CAPÍTULO III Direito internacional dos direitos humanos e América Latina
3.2 Brasil, América Latina e relações internacionais
3.2.4 O primado da norma mais benéfica à vítima
No campo da proteção dos direitos humanos os preceitos de natureza
ética (que possuam conteúdos materiais) necessitam ser, em primeiro lugar,
observados. Isto porque, não há como desconsiderar que o “objeto” deste ramo
especial do direito é o ser humano, quando violado em seu núcleo de necessidades
consideradas vitais. Este fato, que de início parece ser tão óbvio, acaba sendo deixado
em segundo plano, quando o jurista, ao proclamar a validade-formal como critério
único, em detrimento de qualquer análise de conteúdo, parece também se esquecer
desta particularidade, tratando da proteção da pessoa humana como qualquer outro
ramo da ciência jurídica, por certo não menos importante, mas seguramente mais
decisivo em seus efeitos.
Em especial no que diz respeito à dogmática, o formalismo, em primeiro
plano de análise, precisa ser afastado, em detrimento do caráter especial de proteção de
que se trata, ou seja, não exclusivamente de relações interestatais, mas sim do
propósito último da proteção do ser humano. A validade formal-procedimental, em si
mesma, acarreta um formalismo, que também por si só, não se sustenta. O
procedimento é, indubitavelmente, necessário, porém para validar conteúdos materiais.
330 Sobre a matéria, ver: DALLARI, Pedro B. A. Constituição e tratados internacionais. São Paulo: Saraiva, 2003.
Por sua vez, ao se analisar o campo de atuação da proteção da pessoa humana – pelo
direito pátrio ou internacional – é de inafastável conclusão que se está a trabalhar com
situações de “violação”, isto é, de negação da produção, reprodução e
desenvolvimento da vida humana em algum nível.
Assim sendo, deve-se encontrar a solução na norma que seja válida
formalmente (norma oriunda de direito interno ou norma proveniente de tratado
ratificado), mas que possua “o conteúdo” que melhor atenda as necessidades do ser
humano no momento da violação, não importando se esta solução será encaminhada
pelo ordenamento interno ou pelo aparato internacional. Em defesa desta postura ética
no direito, advoga Antônio Augusto Cançado Trindade:
Já é tempo de superar certos ranços do passado, de afastar de vez o hermetismo de
certas construções artificiais e fictícias. O formalismo do requisito do conhecimento
da norma jurídica, por exemplo, tem sido, por vezes, levado a extremos inaceitáveis,
em detrimento dos direitos individuais, como ilustrado pela negativa, pelo Judiciário
nacional, de dar vigência no plano do direito interno a um tratado de direitos humanos
que obriga o país no plano internacional, pelo simples fato de, apesar de ratificado,
não ter sido o referido tratado publicado no Diário Oficial e não poder assim ser
aplicado como “lei interna”. Atitudes como esta, reveladoras de um dualismo fictício
e descabido, atentam contra a unidade da solução jurídica e esvaziam o Direito de
todo sentido (grifo nosso). Não há como reconhecer ou admitir as obrigações
convencionais contraídas por um estado no plano internacional e ao mesmo tempo
negar-lhes vigência no plano do direito interno.
331Portanto, por conta de seu conteúdo diferenciado, não só se deve optar
pela norma mais favorável à vítima, como também pela aplicação imediata desta regra.
Em caso do prevalecer disposição interna, a solução já esta autorizada, diretamente,
pela utilização do parágrafo 1º, do artigo 5º da Constituição, que dispões que “as
normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”.
Contudo, caso a proteção mais favorável esteja contida em tratado
internacional, opta-se pela defesa da incorporação automática do direito internacional
dos direitos humanos pelo direito nacional, garantida também pelo parágrafo 1º, do
artigo 5º, em conjugação com o compromisso de reafirmação dos direitos humanos,
331 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. v. I, 2ª ed., revista e atualizada. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2003, p. 545-546.
ditado pelo inciso II, do artigo 4º, da Carta Magna, que propaga a “prevalência dos
direitos humanos” como princípio regente das relações internacionais do Brasil. Em
acréscimo, ao atribuir natureza de norma constitucional a estes tratados, os direitos
neles enunciados ficam resguardados pela condição de “cláusulas pétreas”, não lhes
cabendo a eliminação via emenda constitucional, previsão do inciso IV, parágrafo 4º,
do artigo 60 da Constituição.
