares, e tanto da literatura arqueológica, quanto de outras áreas, como da sociologia, antropologia e textos sobre a cultura regional - mais distantes do tema que estudo.
É interessante observar que a ideia da utilização do atributo escovado como elemento para decoração dos vasilhames está presente na produção de estudiosos que não lidam com a intenção da elaboração e o uso dos potes. Estas expressividades exógenas divergem-se ou distorcem os significados locais. Porém é possível aproveitar a contribuição de tais publicações para entender que as informações etnográficas têm um peso muito grande na obtenção de dados
valiosíssimos relativos à abordagem contextual, tais como sobre o esforço destinado à produção, das diferentes formas de confeccionar, comercializar e usar a cerâmica, bem como dos seus significados nestas atividades cotidianas (ORTON; TYERS; VINCE, 2010, p. 29-32).
Se eu seguisse estritamente os conhecimentos vindos de fora teria encaminhado ideias equivocadas. O motivo é a especificidade das práticas de usos daqueles utensílios, assunto ainda não discutido na arqueologia brasileira.
Para avaliar o estado da literatura especializada no tema abordo fundamentalmente os dados etnográficos relativos à cerâmica. Para tanto verifiquei com bastante afinco os esforços dos pesquisadores em estudos dos significados locais inerentes à produção e uso da cerâmica artesanal, principalmente em abordagens recentes (AMARAL, 2012; AGOSTINI, 2010; SILVA, 2002; 2008). Tal como as ideias destas autoras citadas também têm relevância perspectivas que não têm objetivos estritamente relacionados à arqueologia, mas que contribuem para considerar a atividade oleira como uma produção social (DALGLISH, 2006; LIMA, 2012; MATTOS, 2001; MENDES, 2011). Nesses textos estão presentes as questões peculiares das localidades/regiões estudadas bem como as maneiras em que foram identificados e interpretados os sentidos relacionados aos materiais cerâmicos.
Outra via brasileira na etnoarqueologia, ainda com base no seu uso como recurso para o registro da relação das pessoas com os objetos nas sociedades vivas, rumou de forma recorrente ao estudo dos grupos sociais indígenas. O direcionamento da maioria destas pesquisas é fortemente marcado pela comparação das informações orais com os dados do registro arqueológico. Seus autores seguiram inquietações clássicas da arqueologia, tais como a espacialidade subjacente à cultura material elencada, a descrição e explicação da variabilidade artefatual e a criação de modelos explicativos para entender questões do comportamento humano, mas permearam a interpretação dos sentidos simbólicos da cultura material (RODRIGUES, 2007; SILVA, 2000), entretanto com base em analogias.
As perspectivas sobre os grupos estudados no caminho percorrido pelos pesquisadores na última década do século XX e primeira década do século seguinte, conforme indica Poloni, são expressas por
... uma nítida e manifesta preocupação em tornar claro ao leitor que essas sociedades possuem suas próprias lógicas e histórias que não são em nada
inferiores às da sociedade nacional, mas, ao contrário, que por detrás dos objectos que produzem, e da sua forma de interferirem no meio circundante, há uma riqueza cultural e uma complexidade cognitiva e significativa em nada menos complexa que aquela através das quais manifesta-se nossa própria sociedade, embora seja, naturalmente, profundamente diferente do modo de vida ocidental. (2010, p. 331).
Assim, na busca por tais significados, os pesquisadores que se voltaram a estudar contextos específicos, contribuíram para solidificar novas maneiras de interpretar as ações dos indivíduos através da cultura material.
É com base nas obras voltadas ao período pré-colonial, tal como fora do país, que a utilização da etnoarqueologia é verificada em grande medida na arqueologia brasileira. E, com exceção de Daniella Magri Amaral (2012), os estudos dentro da temática da arqueologia histórica, do ponto de vista da etnoarqueologia focada na produção oleira e recorrente uso dos objetos cerâmicos, não procuraram realizar interpretações do passado recente e/ou do presente.
