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coletivas 230 3.2 VULNERABILIDADES E RISCOS

2 DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS

2.1 A GRANDE ENCHENTE DE 1974: O DILÚVIO NO SUL

2.1.1 O Prenúncio

Para além do caráter de acontecimento único, provocado pela fúria da natureza, a dissertação de Rafael Marques insere a enchente dentro do ciclo da Fase Fria da Oscilação Decadal do Pacífico, que foi de 1946 até 1974, nesse momento se iniciava a Fase Quente, mantida até 1998.236 Nesta conjuntura, a Temperatura da Superfície do Mar (TSM) do Oceano Pacífico

236

MARQUES, R. Variabilidade da precipitação na Bacia Hidrográfica do Rio

Tubarão/SC de 1946 a 2006. 2010. 206 p. Dissertação (Mestrado em Geografia),

Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-graduação em Geografia, Florianópolis.

tende a ficar de fria para quente, o que produz transformações climáticas até mesmo no Nordeste Brasileiro.237 Marques também explica, analisando a região de Tubarão, que os elevados totais pluviométricos registrados entre os dias 21 e 26 de março saturaram o solo, o que diminuiu drasticamente a capacidade de absorção e infiltração da água da chuva. Outro fator também considerado é a área onde a cidade de Tubarão está instalada, uma baixada aluvial, local alagadiço para onde convergem as águas que escorrem da Serra Geral.238 Deve-se ressaltar que o município de Araranguá, fortemente assolado pelas águas de 1974, encontrava-se na mesma situação.

Marques ainda explica, com base na análise de outras enchentes, que um dos fatores marcantes em 1974 era o forte “vento leste”. Comparando as cartas sinóticas – mapas que apresentam alguns elementos que caracterizam o estado das movimentações atmosféricas, numa determinada região e momento – nos dias 22, 24, 25 e 27 de março evidenciou a instalação de um bloqueio atmosférico. Esta anomalia de alta pressão é capaz de deixar as massas de ar estagnadas sobre uma região, o que deixava o ar instável, tornando a umidade passível de ser carregada para zonas mais frias, o que também promove o aumento da precipitação. Situação semelhante ocorreu no sul catarinense em 2004 e no Vale do Rio Itajaí em novembro de 2008.239

Sobre a materialidade das fontes encontradas nesta parte da pesquisa, é prudente salientar as diferenças do material encontrado em cada cidade. Com base nas considerações de E. P. Thompson no artigo Folclore, Antropologia e História Social240, a produção do folclore, bem como suas reelaborações, são frutos de um determinado acontecimento de uma conjuntura sociocultural. A mesma premissa materialista é utilizada nesta tese, na cidade de Tubarão, em virtude da grande destruição uma

237

SILVA, D. F. da; GALVÍNCIO, J. D. Estudo da Influência da Oscilação Decadal do Pacífico no Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Geografia

Física, v. 4, p. 665-676, 2011. Disponível em:

http://www.ufpe.br/rbgfe/index.php/revista/article/viewFile/142/198. Acesso em: 15 abr. 2013.

238

MARQUES, op. cit., p. 21.

239

Ibidem, p. 73.

240

THOMPSON, E. P. Folclore, Antropologia e História Social. In.: NEGRO, A. L.; SILVA, S. (Orgs.). As Peculiaridades dos Ingleses e outros artigos. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

quantidade significativa de fontes foi encontrada, desde várias pastas separadas no Arquivo Municipal de Tubarão tratando apenas da enchente de 1974, até um conjunto de fotografias e obras de arte expostas continuamente na Biblioteca Municipal. A cidade de Criciúma, naquele momento, menos populosa e, também, menos atingida pela força da enchente, não conferiu ao acontecimento algum lugar especial na sua história, entretanto no Arquivo Municipal a dinâmica das notícias encontradas nos periódicos enfatizavam uma disputa pelo “capital” simbólico241, de quem era mais atingido pela enchente. As manchetes buscavam evidenciar que a paralisação da Bacia Carbonífera afetaria todo o Brasil. Logo, a noção de disputa pela atenção das instituições estaduais e federais mostrou-se central nos pronunciamentos da capital do carvão.

