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O prólogo da crise (de setembro de 1991 a meados de maio de 1992)

CAPÍTULO 2 NATUREZA E DINÂMICA DA CRISE DO GOVERNO COLLOR

3. A dinâmica interna da crise do governo Collor

3.1 O prólogo da crise (de setembro de 1991 a meados de maio de 1992)

O prólogo da crise do governo Collor não coincide com o momento crucial de deflagração da crise em si, mas abrange o período no qual se engendrou mais nitidamente o acúmulo de contradições que tornaram a crise política uma realidade. É possível notar que, em setembro de

1991, segundo o IPC-Fipe, a inflação atingia a escala dos 16,21%, elevando-se significativamente, no mês seguinte, para 25,17% e superando, assim, a marca registrada em janeiro do mesmo ano, quando o Plano Collor II foi implementado e a inflação alcançava os 21,02%. Com isso, o segundo plano de estabilização monetária aplicado pelo governo apresentava fortes indícios de fracasso na tentativa de conter a inflação. Somente em julho de 1994, após a implantação do Plano Real, a inflação atingiria níveis inferiores a 20%. As taxas trimestrais do PIB brasileiro, registradas em 1991, são também importante indicador das dificuldades do governo Collor de promover uma política de crescimento econômico. No primeiro trimestre de 1991, o PIB situava-se na casa dos 6,95%. No trimestre seguinte, sob o impacto do Plano Collor II, o PIB se elevaria para 7,92%, vindo a cair nos dois trimestres seguintes, alcançando 2,12%, no terceiro, e 1,04%, no quarto trimestre. Acompanhavam esse processo o arrocho salarial e as demissões em massa, o que agravava ainda mais a situação econômica do país. Além disso, como já indicamos em outro momento, foi nessa conjuntura do final de 1991 que começam a surgir várias denúncias de corrupção envolvendo membros da alta cúpula governamental e até a primeira dama, provocando a derrubada de ministros e a saída de Rosane Collor da presidência da LBA. Concomitantemente, certas organizações e grupos de esquerda começaram a sustentar ou ao menos debater a bandeira do "Fora Collor". Este foi o caso do PT, do PCdoB, da CUT e da UNE. Nessa conjuntura, forças de centro-esquerda e certas parcelas do empresariado nacional começaram a defender a antecipação do plebiscito sobre a forma de governo, previsto para ocorrer em 1993, e a indicar o parlamentarismo como remédio para a ingovernabilidade gerada pela equipe de Collor.253 Diante desse cenário, o governo procurou tomar três iniciativas importantes visando se recompor politicamente. Em meados do segundo semestre de 1991, tentou implementar o Emendão, a fim de aprofundar as reformas neoliberais no país, mas sofreu resistências no Congresso Nacional, saindo derrotado. Em janeiro de 1992, com vistas a se garantir politicamente perante os credores internacionais, o governo selou acordo de pagamento da dívida externa com o FMI e o Clube de Paris. Esta se constituiu como mais uma tentativa do governo de atender as demandas da burguesia financeira internacional e aprofundar o quadro de agravamento econômico pelo qual o Brasil já passava. No mês seguinte, Collor promoveu uma reforma ministerial, ampliando a representatividade partidária de 28% para 47% no Congresso Nacional. No final de março, empregou a tática de aproximação com o PSDB, visando incorporar quadros desse partido no alto escalão

governamental. No entanto, como sustenta Rodrigues:

Antes que o partido se decidisse, um dos membros do diretório nacional, o cientista político Hélio Jaguaribe, já aceitara o posto de secretário de Ciência e Tecnologia. Na reunião da Executiva Nacional do PSDB, no dia 2 [de abril], o assunto ―adesão‖ era o único ponto de pauta. De um lado, o grupo liderado por Fernando Henrique Cardoso, a quem o presidente acenara com a chancelaria, de outro o grupo ligado a Mário Covas, contrário à adesão. Foram exatos oito votos a oito, cabendo o voto de Minerva ao presidente, Tasso Jereissati, que decidiu que o partido deveria permanecer fora do governo.254

Essas tentativas do governo de ampliar o leque de alianças no Congresso Nacional mostraram-se frustradas, na medida em que não foram criados mecanismos que oferecessem contrapartidas efetivas para os grupos e forças políticas que vinham resistindo, ainda que pontualmente, a determinados aspectos da política neoliberal implementada nessa conjuntura. Tratava-se de forjar uma aliança meramente formal, com a entrega de alguns postos no governo e o atendimento de interesses paroquiais, mas que não se traduziam em mudanças nos rumos da política econômica e social  o que levava o governo a assumir cada vez mais a ―fisionomia do PFL‖.255

