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CAPÍTULO III – O ANTISSEMITISMO NA IMPRENSA

3.1. HISTÓRIA E AÇÃO DOS JORNAIS INTEGRALISTAS

3.1.2. O precursor, o orientador e o disseminador:

A Offensiva.

3.1.2.1. A Razão

O jornal A Razão, como já dito, foi um dos propulsores para a consolidação da doutrina integralista, permitindo a Plínio Salgado arregimentar intelectuais objetivando, futuramente, criar a SEP e, por conseqüência, a AIB. O jornal foi fundado por Alfredo Egídio de Souza Aranha, amigo de longa data de Plínio Salgado e antigo patrão.334 Os principais pensadores do jornal eram Salgado e San Tiago Dantas, o primeiro ficando responsável pela mais importante coluna, Nota Política, que era uma espécie de editorial, embora não recebesse essa denominação.335

O jornal A Razão não chegou a ter um ano de existência, mas o seu

papel foi fundamental para Plínio Salgado através da coluna “Nota Política”, estabelecer as bases ideológicas da futura AIB.336

332 Ibid., p. 140. 333 Ibidem. 334 Ibid., p. 99. 335 Ibidem. 336 Ibid., p. 100.

Analisando os textos de Salgado para essa coluna, nota-se que ele constrói a base ideológica da futura AIB, explorando vários pontos básicos, como a aversão ao liberalismo e ao pluripartidarismo, sua oposição aos regionalismos e a defesa de um nacionalismo e centralismo, sua simpatia por regimes fortes e ditatoriais convergentes em uma simpatia pelo fascismo, seu ódio ao comunismo, sua religiosidade, etc.337

Este periódico teve existência de pouco mais de um ano (maio de 1931 até junho de 1932, quando foi empastelado no início da Revolução Constitucionalista em SP), era diário e circulava na capital paulista, podendo ser adquirido em outros territórios nacionais, via correio. Tinha dez páginas e formato tablóide.338

De acordo com Oliveira, o jornal tinha uma divisão bem determinada. A primeira página, invariavelmente, trazia matérias e/ou notícias nacionais de cunho político ou de informação geral. Por vezes, algumas notícias internacionais. A segunda página era destinada a matérias sobre política nacional e internacional. A terceira apresentava a coluna editorial “Nota Política”, matérias sobre política nacional e internacional. Ocasionalmente, aparecia uma coluna escrita por San Tiago Dantas, sobre temas políticos. A quarta página era estruturada com a publicação de quatro colunas: “Sociais”, “Religião”, “Rádio” e “Fatos Diversos”. Na quinta, apareciam as colunas “Teatro” e “Cinema”. A sexta e a sétima página tratavam sobre esportes. Na oitava, surgiam as colunas “Justiça” e “Editais”, em algumas edições saindo matérias sobre bancos e empresas. A nona página apresentava a coluna “Câmbio e Negócios”. E a última, veiculava notícias policiais e políticas.339

O periódico A Razão, era, portanto, organizado como uma folha de informação geral, mesmo porque não defendia a bandeira de nenhuma agremiação política, com exceção dos últimos números, em que começa a se esboçar em suas páginas, a formação de uma nova ordem política.340 Foi, desse modo, um jornal organizado pelo maior número de pessoas possível e, a partir disto, apresentar um novo ponto de vista, ou até mesmo uma nova perspectiva política, ao mostrar à sociedade a gestação de uma nova ideologia.341 337 Ibidem. 338 Ibid., p. 142. 339 Ibid., p. 142-143. 340 Ibid., p. 143. 341 Ibidem.

3.1.2.2. Monitor Integralista

O primeiro jornal do movimento integralista foi O Integralista, surgido no mês seguinte ao lançamento do Manifesto de Outubro e organizado pelos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo. Não chegou a ser editado de forma regular, tendo a ocorrência de apenas dez números, mas durou durante todo o período de existência da AIB.342 Contudo, o primeiro jornal integralista de circulação nacional foi Monitor Integralista.

