Marshall Rosenberg (2003) explica que não é um hábito do ser humano observar fatos e/ou fenômenos da vida sem a eles acrescentar um julgamento, uma avaliação. E, ao misturar observações com julgamentos, já não conseguimos mais que o outro sequer nos ouça, pois o outro já estará se preparando para se defender. Ao invés de o receptor receber a mensagem, ele
a interpreta como crítica, e a partir desta recepção da crítica, da avaliação e do julgamento, nenhuma mensagem será recebida da forma adequada. A comunicação empática e respeitosa, feita a partir de uma escuta ativa e conectada com “a interação face a face”, a que se refere Erving Goffman, estará imediatamente inclinada ao fracasso.
Estamos no mundo constantemente em busca de interação, aceitação, inclusão e pertencimento. E aqui podemos trazer a contribuição de Maffesoli (2014) e suas tribos. A raiz da CNV, exatamente como a ideia das tribos de Maffesoli, é o afeto, o sentimento, a necessidade de ser ouvido, reconhecido e incluído. A empatia da CNV é a mesma dos grupos tribais, que se identificam no que lhes é comum para, com isso, pertencerem a algo e, assim, terem afeto, consideração e valorização de suas escolhas, ideias e propósitos. Por trás das duas propostas, há o fator comum do afeto, do sentimento que une (ou afasta) pessoas e faz com que possamos ou não estabelecer conexões empáticas.
O que faz com que o ser humano tenha necessidade de pertencimento e inclusão? Que fatores emocionais e/ou sociais envolvem o esgotamento do individualismo e das identidades fechadas em si mesmas fazendo surgir conexões de afetividade e interesses comuns?
A nova organização social da contemporaneidade, a qual Maffesoli (2014) chama de “tribos”, mostra-se como um resultado de transformações e necessidades da sociedade, fundadas no sentimento comum e na identificação cultural entre membros de um grupo. Estas mutações sociais, que demonstram a maleabilidade dos indivíduos, integram-se a cenas e situações variadas que trazem satisfação e sensação de pertencimento. O individualismo é substituído pela identificação, e as massas se dividem em tribos que sentem similaridade de sentimentos e propósitos. É o que o autor denomina de comunidades emocionais, que seriam motivadas por emoções coletivas que se movem por forças coletivas de massa que organizam grupos por meio do compartilhamento de interesses comuns.
A Comunicação Não Violenta também mostra a importância dos sentimentos e necessidades humanas, da empatia e da escuta ativa, o que aproxima as pessoas, fortalece as relações humanas, torna a comunicação eficaz e traz pacificação social.
Assim, é no afeto que as tribos de Maffesoli e a CNV se encontram, e é pelo afeto que os sentimentos de pertencimento e inclusão se formam, provocando emoções positivas dentro de cada indivíduo.
Na interação comunicacional existente entre os indivíduos de uma tribo, há um discurso coletivo que precede o individual. Passa-se a usar sempre o “nós” ao invés do “eu”, com uma socialidade motivada pelo compartilhamento de sentimentos individuais semelhantes e que, somados, manifestam-se no coletivo.
Na perspectiva de Maffesoli, os sujeitos se reúnem, interagem e se entrelaçam, com total “declínio do individualismo”, em função de só atuarem ou operarem de forma grupal. Há desterritorialização dos ambientes e colaboração nas trocas comunicacionais. As experiências só são válidas se forem compartilhadas, a identificação baseada no afeto e nos sentimentos prevalece, e o sujeito só se reconhece se faz parte de uma comunidade, daí nascendo a socialidade a que o autor se refere, não se tratando propriamente de uma nova cultura, mas sim de uma transformação social.
Stuart Hall também já dizia, nos estudos das identidades culturais, que a sociedade está sendo sempre “descentrada” ou deslocada por forças fora de si mesma. Assim, as sociedades não são unificadas, estáticas ou imóveis, elas se transformam e se modificam com o tempo.
