Cap V 5 Mudança – processo ou produto
5.1 O presente da mudança
A língua aqui não é tomada como representando o povo de uma nação, ou seja, a história dos contatos de língua, não é a história do contato de povos. A história não é só um contexto em que a língua se encontra. O tempo que delimita a história não é somente a ordenação de um conjunto de fatos numa ordem cronológica, mas analisados dentro de uma especificidade própria, definida por Veyne (1998) como história, conforme veremos a seguir.
O histórico não é assim um evento no tempo. Não é, por exemplo, o contato de povos num certo período, mas o fato desse contato temporalizar, criando uma temporalidade própria que produz os sentidos dessa relação de línguas e define o modo como as línguas mudam.
A história não é entendida, aqui, como eventos relatados cronologicamente, ou seja, como temporalidade, tão pouco como um contexto que a língua representa. Para o Guimarães, a história “ (...) não é, nesta perspectiva, sucessão, é convivência de tempos diferentes em um presente.” (1998: 113)
Ligada a esta posição, Guimarães (2002) propõe uma noção de acontecimento. Para tratar do acontecimento, ele ressalta a importância de língua e do sujeito que se constitui por seu funcionamento, e de sua temporalidade. E é sobre essa última que nos deteremos aqui.
Em Semântica do Acontecimento (2002), o autor define o acontecimento “enquanto diferença na sua própria ordem”. Essa diferença não é, contudo, um fato no tempo. Muito pelo contrário, uma vez que é o acontecimento que temporaliza. Isto é, não há uma ordem cronológica de um antes e um depois.
O presente do acontecimento não se define por um tempo externo, cronológico, mas também não é o presente de Benveniste, ou seja, o tempo no qual o locutor enuncia eu e a partir daí se organiza o passado
A temporalização se configura pela configuração de um passado que é um rememorado, e um presente que ao enunciar abre uma projeção de interpretação, o futuro. Ou seja, não há possibilidade de sentido sem uma dessas “partes integrantes”- passado, presente e futuro - do tempo do acontecimento.
Tomarei aqui um exemplo, usado por Guimarães em sala de aula, de modo a explicar de forma mais clara como ele entende o acontecimento.
O atentado de 11 de setembro é um acontecimento. Este só produz sentido enquanto acontecimento que temporaliza. Somente a memória enunciativa deste evento permite que este produza o significado que ele teve, e tem, na história da humanidade. É justamente o sentido produzido que impede que “o 11 de setembro” seja enunciado como uma descrição simples do choque de um avião com as torres gêmeas.
A história significa esse acontecimento como uma diferença na ordem das relações políticas internacionais. O que se rememora neste evento é a tensão entre EUA e o Oriente, que produz o sentido evidenciado do atentado de uma forma específica: o ataque ao imperialismo norte- americano, e projeta num futuro, ao enunciar o atentado, os sentidos produzidos de uma resistência criada frente aos EUA.
No presente de um acontecimento, passado e futuro fazem parte dele de modo que ele possa significar. O que chama atenção, a meu ver, é
significação. Isto é, a história, nesse sentido, não está fora do funcionamento da língua, mas é constitutiva de seu modo de significar.
Esse acontecimento, cuja temporalidade não significa o passado como o que aconteceu imediatamente antes do momento presente e o futuro como o que virá em seguida em relação ao tempo do sujeito que enuncia, "se faz pelo funcionamento da língua enquanto numa relação com línguas e falantes regulada por uma deontologia global do dizer em uma certa língua" (Guimarães, 2002:18).
O acontecimento se põe num espaço de funcionamento das línguas em que há o embate entre elas e no qual os sujeitos são constituídos pela distribuição regulada das línguas, ou seja, pelo Espaço de Enunciação. Neste, a disputa entre línguas e a divisão dos sujeitos pelos seus modos de dizer e por seus direitos de dizer, afetam as línguas, refazendo-as, dividindo-as e as organizando por uma hierarquia social própria das relações, ou seja, trata-se de um espaço político.
A organização das línguas que constituem o espaço de enunciação que analisamos neste trabalho, a partir de uma língua nacional, o português no nosso caso, tem significações importantes para a relação das línguas, conforme veremos a seguir.