As ideias de alguns autores aqui presentes estão direcionadas para entender o comportamento dos indivíduos no passado mais longínquo e o fato de coletar informações nas sociedades vivas não me concede relevância de seus pensamentos enquanto elementos que desvelam as práticas cotidianas relativas à cerâmica. Isto é devido ao foco no contexto arqueológico somado à busca por lançar mão de recursos analíticos e resultados das interpretações através da analogia. Não incorporo esse tipo de analogia etnográfica como método por considerá-lo desonesto na prática de uma arqueologia focada nos aspectos ideacionais do tempo presente. Mas comparações não são arbitrárias quando o conteúdo tem relação, quando existe menção a aspectos de ambas as sociedades em estudo (GONZÁLEZ-RUIBAL, 2003, p. 13 e 14).
Esse quadro serve para mostrar que no Brasil existem poucas contribuições expressivas de estudos cerâmicos relacionados à produção artesanal e/ou com descrições surgidas da documentação etnográfica. Iniciativas de grande esforço no que concerne ao levantamento da documentação etnográfica sobre a cerâmica, como o estudo de Brancante (1981), também não apresentam rendimentos consideráveis para o assunto que aqui estou tratando. Então, além do número reduzido de pesquisas etnoarqueológicas cujo objetivo é o contexto de produção e uso da cerâmica, soma-se à raridade de discussões dos significados concretos
locais o interesse restrito de alguns pesquisadores que utilizam a etnoarqueologia como estratégia de pesquisa para interpretar o registro arqueológico.
Verifiquei também que não se discutem temas relacionados aos aportes teórico- metodológicos utilizados nestas publicações, que mostra o compartilhado desleixo apontado por Reis para a arqueologia brasileira de forma geral (2010, p. 15-17 e 35- 48). Rita Poloni (2008, p. 65-111 e 120-129; 2010, p. 332-334), ao discutir e criticar a prática da etnoarqueologia no Brasil a partir da abertura política pós Ditadura Militar, com base em algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado, revelou essa insipiente sistematização teórico-metodológica da maioria daqueles trabalhos, apesar das contribuições para discussões no âmbito da cerâmica de forma geral.
Dado o estado das intenções de pesquisa, acima ilustradas, o caminho percorrido pela etnoarqueologia no Brasil no período das décadas de 1990 e 2000 seguiu a reconstrução de trajetórias históricas e culturais dos povos indígenas (POLONI, 2008, p. 114). Esta tendência da pesquisa etnoarqueológica no país foi denominada por Politis (2002, p. 76) como “história indígena”, perceptível por exemplo em abordagens da temática Guarani (ASSIS; GALERT, 2002, p. 208-212). Assim é matéria que gerou ganhos no campo da identidade dos povos estudados, mas que não repercutiu em uma base de discernimentos teórico-metodológicos para iniciativas posteriores.
Em relação às dissertações de mestrado e teses em arqueologia e antropologia defendidas no Brasil, temos três destaques nesse período para o âmbito da produção cerâmica. Dentre elas a dissertação de Luciane Oliveira e a tese de Robson Rodrigues dão contribuição reduzida para minha pesquisa por causa de seus objetivos.
A primeira pesquisadora em seu estudo na região do Vale do Mucuri, em Minas Gerais, indica que é possível, através da cerâmica, refletir sobre a identificação étnica do grupo estudado, (OLIVEIRA, 1999, p. 68 e 69 apud POLONI, 2008, p. 71). Já Rodrigues (2007, p. 19) aponta que a produção oleira, maneiras de utilização do espaço e o sistema de assentamento quando pesquisados sob um ponto de vista etnoarqueológico servem como meio de criar modelos à interpretação arqueológica da dinâmica social dos grupos humanos no presente e no passado. É perceptível que ambos, ao mostrar seu maior apreço pelas vias pós-processualistas, enfatizam
a importância contextual da etnoarqueologia para a compreensão das relações entre a cultura material e o comportamento humano (POLONI, 2008, p. 68).
