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4. Discutindo ciência na exposição do centenário

4.6. O primeiro congresso brasileiro de farmácia

A realização deste congresso foi uma iniciativa da Associação Brasileira de Farmacêuticos com a União Farmacêutica de São Paulo, criadas em janeiro de 1916 e agosto de 1913, respectivamente. O Congresso teve também o apoio do Governo Federal.

A comissão organizadora que elaborou os estatutos para o evento era

formada por Júlio Eduardo da Silva Araújo82 (presidente), Isaak Werneck da

Silva Santos (Vice-presidente e representante da União Farmacêutica de São Paulo), Paulo Seabra (secretário), Álvaro Varges (tesoureiro), João Vicente de

Souza Martins (relator) e Rodolpho Albino Dias da Silva83.

De acordo com a comissão foram definidas os seguintes finalidades para o congresso: examinar a Legislação Farmacêutica; discutir o problema da Farmacopéia Brasileira; tratar da fundação da Faculdade de Farmácia; estudar trabalhos científicos sobre assuntos profissionais, promovendo a publicação nos anais do Congresso; reunir e publicar trabalhos brasileiros, de notoriedade, referentes à profissão farmacêutica. Caberia ainda à comissão marcar dia e local do Congresso, bem como designar delegados das capitais e das principais cidades dos Estados para que eles recebessem as inscrições e os trabalhos, memórias e propostas e depois encaminhassem as mesmas.

Quanto aos participantes ficou decidido que seria constituído de membros efetivos, beneméritos e honorários. Os primeiros seriam os farmacêuticos brasileiros ou estrangeiros cujos diplomas estivessem devidamente reconhecidos e os professores de cursos superiores que lecionassem disciplinas relacionadas ao curso de Farmácia, já os segundos

82

Era membro da Academia de Medicina do Rio de Janeiro e um dos donos do Laboratório Silva Araújo.

83

Ele foi o autor da primeira Farmacopéia brasileira que foi aprovada em 1926 e oficializada em 1929, quando saiu a primeira edição. A segunda edição da Farmacopeia Brasileira foi publicada em 1959 (Decreto Federal nº 45.502 de 27/02/1959), e a terceira edição saiu em 1976 (Decreto nº 78840 de 25/06/1976). Publicada em 1988 (Decreto 96.607 de 30/08/1988), a

quarta edição foi atualizada por vários fascículos até 2005.

(Fonte;http://www.anvisa.gov.br/hotsite/farmacopeia/saiba_mais_farmacopeiahtm.htm) acessado em 10/03/2010)

seriam os que prestassem relevante apoio material ao Congresso e os últimos seriam os cientistas de reconhecido valor (CONGRESSO BRASILEIRO DE FARMÁCIA,1923, p.353).

Os trabalhos (Anexo 2) ficariam divididos em doze seções de acordo com os seguintes temas:

I - Legislação; Regulamentação e História;

II - Farmacopéia;

III - Ensino; IV - Física;

V - Química;

VI - Deontologia e Incompatibilidade; VII - História Natural Farmacêutica; VIII - Higiene e Microbiologia; IX - Bromatologia e Toxicologia; X - Farmácia Química e Galênica; XI - Bio-Farmácia;

XII - Indústria Farmacêutica.

Cada seção deveria ter um presidente e dois secretários que ficariam responsáveis por classificar os trabalhos (Idem, 354).

No estatuto foram definidas as normas para apresentação dos trabalhos no certame tais como a duração, os pareceres e as discussões dos mesmos. Também ficou estabelecido que as sessões fossem realizadas na

Academia Nacional de Medicina. Como o congresso teria uma abrangência nacional, a comissão decidiu aproveitar a oportunidade para fazer um recenseamento farmacêutico. O censo visava conhecer os estabelecimentos farmacêuticos existentes no país buscando informações tais como: o nome do proprietário e da firma, o local do estabelecimento, a data de fundação, a sede, o tipo de indústria que explora e os sócios.

Participaram do congresso cerca de 170 pessoas, sendo que a listagem de participantes vai até o número 160, que inclusive é o número da inscrição do Dr. Rodolpho Albino Dias da Silva. Entretanto se olharmos atentamente para a lista podemos verificar que há um erro na listagem, pois a partir do número 89, cuja inscrição é a de “Jandyra Fernandes Lima”, a numeração volta para o número 81 que tem como inscrito “Jorge Vieira de Castro” e segue nessa ordem até o número 160.

A maioria dos participantes, cerca de 80%, era proveniente da Região Sudeste, sendo 51% só do Distrito Federal, 16% de São Paulo, 9% de Minas Gerais, 1,8% do Estado do Rio e 0,5 % do Espírito Santo (Quadro 15).

