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2. CONTEXTUALIZANDO A PIMENTA BANIWA

2.4. O povo Baniwa

O território tradicional ocupado pelo povo Baniwa fica na bacia do rio Içana, localizada na Terra Indígena Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira-AM. Esse vasto território também é partilhado com o povo Koripako que ocupa o alto curso do rio. Por meio de processos migratórios, algumas famílias Baniwa se estabeleceram na calha do rio Negro, na área periurbana de São Gabriel da Cachoeira e nos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. De acordo com o último censo do IBGE (2010), os Baniwa somam atualmente cerca de 5.500 indivíduos e ocupam 94 aldeias ao longo da bacia do Içana e afluentes. O rio nasce na Colômbia e tem cerca de 696 quilômetros cuja maior porção se encontra no território brasileiro. O Içana também é muito conhecido por suas perigosas cachoeiras que são obstáculos naturais para a mobilidade das comunidades indígenas (MARQUI, 2017).

Figura 5: A parte azulada de tom mais forte no mapa é a bacia do rio Içana. Fonte: ISA

Figura 6: Tunuí Cachoeira, uma das maiores comunidades Baniwa do rio Içana. Foto: ©RayBaniwa Conforme Garnelo (2003), os Baniwa tradicionalmente se dividem entre cinco e seis fratrias, consideradas consanguíneas entre si. As fratrias são subdivididas em quatro a cinco sibs22, cuja hierarquia em termos de poder social obedece a ordem de nascimento mítico na cachoeira de Hipana, o local de origem de todos os seres humanos, conforme a mitologia

22Os sibs são grupos de famílias, descendentes do mesmo ancestral mítico do sexo masculino. Um conjunto de sibs forma uma fratria (GARNELO, 2003).

Baniwa. Do lado brasileiro, existem três fratrias: Dzawenai, Hohodene e Walipere dakenai. Elas são igualitárias entre si, e a hierarquia está entre e intra sibs, que se dividem em áreas específicas do território a fim de acessar recursos naturais, como locais de caça, pesca e espaços para cultivo de roças.

Os Baniwa compartilham com os outros povos da bacia do rio Negro o mesmo passado marcado pela violenta política civilizatória empreendida pelo Estado brasileiro, onde consta a escravização da mão de obra indígena e a anulação de práticas culturais consideradas não civilizadas (WRIGHT, 2005). A crescente opressão dos brancos culminou numa série de movimentos messiânicos iniciados no final do século XVIII até a década de 1930 que abrangeu regiões além do Içana. Esses levantes foram iniciados pelo chamado profeta Venâncio Kamiko e logo depois por seus dois seguidores, Alexandre e Uétsu (filho de Kamiko). Cada um deles, em tempos diferentes, pregava a não obediência aos desmandos dos brancos e seus cultos eram uma mistura sincrética com elementos cristãos e cosmológicos da cultura Aruak. Todos esses movimentos foram duramente reprimidos pelos militares, Igreja Católica e governo. Entretanto, até hoje os profetas são relembrados e seus túmulos ainda são visitados para pedir proteção (WRIGHT, 2005).

A conversão religiosa no Içana foi diferente das outras regiões do rio Negro. O Baixo rio Içana foi catequisado por padres católicos. No entanto, o Médio, o Alto e outros afluentes deste rio foram catequizados por evangélicos ligados ao Summer Institute of Linguistics23 (SIL) e à Missão Novas Tribos24 (WRIGHT, 2005; LUCIANO, 2006). No final dos anos 40, uma missionária evangélica americana chamada Sophie Miller aportava nas comunidades Koripako do Alto Içana, vindo da Colômbia, depois de ter convertido os indígenas do lado de lá. Sophie chegou pregando o fim das “bruxarias” e o total abandono das práticas culturais como festas de caxiri25 e os conhecimentos ancestrais de pajelança. Aprendeu a língua Baniwa com o único propósito de traduzir a bíblia e assim ter subsídios para formar pastores indígenas. Por conta dos históricos movimentos messiânicos, muitos Baniwa acreditavam que ela era uma espécie de profeta que anunciava o fim dos tempos e a redenção do povo Baniwa (WRIGHT, 2005).

Para Garnelo (2003), o processo de conversão religiosa trouxe consequências que ressoam até hoje no dia a dia do povo Baniwa, pois se estabeleceu um duradouro conflito entre comunidades evangélicas e católicas. Assim, sobretudo entre os evangélicos ficou muito

23 O Summer Institute of Linguistics é uma organização americana ligada às igrejas evangélicas e dedicada aos estudos de línguas de povos autóctones.