O maior dos destaques das obras elencadas por Poloni (2008) é a tese de doutorado de Fabíola Silva (2000). Esta autora apresenta uma visão abrangente dos significados da tecnologia dentro da etnoarqueologia cerâmica, ao estudar a cultura material e os aspectos simbólicos da cestaria dos Kayapó-Xikrin e da cerâmica dos Assuriní do Xingu. Sua tese é um importante documento da maneira eficaz de recorrer às informações etnográficas com objetivos de registrar a cultura material e os aspectos intangíveis relacionados, conforme presente no seguinte trecho:
Entre os Asuriní, a tecnologia cerâmica, é uma atividade que atesta e reforça o papel das mulheres enquanto organizadoras do grupo doméstico que, por sua vez, é a unidade básica de produção nesta sociedade. Assim, desde muito cedo, as jovens são motivadas para a aprendizagem desta atividade cujo processo de ensino consolida os laços entre aquelas que pertencem a um mesmo grupo doméstico. Ao mesmo tempo, ela também estabelece a relação dos humanos com os seres sobrenaturais, pois a oleira primordial é tauwuma, personagem mítica que ao retirar-se do mundo dos homens transformou-se em tauva, o ser sobrenatural que se abriga na grande panela tauva rukaia, durante a execução do ritual. Além disso, esta tecnologia também possibilita a realização estética das ceramistas e atua como um meio de expressão da sua identidade étnica. (SILVA, 2000, p. 225).
Silva analisa as maneiras de viver dos Assuriní no ambiente que escolheram ocupar através da documentação etnográfica exarada por outros pesquisadores e pela observação participante realizada por ela própria. Seu foco é na produção, uso e descarte dos objetos e simbologia que acompanha os processos tecnológicos, o destino final após desuso e o devido uso dos materiais feitos por aqueles indivíduos. Um dos ricos resultados do seu doutorado (2000, p. 15, 16, 113-116, 181-183, 185, 186, 191-196 e 225-228) é a constatação de que é possível refletir sobre os alcances da tecnologia ao avaliar discernimentos tradicionais de fabricação e utilização de materiais cerâmicos.
Sobre a cerâmica dos Assuriní, a pesquisadora (2000, p. 55) enfatiza
“... não apenas é um item fundamental na preparação dos alimentos no cotidiano como é, também, imprescindível na realização dos rituais e constitui-se num dos principais suportes da arte gráfica, expressando princípios fundamentais da visão de mundo dessa população...”
Esta percepção mostra a relevância de destacar uma categoria material para obter entendimentos das concepções do grupo social estudado.
Publicações mais recentes se voltaram à cerâmica de produção artesanal com descrições surgidas da documentação etnográfica. Dentre elas destaco o estudo de Camilla Agostini (2010), que mostra como os objetos de barro produzidos no bairro São Francisco, da cidade de São Sebastião-SP, eram inseridos no dia-a-dia em redes sociais compostas por agentes sociais diversos. Entendo que são enormes os ganhos na pesquisa quando são imbricados dados oriundos do material cerâmico com a documentação histórica, que proporciona averiguar mudanças na produção a partir da influência do contexto local.
Agostini fez esse estudo da comunidade ceramista do litoral norte paulista a partir de fontes dos séculos XIX e XX com análise das mudanças na produção. A partir desse ponto de vista a pesquisadora (2010, p. 134) pôde indicar “[...] como a interação social entre as ceramistas e outros setores da sociedade guiou as escolhas e os significados atribuídos a objetos de uso doméstico, tais como as panelas e outros utensílios de cozinha”. Assim ela fornece uma perspectiva de como analisar os sentidos da cerâmica através da produção social e me permite refletir que esse caminho conduz ao entendimento de particularidades sistêmicas.