Contudo, de acordo com as disposições próprias concernentes ao direito
internacional, os tratados de direitos humanos, ainda que possuam regras específicas,
assim como os demais tratados, podem ser objetos de denúncia por parte de Estados
que os tenha ratificado, acarretando assim, um paradoxo, já que se admitiu a idéia de
que estes se enquadrariam entre cláusulas pétreas constitucionais. A respeito da
denúncia dos tratados de direitos humanos, por força de sua natureza constitucional
diferenciada, propõe Flávia Piovesan:
Cabe considerar, todavia, que seria mais coerente aplicar ao ato da denúncia o mesmo
processo aplicável ao ato da ratificação. Isto é, se para a ratificação é necessário um
ato complexo, fruto da conjugação de vontades do executivo e Legislativo, para o ato
da denúncia também este deveria ser o procedimento. Propõe-se aqui a necessidade do
requisito de prévia autorização pelo Legislativo de ato de denúncia de determinado
tratado internacional pelo Executivo, o que democratizaria o processo de denúncia,
como assinala o Direito comparado. Entretanto, no Direito brasileiro, a denúncia
continua como ato privativo do Executivo, que não requer qualquer participação do
Legislativo.
332Esta ressalva se faz necessária porque o direito constitucional brasileiro,
no tema da incorporação dos tratados, vale-se da incorporação legislativa, adotando,
ainda que implicitamente, a corrente dualista – que entende existir duas ordens
jurídicas distintas, a interna e a internacional. Assim, “para que o tratado ratificado
produza efeitos no ordenamento jurídico interno, faz-se necessária a edição de um ato
normativo nacional – no caso brasileiro, este ato tem sido um decreto de execução,
expedido pelo Presidente da República, com a finalidade de conferir execução e
cumprimento ao tratado ratificado no âmbito interno”
333.
332 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito..., p. 95.
Pois bem, este mecanismo de incorporação permanece válido quando se
tratar de pacto internacional de outra natureza, consoante dispõe a alínea “b”, do inciso
III, do artigo 102 da Carta de 1988
334, valendo-se, portanto, da vertente dualista, o que
implica em concluir que os tratados tradicionais possuem natureza de norma
infra-constitucional e aplicação não-imediata, pois dependem da sistemática da
incorporação legislativa. De outra feita, o mesmo não ocorre com os tratados de
direitos humanos (consoante posição adotada neste estudo), na medida em que o
mencionado parágrafo 1º, artigo 5º, autoriza sua aplicação imediata, e, por conta dos
conteúdos a que se referem, exige-se a superação da dicotomia direito
interno/internacional, em nome da proteção da vítima, destinatária primeira da
aplicação do direito em lato sensu.
Em algumas Constituições latino-americanos, tal interpretação já foi
incorporada ao texto constitucional, com pequenas variações semânticas, mas já
optando pela conferência de tratamento diferenciado aos tratados de direitos humanos,
como são exemplos a Constituição do Peru de 1979, no artigo 105; a Constituição da
Argentina, após a Reforma Constitucional de 1994, no inciso 22, do artigo 75; a
Constituição da Nicarágua de 1986; a Constituição da Guatemala de 1986, no artigo
46; a Constituição da Colômbia de 1991, no artigo 93, além da Constituição do Chile,
após a reforma constitucional de 1989
335.
Referidas Constituições incorporaram aos seus dispositivos, para o fim
de dirimir eventual conflito entre normas oriundas de direito internacional dos direitos
humanos e seus ordenamentos jurídicos internos, as ressalvas dos pactos de direitos
humanos regionais ao qual aderiram, consoante ditado nos próprios artigos do tratados
em questão:
334 Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe:
III – julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida:
b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; (...).
335 Sobre o assunto, verificar, ainda: CORCUERA CABEZUT, Santiago. Derecho constitucional y derecho
internacional de los derechos humanos. México, D.F.: Oxford University Press, 2002, p. 139-194;
HANASHIRO, Olaya Sílvia Machado Portella. O sistema interamericano de proteção…, p. 91-94; PASQUALUCCI, Jo M. The practice and procedure of the Inter-American Court of human rights. Cambridge: Cambridge University Press, 2003; PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito…, p. 96-98; TRAVIESO, Juan Antonio. Los derechos humanos en la Constitución de la República Argentina: tratados, leyes, doctrina, jurisprudencia. 2ª ed., Buenos Aires: Eudeba, 2000, capítulo I.