1. A investigação/intervenção no ToT: meta, caminho e motor de uma equipa
1.1 O primeiro workshop de aprendizagem pela conversa
O primeiro contacto com a equipa responsável pelo ToT ocorreu no Seminário da Rede UNIQUE “Diálogo em Aprendizagem Não-formal: encontros entre a prática e a investigação”, mais concretamente através da participação de dois dos seus elementos no workshop de aprendizagem pela conversa.
O objetivo inicial deste workshop era criar um espaço de reflexão e (re)formulação de sentidos atribuídos pelos participantes à prática educativa não- formal e à investigação que informa essa prática. A proposta inicial previa um processo de aprendizagem experiencial e narrativo em que se privilegiava o objetivo de aprender o próprio processo, mas também o objetivo de problematizar a investigação
no âmbito da prática educativa. Da proposta inicial do workshop até à sua realização, decorreram três dias de participação no Seminário, o que permitiu ir acompanhando o grupo à medida que, dinamicamente, em função das experiências, reflexões e discussões proporcionadas pelos demais workshops, ia levantando novas questões, reformulando conceitos e assumindo posicionamentos relativamente ao lugar da investigação nos processos de educação não-formal. Esta experiência de participação com o grupo no Seminário foi fundamental para recolher e analisar elementos que permitiram identificar algumas questões pertinentes para o grupo na sua trajetória de integração da investigação na educação não-formal.
No momento de introdução deste workshop no Seminário, estava fortemente presente uma tendência para a definição, por parte de cada participante, do seu papel no campo da educação não-formal como educador ou como investigador. As representações partilhadas acerca da investigação associavam-na fortemente ao paradigma positivista, concluindo-se pela sua incompatibilidade com os princípios e práticas da educação não-formal. Não obstante, assumia-se que todas as ações educativas concebidas e implementadas pelos participantes no Seminário envolviam, e deviam envolver, procedimentos de avaliação com recurso a métodos e técnicas de recolha e análise de informação.
Para potencializar a utilidade e pertinência do workshop de aprendizagem pela conversa para o grupo, afinou-se o seu objetivo para a problematização dos sentidos e processos da avaliação que os participantes integravam no seu papel de educadores não-formais, de modo a possibilitar a cada participante o reconhecimento da dimensão investigativa integrada no seu perfil. Partiu-se de uma definição de avaliação enquanto processo sistemático e planificado de investigação social aplicada, orientado para a identificação, obtenção e produção de informação suficiente e adequada para informar os processos de decisão (Aguilar & Ander-Egg, 1992: 18), e utilizaram-se textos-desafio capazes de desocultar as tensões inscritas nas crenças, atitudes, reflexões e práticas partilhadas pelos participantes e relação à avaliação, à investigação e à educação não-formal, procurando ir ao encontro do que, ao longo do Seminário, se tinha revelado como problema ou questão significativa para o grupo.
Propôs-se um ciclo de 5 conversas sequenciais que, de forma resumida e esquemática, decorreram do modo com se descreve em seguida:
1ª Conversa: inventário (30 min) – grande grupo
Apresentação do workshop: estrutura, regras e objetivos 2ª Conversa: reflexão (45 min) – 4 grupos de 5
Exploração dos procedimentos e fundamentos da avaliação a partir da experiência de cada um e de textos-desafio.
Foram fornecidas algumas questões organizadoras da partilha das experiências: - qual(is) é/são o(s) meu(s) papel(is) no campo da educação não-formal?
- envolve(m) procedimentos de avaliação? Porquê? Para quê? - o que avalio? Porquê?
- como avalio? Porquê?
Registou-se o percurso das conversas em relação a temas e questões emergentes, destacando as conclusões do grupo (existindo), bem como os aspetos em torno dos quais não se chegou a um entendimento consensual, apresentando as diferentes visões partilhadas no grupo.
3ª e 4ª Conversas: grupo de discussão – 2 grupos de 10
Organização de dois grupos de discussão, recorrendo a técnica do aquário. Cada grupo integrou metade dos participantes, cuidando-se que em cada um deles estavam elementos de todos os grupos da 2ª Conversa. Cada grupo observou a conversa do outro grupo, e ambas as conversas foram gravadas. 3ª Conversa: problematização da relação entre avaliação e investigação a partir da 2ª Conversa, em torno das seguintes questões organizadoras de uma sistematização:
- é claro para mim que a avaliação é uma forma de investigação?
- quando avalio tenho essa consciência e procuro adotar atitudes e práticas congruentes com esse posicionamento? Exemplos (a partir dos conteúdos trabalhados em workshops anteriores):
- formulo perguntas de partida?
- defino o que é informação relevante?
- planifico formas de recolha sistemática da informação relevante? - analiso a informação em função de um quadro previamente definido?
4ª Conversa: formulação de perspetivas integradas para educação não-formal, investigação e avaliação, a partir de todas as conversas anteriores. O grupo partiu da sistematização feita pelos participantes na 3ª Conversa e focou-se na discussão em torno de formas de dotar os seus procedimentos de avaliação de uma intenção investigativa consequente e sistemática.
No final, as principais conclusões - consensos e dissensos – produzidas nos grupos de discussão, e percebidas pela moderadora, foram devolvidos aos participantes.
Conversa Final (30 min) – em grande grupo
Apresentação do esquema da aprendizagem pela conversa em relação com o processo vivenciado no workshop.
Partilha das evidências da filiação da aprendizagem pela conversa nos princípios orientadores da educação não-formal assumidos pelos participantes. Os participantes concluíram que o workshop de aprendizagem pela conversa lhes proporcionou a aprendizagem experiencial da metodologia, e que vivenciaram um processo de educação não-formal.
Exploração das possibilidades de recurso à aprendizagem pela conversa como modo de investigação integrada em processos de educação não-formal, nomeadamente quando acompanhada de registos escritos ou áudio das conversas tal como se propôs.
Tendo em conta que no calendário de trabalho previsto para os momentos seguintes do Seminário se previa um tempo reservado à formulação de projetos de investigação pelos participantes, pode dar-se continuidade ao processo de exploração das potencialidades da metodologia para a integração sistemática, congruente e válida da componente de investigação no seio de processos educativos não-formais. Na medida do interesse de cada participante, seguiu-se uma etapa de apoio ao desenho de propostas concretas de integração da aprendizagem pela conversa como modo de investigação nos processos de educação não-formal que promoviam nas suas organizações de origem. O processo iniciado então com dois dos elementos da equipa responsável pelo ToT acabaria por dar origem ao projeto “ToT integrated action- research”.
De referir que, à data em que se realizou este workshop – novembro de 2011 - a possibilidade de vir a desenvolver um processo continuado de investigação-ação – no ToT ou em qualquer outro dos contextos de trabalho em que os participantes no Seminário desenvolviam a sua ação educativa – não estava prevista ou intencionada. Por este motivo, os registos das conversas privilegiaram apenas a devolução imediata ao grupo de um conjunto de aspetos relevantes para que este pudesse continuar, de forma autónoma, a equacionar a integração da investigação no seu perfil em educação não-formal, não se tendo realizado registos capazes de dar destaque às representações, conceções e questionamentos particulares dos dois elementos da equipa do ToT presentes no workshop.