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O Princípio Constitucional da Sustentabilidade

A DIMENSÃO SOCIAL DO ESTADO DE DIREITO AMBIENTAL

3 A Construção do Estado de Direito Ambiental Inicialmente, convém destacar que a visão de Estado de

3.1 O Princípio Constitucional da Sustentabilidade

Por meio de uma análise sistêmica do vigente Estatuto Jurídico Fundamental pátrio, extrai-se o fundamento maior do Estado de Direito Ambiental: o princípio constitucional da

4 Texto no original: “El punto decisivo para la distinción entre reglas y principios es que

los principios son normas que ordenan que algo sea realizado en la mayor medida posible, dentro de las posibilidades jurídicas y reales existentes. Por la tanto, los principios son mandatos de optimización, que se caracterizan porque pueden ser cumplidos en diferente grado y que la medida debida de su cumplimiento no sólo depende de las posibilidades reales sino también de las jurídicas. El ámbito de las posibilidades jurídicas es determinado por los principios y reglas opuestos. En cambio, las reglas son normas que sólo pueden ser cumplidas o no. Si una regla es válida, entonces debe hacerse exactamente lo que ella exige, ni más ni menos. Por lo tanto, las reglas contienen determinaciones en el ámbito de lo fáctica y jurídicamente posible. Esto significa que la diferencia entre reglas y principios es cualitativa y no de grado. Toda norma es o bien una regla o un principio”.

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sustentabilidade. Trata-se de um comando normativo reitor, que faz com que questões sociais, econômicas e ecológicas ocupem espaço central nas agendas político-jurídicas.

O princípio constitucional da sustentabilidade consiste num mecanismo que auxilia na fixação dos parâmetros jurídicos para fins de um desenvolvimento sustentável. Não é por menos que Canotilho (2010, p. 9) assevera que a sustentabilidade “[...] perfila-se como um ‘conceito federador’ que, progressivamente, vem definindo as condições e pressupostos jurídicos do contexto da evolução sustentável”.

Trabalhando-se com um conteúdo lato sensu de sustentabilidade, verifica-se que podem ser constatadas três feições: ecológica, social e econômica. A perspectiva ecológica implica essencialmente na consideração do potencial de recomposição dos ecossistemas e na premente necessidade de conservação dos recursos naturais não renováveis, segundo uma perspectiva intergeracional. Canotilho (2010, p. 9) pontua que o princípio da sustentabilidade ecológica impõe cinco medidas imperiosas:

(1) que a taxa de consumo de recursos renováveis não pode ser maior que a sua taxa de regeneração; (2) que os recursos não renováveis devem ser utilizados em termos de poupança ecologicamente racional, de forma que as futuras gerações possam também, futuramente, dispor destes (princípio da eficiência, princípio da substituição tecnológica, etc.); (3) que os volumes de poluição não possam ultrapassar quantitativa e qualitativamente a capacidade de regeneração dos meios físicos e ambientais; (4) que a medida temporal das “agressões” humanas esteja numa relação equilibrada com o processo de renovação temporal; (5) que as ingerências “nucleares” na natureza devem primeiro evitar-se e, a título subsidiário, compensar -se e restituir-se.

Por sua vez, a sustentabilidade social implica numa melhoria das condições de vida, numa progressiva redução das

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desigualdades sociais. Utilizando-se aqui da construção teórica realizada por Sachs (1993, p. 25), a sustentabilidade social importa num “[...] desenvolvimento em sua multidimensionalidade, abrangendo todo o espectro de necessidades materiais e não materiais”. Deve-se ter em mente que o objetivo principal da sustentabilidade social é assegurar um estado duradouro de bem-estar.

Por fim, a sustentabilidade econômica implica numa “[...] alocação e gestão mais eficiente dos recursos e por um fluxo regular do investimento público e privado.” (SACHS, 1993, p. 26). Deve-se partir de uma abordagem macrossocial.