Destaco um dos textos mais interessantes com base em etnoarqueologia no Brasil, a dissertação de mestrado em arqueologia de Daniella Amaral (2012), intitulada
Loiça de Barro do Agreste, que enfoca na produção oleira do agreste central
pernambucano ao desenvolver um estudo a partir da análise da cerâmica de produção local/regional relacionada ao acervo cerâmico de dois sítios arqueológicos históricos. A importante e profunda reflexão dela é interessante para avaliar o potencial informativo dos dados etnográficos e a carga subjetiva do pesquisador frente ao tema que estuda. Assim ela dá imensa contribuição ao enfatizar a valorização dos conhecimentos tradicionais e pensar sobre os avanços na arqueologia com a pesquisa de cunho etnográfico.
A partir do trabalho de inúmeras ceramistas observado em suas olarias e feiras livres da região, Amaral (2012, p. 28-33) desenvolve um caminho de investigação com base nas maneiras em que aquelas trabalhadoras concebem o mundo em que vivem sem perder o foco nas suas atividades oleiras. É intrínseca ao modo em que desenvolve sua interpretação (2012, p. 63-68, 70-77, 84-93) a associação com a cerâmica exumada dos sítios arqueológicos históricos Tacaimbó I e Tacaimbó II, que
quando comparada com a tecnologia contemporânea registrada na mesma região possibilitou acessar as maneiras de confeccionar as peças no passado recente.
As ações cotidianas das ceramistas tomam dimensão dentro do aprofundamento dos correlatos arqueológicos, da tecnologia cerâmica arqueológica e etnográfica, que permitiram à autora (2012, p. 102-247 e 265-291) discutir as questões relativas ao tema sem amarras rígidas, ou melhor, ao desamarrar os nós difundidos pela arqueologia que almeja ser científica como a física. Ela difunde as comparações por meio da aceitação de que existe uma continuidade histórica entre o acervo analisado dos referidos sítios arqueológicos e a cerâmica artesanal contemporânea.
Desse estudo para o que busco na etnoarqueologia cerâmica são interessantes às maneiras de tratar dos imprescindíveis significados locais apreendidos para acessar a complexidade da sociedade que produz os artefatos, mostrados por Amaral ao aproveitar os sentidos do saber-fazer cerâmica e dos recipientes que ela correlaciona com o material arqueológico proveniente da mesma região. Ao mesmo tempo em que constrói esta via também delineia um caminho de pesquisa consciente à produção de uma interpretação arqueológica imediata à descolonização, que apresenta os sujeitos praticantes de uma economia local caracterizada por sua intensa participação e não sujeição.
É importante mencionar que a discussão sobre variabilidade regional do seu estudo revela que não existem potes escovados nos contextos pesquisados do agreste pernambucano. Isto aponta para a caracterização de uma linha imaginária demarcatória sertão adentro para o uso e consequente encaminhamento da inserção de ranhuras na superfície desses vasilhames. É um aspecto que reforça a influência da oralidade na feitura de tais objetos, que revela a forte característica comunitária da tecnologia cerâmica do Cariri cearense, por ser voltada ao atendimento das demandas cotidianas das pessoas da região.
Tendo em vista estudos que repercutiram em importantes contribuições ao conhecimento dos significados locais obtidos na zona rural é possível apontar também produções no âmbito da antropologia detidas em questões intrínsecas às comunidades produtoras de cerâmica. Focadas no sentido dos materiais produzidos a partir da argila estas publicações, todas em estudos situados no estado de Minas Gerais, mostram o quão distante da visão da sociedade que as marginaliza encontra-se o jeito de viver das ceramistas, de seus familiares e demais indivíduos
do lugar em que vivem. Assim é através de maneiras de fazer e usar os objetos feitos de barro que surgem destas abordagens importantes considerações das sensações, dos sentimentos diante da cerâmica, bem como da organização e destino da produção oleira.
