2 A ANÁLISE DO DISCURSO E A INTERTEXTUALIDADE
2.3 O Primado do Interdiscurso
A ideia do Primado do Interdiscurso vem de Dominique Maingueneau (2007). Sua proposta é sugerida como uma esfera de aplicação empírica de grupos de conceitos teóricos. Assim, o autor ultrapassa procedimentos de análise que consistem em classificar e descrever discursos de forma exaustiva a partir de um determinado modelo, ou seja, o foco não incide sobre uma análise discursiva a partir de uma estrutura de classificações.
O autor, então, recorre a três bases teóricas diferentes para constituir seu primado, que são as heterogeneidades enunciativas de Authier-Revuz (1998), o dialogismo de Bakhtin (1988), e a intertextualidade de Piégay-Gros (1996), com base em Genette (1982). Como se trata de uma aplicação empírica de conceitos teóricos, tem-se o texto como o local dessa aplicação, através do qual os discursos podem ser analisados.
Os discursos, como já foi mencionado, são dialógicos em sua essência. Isso quer dizer que seus sentidos são produzidos a partir da falha constitutiva da língua (AUTHIER- REVUZ, 1998), ou seja, à sua incompletude, responsável pela produção dos sentidos. Porém, para que haja uma análise interdiscursiva, de forma empírica, é preciso recorrer a categorias da intertextualidade, já que os discursos são enunciados que se concretizam em materialidade discursiva, assumindo uma certa regularidade, uma mesma condição de existência, porque algo, para existir, não pode se transformar o tempo todo (MAINGUENEAU, 2007).
Sendo assim, os enunciados fazem sentido na medida em que se relacionam, interagindo com outros em uma cadeia enunciativa. Vários enunciados interligados mostram o
que atribui sentido a um determinado enunciado e, consequentemente, a um discurso. Para tal, existem várias estratégias, como as relações de copresença, que possibilitam a retomada do enunciado em diversos textos diferentes, revelando a interligação entre eles.
Essas estratégias fazem com que os enunciados transponham as barreiras fechadas da noção de texto enquanto autossuficiente, em que a coesão e a coerência dão conta daquilo que faz sua unidade (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008), porque um mesmo enunciado pode aparecer em diferentes textos, mudando, por conseguinte, de contexto e de sentido. Destarte, o Primado do Interdiscurso critica a primeira fase da AD, em que os discursos apareciam fechados sobre si mesmos, como se houvesse uma homogeneidade que desse a eles uma identidade fixa (MAINGUENEAU, 2007).
Reconhecer essa proposta é “incitar a construir um sistema no qual a definição da rede semântica que circunscreve a especificidade de um discurso coincide com a definição das relações desse discurso com seu Outro” (POSSENTI, 2003, p. 264, grifos do autor). Ou seja, os sentidos, a rede semântica, são formulados a partir da relação com outros discursos, em uma regularidade, e a partir de algo empírico, que são os textos, onde os discursos se manifestam por meio da língua. Ressaltamos que só percebemos os sentidos gerados pelos discursos por causa da ideologia, que interpela os indivíduos em sujeitos e todos os enunciados proferidos em discursos.
Além disso, o Primado do Interdiscurso surge de um questionamento sobre a articulação dos conceitos de condições de produção e de formações discursivas, reaproveitados, respectivamente, do Marxismo e de Foucault para o escopo teórico da AD. Maingueneau (1997), contudo, prefere falar de prática discursiva e de comunidade discursiva. O primeiro conceito engloba a noção de formação discursiva de Foucault e está diretamente ligado ao fato de que o discurso age ao mesmo tempo em que se refere a algo. Não existe uma referência para além do mundo discursivo. O discurso, então, é uma forma de ação do mundo e no mundo – o discurso está no mundo ao mesmo tempo em que o cria. Assim, não há separação entre mundo e discurso. Isso nos mostra que o mundo chega a nós pelos discursos34, que, por sua vez, só podem ser compreendidos através da interpelação ideológica dos sujeitos pelos próprios discursos. Portanto, falar de discursos é também falar de suas práticas.