Passando para uma abordagem da lei maior pátria de 1988, verifica-se que esse princípio multiforme da sustentabilidade encontra guarida na dicção normativa do artigo 225, caput, o qual dispõe ser o meio ambiente equilibrado um direito de todos, e cuja responsabilidade pela preservação desse bem de uso comum do povo incumbe ao Estado, bem como a todos os indivíduos.

O presente comando normativo constitucional se revela um direito fundamental de terceira geração. A respeito dessa temática geracional dos direitos fundamentais Bobbio (1992, p. 6) explica que “[...] ao lado dos direitos sociais, que foram chamados de direitos de segunda geração, emergiram hoje os chamados direitos de terceira geração [...]”, sendo que “[...] o mais importante deles é o reivindicado pelos movimentos ecológicos: o direito de viver num ambiente não poluído.” (BOBBIO, 1992, p. 6)

Continuando a abordagem holística do texto constitucional pátrio de 1988, visualiza-se que o artigo 170, caput, que estabelece expressamente que a ordem econômica deve se apresentar como um instrumental de justiça social,

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orientada a garantir existência digna dos indivíduos e dá maior substância ao princípio constitucional da sustentabilidade. A norma em comento é interpretada por Silva (2011, p. 789) como um “elemento sócio-ideológico”.

Dessa norma extrai-se que a atividade econômica para além de possuir um papel fomentador da justiça social, encontra- se circunscrita por diversas balizas principiológicas que se poderia denominar de ecossocializantes, como a função social da propriedade (artigo 170, inciso I), a defesa do consumidor (artigo 170, inciso V), a defesa do meio ambiente (artigo 170, inciso VI), a redução de desigualdades regionais e locais (artigo 170, inciso VII).

Ademais, deve-se ter em mente que o poder constituinte originário ao elencar os objetivos da lei maior contemporânea, em seu artigo 3º, estabeleceu, em primeiro plano, a neces- sidade de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Esse mandamento constitucional traz grande repercussão para o princípio da sustentabilidade, em suas três feições, conforme pode se notar a seguir.

Para que se possa falar em sociedade livre, justa e solidária é imprescindível assegurar um ambiente onde inexistam iniquidades de ordem ecossocioeconômicas, inclusive, numa perspectiva intergeracional. Ademais, o citado dispositivo continua fiel a essa concepção inaugural até seus derradeiros incisos, uma vez que enfatiza os compromissos de erradicação da pobreza e da marginalização e a redução de desigualdades sociais (inciso II), além da promoção de toda a sociedade, coibindo qualquer tipo de tratamento desrespeitoso, prejudicial a qualquer pessoa (inciso IV).

Por fim, verifica-se que todos esses comandos normativos possuem um mesmo ponto de convergência: a dignidade da

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pessoa humana. Um valor supremo consagrado no Estatuto Jurídico Fundamental, sob a forma de fundamento maior.

Pois bem, a partir desse contexto jurídico- constitucional, é que ganha corpo o Princípio Constitucional da Sustentabilidade, o qual deve ser encarado como um “princípio estruturante” (CANOTILHO, 2010, p. 8) deste Estado de Direito Ambiental.

Apenas para fins de registro, convém destacar que os princípios estruturantes “[...] ganham densidade e transparência através das suas concretizações (em princípios gerais, princípios especiais ou regras), e estas formam com os primeiros uma unidade material (unidade Constituição).” (CANOTILHO, 2000, p. 1.139)

O Princípio Constitucional da Sustentabilidade representa, portanto, a necessidade de serem tomadas medidas ecossocioeconômicas adequadas pelos indivíduos e pelo ente Estatal, sendo que sua implementação se dará sempre por meio da observância, da concretização de demais regras constitucionais. Há que se ressaltar que embora os indivíduos estejam vinculados ao integral respeito desse princípio, cabe ao Estado desempenhar o principal papel: garantir a máxima observância deste princípio.

4 A Dimensão Social do Estado de Direito