O fato do espaço de enunciação estar afetado pelo acontecimento e por isso por sua temporalidade nos possibilita pensar como o tempo
Deleuze (2000), por sua vez, apresenta o problema do tempo sob um novo prisma, que vai nos interessar de forma mais específica para se pensar o conceito de mudança dentro da semântica do acontecimento.
Para ele há duas dimensões do tempo: o Cronos e o Aion. O Cronos diz respeito à mistura dos corpos ou estado de coisas, e por isso preside a ordem das causas. Ele se caracteriza por uma sucessão de instantes, numa forma cíclica do infinito em que há um eterno presente que se descontrai em presentes pontuais que são passados e futuros uns em relação aos outros. Em segundo lugar há o Aion que trata dos incorporais e por isso se caracteriza como a fuga incessante do presente, através da divisão ao infinito de cada instante presente em passado e futuro. Deleuze usa um exemplo de Lewis Carrol para ilustrar essa infinitude.
Para isso ele explica a frase Alice cresce, segundo sua visão acerca do Aion. Alice torna se maior do que era e se torna menor que é agora. Não é simultaneamente que ela é maior e menor, mas ao mesmo tempo ela se torna maior e menor. Essa é a simultaneidade de um devir que se furta ao presente. Desse modo não há distinção entre antes e depois. (2000: 1)
Há, então, o presente que vive nos corpos, e o presente que é divido em passado e futuro infinitamente. É dessa forma que Deleuze concebe
A partir das configurações acerca das duas dimensões do tempo, o problema de Deleuze era estabelecer uma relação entre Cronos e o Aion. Para isso, ele formula o conceito de acontecimento que participa de ambas dimensões temporais de modo que leve em consideração os corpos e estados de coisa, bem como incorpóreo e os efeitos.Dentro dele há sempre o passado e o futuro: "eternamente o que acaba de se passar e o que vai se passar, mas nunca o que se passa" (idem, 9)
Considerando a ordem do espaço de enunciação, podemos tomá-lo como um acontecimento conforme as formulações de Guimarães (2002). Este espaço de enunciação funciona sempre num tempo presente, imobilizado pela língua nacional que o organiza. Ou seja, a identificação dos falantes está nesse presente de funcionamento do espaço de enunciação, pois é a língua nacional que imobiliza este espaço, e a relação das línguas que o constituem.
Devemos considerar, contudo, que o funcionamento das línguas neste espaço se dá na relação entre as diversas línguas que o constituem. Ou seja, ao mesmo tempo que temos um apriosionamento no presente das línguas que circulam no espaço pelo modo como os falantes são determinados pelas línguas, a identificação do falante pela língua toma as línguas separadamente no espaço.
nacional que organiza o espaço e identifica seus falantes, mas funciona na temporalização dos acontecimentos de enunciações específicas (cenas enunciativas) em que se dá a relação de línguas, e assim as divisões que as afetam, mudando-as.
Se aplicarmos esse funcionamento dos tempos do espaço de enunciação do espaço de Friburgo, as línguas que se identificam como nacionais, o alemão e o português, aprisionam essa relação de línguas, como uma relação estanque de duas línguas no presente da identificação destas com seus falantes, isto é, falantes de português e falantes de alemão.
Desse modo as línguas, no espaço de enunciação, se encontram no Cronos de Deleuze, numa circularidade infinita do instante presente. o sentido da língua tomada como língua nacional de um Estado a impede de sair desse ciclo infinito em que a língua é sempre a mesma.
Essa estabilidade da organização das línguas em línguas nacionais configura essa relação da língua nacional com o tempo presente. Para entender melhor essa problemática focaremos nosso olhar na relação entre a organização dos Estados e as teorias lingüísticas e como isso afeta a concepção de mudança.
Para isso acho importante levar em conta as condições em que se formou a lingüística enquanto ciência. A lingüística se define como uma
(1992), no século XIX em um contexto caracterizado pelos estudos sobre parentesco genético das línguas e a formação dos Estados Modernos.