Numa situação de recessão econômica, de crescentes denúncias de corrupção no governo e de aprofundamento da política neoliberal, a instabilidade política tendia a atingir aspectos críticos, a ponto de uma pequena faísca provocar incêndio em toda a floresta. Foi justamente isso que ocorreu, no início de maio, com a publicação das denúncias de Pedro Collor na revista Veja contra o ex-tesoureiro da campanha presidencial, PC Farias, acusado de tráfico de influência. Ademais, Pedro Collor também indicava que havia dado ciência ao Presidente da República sobre as ações de seu tesoureiro  o que aumentava a gravidade do problema.

Em resposta, o governo e a família do presidente Collor procuraram estigmatizar Pedro Collor, que chegou a ser acusado pela própria mãe de insanidade mental. Poucos dias depois, ainda em meados de maio, o irmão do presidente Collor foi desligado das organizações Arnon Mello, pertencente à família. Para além das intrigas familiares, setores do empresariado, entre eles, Mário Amato, e algumas lideranças políticas procuraram amenizar a gravidade do assunto, sustentando que se tratava de mero conflito familiar ou que se tratava de tema a ser resolvido pelo Poder Judiciário e não pelo Congresso – tática que se inscreve na tentativa de liquidar ou despolitizar o debate incitado pelas denúncias de corrupção, visto que as resistências à política governamental existentes no Congresso Nacional já eram bastante conhecidas. O temor de que as denúncias tivessem repercussão sobre o conteúdo da política econômica era grande, e, nesse

254 Ibidem, p. 174. 255 Ibidem.

sentido, era preciso tomar cautela em relação a qualquer iniciativa que pudesse desestabilizar o governo. Tal quadro teve consequências sobre a conjuntura, levando certos partidos não alinhados plenamente ao governo, como PMDB, PSDB, PDT e PPS, a serem contrários à instalação imediata de uma CPI para averiguar o caso, preferindo aguardar investigações da Polícia Federal antes de tomarem uma posição final. Diferentemente, o PT assumiu a defesa da abertura da CPI e organizou-se, por meio de sua bancada parlamentar, para viabilizar o requerimento. Aqui, ganharia destaque a atuação do deputado José Dirceu e do senador Eduardo Suplicy, ambos do PT, que exerceram liderança política decisiva tanto no que se refere ao processo de abertura da CPI, quanto ao aprofundamento das investigações das denúncias contra PC Farias e o próprio presidente Collor

Para instaurar uma CPI que analisasse as denúncias, fazia-se necessário apresentar requerimento com a assinatura de um terço dos senadores (isto é, 27 senadores) ou um terço dos deputados federais (isto é, 171 deputados). No caso de uma CPMI, era preciso obter a assinatura de um mínimo de 27 senadores e 171 deputados  o que era mais difícil de atingir. No entanto, no intervalo de uma semana após a publicação da matéria na revista Veja, no dia 18 de maio, o cenário político já havia mudado, ao ganhar visibilidade no noticiário, consumando-se a entrega do Requerimento n°. 52, de 27 de maio de 1992, ao Congresso Nacional para a instalação da CPMI visando ―apurar fatos nas denúncias do Sr. PEDRO COLLOR DE MELLO, referente às atividades do Sr. PAULO CÉSAR CAVALCANTE FARIAS, capazes de configurar ilicitude penal‖.256

Inicialmente, o documento circulou no Congresso Nacional com a assinatura de alguns senadores e deputados que haviam encabeçado o processo junto aos seus partidos de origem, tais como Humberto Lucena e Genebaldo Correia pelo PMDB; Eduardo Suplicy, Eduardo Jorge e José Dirceu pelo PT; Fernando Henrique Cardoso e José Serra pelo PSDB; Eden Pedroso e Maurício Corrêa pelo PDT; Luiz Carlos Hauly pelo PST; e José Paulo Bisol pelo PSB. Já o documento final apresentado ao Congresso Nacional alcançou um total de 36 assinaturas de senadores e 179 de deputados, o que assegurou regimentalmente a abertura da CPMI. Tal cenário começava a comprometer o futuro de Collor na Presidência da República, tendo em vista os fortes vínculos existentes entre ele e PC Farias. A crise política estava desencadeada.