O contexto político explica muito sobre o posicionamento de Criciúma nos periódicos locais, neste momento de Ditadura Militar (1964- 1985) no Brasil, a região sul de Santa Catarina havia alcançado algum destaque em nível nacional. Na necessidade de crescimento econômico, slogan do governo civil-militar que procurava de diversas formas de conter a ameaça comunista; o “milagre brasileiro” de 1969 até 1973 combinava um extraordinário crescimento econômico com taxas relativamente baixas de inflação.242 O “milagre”, que buscava fazer o bolo crescer para depois ser dividido, na conjuntura de 1974 ainda era uma promessa passível de ser concretizada. O “milagre” multiplicou, mas não dividiu, o impacto da crescente concentração de renda foi absorvido pela expansão das oportunidades de emprego, “[...] em outras palavras ganhava-se menos, mas a redução era compensada pelo acesso ao trabalho de um maior número de membros de uma determinada família”.243

O imperativo do crescimento fazia da região carbonífera um dos pontos de sustentação do ideário do Regime Militar no Estado de Santa Catarina.

241

A ideia de capital simbólico advêm da noção de poder simbólico defendida pelo sociólogo Pierre Bordieu, como um poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que estão sujeitos a esse poder ou mesmo daqueles que o exercem. BORDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

242

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003. p. 485.

243

A análise conjuntural também oferece subsídios para uma melhor compreensão do verão de 1973/74. Em oito de janeiro uma forte chuva caiu sobre a capital do Estado, causando até mesmo um incêndio em uma garagem de ônibus. 244 Já no dia 18 do mesmo mês Tubarão aparece como vítima das forças da água. Nessa notícia, o prefeito Irmoto Feuerschuette mostra-se engajado na recuperação do muro destruído há um ano, nas chuvas do último semestre de 1973, “que faz parte do sistema de contenção das águas e dos planos de embelezamento da cidade”.245

No mês de fevereiro também não houve trégua por parte da chuva na porção litorânea catarinense. No dia 22 a Capital do Estado recebeu uma forte tormenta e produziu 22 pontos de alagamento.246 Nem mesmo a forte chuva diminuiu o ânimo dos foliões em São Francisco do Sul, apesar dos carros alegóricos terem sido destruídos, e o carnaval seguiu animado, segundo o periódico.247 As fortes chuvas também impeliram a ação do Governo Federal e Municipal em Joinville, localizada na região nordeste do estado, próxima de São Francisco do Sul, onde o Departamento Nacional de Obras e Saneamento executou serviços de dragagem no Rio Cachoeira para evitar enchentes. 248

244

Apesar da forte chuva, incêndio destruiu garage de ônibus da Penha. O Estado, Fpolis., 08 jan. 1974, ano 58, n. 17442, p. 6.

245

Tubarão recupera muro que as águas levaram. O Estado, Fpolis., 19 jan. 1974, ano 58, n. 17453, p. 7.

246

Chuva provoca alagamentos e movimenta Corpo de Bombeiros. O Estado, Fpolis., 22 fev. 1974, ano 58, n. 17496, p. 7.

247

Idem.

248

Dragagem do Rio Cachoeira vai evitar enchentes em Joinville. O Estado, Fpolis., 28 fev. 1974, ano 58, n. 17499, p. 3.

Figura 5: Distribuição média mensal da precipitação de 1940 a 2008.

Fonte: ANA (2006). Adaptado por Rafael Marques (2009).

As manchetes que circularam em nível estadual deixam claro que os picos da precipitação média anual na região normalmente nos meses de novembro, dezembro e janeiro (Figura 5) se estenderam até o mês de março naquele ano.