O periódico surgiu em 1933, no Rio de Janeiro, tendo circulação interna e estruturado como uma espécie de “diário oficial”. Começou como publicação quinzenal (dezembro de 1933 até fevereiro de 1934) e acabou como quadrimestral (entre janeiro e outubro de 1936, tendo apenas uma edição em 1937).343 Todos os líderes dos núcleos (estaduais e municipais) deveriam fazer a aquisição da folha. O jornal versava sobre a organização do movimento, onde era editada toda a estrutura organizativa em forma de organogramas, dando as orientações a serem seguidas pelas secretarias em todas as suas esferas (nacional, estadual e nuclear).344 Era o órgão que definia a estruturação interna da AIB: decidia sobre uniformes e divisas, fazia convocações para reuniões e congressos, publicava o nome dos membros que assumiam cargos (secretarias regionais e nacionais) e transmitiam resoluções da chefia nacional, todas assinadas por Plínio Salgado.345

Não haveria espaço para a desobediência, o Monitor Integralista deveria ser adquirido por todos os núcleos, fazendo com que suas ordens fossem conhecidas por todos os integrantes do movimento. Dessa forma, o jornal era responsável por sistematizar como a AIB se estruturava enquanto movimento político. A difusão ideológica, de uma maneira igualmente planificada, caberia, então, a outro periódico também de circulação nacional, A Offensiva.

342 Ibid., p. 149. 343 Ibid., p. 150. 344 Ibid., p. 151. 345 Ibidem.

3.1.2.3. A Offensiva

Segundo Oliveira, A Offensiva era o principal portal de transmissão da doutrina integralista.346 Tinha o caráter de órgão oficial da AIB e era através dele que a palavra do “Chefe Nacional” (Salgado) chegava aos lares dos militantes. Igual ao Monitor Integralista, havia a obrigatoriedade de assinatura por parte dos núcleos. Aos militantes, era recomendado que todos assinassem ou comprassem nas bancas.

Este jornal teve três fases distintas, entre 1934 e 1937. A primeira se estende maio de 1934 a maio de 1935, com a direção de Salgado em pessoa, ou seja, levava oficialmente o caráter de ser dirigida pelo “Chefe”.347 Representou o período de afirmação do integralismo enquanto movimento político, tendo oito páginas e formato pasquim. Sua estrutura lembrava em muito o jornal A Razão, embora não tivesse o mesmo tamanho físico.348 Nesta primeira fase, o jornal ainda estava em busca de uma definição daquilo que era o integralismo.

A partir do número cinquenta e três, o jornal inicia a segunda etapa de sua existência, passando por uma ampliação física (entre dez e dezesseis páginas) e também a reestruturação interna das seções. Esta segunda fase apresentou várias mudanças, com o conteúdo adaptado às novas conjunturas políticas: marchas militarizadas desapareceram, minimizaram as críticas ao governo, publicaram-se apologias às forças armadas e abandonou-se a própria visão revolucionária.349 Com a absolvição da AIB no enquadramento da Lei de Segurança Nacional, afastou-se o fantasma de uma possível cassação, trazendo novamente às páginas a veiculação de desfiles e reuniões.

No decorrer da segunda fase, o jornal sofre uma reestruturação interna, abrindo espaço para a terceira fase, a partir de janeiro de 1936. A Offensiva sofreria algumas mudanças: o tamanho físico aumentaria (passando de pasquim para tablóide), a circulação seria diária (de terça a domingo), passaria a ter um diretor além de Plínio Salgado (Madeira de Freitas) e as palavras de ordem deixariam de ser sempre destacadas.350 346 Ibidem. 347 Ibidem. 348 Ibid., p. 151-152. 349

Ibid., p. 163. Esse viés revolucionário, esclarece Oliveira, se explica pelo fato de o movimento integralista ter sofrido uma mudança interna, ao obter o registro como partido político junto ao Superior Tribunal Eleitoral. Abandona a via revolucionária, e começa, paulatinamente, a se organizar dentro dos moldes político-partidários.

Conclui-se assim que A Offensiva tinha como objetivos centrais a difusão da ideologia integralista, a doutrinação dos militantes e a consolidação e manutenção do poder pessoal de Salgado dentro da Ação Integralista Brasileira.351

A Offensiva foi o jornal de maior expressão dentro da rede de

periódicos que a Ação Integralista montou. Tinha o caráter de principal órgão do partido e uma das principais formas de inserção

social dos “camisas-verdes” junto à sociedade brasileira da época. O

jornal também servia de exemplo para outros jornais do movimento.Mesmo que não possuíssem a mesma capacidade em termos de recursos para publicação, A Offensiva era o norte desses periódicos.352

Através da pesquisa de Rodrigo Oliveira, conseguimos traçar um rápido histórico a respeito dos principais jornais do movimento integralista.353 A partir daqui, apresentaremos como foi disseminado o antissemitismo pelas páginas de alguns jornais da Ação Integralista Brasileira.