Estado Quantidade Porcentagem Distrito Federal 87 51% Minas Gerais 15 9% São Paulo 27 16% Mato Grosso 2 1% Bahia 4 2,4%

Rio Grande do Sul 5 3%

Ceará 3 1,8% Pernambuco 3 1,8% Estado do Rio 3 1,8% Piauí 7 4% Paraná 7 4% Espírito Santo 1 0,5% Alagoas 1 0,5% não identificados 5 3% Total 170 100%

Quadro 14 - Lista de participantes por Estados

Fonte: Tabela montada a partir das Atas do Congresso de Farmácia. P. 376 a 379.

Verifica-se na lista dos participantes do congresso a presença de nove congressistas do sexo feminino que corresponde a apenas 5% do total. Sendo oito do Distrito Federal e uma de Petrópolis. Outro detalhe que nos chamou a atenção foi o nome da congressista Graziella Barroso Pacheco, pois a mesma também participou e apresentou trabalho no Congresso de Química e foi uma das fundadoras da Academia Nacional de Farmácia anos depois em 1937.

No dia 12 de outubro de 1922 foi realizada a sessão solene de inauguração com a presença de Carlos Chagas. E durante os dez dias

seguintes os congressistas debateram questões relativas à regulamentação das farmácias, as atividades farmacêuticas, a farmácia homeopática, as matérias primas indígenas, etc.

Uma das decisões dos congressistas foi que deveria ser formada uma comissão que atuasse junto ao Governo no sentido de fiscalizar os estabelecimentos farmacêuticos e fazer cumprir a decisão de ter um farmacêutico diplomado ou cursando uma Faculdade oficial de Farmácia em cada estabelecimento farmacêutico. Também se recomendava que a

fabricação dos produtos opoterápicos84, soros, vacinas e congêneres deveria

ter como responsável um médico ou um farmacêutico, e os rótulos destes medicamentos deveriam ter o nome do profissional responsável. Ficou decidida a criação de uma revista científica para difundir os progressos das ciências físico-químicas naturais farmacológicas. Propunha-se também a separação do Curso de Farmácia da Faculdade de Medicina e a criação de uma Faculdade autônoma de Farmácia e Química.

A comissão organizadora também propiciou aos congressistas momentos de lazer através de visitas e excursões realizadas na cidade do Rio de Janeiro. A primeira dessas visitas aconteceu na manhã do dia 13 de outubro no Jardim Botânico, onde os congressistas foram recebidos pelo professor e diretor da Instituição, Antonio Pacheco Leão. Durante o passeio foi possível observar as espécies da flora brasileira e mundial. Os participantes também

tiveram a oportunidade de conhecer o Instituto de Química85 no próprio local.

84

Refere-se a medicamentos produzidos a partir de glândulas, outros órgãos, tecidos e secreções animais.

85

Esse Instituto foi criado em janeiro de 1918 a partir da atuação do Dr. Mario Saraiva que transformou um pequeno posto de análise laboratorial do Laboratório de Fiscalização da Defesas Manteiga no Instituto. Destinava-se a realização de pesquisas de que interessassem

No domingo dia 15 de outubro foi realizada uma excursão campestre destinada aos congressistas e seus familiares a represa do Rio D’Ouro na Baixada Fluminense (Figura 29).

Figura 29 - Congressistas e familiares na represa do Rio D´Ouro.

O Instituto Oswaldo Cruz foi visitado pelos congressistas no dia 16 e três dias depois foi a vez do Museu Nacional. No entanto, esta última visita agendada ficou prejudicada devido à ausência de funcionários superiores para autorizar o acesso às coleções do Museu. Além disso, os congressistas não puderam assinar o livro de registros, visto que o mesmo estava na Secretaria,

à agricultura, à indústria e à pecuária; b) produção de análises e estudos químicos para fins comerciais, particulares e dos Governos Estaduais e Municipais; c) ensino da química para a formação de técnicos; d) estudo das forragens sob o ponto de vista científico; e) fiscalização da

manteiga, fiscalização de adubos, inseticidas e fungicidas

que se encontrava fechada (CONGRESSO BRASILEIRO DE FARMÁCIA, 1922, p. 476).

O Laboratório Silva Araújo e o Laboratório de Química Analítica da Faculdade de Medicina também foram visitados. O primeiro, na manhã do dia 20 de outubro, quando os congressistas tiveram acesso aos laboratórios localizados à Rua Primeiro de Março e na estação do Rocha, subúrbio carioca. Tiveram oportunidade de observar também o cultivo de plantas medicinais no horto botânico pertencente ao Laboratório. Já a visita ao Laboratório da Faculdade de Medicina foi o resultado do convite feito pelo professor Alfredo de Andrade.

Depois das visitas foi oferecido um chá pela firma “Silva Araújo & C.” no Restaurante Falcone localizado no local da Exposição do Centenário. A última visita foi realizada no dia 22 de outubro após a sessão de encerramento (Figura 30), quando se dirigiram ao Museu do Professor Adolpho Diniz Gonçalves, instalado na residência do próprio.

Figura 30 - Fotografia da sessão de encerramento do congresso de Farmácia (Carlos Chagas ao centro). Fonte: Congresso Brasileiro de Farmácia