Ao tentar compreender em sua obra o aparecimento de um saber metalingüístico que não se delimita ao domínio da lingüística moderna, ele define o objeto de seu estudo como “a linguagem humana, tal como ela se realizou na diversidade das línguas; saberes se constituíram a seu respeito (...)” (Auroux, 1992:13).
Auroux (1992) distingue dois tipos de saberes sobre a linguagem. E é essa distinção que nos interessa de forma específica para entendermos como a organização política do século XIX afetou a teorização lingüística que se desenvolveu a partir desse período.
O saber epilingüístico, escreve Auroux, é o saber inconsciente que todo locutor possui de sua língua e da natureza da linguagem. É este saber que nos permite, por exemplo, entender piadas e jogos de linguagem. E, mais do que isso, é este saber que nos permite produzir piadas e jogos de linguagem.
Já o saber metalingüístico é construído e manipulado enquanto tal com a ajuda de uma metalinguagem. É este saber que permite que possamos não apenas entender e produzir piadas e jogos de linguagem, mas também desenvolver reflexões a respeito do funcionamento das
Esse saber se constitui por um domínio dos fenômenos da linguagem como um espaço de produção de tecnologias que mudam a relação do homem com os objetos simbólicos e com as formas de organização social. Ele critica assim uma perspectiva positivista do saber, que se constitui de uma cronologia de uma totalidade dos momentos do seu desenvolvimento.
Ainda se contrapondo a um ponto de vista historiográfico da ciência, Auroux analisa duas revoluções no campo da linguagem: a primeira corresponde ao desenvolvimento da escrita, que é segundo ele, um dos fatores fundamentais para o aparecimento das ciências da linguagem; e a segunda corresponde ao processo de gramatização das línguas que teve seu início durante o Renascimento europeu. Gramatização é definida pelo autor como “o processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na base de suas tecnologias, que são ainda hoje os pilares do nosso saber metalingüístico: a gramática e o dicionário.” (Auroux, 1992:65)
Essa metalinguagem construída e representada por tais instrumentos deu ao Ocidente um meio de conhecimento e dominação sobre as outras culturas do planeta mudando as relações de comunicação.
Considerar o nascimento desse saber metalingüístico é fundamental para a constituição dos estudos sobre as ciências da linguagem e para a
deu a constituição das nações européias e por conta disso uma profunda transformação das relações sociais. A expansão das nações acarreta uma situação de luta entre elas e entre as suas línguas. A correspondência uma língua/ uma nação faz dos instrumentos lingüísticos o meio para que seus cidadãos aprendam a língua que os identifica como pertencendo a um Estado ou outro.
Contudo a noção de língua está atrelada à de nação, relação em que se construiu a concepção de Estado Moderno o que resulta num entrelaçamento nacionalista com as teorizações lingüísticas. Isto é, como pensar numa nova língua desvinculada de uma nação, e tendo em vista a uma organização política já estabelecida em países com suas respectivas línguas (nacionais), qual o lugar dessa nova língua?
As causas que agem sobre o desenvolvimento dos saberes lingüísticos no Renascimento são complexas, conforme explica Auroux (1992). Pode-se notar conjuntamente a administração dos grandes Estados, a literarização dos idiomas e sua relação com a identidade nacional, a expansão colonial, os contatos entre línguas. O purismo e a exaltação da identidade nacional, a constituição e preservação de um corpus literário são fenômenos quase universais na constituição espontânea ou por transferência dos saberes lingüísticos. Suas causas podem ser diversas: o aparelho do Estado e a administração, expansão
Para os trabalhos desenvolvidos por Orlandi (2000, 2001) a gramatização implica na constituição de um saber metalingüístico e também na construção de espaços imaginários de identificação. Da forma que a autora toma o saber metalingüístico, a gramatização de uma língua está relacionada à constituição da identidade nacional.
É na passagem para o saber metalingüístico que a língua é apreendida e representada como uma língua nacional de acordo com as delimitações políticas de um Estado de Direito. A língua embora esteja “presa” por essa metalinguagem não pára seu funcionamento.
Deter-me-ei mais especificamente na seção seguinte, na formação das línguas nacionais e as conseqüências disso para a lingüística. Uma língua tomada sempre como um artefato.