Se a sociedade pós-moderna, dividida em tribos, busca seu acolhimento em alguma das inúmeras tribos que existem, é porque o sujeito quer ser aceito, quer receber e dar afeto. Como ser social, necessita desta aceitação e deste pertencimento, caso contrário, sente-se isolado, não pertencendo a nenhum lugar. Os indivíduos são seres complexos e que podem, se assim quiserem, pertencer a diversas tribos de uma só vez, havendo várias maneiras diferentes de constituição de suas identidades.
Para Zygmunt Bauman, o ser humano se depara com muitas inseguranças e incertezas no que o autor denomina de “modernidade líquida”, e, para contornar isso, todos se transformam o tempo todo, sempre, muitas vezes formando novas identidades culturais, sociais, religiosas, profissionais etc. Bauman fala da existência de duas espécies de comunidades: as de “vida e de destino”, em que os seres possuem ligação absoluta; e as formadas por união de ideias ou princípios comuns. Assim, podemos dizer que as tribos de Maffesoli são as sociedades de ideias e princípios comuns de Bauman, com afeto, pertencimento e inclusão agregados.
Com efeito, para Stuart Hall, “à medida que as sociedades modernas se tornavam mais complexas, elas adquiriam uma forma mais coletiva e social” (HALL, 1992, p. 29). Deste modo, com a complexidade de identidades, coletivização ou sociabilidade marcada pela identificação, necessidade de inclusão, temos hoje no mundo inúmeros grupos ou tribos, como falava Maffesoli, todos com o propósito de pertencimento, calcados no ponto que nos parece mais forte em toda esta reflexão: a ânsia por afeto, objeto de estudo da CNV.
Também na psicologia, ao descobrir o inconsciente, Freud afirmou que a identidade do sujeito não é algo que nasce ou se desenvolve de uma só vez ou em apenas um único momento, ao contrário, é algo que o sujeito constrói ao longo de toda a sua vida. E, como ser social, mutante e transformador, o próprio Maffesoli também já dizia que os seres mudam de grupos, ideias e valores ao longo da vida, podendo hoje pertencer a um grupo que amanhã não
pertencerão mais, por mudanças de afinidades e propósitos. De igual modo, pertencerão no futuro a grupos que no passado ou no presente jamais pertenceriam. O processo de transformação é constante, e não cessa nunca, sendo condição típica do ser humano a necessidade de sempre se transformar, e, ao mesmo tempo, sempre pertencer.
Nascemos e preenchemos nossa própria identidade com experiências individuais entrelaçadas com o mundo exterior, e o que de fato importa nesta construção é a identificação.
Cada um se identifica com algo ou alguém que tenha afinidade com um aspecto da sua própria vida. Após a nossa experiência individual e prática de conhecer, conviver e observar, nos tornamos aptos a fazer escolhas que mostram com o que nos identificamos e com o que não nos identificamos. Essa identificação pode ocorrer em relação a músicas, comidas, religião, posicionamentos políticos, vestuário, linguagem, valores pessoais etc. Uma pessoa que, com sua experiência pessoal, fez escolhas que a identificam com algo ou alguém, poderia não se identificar com algo ou alguém que sua própria família se identifica, pois o processo de construção da identidade é individual, pessoal e constante, e gera obrigações implícitas e/ou explícitas para a manutenção do pertencimento.
E a identificação baseada na necessidade de afeto, inclusão e pertencimento é exatamente um dos fatores que ligam as perspectivas de Maffesoli e Marshall Rosenberg. Enquanto Maffesoli, sociólogo francês, analisa na década de 1990 a questão do pertencimento do sujeito aos grupos, por meio das identificações e da necessidade de inclusão, Marshall Rosenberg, psicólogo e mediador americano analisava na década de 1960 a importância da observação dos sentimentos e necessidades próprios e dos outros para a boa comunicação e para a pacificação social. É o afeto, sempre o afeto! Ele é o eixo e a explicação do desejo e necessidade de pertencimento. Sejam nas tribos dos motociclistas da década de 1950, dos
hippies e skinheads da década de 1960, das patricinhas e mauricinhos do mundo da década de
1990, dos geeks ou nerds dos anos 2000, o fato é que sempre, em qualquer lugar do mundo ou parte da história, o que se quer é o afeto, a inclusão, o pertencimento e a identificação.