2.1.2 “São as águas de março fechando o verão”249

O jornalista e escritor Cesar do Canto Machado publicou em 2005 o livro Tubarão 1974: fatos e relatos da grande enchente250, onde reivindica que por ter sido testemunha dos dramas desenrolados em março de 1974 tem respaldo para trazer à tona alguns fatos que não repercutiram na mídia. Escritor de projeção estadual, Machado utiliza uma linguagem jornalística, produto, novamente, da observação direta que o autoriza a

249

Trecho da música “Águas de Março” de autoria de Tom Jobim.

250

MACHADO, C. do C. Tubarão 1974: fatos e relatos da grande enchente. Tubarão: Ed. da UNISUL, 2005.

escrever sobre o tema. O autor destaca que sua preocupação é trazer ao público e à história catarinense os eventos e a noção mais próxima da realidade daqueles dias difíceis. Nesse caminho lembra as enchentes do passado, se apoia em uma escalada temporal desordenada, que em um momento destaca a ação do Exército depois da enxurrada e logo a seguir, volta às características das águas de 24 de março.

De acordo com Machado, aquela tinha tudo para ser uma enchente como todas as outras, “nada mais que um passageiro desconforto, pois a ocorrência de semelhante cataclismo na ‘Cidade Azul’, afigurava-se, até ali, como pouco provável”.251

Um ponto importante lembrado por Marques era a paulatina saturação da infiltração e absorção da água pelo solo em função da constante chuva que havia se estabelecido desde o dia 22 de março, uma sexta-feira. Foi na noite de 24 de março, uma noite de domingo, quando os moradores da cidade, despreocupados com as condições do rio e da chuva que pareciam ter perdido força e volume, estavam se preparando para dormir, a água que vinha dos morros recebeu uma descarga significativa da chuva que caia ao “pé da serra”. Conforme diversas fontes, em questão de uma hora nas localidades próximas aos rios Rocinha e Bonito, formadores do rio Tubarão, a água chegava já ao teto das casas.

Uma das características que define a percepção ambiental de indivíduos ou grupos é a frequência com que os eventos acontecem. Seguindo a metodologia da percepção geográfica de Burton e Kates252, alguns fatores são preponderantes para o exercício de apreensão das características do ambiente. Sobre a frequência: quando é baixa como no caso do Furacão Catarina, a ameaça ou os futuros perigos são vistos como remotos, ao invés de reais e imediatos. Entretanto, cabe considerar que a alta constância dos desastres também pode, como no caso das enchentes, impelir os indivíduos a aceitar níveis crescentes de perigo como níveis dentro de uma “normalidade”, como de fato ocorreu em Tubarão.

Ao tratar da história da cidade de Tubarão o professor e historiador Amádio Vettoretti, destaca que as enchentes são marca presente na história

251

Ibidem, p. 20.

252

BURTON, I.; KATES, R. W. The perception of the natural hazard in resource management. Natural Resources Journal, v. 3, n. 3, p. 412-441, 1964.

do município, entretanto em 1974 os moradores da cidade haviam perdido a memória das grandes enchentes, habituando-se apenas às rotineiras que castigavam mais a zona rural.253 O autor, que demonstra ter um bom conhecimento sobre as dinâmicas do solo e atmosféricas, esclarece que já no dia 22 algumas partes da cidade eram atingidas pelo movimento das águas, a vila Presidente Médici foi a primeira, no sábado a população dos bairros mais baixos começa a se dirigir para cotas mais elevadas, “quando a cidade entrou em estado de alerta sem pânico”.254

No final da tarde de sábado, segundo Vettoretti, todos habitantes da cidade de Tubarão que residiam nas partes baixas já haviam se deslocado para lugares mais altos, alguns teimosos haviam ficado e outros, que ainda não haviam sido atingidos, levaram a enchente na brincadeira, relacionada ao “extraordinário consumo de bebidas alcoólicas com a justificativa de alguns que ‘era para não pegar resfriado’”.255

Durante a noite de sábado para domingo, apesar dos serviços de água, telefones e energia elétrica estarem funcionando normalmente, a enchente foi galgando lugares que até então não eram de costume. No amanhecer do dia 24 o prefeito decreta estado de calamidade pública, e o poder público e a população se mobilizam inteiramente para lidar com a enchente que parecia ser como qualquer outra.