A mais recente destas publicações que trago aqui é proveniente do denso estudo da região do médio São Francisco, realizado por Ricardo Gomes Lima (2012), que conta com o registro de visões do modo de vida de uma comunidade do município de Cônego Marinho, presente no livro O Povo do Candeal: caminhos da louça de
barro. Lima reflete sobre os papeis das mulheres e dos homens entregues ao ofício
oleiro, onde estão reunidos os saberes, fazeres e usos relacionados aos potes, tijolos, pratos, fornos, telhas e moringas.
É muito pertinente seu ponto de vista de investigação a partir da questão de gênero, justificada pela hegemonia das mulheres entre ceramistas. É também um direcionamento plausível para conhecer melhor o grupo estudado, dada à frequência da participação feminina, além de contribuir para o reconhecimento de um papel que lhes é próprio. A ênfase em tratar do assunto por esta via, explicada pelo domínio das mulheres, conduz à observação importante das peculiaridades com que o artesanato é marginalizado intelectualmente e pela consideração de ser um labor feminino e por isso taxativamente mais depreciado pelos grupos dominantes (LIMA, 2012, p. 191-198).
É perceptível que a perspectiva focada no gênero é de interesse bastante comum dos antropólogos debruçados em estudos de comunidades ceramistas. Esse caminho também é ressaltado no estudo da produção artística de peças de cerâmica em comunidades de artesãos do Vale do Jequitinhonha, realizado por Sônia Missagia Mattos (2001), que busca compreender o sentido da arte do barro na vida das pessoas que a produzem. Através dos aportes que trabalha nas mudanças das práticas de produção e consumo, ela revela com detalhes a dinâmica das relações sociais da região.
O caminho que esta antropóloga escolheu para tornar cognoscível a arte do barro privilegia conhecer significados locais, mas, apesar da descrição de peculiaridades, pouco revela acerca da tecnologia cerâmica do Vale. É sim via que abre um campo de possibilidades por tratar, por exemplo, de concepções das relações de poder, onde estão inscritas outras relações tais como aquelas do jogo de dominação e
subordinação que tanto são apresentados quando Mattos (2001, p. 40-58 e 68-87) aborda a situação econômica que ceramistas vivenciam na região.
Esse é um exemplo de entendimento etnográfico da cultura material como meio de identificação das habilidades e crenças existentes em um lugar. É possível através de seu escrito observar engrenagens que dão razão ao saber fazer e às práticas de consumo, tal como a temperatura da água do pote arranhado que é matéria de tomada de decisões na tecnologia cerâmica do Cariri cearense.
Na mesma região Lalada Dalglish (2006) também realizou importante estudo com o foco no cotidiano da produção cerâmica como referência ao mundo social feminino. A perspectiva de seu estudo (2006), acerca das maneiras de produzir, comercializar e consumir os objetos feitos de argila teve em vista a dimensão estética, que segundo a autora sempre está presente nas decisões das artesãs.
Dalglish (2006) aponta que dada à utilidade das peças daquelas ceramistas é demasiada a preocupação com o valor estético dos objetos. Nos quatro municípios que pesquisou, é possível observar as noções do dia-a-dia verificadas em ampla abrangência, pois sua pesquisa abarca uma área próxima de 85 km², com contornos rurais de ambiência da aridez, mas que também tem estações de altos índices pluviométricos. Da mesma forma que ocorre nos estudos de Lima (2012) e Mattos (2001), a autora apresenta aspectos intrínsecos ao mundo sertanejo no lidar com a atividade oleira que contribui para reforçar o olhar sobre peculiaridades das produções materiais através das decisões culturais.
De volta com o estudo de Rodrigo Lima (2012, p. 193-198 e 203-213), além das questões de gênero o autor mostra o caminho em que ocorre a produção em vários trechos do livro ao situar a organização das atividades e descrever o processo tecnológico. Observo estas características de forma expedita para o que mais me interessaria. No entanto é a abordagem intrínseca às produções sociais que chama