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1. INTRODUÇÃO

1.1 O potencial da flora medicinal Brasileira

A utilização de plantas com fins medicinais, para tratamento, cura e prevenção de doenças é uma das mais antigas formas de prática medicinal da humanidade, sendo que a busca por alívio e cura de doenças pela ingestão de ervas e folhas talvez tenha sido uma das primeiras formas de utilização dos produtos naturais [1].

A história do desenvolvimento das civilizações Oriental e Ocidental é rica em exemplos da utilização de recursos naturais na medicina, no controle de pragas e em mecanismo de defesa, merecendo destaque a civilização Egípcia, Greco-romana e Chinesa. A medicina tradicional chinesa desenvolveu-se com tal grandiosidade e eficiência que até hoje muitas espécies e preparados vegetais medicinais são estudados na busca pelo entendimento de seu mecanismo de ação e no isolamento dos princípios ativos [1].

Aproximadamente 2/3 da diversidade biológica do mundo é encontrada em zonas tropicais, principalmente nos países em desenvolvimento [2]. O Brasil é o país de maior biodiversidade genética do mundo, contando com uma rica flora, com mais de 55 000 espécies catalogadas, aproximadamente um quarto de todas as espécies conhecidas. Destas, estima-se que 10 mil podem ser medicinais, aromáticas e úteis, despertando o interesse em comunidades científicas internacionais para o estudo, a conservação e a utilização destes recursos [3,4]. Tal biodiversidade encontra-se

distribuída em seis grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa (Figura 1).

Figura 1. Principais biomas brasileiros Fonte: IBGE (www.ibge.gov.br)

A Floresta Amazônica Brasileira cobre aproximadamente 40% de todo o território nacional, com aproximadamente 20% legalmente preservada. Estima-se que há cerca de 800 espécies de plantas com valor econômico ou social na Amazônia, sendo que destas centenas são plantas medicinais [2].

O Cerrado é o segundo maior domínio ecológico do Brasil, com uma variável densidade de espécies florestais. Os cerrados cobrem uma área de aproximadamente 25% do território brasileiro (dois milhões de Km2), cerca de 220 espécies do cerrado são relatadas para uso na medicina tradicional [2,5].

A Caatinga cobre áreas dos estados do nordeste Brasileiro e é caracterizada por uma vegetação xerófita típica e um clima semi-árido. Várias espécies

frutíferas e plantas medicinais têm seus centros de diversidade genética nesta região e o uso de medicamentos populares é comum. Várias importantes espécies aromáticas são relatadas nessa região.

A Floresta Atlântica estende-se aproximadamente por toda a costa Brasileira e é um dos maiores ecossistemas em perigo do mundo, com menos de 10%

da vegetação original permanecente. Várias importantes espécies medicinais são encontradas nesta região, tais como Mikania glomerata, Bauhinia forficata, Psychotria ipecacuanha e Ocotea odorifera [2].

A Flora do Pantanal é formada por espécies da vegetação da Amazônia e do Cerrado. Mais de 200 espécies são usadas para o consumo humano e animal, bem como para uso industrial [6].

O Pampa ocupa uma área de aproximadamente 700 mil km², compartilhada pela Argentina, Brasil e Uruguai, sendo que no território brasileiro, distribui-se pela metade sul do estado do Rio Grande do Sul. Caracteriza-se por um conjunto vegetacional campestre relativamente uniforme em relevo de planícies onde predomina a cobertura vegetal em estepe e savana estépica, e vegetações mais densas, arbustivas e arbóreas, nas encostas e ao longo dos cursos d’água. Esse bioma apresenta uma diversidade de importância global, devido à riqueza de fauna e flora.

Segundo dados de sua publicação, a biodiversidade da área aponta cerca de 3000 plantas vasculares, 400 gramíneas, 385 espécies de aves e 90 espécies de mamíferos [7].

Esse imenso patrimônio genético, já escasso nos países desenvolvidos, tem, na atualidade, valor econômico estratégico inestimável em várias atividades, mas é no campo do desenvolvimento de novos medicamentos onde reside sua maior

potencialidade. A razão dessa afirmação é facilmente comprovada quando se analisa o número de medicamentos obtidos direta ou indiretamente a partir de produtos naturais [8].

A natureza, de forma geral, tem produzido a maioria das substâncias orgânicas conhecidas. Entretanto, o Reino Vegetal tem contribuído de forma significativa para o fornecimento de substâncias úteis ao tratamento de doenças que acometem os seres humanos [9]. Muitas destas substâncias constituem-se, sobretudo, em modelos para o desenvolvimento de medicamentos sintéticos modernos, tais como a procaína, cloroquina, tropicamida, ou de fármacos imprescindíveis como, vimblastina, vincristina, podofilotoxina e análogos (Figura 2), com a participação num mercado que movimenta cerca de 50 bilhões de dólares anualmente [10].

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Figura 2. Exemplos de fármacos baseados e obtidos a partir de plantas. 1- Procaína, 2- Cloroquina, 3- Tropicamida, 4- Vincristina, 5- Vimblastina, 6- Podofilotoxina.

O Brasil, sendo um país detentor dessa biodiversidade, abrigando o maior repositório de angiospermas do planeta, tem em princípio, as condições básicas para começar a estruturar um programa nacional de bioprospecção em busca de novas substâncias químicas bioativas [9].

Brito e Brito (1993) [11] apontam diversos estudos químicos e/ou farmacológicos realizados em espécies da flora nativa, ressaltando as potencialidades da utilização de várias delas, bem como a necessidade de maiores estudos da riquíssima flora tropical brasileira.

Estima-se que 40% dos medicamentos disponíveis na terapêutica atual foram desenvolvidos de fontes naturais: 25% de plantas, 13% de microrganismos e 3%

de animais [8]. Um total de 13 produtos naturais e drogas derivadas de produtos naturais foram aprovadas para comercialização mundial de 2005 a 2007, sendo 5 destas classificadas como produtos naturais, 6 como produtos naturais semi-sintéticos e 2 como drogas derivadas de produtos naturais. Ziconotida, exenatida, retapamulina, trabectedina e ixabepilona são os primeiros membros das novas classes de drogas humanas. Para reforçar a importância de produtos naturais na descoberta de novas drogas, poderia ser notado que 6 de 27 drogas moleculares lançadas em 2005 (22%), 2 de 21 em 2006 (9%) e 5 de 21 (24%) em 2007 foram produtos naturais ou derivados de produtos naturais, e os números são maiores se considerarmos drogas inspiradas em outras moléculas de ocorrência natural tais como esteróides, nucleosídeos, prostaglandinas, hormônios e vitaminas. A utilização de produtos naturais em doenças oncológicas e infecciosas é ainda evidente, com 19 (51%) dos compostos sendo avaliados para tratamento do câncer e 10 (27%) para o tratamento de infecções bacterianas. Os compostos restantes são para tratamento de doenças metabólicas (4),

dor (2) e esclerose múltipla (2). O grande número de compostos derivados de produtos naturais em vários estágios do desenvolvimento clínico indica que o uso de produtos naturais como modelo é ainda uma viável fonte de novas drogas [12].

O grande desafio para o aproveitamento racional da biodiversidade brasileira visando à produção de medicamentos é, sem dúvida, transformar um imenso patrimônio genético natural em riquezas, criando indústrias de bases tecnológicas e gerando empregos qualificados [8]. Afinal, as plantas constituem-se num enorme laboratório de síntese orgânica, fruto de milhões de anos de adaptação e evolução sobre a terra [9].

1.2 Abordagem etnofarmacológica na busca de novos compostos bioativos

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