À medida que o nível das águas baixava na tarde de domingo, diversas pessoas começaram a voltar para suas casas, Vettoretti enfatiza que a falta de memória ou registro das enchentes anteriores foi crucial para propagar a sensação de segurança que dirigia as pessoas às suas residências.256 Por mais que o sentimento de irmandade daqueles acometidos pelo sofrimento seja defendido por diversos autores, houve relatos da necessidade do Exército na rua para conter os saques e roubos. A preocupação com as posses parece ser um motivo razoável para que os indivíduos quando percebessem a primeira diminuição das águas se dirigissem às residências.

253

VETTORETTI, op. cit., p. 224.

254 Ibidem, p. 228. 255 Ibidem, p. 229. 256 Ibidem, p. 230.

Na noite de domingo para segunda-feira o drama da impotência alcançava tanto as casas para onde as pessoas haviam retornado, quanto aquelas casas onde até então “nenhuma” água havia chegado.

Muitos dormiam e acordaram com o pé na água. Não tinham mais saída. Houve fugas desesperadas. A solução era subir ao forro da casa e depois ao telhado. Alguns na tentativa de se salvar, morreram, e outros foram levados junto com suas casas. Noite dramática. Às nove horas, apagaram-se as luzes, os telefones já estavam mudos. A cidade ficou sem comunicação, isolada. Cessaram os grupos de socorros.257

Exatamente nesse momento a narrativa os autores258 que trataram da enchente de 1974 passa a ter aspectos em comum. As estruturas narrativas se transformam drasticamente, antes compassadas e lineares, neste momento perdem a métrica cronológica, ao que parece a ânsia em oferecer a compreensão da magnitude do evento fez com que os indivíduos buscassem predicados situados nos limites da compreensão humana sobre a realidade, como cataclismo, apocalipse, catástrofe, odisseia. A diversidade dos elementos elencados se deve, em grande medida, à falta de parâmetros para comparar e explicar aquilo que parecia inexplicável, a quantidade de água, sua força e a consequência de sua passagem pelo sul de Santa Catarina.

No município de Praia Grande no extremo sul do Estado, também aconteceu uma enchente de dois momentos. Mas não por causa de um intenso evento pluviométrico como em Tubarão. O município está inserido na Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba, rio que marca a divisa com o Rio Grande do Sul. Naquele rio, como enfatiza Ronsani, ouviu-se um forte estrondo semelhante à dinamite, segundo eles seria uma barragem que se rompeu, formada por um desmoronamento anterior às chuvas no canyon Itaimbezinho e a “água veio toda de uma vez em forma de lama”.259

257

Ibidem, p. 231.

258

Idem; FONTANA, G. B. História de Minha Vida: memórias, imigração e outros fatos. Florianópolis: Agnus, 1998. BARDINI, A. Conhecer para Amar. Treze de Mario: Ed. do Autor, s/d. RONSANI, op. cit.

259

No município de Treze de Maio, emancipado de Tubarão em 1961, a ação das águas foi diferente. Um dos principais fatores está na altitude, pois o município está a 190 metros do nível do mar, diferente de Tubarão que tem uma altitude média de nove metros do nível do mar. Em seu livro de memórias, Fontana enfoca sua descrição do momento da eclosão da enchente no volume de chuva, diferente dos autores que tratam da cidade de Tubarão que voltam seus olhos para os rios. A “tromba d’água” que ocorreu às 17 horas fez com que os agricultores abandonassem suas criações, passando a cuidar apenas das famílias e das pessoas que por falta de mobilidade se aglutinavam nos pontos mais altos, onde normalmente eram fixadas as casas dos agricultores.260 Fontana não relata a água entrando em sua casa, ilustra que a água passava em frente à sua residência, por isso algumas pessoas conseguiram até dormir naquela noite. Depois do café da manhã, queria ver os estragos, mas às sete horas de segunda-feira outra “tromba d’água” caiu sobre a região, foi nesse momento que afirmou ver ao longe “os morros descendo”.261

Ocorre uma série de deslizamentos nas encostas da Serra Geral, mas dois oficialmente causaram mortes, no Morro do Caruru (interior de Tubarão) e na comunidade de São Gabriel (interior de Treze de Maio).