24 A Missão Novas Tribos é uma instituição americana de cunho religioso que se propõe a “evangelizar” os indígenas e outros povos no mundo considerados por ela como desprovidos de alma, por não serem cristãos.

proibitiva a reprodução das práticas xamânicas e dos “rituais pubertários masculinos” (GARNELO, 2003, p.20). Luciano (2006), acrescenta ainda que essa divisão também se reflete até hoje nos modos de articulações sócio espacial e política das comunidades Baniwa, o que culminou em como as atuais organizações de base comunitária se mobilizam. Embora um pouco menos influente, atualmente a religião ainda é uma questão importante nas decisões dos Baniwa evangélicos e católicos.

Mesmo sob influência religiosa, os Baniwa mantêm vivos diversos conhecimentos tradicionais ligados ao manejo do território, cujo ecossistema é considerado pobre na oferta de alimentos. A relação com o meio ambiente em que vivem é determinada pela sua cosmologia fundadora que tem como personagem principal o Ñapirikoli, um ser primordial responsável pela criação da vida e dos alimentos na face da terra. As narrativas mitológicas deste ser e seus feitos fantásticos retratam a importância do respeito às regras de convivência com os seres da natureza, que também são considerados humanos, porém em outros planos. É da mitologia também a regra para compartilhar alimentos, caso contrário, os efeitos danosos da sovinice recaem sobre a teia de relações sociais cujas consequências variam entre doenças, feitiços e outros tipos de mazelas (GARNELO; BARÉ, 2009). Desta forma, os Baniwa têm logrado, há centenas de anos, sobreviver da natureza ao seu redor sem destruí-la. Da floresta e dos rios retiram materiais suficientes para construir casas, ingredientes para medicina tradicional, rituais e alimentos do cotidiano. A partir do contato com não indígenas, produtos industrializados foram introduzidos no seu dia a dia, tais como pilhas, sabão, utensílios domésticos (facas, panelas, colheres), artefatos para pesca, dentre outros. Embora esses produtos tenham se tornado, de alguma forma, objetos de primeira necessidade, eles, na verdade, complementam as atividades diárias sem negar o modo de vida indígena.

Nas aldeias Baniwa, o universo das práticas culinárias é um dos menos alterados pelo contato com os não indígenas, com exceção da incorporação dos utensílios domésticos e de alguns ingredientes como o açúcar e o sal. Nas casas Baniwa a cozinha é geralmente um anexo onde todo o processo culinário acontece. No local existem apetrechos e instrumentos para o processamento da mandioca que auxiliam o trabalho das mulheres na produção de farinhas goma, beijus, massocas26, tucupis, tapiocas e outros. É nesse espaço que também são realizadas parte das refeições diárias da família, cuja escolha e o preparo do alimento deve suprir a necessidade de calorias requeridas para os tipos de trabalhos exercidos no cotidiano.

Cotidianamente, as comunidades Baniwa também costumam consumir suas refeições coletivamente, nos centros comunitários. Em casa, as mulheres preparam as refeições, separam uma parte para ser consumida de imediato pela família, e a outra parte é levada para o centro comunitário a fim de ser compartilhado com todos os membros da comunidade. Os pratos que nunca faltam nessas refeições são os mingais de frutas à base de farinha, as quinhapiras (peixes cozidos com pimentas picantes), as mujecas (sopa de peixe), os chibés de farinha e/ou de massoca (água com farinha), os beijus, os vinhos27 de frutas (açaí, umari, butiri, bacaba, entre outros) e os moqueados (defumados) de peixe ou de caça (GARNELO; BARÉ, 2009). Não participar dessas refeições coletivas, ou não levar alimentos para as ocasiões é considerado uma grande falta de etiqueta pela sociedade Baniwa e pode indicar sintomas de quebra de socialização entre as famílias. A partilha e consumo coletivo de alimentos conectam a vida doméstica à vida política de parentesco entre o grupo. Ao seguirem essas etiquetas, juntamente com outras regras relacionadas aos rituais das diversas fases da vida, os Baniwa equilibram o mundo físico em que vivem com as forças xamânicas cosmológicas dos seus ancestrais.

Figura 7: Cozinha da mulher Baniwa. Fonte: ©artebaniwa