E o que os julgamentos, críticas e avaliações fazem com esta necessidade inerente de afeto e pertencimento? Como mencionado, além da mensagem emitida não ser recepcionada da forma adequada (pois, ao contrário, o receptor, ao invés de ouvi-la, já se prepara para respondê-la em tom de defesa e/ou contra-ataque), também o receptor passa a ter certeza de que o emissor entende ser o “correto”, o “certo”, e o receptor o “errado”, e, por isso, não o quer pertencendo “à sua tribo” dos “certos”, excluindo-o pelo seu pensamento, ponto de vista e/ou ideia diferenciados. O julgamento, portanto, causa ruídos na comunicação, dificulta a recepção da mensagem pelo receptor, não cria conexões nem interações, promove a sensação de “não
pertencimento”, exclusão e ausência de afeto. Mesmo que a intenção do emissor, ao julgar, não tenha sido esta, é assim que o receptor provavelmente a receberá. Quem de nós é julgado e/ou criticado por possuir uma ideia diferenciada e se sente acolhido e conectado com o emissor da mensagem?
E, neste instante, pode-se perguntar: mas não se pode discordar? Não se pode ter ideias diferentes umas das outras? Sim, é claro que sim, diz a CNV. Assim como o problema não é o conflito, mas a maneira como o resolvemos, aqui o problema não é a discordância, mas a forma como se discorda. Quando alguém discorda julgando-se superior, com a certeza de ser o “certo, o “correto”, e o outro, por possuir pensamento, ideia ou ponto de vista diferente, é “errado” e fatalmente “inferior”, aí haverá certamente um problema de não aplicação dos componentes da CNV e a comunicação não será pacífica. Ao contrário, será ruidosa, agressiva e não pacífica. Discordar sem julgar é plenamente possível para a CNV, que traz elementos de interação, conexão e empatia, além de promover que o emissor olhe para os próprios sentimentos e necessidades, mas também olhe para os sentimentos e necessidades do receptor, incluindo o ponto de vista do outro, ainda que não seja coincidente com o seu. Discordar não é o problema, mas sim julgar. Daí este ser o primeiro componente da CNV.
Para Marshall Rosenberg, o uso de advérbios como “sempre”, “nunca” ou palavras como “tudo” ou “nada”, por si só, são tomadas de julgamentos. E tratam-se de julgamentos perpétuos. Não há a chance sequer de alguém “estar” calado, já que o julgamento diz que esta pessoa “é” calada. Jamais alguém poderia “de vez em quando” sentir-se com preguiça. O julgamento perpétuo afirma que a pessoa “é” preguiçosa. E quanta diferença há no “ser” e no “estar”! O julgamento, além de desconectar (pela ausência de afeto, sensação de inclusão e pertencimento, como já mencionado) e causar ruídos na comunicação, ainda condena de forma eternizante alguém, não admitindo pontos de vista contrários e condenando as pessoas a serem “sempre” algo, ou a “nunca” fazerem nada certo.
É desafiador observar fatos do cotidiano ou mesmo das pessoas sem qualquer crítica, avaliação ou julgamento. Inconsciente e constantemente o sujeito faz isso, o tempo todo. Ao olhar uma simples parede em branco já se pensa se a parede é bonita, se o observador gosta da cor, se entende que está bem ou mal pintada, se gostaria de ter uma parede igual ou não etc. Não é tarefa fácil treinar a mente para observar sem avaliar. Mas é totalmente possível. Como Rosenberg afirmou:
A prática é essencial, porque a maioria de nós foi criada em algum lugar violento. Julgar e culpar se tornou natural para nós. Para praticar a CNV, precisamos prosseguir devagar, pensar cuidadosamente antes de falar, e muitas vezes apenas respirar fundo e não falar nada. Tanto aprender o processo quanto aplicá-lo leva tempo (ROSENBERG, 2007, p. 214).
A capacidade de se comunicar sem julgamentos ou classificações entre o “certo” e o “errado”, e sem a busca de que haja um “debate” e um “vencedor”, traz uma comunicação eficaz, assertiva, clara e pacificada, baseada em sentimentos e necessidades, o que remete exatamente aos itens a seguir.