Outra obra importante para a compreensão da dimensão da enchente de 1974 na região é Histórias do Grande Araranguá, do padre João Leonir Dall’Alba.262

O livro compila uma série de entrevistas realizadas entre 1985 e 1986 com moradores da região compreendida atualmente entre o município de Jaguaruna (ao lado de Laguna) e Praia Grande (na divisa com o Rio Grande do Sul). O autor deixa claro que seu livro será mais usado por estudiosos com o passar dos anos, pois seu objetivo, nas 80 entrevistas, era trazer dados sobre os tempos iniciais do “Grande Município de Araranguá”.263

Cabe destacar que todas as entrevistas são apresentadas com um português correto, fruto de uma escolha na transcrição que solapou as dinâmicas da língua falada, possivelmente pelo fato do autor estar preocupado com a fluidez da leitura. Além disso, o livro só foi publicado dez anos após a realização das entrevistas o que, provavelmente, implicou em contínuas leituras e

260

FONTANA, op. cit., p. 288

261

Ibidem, p. 290.

262

DALL’ALBA, op. cit.

263

“correções” das figuras de linguagem utilizadas na linguagem falada. Outro ponto significativo sobre a apresentação das entrevistas no livro é a supressão das perguntas, no corpo do texto o pronunciamento dos entrevistados simplesmente surge, dando a entender que os temas tratados seriam de escolha dos entrevistados e não do entrevistador.

Tal análise vai se tornando mais clara à medida que diferentes focos são tomados para as entrevistas. Entretanto estas escolhas são referenciadas pela possibilidade de assuntos que cada entrevistado pode oferecer. Por exemplo, os moradores das localidades mais próximas da serra falam quase exaustivamente da caça aos bugres e as fotos trazidas pelo autor para ilustrar as falas são legendadas com a palavra “hecatombe”. No município de Araranguá, o foco recai sobre as linhagens familiares e políticas, sem deixar de registrar as manifestações religiosas. Já nas localidades litorâneas diversos pescadores são entrevistados, suas práticas artesanais, suas percepções sobre o mar e os rios mostram-se preponderantes. A pujança agrícola regional contrasta com as práticas de subsistência do passado nas comunidades agrícolas.

Apenas cinco entrevistas falam sobre enchentes, e só uma delas com mais de dois linhas de extensão. A entrevista mais significativa é de um morador de Araranguá, da localidade conhecida como Barranca, um pescador que afirma já ter passado por enchentes em que a água havia passado dois metros do nível da rua. Apesar de sua extensão, “na enchente de 1974 todo mundo pôde sair pela ponte ou pela estrada. Num galpão ficaram umas pessoas por dois ou três dias sem comer até a água baixar. No paiol de farinha ficaram dois só comendo farinha e tomando água”.264 Esta localidade, muito próxima ao rio Araranguá, é constantemente alagada quando as chuvas aumentam o volume da água do rio, motivo pelo qual na memória do entrevistado as enchentes fazem parte da sua história de vida.

Em outra entrevista realizada com um pescador residente da Barra do Camacho em Jaguaruna, a enchente de 1974 é lembrada como um momento de transformação do ambiente, pois o relato só destaca a abertura da barra e a nova praia de banho criada pela enchente.265 Este posicionamento é fértil para perceber que a temática “enchente” não era

264

Ibidem, p. 126.

265

cogitada nas entrevistas. Outro pescador de Jaguaruna, este da localidade de Garopaba do Sul, quando explicando sobre os perigos do mar enfatizou: “caso perigoso foi a enchente de 1974. Levantou um metro e meio de casa. Pudemos escapar todos para Jaguaruna. Tinha umas cem canoas de pescadores de camarão e saímos de canoa”.266