Entretanto, as práticas discursivas apreendem formações discursivas que são inseparáveis das comunidades discursivas responsáveis por produzi-las e por difundi-las. Assim, “a formação discursiva é então pensada ao mesmo tempo como conteúdo, como modo de organização dos homens e como rede específica de circulação dos enunciados” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008, p. 396). As práticas discursivas são, então, uma produção simultânea de textos e de determinadas comunidades que sustentam esses textos.
Essas comunidades, solidárias às formações discursivas, são as comunidades discursivas, denominadas por Maingueneau como tanto o grupo ou a organização de grupos nos quais os textos que dependem da formação discursiva são produzidos e gerados, bem como tudo o que esses grupos implicam no plano da organização material e modos de vida. (MAINGUENEAU, 1997).
Tais comunidades são aquelas que, de certa forma gerem, administram e difundem o discurso através da produção de textos predominantemente atravessados por determinadas formas discursivas, que podem, por exemplo, ser predominantemente econômicas, como no caso de empresas, organizações; predominantemente ideológicas, como ocorre com partidos políticos e associações; predominantemente científicas e técnicas, como no que tange aos meios acadêmicos e universitários; e ainda predominantemente de espaço midiático. Em nossa pesquisa, a comunidade discursiva que investigamos são as cinco alunas do Projeto SESC Ler de Fortaleza.
A partir desses conceitos, abrem-se dois caminhos de investigação. Um que prima pela pesquisa de como se dá a imbricação entre o texto e seu processo de produção, e outro que analisa a organização social das comunidades discursivas, verificando as produções simbólicas de uma sociedade, e como os grupos envolvidos com o discurso interagem entre si, sendo que a prática discursiva integra esse modo de organização.
Mas, para sustentar a proposta de seu Primado, Maingueneau (2007) “afunila” o conceito de interdiscurso em três outros: universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo. O primeiro assemelha-se à noção de interdiscurso de Pêcheux (1988). Trata-se de um conjunto de formações discursivas de todos os tipos que se relacionam em uma determinada conjuntura. É um conjunto finito, e que não pode ser apreendido em sua totalidade. Por isso, não é de muita utilidade para o analista. O universo discursivo define uma
extensão máxima, “o horizonte a partir do qual serão construídos domínios susceptíveis de ser estudados, os „campos discursivos‟” (MAINGUENEAU, 2007, p. 35).
Os campos discursivos são um conjunto de formações discursivas que se encontram em concorrência, isto é, que se delimitam em uma região qualquer do universo discursivo, reciprocamente, por meio de diversas formas, como de aliança, de confronto aberto ou de aparente neutralidade. As formações discursivas pertencentes a um mesmo campo discursivo também se delimitam entre discursos que possuem a mesma função social. Existem vários campos discursivos, como político, filosófico, gramatical, dentre outros.
Tais campos não possuem delimitações evidentes. São uma abstração necessária que deve abrir espaço para variadas redes de trocas. Nesse espaço, que é o espaço discursivo, constitui-se um discurso, e essa constituição consiste em operações regulares sobre formações discursivas que já existem. Porém, isso não quer dizer que todos os discursos em um espaço discursivo de um determinado campo se constituam da mesma forma. Os espaços discursivos, então, funcionam como “subconjuntos de formações discursivas que o analista julga relevante para o seu propósito colocar em relação” (MAINGUENEAU, 2007, p. 37), ou seja, que considera necessários para realizar seu estudo.
De acordo com Maingueneau (1997), o que vale para a Análise do Discurso são as relações entre as formações discursivas. Daí o privilégio do Primado do Interdiscurso, pois toda formação discursiva é heterogênea a ela mesma, por ser um espaço instável atravessado por outros discursos. Assim, todo enunciado que pertence a uma formação discursiva encontra-se na intersecção de dois diferentes eixos: o da memória discursiva e o da linearidade do discurso. O objeto de estudo da AD, então, seria a interação entre as diversas formações discursivas no espaço em que suas identidades são construídas, o que pode ser percebido por meio de uma análise das relações de copresença, no caso de nossa pesquisa as de citação e de alusão, entre textos presentes nos espaços discursivos delimitados para tal.